segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Abuso espiritual e pesquisa jornalística

A jornalista Marília de Camargo César pôs o dedo na chaga: o abuso espiritual praticado em certas igrejas evangélicas brasileiras é mais frequente do que se pensa e mais pernicioso do que podemos imaginar. E não é problema exclusivo, interno, dessas comunidades, mas um problema social.

O texto é jornalístico e ensaístico. A autora apura os fatos, entrevista os especialistas e as vítimas, consulta bibliografia pertinente, e acrescenta suas considerações críticas, posicionando-se como cristã praticante e convicta.

O abuso espiritual violenta as almas, as consciências, as liberdades. É um estupro que não deixa marcas físicas, ou sim, pelas doenças que provoca – um câncer, por exemplo. Esse estupro quase invisível não raramente se dá em virtude de uma estranha conivência entre fiéis e pastores, entre torturados e torturadores. Os pastores, por sua vez, também são vítimas. A vontade obsessiva de controlar a vida alheia, de interferir nas decisões do outro, sob a aparência do amor e da abnegação, constitui a doença do pastor, cuja megalomania é alimentada pela certeza de que Deus lhe delegou fantásticos poderes.

Abusadores do espírito são comunicadores insaciáveis. Aparecem na televisão, reúnem multidões, capricham na retórica, empolgam ovelhas desgarradas, fazem o milagre da multiplicação do dinheiro e até conseguem exorcizar demônios (alcoolismo, dependência química, desemprego crônico…) para se colocarem eles próprios como centro de interesse na vida dos seus redimidos, dos seus prosélitos.

As vítimas são também cidadãos comuns

Pastores midiáticos, ou os que estão em início de carreira, tomam posse justamente de pessoas dispostas a trabalhar por um mundo melhor, que acreditam num líder capaz de orientá-las no caminho do bem. E o mundo pior do fundamentalismo atropelou essas pessoas.

A entrevista que a revista Época publicou sobre este livro, ‘Há abusos em nome de Deus‘ (26/06), termina com a palavra ‘cuidado’. De fato, é preciso tomar cuidado com os lobos e raposas que se aproveitam da religiosidade alheia e da fragilidade emocional alheia. O alerta serve igualmente para os católicos (basta ver denúncias semelhantes com relação ao Opus Dei, como na resenha ‘Por dentro da `Obra´‘, publicada neste Observatório).

Não se trata, portanto, de fenômeno isolado. Há abuso espiritual nas igrejas, nas diferentes denominações cristãs, nas seitas… E as vítimas não são apenas fiéis. São também cidadãos, gente como a gente.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br