ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 304 - 9/2/2010
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MÍDIA & SAÚDE
Atenção! Médico solto na redação!

Por Roxana Tabakman em 23/11/2004

Hoje de manhã, quando li o artigo de saúde "Golf ball é visto na 13ª semana de gravidez" (Estado de S. Paulo, 16/11, A12), fiquei muito agradecida. Primeiro, por não estar grávida na hora de ler a matéria. Segundo porque, nas duas vezes em que tive um bebê na barriga, nenhum editor permitiu que alguma matéria desse teor fosse publicada – do jeito que foi.

O texto começa falando de uma anomalia chamada Golf ball, que é – segundo explicam na primeira linha – "um espessamento ou a presença de minúsculas calcificações na região interna do coração, o que pode causar eventualmente uma disfunção cardíaca". Vou deixar de lado que o autor esqueceu-se de indicar que estava fazendo referência ao coração do feto, e não da mãe.

E um detalhe: no mesmo primeiro parágrafo ele menciona: "(...) sua associação com algumas alterações cromossômicas, entre elas a trissomia do 21 (mongolismo), por causa da sua alta incidência em fetos portadores da Síndrome de Down. Também se observou aumento da incidência em fetos com outras doenças cromossômicas, como trissomia do 13, trissomia do 18, triploidias e síndrome de Turner (não explica o que são, mas, neste caso, devo dizer: "Graças a Deus").

Ajuda de jornalista

A leitora grávida, seu marido, os futuros avós, todos estão lendo a matéria e têm vontade de chorar, já no primeiro parágrafo. Eu gostaria de telefonar logo a todos eles para pedir: "Continuem lendo, por favor!". Por quê? Porque no sétimo e último parágrafo, ou seja, na linha 80 da matéria, pode-se ler: "Sua presença isolada deve ser considerada como um achado normal, devendo a conduta ser conservadora, principalmente quando é detectado na primeira metade da gestação, pela possibilidade de resolução espontânea."

Mas a minha critica tem a pretensão de ser construtiva. Para isso, as perguntas que devo me fazer são: por que isso foi publicado assim? O que deveria ter sido feito? Veja, se quiser, as minhas respostas. Aceito outras.

O problema não é só do obstetra-consultor que assina a matéria. Talvez ele até comunique melhor quando está tranqüilo com seus pacientes. Mas o texto é um exemplo do que acontece com freqüência quando os médicos falam diretamente ao publico, sem ajuda dos jornalistas.

Também é jornalismo

Já passei por esse problema no rádio, quando um dos convidados de meu programa, respondendo ao vivo à pergunta de um ouvinte, fez com total irresponsabilidade um diagnostico de Alzheimer. Esse programa ficará a vida toda em minha consciência. Mas no jornal de papel, sem dúvida, a responsabilidade do editor é ainda maior. Ele está lá para controlar tudo o que vai ser lido pelo público depois. Pela quantidade de tecnicismos, como "foco hiperecogênico cardíaco múltiplo", dá para ver que a matéria do Estado não foi editada. Será por respeito exagerado ao saber médico?

Outro ponto polêmico é: qual é o sentido de responder a dúvidas dos leitores no jornal? Eu não gosto mesmo, mas aceito que possa haver um sentido para certos assuntos e certo público. "É possível engravidar na primeira relação sexual?" Essa pergunta é clássica nas colunas de consulta adolescentes. Jairo Bauer a responde faz uma década no Folha Teen, "A geração mudou, as perguntas são as mesmas", diz ele.

Resumindo, uma reflexão: vale lembrar aqui que as colunas de consulta também são – ou deveriam ser – jornalismo. E, na hora de escolher as perguntas, e também as respostas, o editor não pode ficar de fora.

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Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 24/11/2004 às 10:28:50

Estas coisas são interessantes. Há muitos anos, quando eu era criança em Porto Alegre, num dos primeiros números da revista Realidade, foi publicada uma reportagem com as primeiras fotos intra-uterinas. A reportagem mostrava várias fases do desenvolvimento fetal. Meu tio escondeu a revista em casa para seus filhos (meus primos) não verem e considerou um atentado à moral cristã. Hoje em dia, tais fotos perniciosas são apresentadas em qualquer livro de biologia para crianças, até mesmos órgãos genitais e o mecanismo do ato sexual.

Assim, acho que estes tabus de palavras ou de doenças não podem ser considerados grande infração. Quem conhece o assunto entende, e quem não entende, não vai nem ler, nem ficar chocado. Não tem sentido falar de cegonha, florzinha e abelhinha, ou evitar responder ao que foi perguntado, que me parece foi o objetivo da pergunta ao médico, e não ao jornalista. Os termos Cro-Magnon (homem arcaico ou Homo sapiens), Neanderthal, Pitecantropus erectus (homem mono ereto), Australopithecus africanus y robustus, Ramapithecus etc. também não são entendidos pela maior parte dos leitores, que nunca saberão seu significado se forem mantidos escondidos. Até mesmo a idéia de que o homem pode descender dos macacos era e pode ser ainda considerada vexatória para muitos leitores.

“Outro ponto polêmico é: qual é o sentido de responder a dúvidas dos leitores no jornal? Eu não gosto mesmo, mas aceito que possa haver um sentido para certos assuntos e certo público”, comenta a jornalista Roxana Tabakman. Eu acho que não pode haver tabu em informação, e cabe informar àquele que pergunta. Não vejo, mais uma vez, por que deveria ser mantido na ignorância, ou tutelado pelo jornalista. Há 20 anos, o assunto Aids e retrovirais era entendido por poucos. Hoje em dia, sem recorrerem a consultórios médicos para saber novidades, muitas pessoas já sabem o que é isto, sem precisar chorar. Se tivesse sido escondido, continuariam na completa ignorância. Além de que médicos, enfermeiros, biomédicos, psicólogos, veterinários, odontólogos e até mesmo biólogos lêem jornais, e a eles também cabe uma informação mais erudita. Não seria de esperar que quem entenda só possa encontrar tal informação em revistas dirigidas a médicos.

Defendo que prejudicial é que jornalistas divulguem equilíbrios energéticos, poderes curativos de sucos de flores alcoolizadas e expostos ao sol, curas prânicas, ou as virtudes das tradições chinesas ou ayuvérdicas, xamânicas como alternativas ao conhecimento científico, na exata língua do encantamento. O que deve chocar as pessoas são crimes como o do Chambinho, as exposições da representante do Care humilhada no Iraque, os detalhes do massacre dos sem-teto em São Paulo. Isto todos entendem e sentem empatia, e não seria lícito não informar as pessoas também.

Numa hora em que os jornalistas se omitem em relação ao ato médico, não vemos coerência quando defendem a reserva de mercado da comunicação para jornalistas apenas. Afinal, jornalismo não mata, não é mesmo? Mas falhas em diagnósticos e tratamentos têm este potencial.

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Roxana Tabakman

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