segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Lugar de novos autores é nos guetos

As listas de livros mais vendidos no Brasil divulgadas nos jornais dão a falsa aparência de que não se faz literatura no nosso país. É uma coleção de livros importados de qualidade duvidosa, com raríssimas exceções. E isso apenas no que se refere à ficção, visto que existem dois outros tipos de listas – não-ficção e auto-ajuda – que também padecem do mesmo mal.

O argumento que diz ser a demanda dos leitores a causa dessa situação é incorreto. Existe um mecanismo perverso, entre grandes editoras e imprensa, que dita o consumo, ou, como preferem os defensores do sistema – hegemônico – do capital, o mercado. Grupos que controlam veículos de mídia também têm editoras, além do que existe uma troca de interesses e de favores entre imprensa e editoras para divulgar publicações e publicar ‘autores midiáticos’, tudo visando ao objetivo final da lógica do mercado: o lucro. E na lógica desse sistema, a literatura brasileira contemporânea (que existe!) não seria lucrativa. Lançar novos escritores nacionais, então, seria um descalabro, prejuízo certo.

Contudo, se existe uma literatura brasileira contemporânea, por onde ela anda? Em mega-livrarias das metrópoles? E onde ela é apresentada? Nos cadernos ditos literários dos jornais? Não. Em guetos? Talvez.

Mapear a realidade

Um gueto parece vir, nos nossos dias, para abalar a estrutura tradicional do mercado editorial: a internet. É verdade que há muito entulho na rede binária, mas há também qualidade. Revistas literárias, jornais de poesia, blogs. São tantas as iniciativas na contracorrente. Algumas editoras pequenas já olham com atenção o que se faz na internet, dispostas a encontrar e publicar novos talentos.

Leitores também embarcam nessa contracorrente, insatisfeitos com o que é apresentado como literatura pelas grandes editoras e pelos veículos de imprensa, e buscam na rede alternativas.

As grandes editoras estão prestes a sofrer danos consideráveis, semelhantes aos sofridos pelas gravadoras anos atrás, se continuarem com a visão limitada e deformada pelas regras econômicas de mercado do sistema vigente. E a imprensa perderá a oportunidade de ter o papel próprio a ela de mapear a realidade nascente da nossa literatura neste começo de século, sem contar a credibilidade sob risco com os leitores.

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Estudante de Jornalismo da Facha, Rio de Janeiro, RJ