Caderno de verão
I -- Edições mirradas, deveriam ter desconto
Azar de quem vive abaixo do Equador: depois do relaxamento nos ânimos provocado pelo espírito de Natal, desaba a grande lassidão estival. Ao todo, dois meses e meio, às vezes três (depende do Carnaval), de jornalismo desleixado ou - pior - dito leve, gênero variedades.
Mesmo quando, no alto-verão, o governo tem a infeliz idéia de trazer ao debate algum tema candente, como a reeleição ou a entrada em vigor do novo tributo, a CPFM, fica visível a lei do menor esforço, físico ou mental. As chuvas torrenciais e trágicas que mudem de época ou de regime, reclamam os pauteiros e executivos, chover em toda parte com tamanha intensidade é inoportuno.
Melhor sorte têm os que vivem na banda Norte do mundo: depois do gozo natalino, o inverno rigoroso não deixa outra alternativa aos jornalistas se não a de jogar-se ao trabalho. E apesar de o verão meteorológico de lá ter a mesma duração do que o nosso, o verão-férias dura apenas um mês (agosto).
Recesso relativamente breve, o besteirol intervalar concentra-se em apenas 30 dias. Dá para suportar.
Neste jornalismo com sandálias e filtro solar, infringem-se direitos essenciais do cidadão e do consumidor. Ficou visível no último recesso natalino que a imprensa vive a reboque do Executivo, incapaz de gerar, sozinha, focos de interesse próprios, assim como impulsos originais galvanizadores da atenção pública.
A mídia esvaziou-se: a imprensa, mirrou. Se antes apelava para o paroquialismo, no vazio da ação governamental ficou rastaqüera. No entanto, o preço do exemplar (jornal ou revista) continuou o mesmo. A edição de Veja nº 1478 decididamente não vale os 3,80 reais cobrados pela estrutura esquálida e pela negligência na execução.
Cobrir a tragédia mineira com três textos-legendas é, no mínimo, falta de solidariedade. Dedicar uma página dupla a uma perua inglesa que de cama em cama chegou a embaixadora é consagrar o estilo Caras como paradigma de jornalismo. Duas páginas para uma brasileira morta por atropelamento em Washington, quando em nossas estradas, nesta temporada, estão morrendo milhares em estúpidos acidentes, é discriminação contra o Brasil, visão de mundo ianque-centrista.
"Vida Brasileira", pasmem, não é retranca de uma reportagem sobre o verde que começa a colorir o Nordeste, mas uma embasbacada matéria sobre os milionários que fizeram em Bagé um Kentucky gauchesco. Isto é o que o leitor comprou na melhor revista semanal de informações brasileira. O lixo de IstoÉ e Manchete é um pouco pior.
A mídia eletrônica, porque lida com o tempo, não pode reduzi-lo. Escapou para a trivialização, o chamado "serviço de férias", algo que se situa entre a cultura de almanaque e as informações fornecidas pelas companhias telefônicas.
As necessidades da cidadania, no entanto, mantiveram-se acesas. A sociedade continuou necessitada de alimentar-se de informações para formar juízos e tomar decisões. Seria a grande oportunidade para um jornalismo de interesse público e para mostrar ao anunciante que o veículo vale para o ano inteiro e, no verão, vale mais.
A.D.
II -- O império da fofoca
Divorciaram-se civilizada e discretamente, com demonstrações de mútuo respeito e carinho. São intelectuais íntegros que sempre fugiram da badalação e do deslumbramento. E, no entanto, a separação legal do casal Chico Buarque de Hollanda-Marieta Severo virou assunto federal. Empolgou a ânsia fuxiqueira que se abriga nas redações brasileiras e alimenta a alma de uma cultura telenovelesca.
Fosse inverno, haveria um pouco menos de descalabro. No verão, o fim de um casamento de 30 anos é assunto para teses psicanalíticas, avaliações sociológicas, diagnósticos antropológicos e aquele esgar pelo escândalo.
A imprensa carioca esmerou-se em invadir a privacidade do casal. O Estadão chegou a colocar o assunto no primeiro caderno, como atualização do Caderno 2 (que escapou dignamente do baixo-nível). Veja-Verão deu página inteira, Manchete engalanou-se, (consta que foi o único furo dos últimos 30 anos) antecipando-se a todos. Caras é a cara do que a Argentina tem de pior, antítese de Pagina 12. Afiançou que a separação foi causada por uma fogosa cantora baiana, fabricada pelos xavecos marqueteiros da cervejaria nacional.
A Folha, felizmente, foi exceção, pelo menos até o fechamento desta edição.
A.D.
Tão perto e já tão distantes
Pobres mortos de Minas Gerais, que um dia foi parte da capitania de São Paulo e Minas de Ouro. A revista Veja reduziu seu amargo destino a textos-legendas (ver Edições mirradas, deveriam ter desconto). Os grandes jornais de São Paulo e do Rio, vizinhos que têm laços culturais profundos com a terra e o povo mineiro, não escaparam da insensibilidade.
Pobres mortos nas chuvas de Minas Gerais, sua tragédia não passou de fotografias coloridas nas primeiras páginas. Não mereceu nem manchete, nem números precisos, nem discussão séria sobre fatores que possam ter agravado os efeitos das inundações - como destruição da vegetação nas áreas urbanas atingidas e inoperância ou inexistência de defesa civil.
Os jornais privilegiaram o número de desabrigados, na casa dos milhares, mais "espetacular" do que o de mortos, na casa das dezenas. Na vala comum da imprecisão, couberam dez anônimas vidas extintas, entre os 66 mortos anunciados por Estado, Folha e JB e os 76 dados pelo Globo no dia 6 de janeiro - em nenhum dos casos em título de primeira página. Nosso leitor Mauricio Ruy Prates e o jornalista Flávio Pinheiro disseram o essencial sobre esse tipo de informação desleixada.
Nos dias seguintes, adeus mortos na inundação. Se a desgraça dos 42 do shopping de Osasco ainda preocupava em 16 de janeiro, sete meses depois, no episódio de Minas, as vítimas, passados cinco dias, interessavam menos do que problemas causados ao patrimônio histórico de Ouro Preto e a polêmica em torno das férias do governador de Minas, Eduardo Azeredo. Nada como uma polêmica de segunda categoria para ganhar manchete de página: "Governador de Minas volta de férias e se irrita" (Estado), mais um título surrealista para os anais.
Adeus, mortos discretos de Minas Gerais. Adeus, todos os mortos em inundações sobre cujas vidas e mortes pouco soubemos e já nada mais saberemos.
M.M.