García Márquez ensina aos empresários o que é o jornalismo humanista


As empresas proprietárias de jornais das Américas associadas à Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) reúnem-se todos os anos em outubro para a sua Assembléia Geral. A deste ano foi em Los Angeles e, para a conferência de abertura, no dia 7, foi convidado Gabriel García Márquez, jornalista profissional, hoje um dos nomes mais importantes da literatura mundial. Gabo não esqueceu suas origens - como tão bem demonstram o seu recentíssimo Noticia de un Secuestro (ver Livros, edição de 5 de outubro do OBSERVATÓRIO), ainda não lançado no Brasil, e o seu empenho em manter sua revolucionária escola de jornalismo em Cartagena, oficina de profissionalismo devotada às grandes tradições do jornalismo impresso.

Embora todos os grandes jornais brasileiros sejam associados à SIP e, por isso, habituados a publicar seus insossos manifestos em favor da desregulamentação absoluta da atividade informativa, desta vez a preleção inaugural não mereceu grande divulgação, a não ser na parte referente à proliferação das escolas de comunicação e à falência dos seus currículos teorizantes.

A sintomática lacuna é preenchida aqui com a tradução de trechos desta profissão de fé no jornalismo feito com alma e responsabilidade.

Os Observadores



A melhor profissão do mundo
Gabriel García Márquez

"Há uns cinqüenta anos não estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar."

"Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para tomar café. Era uma tertúlia aberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram."

"O jornal cabia então em três grandes seções: notícias, crônicas e reportagens, e notas editoriais. A seção mais delicada e de grande prestígio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de repórter, que tinha ao mesmo tempo a conotação de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profissão mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contrário. Dou fé: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes seções, até o nível máximo de repórter raso.

A prática da profissão, ela própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão do mundo - como nós a chamávamos. Alberto Lleras Camargo, que foi sempre jornalista e duas vezes presidente da Colômbia, não tinha sequer o curso secundário.

A criação posterior de escolas de jornalismo foi uma reação escolástica contra o fato consumado de que o ofício carecia de respaldo acadêmico. Agora as escolas existem não apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expansão varreram até o nome humilde que o ofício teve desde suas origens no século XV, e que agora não é mais jornalismo, mas Ciências da Comunicação ou Comunicação Social.

O resultado não é, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões naturais. E em especial sobre as duas condições mais importantes: a criatividade e a prática.

Em sua maioria, os formados chegam com deficiências flagrantes, têm graves problemas de gramática e ortografia, e dificuldades para uma compreensão reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de trás para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia uma conversa que de antemão se combinara confidencial.

O mais grave é que tais atentados contra a ética obedecem a uma noção intrépida da profissão, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacralização do furo a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem sempre é a que se dá primeiro, mas muitas vezes a que se dá melhor. Alguns, conscientes de suas deficiências, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e não lhes treme a voz quando culpam seus professores por não lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes são requeridas, especialmente a curiosidade pela vida.

É certo que tais críticas valem para a educação geral, pervertida pela massificação de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao invés do formativo. Mas no caso específico do jornalismo parece que, além disso, a profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.

Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A desumanização é galopante.

Não é fácil aceitar que o esplendor tecnológico e a vertigem das comunicações, que tanto desejávamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do horário de fechamento.

Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem três horas para uma tarefa que na hora da verdade é impossível em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no pânico do fechamento ninguém tem tempo nem ânimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo.

'Nem sequer nos repreendem', diz um repórter novato ansioso por ter comunicação direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo, mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia.

A pressa e a restrição de espaço, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de gênero mais brilhante, mas que é também o que requer mais tempo, mais investigação, mais reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever. É, na realidade, a reconstituição minuciosa e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça como se tivesse estado no local dos acontecimentos."

"O gravador é culpado pela glorificação viciosa da entrevista. O rádio e a televisão, por sua própria natureza, converteram-na em gênero supremo, mas também a imprensa escrita parece compartilhar a idéia equivocada de que a voz da verdade não é tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcrição é a prova de fogo: confundem o som das palavras, tropeçam na semântica, naufragam na ortografia e morrem de enfarte com a sintaxe.

Talvez a solução seja voltar ao velho bloco de anotações, para que o jornalista vá editando com sua inteligência à medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que é a de testemunho inquestionável. De todo modo, é um consolo supor que muitas das transgressões da ética, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem à imoralidade, mas igualmente à falta de domínio do ofício.

Talvez a desgraça das faculdades de Comunicação Social seja ensinar muitas coisas úteis para a profissão, porém muito pouco da profissão propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas humanísticos, embora menos ambiciosos e peremptórios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos não trazem do curso secundário.

Entretanto, toda a formação deve se sustentar em três vigas mestras: a prioridade das aptidões e das vocações, a certeza de que a investigação não é uma especialidade dentro da profissão, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por definição, e a consciência de que a ética não é uma condição ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.

O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema primário de ensino em oficinas práticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento crítico das experiências históricas, e em seu marco original de serviço público. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o espírito de tertúlia das cinco da tarde.

Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de fazê-lo, em Cartagena de Indias, para toda a América Latina, com um sistema de oficinas experimentais e itinerantes que leva o nome nada modesto de Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano. É uma experiência piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade - reportagem, edição, entrevistas de rádio e televisão e tantas outras - sob a direção de um veterano da profissão."

"A mídia faria bem em apoiar essa operação de resgate. Seja em suas redações, seja com cenários construídos intencionalmente, como os simuladores aéreos que reproduzem todos os incidentes de vôo, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade.

Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."


(Agradecemos a Luís Antônio Nikão Duarte, da Agência Jornal do Brasil, o envio do texto original do discurso de García Márquez.)



Um mês para apurar 'Como Pitta deu prejuízo de R$ 1,7 mi em um único dia'


A reportagem "Como Pitta deu um prejuízo de R$ 1,7 mi para SP em um único dia", publicada no Jornal da Tarde em 28 de setembro, começou com um almoço em um restaurante da zona sul da cidade e me consumiu quase trinta dias de trabalho. Não foi fácil. Falei com muita gente, sempre em off. Pessoas que depois de horas de conversa se despediam com um "nunca te vi, não sei teu nome, este encontro nunca existiu". É compreensível, o mercado financeiro vive de sigilo.

Ao longo desses dias, cruzei muitas informações e versões. Devido à delicadeza do tema - afinal, tratava-se do candidato primeiro colocado nas pesquisas, agora vencedor do primeiro turno, toda informação tinha que ser precisa, de uma precisão cirúrgica. Foi um trabalho muito gratificante: senti que estava fazendo jornalismo. Cumprindo minha função, que é de informar, de tentar desvendar a realidade (se não, para que serve?).

Trabalho há um ano com política e sempre me incomodou, neste tipo de noticiário, a impotência do jornalista diante das coisas. Sempre dependendo de uma declaração de alguém, indo atrás de um "disse que", "negou que", etc. Talvez o jornalismo (pelo menos o político) de hoje seja assim mesmo: sem tempo para nada, o jornalista vai reproduzindo falas. O repórter vira um garoto de recados de grupos de interesse, desestimulado de buscar ângulos novos para abordar os temas. Ora, por que a política, assim como a economia, precisa sair de gabinetes e da boca miúda de lobbies? Uma chuva torrencial, o gás carbônico que sai do escapamento dos carros, o trânsito infernal, o garoto que vem te oferecer um chiclete no farol, tudo isso pode gerar boas pautas de política e de economia (temas sempre tratados pela imprensa como que para especialistas).

Não entendo muito de mercado financeiro. Acho um tema árido e complexo. Fui anotando, durante a apuração da matéria, o que especialistas, gente que trabalha ali nas bocas do mercado financeiro, iam me contando, revelando. Fontes independentes que consultei, sem nenhuma ligação político-ideológica ou de amizade, sempre apontavam para a estranheza daquelas operações, que depois viraram o tema dos últimos dias de campanha do primeiro turno.

Lembro do vice-presidente de um banco que me disse, quando levei o documento com as operações: "Você está levantando uma lebre, se vai conseguir pegá-la é outra coisa".

Acho que a lebre está correndo solta por aí, agora. Pegá-la é um trabalho árduo, pois o terreno em que ela se move - o mercado financeiro - é cheio de armadilhas para quem entra nele desavisado. Espero que a imprensa, principalmente a especializada, se sinta estimulada a fuçar mais esta história. Acho que ninguém estará perdendo tempo.

Rogério Pacheco Jordão, jornalista


Observatório | Caixa Postal | Banca | Busca
Edições anteriores | Cadernos | Objetivos | Equipe