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A CPI condena, a imprensa sentencia
Maria Cristina Fernandes
O poder público oferece razões de sobra para se acreditar que, assim como esta Comissão Parlamentar de Inquérito que hoje investiga a emissão de títulos públicos no Senado não é a primeira a ser levada ao conhecimento da opinião pública, tampouco será a última CPI a merecer uma extensiva cobertura da imprensa.
Os jornalistas, porém, continuamos, de uma só vez, a nos guiar pelo amadorismo de principiantes e pelo viés de juízes do Apocalipse. Aplauda-se a participação da imprensa na cobertura de uma CPI que contribuiu para a destituição de Fernando Collor de Mello e reconheça-se o esforço de reportagem que tem levado os jornalistas a se adiantarem, na revelação de fatos, ao próprio trabalho dessas comissões.
Essa experiência, porém, não foi suficiente para forjar o necessário distanciamento crítico em relação aos senadores que conduzem a CPI. Infringindo o mandamento básico do ceticismo, acolhemos as versões de senadores inebriados pela condição de xerifes da moralidade pública com a notoriedade oferecida pela TV Senado.
No afã do furo acolhemos como "exclusivos" documentos que são passados concomitantemente a quatro jornais (bilhete trocado entre os sócios do banco Vetor publicado pelos jornais em 25/03); oferecemos um quarto de página para o senador Romeu Tuma, cercado de holofotes, abrir um cofre vazio.
A delegacia de polícia armada na sala das comissões funcionou incólume durante semanas até que os jornais se dessem conta de questionar o procedimento dos senadores. A Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo e O Globo, nesta ordem, foram aos poucos mostrando que a truculência dos senadores na inquirição dos seus depoentes, fere os direitos individuais garantidos pela própria Constituição que os parlamentares a defender.
Invocar uma testemunha como "madre Teresa de Calcutá dos banqueiros" (Roberto Requião), "receptador" (Espiridião Amin), armador de "maracutaias" (Vilson Kleinubing), "lavador de dinheiro de origem criminosa" (Romeu Tuma) e "mentiroso" (Pedro Simon) pode render cartas de elogios dos telespectadores da TV Senado, elogios de assessores e risos de encorajamento dos repórteres que cobrem os depoimentos no Senado, mas não é condizente com os poderes judiciais de que a CPI está investida e em nada colabora com uma investigação conseqüente.
Muitas manchetes de jornais dispensaram até as aspas ao se oferecerem como porta-vozes desta truculência - "Todos mentiram ao BC e ao Senado", dizia a manchete de um jornal carioca que solenemente ignorou a cumplicidade tanto do BC como do Senado na aprovação das emissões de títulos de estados e municípios; "Sócios de Ramos 'embolsaram' R$ 71,9 milhões", dizia em abertura de página um jornal paulista: "CPI prova que Ganon mentiu sobre aluguel", estampou outra manchete, desprezando os limites constitucionais de uma CPI a que cabe instruir, através de relatório ao Ministério Público, a abertura de processos criminais contra seus suspeitos.
A CPI colhe indícios, a Justiça prova. No espetáculo que cobrimos, a CPI condena e a imprensa sentencia.
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Jornalismo de rodapé
Mauro Malin
Este OBSERVATÓRIO foi procurado há três semanas por um cunhado do Sr. Fábio Nahoum, que oferecia revelações exclusivas do banqueiro sobre o escândalo dos precatórios. "O Fábio está sendo vítima de muitas injustiças e falsidades, não estão lhe dando possibilidades de defesa", argumentou.
Nossa resposta foi negativa: Não somos um jornal. Fazemos a crítica da imprensa. Não vamos confundir as coisas.
O convite acabou sendo aceito e provocou uma intervenção de jornalistas da TV Bandeirantes - Luís Nassif, também colunista da Folha de S.Paulo, e Mônica Bérgamo - na produção dos fatos. Com certeza imbuídos de boas intenções, não hesitaram em promover uma "reunião secreta" de Nahoum com os senadores Roberto Requião e José Serra. Atividades da CPI deslocaram-se do Senado para o apartamento de um irmão de Requião e os jornalistas deslocaram-se de seu papel de informar.
O resultado ficou claro na segunda-feira, dia 31 de março, quando a Folha de S.Paulo (dizendo-se, ingenuamente, "exclusiva"), O Estado de S.Paulo e O Globo publicaram longas entrevistas de Paulo Maluf.
Deram a Maluf a oportunidade que ele pediu a Deus durante semanas passadas quietinho entre Paris e Bahrein. Maluf não estava fugindo da imprensa, estava esperando um "gancho" para reaparecer.
Nas entrevistas, o eterno candidato sai da defensiva e procura envolver na confusão dois possíveis adversários nas eleições de 1998: Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, que, senadores à época, votaram a favor de autorização de títulos pela Prefeitura de São Paulo. Maluf aproveita também para bater no senador José Serra. E tenta estabelecer distinção entre as operações da Prefeitura de São Paulo e as dos estados de Pernambuco, Alagoas e Santa Catarina.
Outro resultado, por sinal há várias semanas previsto, é que a CPI começa a se enredar. O advogado de Wagner Ramos, Márcio Thomas Bastos, afirmou (Jornal do Brasil, 31/3/97) que "o depoimento de Nahoum, a portas fechadas, é totalmente ilegal. A CPI está tomando atitudes à margem da lei e isso fará com que tudo termine em pizza".
Quanto ao trabalho da imprensa, vamos plagiar Mário de Andrade: está fundado o Metajornalismo, nem tão distante do Desvairismo do poeta, que constatou no "Prefácio Interessantíssimo" à Paulicéia Desvairada: "Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei."
Metajornalismo, ou jornalismo com notas de rodapé. Jornalismo do "porquê". "Por que fizeram isso? Porque..." Dar a notícia e explicar quem, quando, onde, como e por que está dando a notícia. Levar o rodapé para o noticiário.
Veja com data de 2/4/97, fechada correndo antes da Semana Santa, desconfiou da mancada mas não abriu mão do título de página dupla: "O garganta acusa Paulo Maluf". Na gigantesca nota de pé de página: "Mas a maior dificuldade do banqueiro é que ele não tem um grama de prova para sustentar que Maluf tenha sido o cérebro do esquema e o grande beneficiário da derrama de precatórios." Ressalva à ressalva: "Pelo que se murmura há semanas nos corredores da CPI e do mercado financeiro, existe a possibilidade de a versão de Nahoum ser a verdadeira" (grifos nossos). Ressalva corretiva abrangente, ignorada na edição toda, desde o título bombástico: "São questões complexas, que devem ser aprofundadas. Mas com calma, sem precipitações, sem imaginar que se chegou ao coração da matéria a cada novo papel que aparece."
Já diziam os romanos: Nenhum caminho é bom para quem não sabe aonde quer chegar.
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Jornalismo de tiroteio
M.M.
No processo histórico há sempre alguém perdido no meio de uma batalha cujo sentido não alcança. Há também os que têm percepção aguda e sabem apoiar-se nos fatos, quando não os criam. Entre os dois extremos, todas as gradações imagináveis.
O clima do denuncismo é politicamente malsão. Não as denúncias em si (só possíveis graças à vigência do regime democrático), não a vontade de consertar, corrigir, sanear. Mas o clima, o ambiente político de tumulto, de produção cotidiana de fatos ou factóides novos. Nesse clima costumam emergir figuras que de outro modo não se destacariam. E aumenta a confusão dos mais ou menos desorientados.
Por definição, não há como dissociar a imprensa do denuncismo. Nenhum jornalista tem a priori o direito de ignorar o tamanho da confusão em que está metido.
Por definição, não sabemos onde o caso dos precatórios vai parar. Estamos condenados, como os remadores de Plutarco, a olhar para a popa enquanto impelimos o barco para a frente. Mas contemplar a história nos dá alguns instrumentos de reflexão quanto ao papel da imprensa.
Fiquemos na República, e neste século.
Em agosto de 1921, dois falsários ofereceram ao governador de Minas Gerais, Artur Bernardes, já lançado candidato situacionista à presidência da República, cartas forjadas em que ele supostamente chamava o marechal Hermes da Fonseca de "sargentão sem compostura" e referia-se aos militares assim: "essa canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina". Bernardes não cedeu à chantagem. Não quis comprar as cartas. Em outubro, o Correio da Manhã publicou em fac-simile uma das cartas, supostamente dirigida por Bernardes a seu correligionário Raul Soares.
Foi nesse clima, com assembléias revoltadas no Clube Militar, que transcorreram as eleições de 1922. A questão política de fundo era o descontentamento dos chefes políticos gaúchos com o acordo que dava a Minas o mandato de 1922-26 e a São Paulo, na pessoa de seu governador, Washington Luís, o de 1926-30. Outros fatores - econômicos, sociais - alimentaram a crise, cujos momentos mais violentos foram as rebeliões militares de 1922 e 1924, quando o Exército chegou a bombardear a cidade de São Paulo. Mas é emblemático que a leviandade de um jornal influente tenha sido o marco inicial de uma crise à qual, como se sabe, Bernardes respondeu com o estado de sítio durante todo o seu mandato.
Como se sabe, a Revolução de 30 derrubou Washington Luís. Como se sabe, brasileiros usando fardas se mataram na guerra civil de 32. Como se sabe, os conflitos entre estados e regiões foram um pretexto forte usado por Getúlio para dar o golpe do Estado Novo, em 1937, quando, como se sabe, o "Plano Cohen", forjado por um oficial fascista, Olímpio Mourão Filho, e amplamente divulgado, criou o ambiente para o governo obter da Câmara dos Deputados a aprovação do estado de guerra.
Como se sabe, toda a onda de denuncismo depois da queda de Vargas, em 45, explorada pelo jornalista David Nasser, deu em rigorosamente nada. Como se sabe e nesta edição se rememora, Getúlio suicidou-se em 1954 após uma onda de denúncias em que quase todos os jornais deram-se as mãos. Como se sabe, o sinal para o golpe foram dois editoriais do mesmo Correio da Manhã contra o governo do presidente João Goulart: "Basta" e "Fora".
Como se sabe, depois do golpe de 64 instituiu-se uma Comissão Geral de Investigações (CGI), chefiada por um marechal de nome Taurino (Estevão Taurino de Resende) para perseguir adversários políticos da ditadura militar. Como poucos sabem, o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi arrolado num IPM. Levado para depor, um sargento-escrevente cumpre a formalidade de perguntar-lhe o nome. O ex-presidente responde: "Juscelino Kubitschek de Oliveira." O sargento: "Ku o quê?" Foi preciso tirar JK do Brasil para que ele não se suicidasse.
Como se sabe, após a vitória democrática de 1982, o governador eleito de São Paulo, Franco Montoro, prometeu uma "devassa" contra seu antecessor, Paulo Maluf. Como se sabe, a devassa deu em nada e ainda forneceu a Maluf um atestado de "bons antecedentes" por exclusão.
Como se sabe, o mesmo Antônio Carlos Magalhães de quem Maluf espera hoje socorro, para refrear desmandos da CPI de Requião, declarou em 5 de setembro de 1984: "Temos que eliminar para sempre da vida pública brasileira esse candidato [contra Tancredo Neves, nas eleições indiretas marcadas para janeiro de 1985] antipovo, ladrão, e que não representa a população brasileira".
Como se sabe, Maluf declarou em seguida que já havia acionado seu advogado - não se chamava Saulo Ramos, mas José Aranha - para processar Antônio Carlos. Como se sabe, ambos, ACM - contra quem houve também, a seu tempo, pesadas denúncias - e Maluf, continuaram no proscênio. Como se sabe, dez anos depois o presidente Itamar Franco desmascarou publicamente, em pleno palácio, uma pantomima denuncista de ACM.
Já se sabe mais do que o suficiente. Não se trata aqui de fazer ensaio historiográfico, de pressagiar conflitos armados, nada disso. Mudam-se os tempos, mudam-se os tiroteios. Trata-se apenas de reiterar que, se não há imprensa sem crise, não há crise sem imprensa.
A imprensa que se cuide. O elenco deste tiroteio de holofotes, microfones e tinta preta já deveria bastar como escarmento: Paulo Maluf, Bernardo Cabral, Romeu Tuma, Roberto Requião, Espiridião Amin (que por lapso chamou inquérito de "inquisição", e trata cada depoente como "réu"), Eduardo Suplicy, Vilson Kleinubing, Antônio Carlos Magalhães, banqueiros, esquemas financeiros, funcionários traficantes de influência. Todos, gente de pele dura, curtida, que não perde o sangue-frio. Não exatamente uma tropa de escoteiros.
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A rebeldia da velha guarda
Dênis de Moraes (*)
Por mais que as altas tecnologias de comunicação venham alterando em profundidade o modo de produção e de difusão de informações, elas não constituem o único fator a delinear o perfil do jornalismo brasileiro na virada do milênio. Estamos assistindo a outro fenômeno significativo: em plena era das redes planetárias, a velha guarda representa, entre os jornalistas, a vanguarda da crítica, do questionamento, da insubmissão às esferas de poder e ao oficialismo.
Longe de ser coeso do ponto de vista ideológico, o segmento que designamos genericamente de velha guarda comporta diferentes matizes - de simpatizantes da esquerda a liberais clássicos. As idades oscilam, mas todos ultrapassaram (ou estão prestes a ultrapassar) os 30 anos de profissão. As diferentes trajetórias já não importam tanto. Hoje, a maioria atua como colunistas ou articulistas na grande mídia, e alguns até descobriram o potencial das publicações virtuais.
Eles ocupam o espaço de inconformismo que, há 30 anos, pertencia aos jovens que saíam das redações para as passeatas e as assembléias de oposição ao regime militar. Sem recuar tanto no tempo, poderíamos acender o holofote no cenário de 20 anos atrás, quando boa parte dos jornalistas participava das lutas da sociedade civil pela redemocratização do país, em memoráveis jornadas que culminaram com a revogação do AI-5, a anistia, o fim da censura, a convocação da Assembléia Constituinte e as eleições diretas em todos os níveis.
Passado remoto? A depender das gerações yuppies que se agigantam nas empresas de comunicação da década de 1990, talvez sim. Há várias exceções que devemos salientar para banir o maniqueísmo, porém o pensamento médio parece orientar-se por parâmetros de avaliação que em nada se assemelham aos de 1967 ou de 1977. Difícil encontrar a palavra exata para defini-los: pragmáticos, cautelosos, arredios ou calculistas? O distanciamento crítico em face de questões explosivas da vida nacional insiste em infiltrar-se no horizonte dos mais moços, como se muitos deles não se apercebessem, na devida conta, do risco de reproduzir indiferença ao statu quo.
Até prova em contrário, tudo indica que a rebeldia mudou de geração. Jornalistas tarimbados passaram a refletir a indignação diante do escândalo dos precatórios, do socorro do Proer a bancos quebrados, do clientelismo e do fisiologismo políticos, de medidas provisórias que tentam usurpar prerrogativas constitucionais do Poder Judiciário, da feição imperial do primeiro mandatário, do cruel modelo econômico que privatiza os lucros e socializa a exclusão.
A vitalidade dos cabelos grisalhos sublinha que, na contramão do yuppismo, da panacéia neoliberal e do maciço apoio dos conglomerados de mídia ao governo FHC, é possível o exercício de um jornalismo combativo e empenhado na defesa da coisa pública. Um jornalismo que ainda consegue guardar distância do que o - neste caso insuspeito - senador Antônio Carlos Magalhães, do PFL, definiu como "o poder de sedução" do professor Cardoso.
(*)Dênis de Moraes, jornalista e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, tem 42 anos de idade.
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Agora todos vimos a PM matar
M.M.
As cenas terríveis que um cinegrafista amador registrou em Diadema, passou à PM e foram exibidas pela TV Globo, em reportagem de Marcelo Rezende, são absolutamente corriqueiras no Brasil, sobretudo em periferias de grandes cidades. E todos nós sabemos disso.
Em 14/8/96, a Folha de S. Paulo publicou um mapa da criminalidade paulistana. Diz tudo. Onde há mais roubos de automóveis - bairros que ficam a menos de cinco quilômetros da Praça da Sé, como Perdizes, Vila Clementino, Pinheiros -, há poucos homicídios. Em compensação, onde há menos carros para roubar, há assassinato dia sim, dia não: Capão Redondo, Parque Santo Antônio, Campo Limpo, Jardim das Imbuias. Periferia.
Todos sabemos que há tortura - quem não sabia ficou sabendo no caso do Bar Bodega - e extermínio.
Mas que diferença faz uma reportagem irretorquível quando provoca a tomada de consciência coletiva do fato. O governador, que está cansado de saber e nunca tomou qualquer providência enérgica a respeito, amanheceu num batalhão de choque da PM e à tarde deu entrevista coletiva, é verdade que mais preocupado com sua imagem de homem probo e sério do que em anunciar firmeza. E que diferença pode fazer uma coletiva: Mário Covas começou dizendo que não haveria mudanças de comandos, no fim da tarde o governo anunciou remoções.
Na sessão da Câmara dos Deputados o assunto concentrou as atenções. O ministro da Justiça deu declarações. Não houve outro tema nas conversas de cidadãos chocados que, paradoxalmente, estão cansados de saber de tudo isso.
A TV Globo furou uma bolha. Depois daquela edição do Jornal Nacional, que vem mudando para melhor (ver texto de Alberto Dines em 5/2/97), os mesmos fatos rotineiros tornaram-se um divisor de águas. Ninguém mais pode dizer que não sabe. Cada um de nós, das crianças da escola primária ao governador, sabe que o outro sabe.
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Reportagem com função social
Juca Kfouri
Trabalhei com Marcelo Rezende durante muito tempo na velha revista Placar, nos anos 80. Desde sempre ele se caracterizou por ter uma visão diferente do que era o chamado jornalismo esportivo. Na verdade, sempre teve uma visão diferente do que é fazer bom jornalismo. Jamais se conformou com o dia-a-dia de uma redação, buscando sistematicamente quebrar o burocratismo que transformou o telefone no principal aliado do repórter. Com Marcelo Rezende, não. Ele sempre foi à rua, mesmo ocupando, como ocupava, o cargo de chefe da sucursal carioca da revista, então semanal. Sua atuação na Rede Globo, não é de hoje, também continuou pautada pela mesma preocupação. Suas matérias sobre o MST, sobre Serra Pelada, sobre o tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro etc, para citar apenas algumas e mais recentes, tiveram a marca registrada da visão diferenciada, da nova abordagem, da notícia exclusiva. Agora, ainda com maior repercussão, o fato se repete. Ao ir atrás da fita que chocou o país com as arbitrariedades da PM paulista em Diadema, Marcelo Rezende prestou mais um serviço à cidadania, causando indignação, forçando a mudança, exigindo a reflexão. Numa palavra, e sem estar movido por nenhum sentimento que se confunda com a nossa velha amizade, Marcelo Rezende é daqueles raros repórteres que exercem seu ofício tendo em vista a função social do jornalismo.
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Meias Verdades e Meias Mentiras
Paulo Nassar
O necrológio de um homem honrado e trabalhador deve ser silencioso e respeitoso como um túmulo. Antônio Evaristo de Moraes Filho, que morreu na última sexta-feira, dia 28 de março, era um homem honrado e trabalhador. No dia seguinte, ele foi atingido pelo tacape minimalista de uma nota (apressada? desinformada? injusta?) impressa na primeira página da Folha de S.Paulo. A vida de Antonio Evaristo - que defendeu, durante a ditadura militar, gratuitamente, dezenas de presos políticos, além de atuar em dezenas de processos polêmicos - foi reduzida a uma manchetinha ("Morre Defensor de Collor no Rio"), acompanhada de coluna de 4 linhas, além de chamar para outras informações na pág.1-6, onde o leitor não encontra nada.
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