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Alberto Dines
Réquiem Para Requião
A CPI foi criada a 26 de novembro de 96. Até 6 de março de
97, portanto durante 14 semanas, o relator Requião, no grito e na
marra, pintou e bordou, fez o que queria com os poderes especiais de que
dispõe. Ante a passividade de uma imprensa anestesiada pela modorra
de verão. Em apenas 1 mês de reaquecimento das consciências
jornalísticas, mudou tudo. A CPI continua colhendo informações
para instruir a Justiça mas deixa de ser o camarim exclusivo das
bolorentas vedetes.
A escola de jornalismo (ou de samba ?) "Isto é Uma Vergonha!"
que viveu durante semanas de olho na TV Senado agora terá que optar
por outro gênero de cobertura. Jornalistas não são
vivandeiras de escândalos.
Placar da CPI
A Folha continua a passar à sua legião de admiradores
a impressão de esbaforida. Reagiu caprichosamente ao caso dos precatórios
porque foi levantado pelo rival, em represália ressuscitou o velho
refrão anti-Collor e durante semanas, vestida de Sherlock, insistiu
na tecla de que PC era da Cosa Nostra.
Na ausência do seu colunista-conselheiro-repórter-ombudsman-mor,
Clovis Rossi, o Folhão parou de patrulhar o bravo Luís
Nassif e jogou-o em campo. A emenda saiu pior do que soneto (ver Jornalismo
de rodapé) e não por culpa de um dos mais competentes
jornalistas da praça mas porque estas coisas não se improvisam,
o bom jornalismo resulta de um sistema onde se combinam criatividade com
regularidade.
O Estadão parece que cansou, atrapalhou-se nas quizilas familiares-
interdepartamentais e passou a bola, ninguém é de ferro.
E agora pasmem: o Rio-Maravilha que só sabe sacar do Betinho, das
musas de verão e dos eventos de praia, lembrou-se que já
teve a melhor imprensa do país. Os dois concorrentes, sem recorrer
às polarizações artificiosas de marketing, deram uma
guinada e começaram a dar o tom da cobertura sobre a CPI. Brasília
é uma cidade do Centro-Oeste, ou se quiserem do faroeste. São
Paulo, chique e paroquial, é a capital do Centro-Sul. Precisa-se
de uma imprensa nacional. Candidatos devem dirigir-se ao Rio munidos de
experiência e ânimo.
Nem tudo está perdido. Aleluia.
Paulo Francis, 60 dias depois
Enchia duas páginas de jornal por semana, entrevistava e comentava
na TV Globo e ainda fazia o show-semanal no Manhattan Connection da
Globo News. Deixou um romance em inglês, inacabado, peças
de teatro rabiscadas e um espaço reservado na cultura brasileira
que não teve tempo de ocupar.
Obra falada em restaurantes e bares não enche estante. Obra esparsa
em colunas apressadas e impensadas fica em microfilme. O sistema inventou
que Francis não podia parar e não tinha rival. Francis acreditou,
se esfalfou e se matou.
Agora, os jornais que o republicavam estão ai, nenhum fechou. Uma
avaliação junto aos seus setores de circulação
e marketing e junto aos departamentos de mídia das agências
de propaganda feita por este OBSERVATÓRIO revela que, até
agora, não se perdeu um único assinante.
Francis morreu à toa.
O único problema detectado foi nas redações: os editores
e secretários estão suando a camisa para tapar o buraco daquelas
duas páginas semanais. Acomodaram-se com o sistema de loteamento
e, agora, procuram desesperados substitutos e doublés.
Se arrependimento matasse, Francis estaria vivinho da silva, para alegria
da família e amigos, suando menos e escrevendo os livros ou peças
que tinha obrigação de legar.
Feriados e Custo Brasil
Antigamente, quando éramos felizes e não sabíamos,
os jornais tinham um editorial pronto para aquelas situações
armadas pelas efemérides e calendários: os feriadões,
os fins de semana prolongados, as celebres "pontes".
Hoje, ao contrário, jornalista exulta com o encolhimento da já
encolhida semana jornalística: como o leitor não nota, pode-se
fechar hoje a matéria que vai sair dentro de cinco dias.
E, no entanto, estes mesmos jornalistas esbravejam contra o Custo Brasil,
arengam que com estas condições brasileiras não podemos
concorrer com os produtos estrangeiros, etc. e tal. Acontece, rapazes,
que esta sucessão de folgas e santificações da preguiça
é um dos itens agravantes do custo Brasil. Uma série de matérias
sobre feriados num dos jornalões mesmo que não consiga valorizar
a Ética do Trabalho resultaria num aumento de produtividade.
Raras são as empresas jornalísticas que pagam horas extras,
e, quando pagam, raros são os jornalistas que se recusam a escrever
aquelas matérias requentadas, falsamente atualizadas. Não
se fazem dois carros com a mesma quantidade de matéria-prima e de
horas trabalhadas.
Numa redação dá-se sempre um jeito, quebra-se o galho.
Este é o nome do problema: jornalismo quebra-galho
Ombudsman: promoções e patrulhamento
Foi em 1808, na antiga Escandinávia, que se gerou a instituição
do ombudsman, representante do povo, ouvidor ou provedor. A Folha foi
o primeiro jornal brasileiro a instituir a função, anos depois
de ter acabado com outra, semelhante, a do media watcher, observador
da imprensa. A Folha foi também o primeiro jornal do mundo
a converter um ombudsman num promoter das suas atrações,
porta-voz do marketing (30/3) mostrando as excelsas virtudes jornalísticas
do seu novo guia de eventos dos fins-de-semana.
Também não fica bem, depois de receber nosso peteleco de
que só puxa as orelhas da arraia-miúda, o lumpen-reportariat,
dar um tranco justo no Luís Nassif (que não segue a linha
justa), só porque chamou Esperidião Amin, Vilson Kleinubing
e Roberto Requião de "cadáveres políticos"
(23/3). Coragem de ombudsman seria lembrar ao magnífico Carlos Heitor
Cony que está perdendo o respeito do leitor ao designar o presidente
da República de Pierre Laval (=traidor) e, agora, de Hitler (=canalha).
Quando Cony chamar FHC de FDP então o ombudsman do Folhão
talvez tome alguma providência.
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