segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Na trilha do genoma

[do material de divulgação da editora]

Nenhum outro assunto obteve tanta projeção nos meios de comunicação, sejam eles leigos ou especializados, nos últimos anos como o Projeto Genoma Humano (PGH). É esse projeto de pesquisa biológica que se encontra no centro de gravidade deste livro, que busca analisar o motivo e a forma pela qual as tecnologias da vida desencadearam tanta comoção.

A tese central do autor é que tal comoção só se explica pela mobilização retórica e política, nas interfaces com a esfera pública leiga, de um determinismo genético crescentemente irreconciliável com os resultados empíricos obtidos no curso da própria pesquisa genômica.

O autor analisa os textos produzidos pelos biólogos moleculares e seus críticos, tanto aqueles voltados para o público mais especializado e publicados em periódicos que têm no entanto ligação clara com a esfera pública leiga (como as revistas Nature e Science) quanto artigos, entrevistas, ensaios e livros dirigidos por eles diretamente ao público, no que se convencionou chamar de divulgação científica. a fim de acompanhar as variações nos graus e nas formulações de determinismo genético entre autores e gêneros de publicação, assim como ao longo do tempo, para extrair conclusões, relevantes para o pensamento social e para a sociologia da ciência, das transformações em seus usos retóricos.

Um conceito em crise

Originário de tese de doutorado defendida na Unicamp, este livro busca romper as rígidas barreiras que a sociedade ocidental insiste em colocar entre a biologia e sociedade, como se a natureza e a cultura fossem mundos absolutamente separados.

Questiona ainda a dicotomia tradicional entre uma visão otimista (prometéica) e pessimista (faústica) da técnica e da ciência, apresentando a idéia de que não se pode pensar o mundo contemporâneo sem incluir nele as ciências naturais. Para desenvolver o tema, o autor analisou textos, entre 2000 e 2003, sobre o Programa Genoma Humano (PGH), publicados em revistas como Nature e Science e artigos, entrevistas, ensaios e livros de divulgação científica, produzidos por biólogos moleculares e seus críticos.

Inicialmente, Marcelo Leite analisa esses discursos para, depois, realizar uma apreciação mais técnica, do ponto de vista da teoria biológica, da filosofia e da biologia, do questionamento do determinismo genético unidimensional e unidirecional de que o gene é uma mensagem em código-DNA que determina uma proteína, função ou característica fenotípica.

O autor mostra como esse conceito entrou em crise quando se soube que os genes não determinam sozinhos as características herdadas, não são os únicos recursos desenvolvimentais transmitidos entre gerações e não constituem a única partícula sobre a qual age a seleção natural.

Fatores determinantes

Ao analisar textos ligados ao Programa Genoma Humano (PGH), Marcelo Leite discute se a chamada Era da Biotecnologia ou Era do Genoma merece mesmo a centralidade que lhe é conferida pela mídia. Aponta que a complexidade empiricamente constatada da arquitetura do genoma e de suas interações com a célula, o organismo e o meio circundante desautorizam a manutenção da causalidade simples e unidirecional que entendia o gene como único portador de informação, princípio que dá suporte a raciocínios baseados na ação gênica, no determinismo genético e no genocentrismo.

Para Leite, se, por um lado, a informática é mais importante no mundo da produção, as biotecnologias, principalmente em confluência com a própria informática e a nanotecnologia, podem se tornar determinantes para o dinamismo da economia pelo poder de afetar os sujeitos não só como produtores de cultura, mas também na sua própria existência material.

Sobre o Autor

Marcelo Leite, doutor em Ciências Sociais, é jornalista free-lancer e colunista do jornal Folha de S.Paulo. É autor dos livros Os alimentos transgênicos (2000), A floresta amazônica (2001) e O DNA (2003), todos pela Publifolha. Pela Editora Ática, publicou os livros paradidáticos Amazônia, Terra com Futuro (2005), Meio Ambiente e Sociedade (2005) e Pantanal, O Mosaico das Águas (2006).