ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 346 - 13/9/2005
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SEVERINO & MALUF
Mídia apressada come cru

Por Alberto Dines em 12/9/2005

O primeiro desafio da imprensa nesta crise ainda sem nome surge no exato momento em que completa quatro meses: como acompanhar com a mesma intensidade o confronto oposição vs. Severino, a prisão de Paulo Maluf depois de 30 anos de expectativa e os desdobramentos da crise propriamente dita nas três CPIs, plenário da Câmara, PT, Santo André, Ribeirão Preto etc., etc.

Se a denúncia do mensalinho de Severino Cavalcanti fosse melhor apurada pelos semanários que a divulgaram (Veja e Época), o presidente da Câmara já estaria fora de combate e o processo de cassação da primeira leva de deputados envolvidos com o mensalão, em velocidade de cruzeiro.

Severino venceu o primeiro embate, teve tempo para encher-se de prepotência e agora tudo vai ficar mais complicado. Sobretudo porque ao governo interessa esticar ao máximo o "caso Severino" para com ele desviar as atenções da opinião publica.

A mídia foi surpreendida pelo rápido desfecho do pedido de prisão de Paulo Maluf e seu filho. Correu atrás da foto de ambos algemados e, esbaforida, esqueceu de chamar a atenção do distinto público para um dado importante: Maluf já poderia estar preso desde o ano passado. Foi agora para o xilindró simplesmente porque o governo precisava urgentemente de outros corruptos e outros ladrões para retirar os seus do foco dos holofotes.

O governo contava com a fascinação da mídia pela figura de Paulo Maluf. Acertou em cheio. Se hoje a maioria dos veículos jornalísticos exulta com a prisão deste que se tornou símbolo da impunidade e da arrogância, convém não esquecer que esta alegria carece de fundamentos históricos.

Achacador de segunda

Maluf sempre se deu muito bem com a imprensa, tanto no plano pessoal como empresarial. Em alguns veículos mandava, em outros desmandava-se. Sempre dava um jeito de vencer resistências. Manteve linha direta com jornalistas de direita, do centro e até da esquerda. De todos os escalões. Sugeria contratações e forçava demissões. Encarcerado, na iminência de perder a fortuna que remeteu para o exterior, imagina-se que ficará calado. Não por muito tempo.

Sua prisão foi comemorada por aquela mídia que tem idade para recordar seu papel (junto com Delfim Netto, seu padrinho) na ditadura militar. Maluf preso, remete para o general Costa e Silva e sua corte, para o Ato Institucional nº 5, general Emílio Médici, os generais da linha-dura, a repressão às greves no ABC paulista. O governo sabe disso, por isso apressou a sua prisão. Pensou na figura do boi-de-piranha.

Para acompanhar tanta bandidagem simultânea, a imprensa será obrigada a uma autêntica refundação. De forma e conteúdo, objetivos e métodos. As redações estão esvaziadas, de língua de fora, mal conseguem cobrir uma coletiva em Brasília num domingo.

As grandes vedetes não têm tempo para uma reflexão antes de começar a batucar no teclado uma das quatro ou cinco matérias que produzem por dia. Entregam-se à primeira indignação, ao primeiro jogo de palavras, à primeira elucubração.

O governo perdeu quase todas as paradas nos últimos 120 dias, mas parece que vai virar o jogo. Reencontrou uma estratégia e a imprensa sequer teve tempo para reparar nisso. No fim de 2003 era parceira do então ministro José Dirceu num plano de salvação do setor com créditos do BNDES. Dois anos depois, quer sacrificar o ex-parceiro a todo custo. Há duas semanas queria espernear, incomodada com os ataques do presidente. Agora contenta-se com uma audiência apressada e formal.

No início da crise parecia cheia gás até para pedir um impeachment. Sossegou. Agora mal consegue reunir provas para comprometer um achacador da segunda divisão.

Se a imprensa não tiver a competência para ajudar o Congresso a livrar-se rapidamente de Severino Cavalcanti, todo a barulheira dos últimos meses terá sido em vão. Volta tudo à estaca zero.

Comentários (14)
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Paulo de Vasconcelos Cunha Neto , São Paulo-SP - administrador de empresa
Enviado em 19/9/2005 às 15:39:53
Será que essa nossa famosa imprensa das denúncias sem provas não consegue enxergar o óbvio? (ou não dá lucro se interessar pelo óbvio?) Aconteceu no "Planalto Central", uma pessoa se declarou corruptora de parlamentar, mostrou a prova e, além de não ter sido presa, ainda foi convidada a ser candidata a um cargo público por vários partidos políticos. A nossa pseudo-imprensa das denúncias sem provas, quando tem em mãos todas as provas, não escreve uma linha sequer e não denuncia os partidos que ofereceram filiação ao criminoso etc. Isso é imprensa ou um bando de moleques? Para mim é um bando de "brincalhões", isso sim!
Mario Cavallari Jr. , São Paulo-SP - advogado
Enviado em 18/9/2005 às 12:27:11
Com o Observatório da Imprensa, aprendi a ler jornal de outro jeito. Assim, critico a Folha de S. Paulo deste domingo 18/9. O que tem a ver o doleiro de Collor com o PT? Absolutamente nada. O fato é o doleiro e o PT. Só. Os doleiros servem a milhares de pessoas e não pertencem a ninguém... A Folha fez uma manchete boba e induz o leitor a ver um elo entre o PT e Collor!
Nilce Marcondes , São Paulo-SP - socióloga/funcionária pública
Enviado em 18/9/2005 às 00:23:59
Dines, teve um fato significativo que a mídia não comentou: Gabeira ameaçou Severino, no plural, "nós vamos derrubá-lo", foi depois que apuraram indícios para tal. Então, esse "nós" decide quem vai, quem fica, depois é que vão buscar o motivo, através de suas fontes. Também Ricardo Izar disse, no Jô Soares, ter sofrido ameaças, respondeu, "mas não tem nada...", e ouviu: "Mas a gente denuncia e até você provar que não fez..." (fica desmoralizado ). Esse é o modus operandi vigente.
Sebastião Arlem , Goiânia-GO - advogado
Enviado em 17/9/2005 às 21:28:07
Nesta época de ditadura das elites dominantes, dos escolhidos por deus, nada fica impune; assim, na ausência do Pasquim, ganhamos o Observatório. Obrigado.
Wanda Rodrigues , Belo Horizonte-MG - professora
Enviado em 17/9/2005 às 12:42:14
A pressa em noticiar leva a graves erros. No entanto, na própria matéria o mesmo erro é cometido se considerarmos que as generalizações também são formas apressadas de julgar. Quando se trata de criticar o governo, cabe estabelecer a qual instituição se dirige a crítica, a quem ela se volta; só assim poderemos buscar um olhar mais distanciado das paixões, já que isenção não existe.
Marcelo Rene Schoeps , Santo André-SP - projetista
Enviado em 16/9/2005 às 15:47:47
Fico decepcionado com o tratamento que os meios de comunicação vêm dando à família de Buani. Tratar a mulher dele dessa forma me parece incorreto, pois um dos motivos que fazem com que pessoas não denunciem esse tipo de crime é justamente não expor a família a esse tipo de constrangimento. Fico pensando se existe real interesse de expor a verdade ao povo ou se apenas querem audiência.
Eduardo Silva , Brasília-DF - funcionário público
Enviado em 16/9/2005 às 13:55:05
O autor afirma, em destaque, que "Maluf já poderia estar preso desde o ano passado". Todavia, não explicou o motivo. Pelo que foi divulgado, a prisão preventiva só foi decretada porque foram interceptadas ligações telefônicas em que os Maluf tentariam, supostamente, influir nas declarações a serem prestadas por determinado doleiro. E, ao que parece, tais interceptações só se realizaram recentemente. Então, fica a dúvida. Por que o Maluf já poderia ter sido preso? O governo (polícia) já dispunha de informações que autorizariam um pedido de prisão? E o Ministério Público (que não integra qualquer dos poderes) não pediu a prisão antes por quê? E o juiz (não subordinado ao governo) não decretou a prisão antes, independentemente de pedido, por quê? O autor do texto deve aos leitores uma complementação a fim de evitar que se reproduza aqui aquele tipo de jornalismo de que tanto se fala neste site.
Benedito F. Oliveira , Rio de Janeiro-RJ - engenheiro
Enviado em 14/9/2005 às 22:25:13
Não entendi, desde quando o Executivo prende alguém? Ou tem poder de mandar o Ministério Público ou o Judiciário prender alguém?
Luis Gustavo Horta Barboza Enge , Carapicuiba-SP - médico
Enviado em 14/9/2005 às 20:28:53
Algo que me irrita na imprensa é a não-perseguição de assuntos importantes após um início chamativo. Exemplos: que aconteceu com Jader Barbalho? E no que deram os dinheiros da pimpolha Sarney? A privataria, vai ficar assim, com Fernandinho posando de anjo e gastando 500 mil num novo apartamento, isto sem vender o velho? Com que dinheiro, com o salário de presidente? E como Maluf escapou até hoje liso, só agora no governo Lula é que se pegou o meliante? Por que não antes?
Firmino Nishiwaki , Itapevi-SP - comerciante
Enviado em 14/9/2005 às 19:55:44
O caso Severino foi amplamente noticiado na imprensa, mas o que me causa estranheza é que o então presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB), saiu ileso dessa historia. Será que ele também não sabia de nada e não tem culpa no cartório? Assistindo ao programa do dia 13 de setembro, o comentário do jornalista Fernando Rodrigues me lembrou aquele menino da estória do rei nu, o único que teve bom senso no meio dessa palhaçada que é a CPMI: um bando de corruptos tentando julgar meia dúzia de outros, sem nenhuma prova concreta. Acorda, Brasil, acorda, imprensa.
Theodoro Evangelos , Belo Horizonte-MG - vendedor
Enviado em 14/9/2005 às 14:48:07
É a primeira vez que escrevo ao Observatório. Penso que o mundo todo está sucumbindo ao poder do dinheiro. Parece-me que alguns veículos de imprensa já estão nesse processo de desgaste. Carlos Lacerda fez escola. Creio que o envolvimento da sociedade - comentando - seja um instrumento para corrigir as distorsões das informações. Uma sociedade sem jornalismo não produz história.
Ana Lucia Souza , Barra Mansa-RJ -
Enviado em 14/9/2005 às 14:28:48

Estou verdadeiramente assustada com toda essa esquizofrenia da imprensa ao correr atrás de um tal Buani (hoje) - amanhã pode ser Medeiros, Freitas, Gonçalves, sabe-se lá... - que mostra um cheque que antes era de 40 mil, agora de 7 mil, para provar (ele prova e a imprensa aprova) o mensalinho. Longe de mim defender Cavalcanti. Aliás, quando era candidato à presidência, comentei sobre a temeridade de um parlamentar que diz que a mulher é depositário divino e sem direito sobre seu corpo - foi ele o autor de uma emenda constitucional que felizmente na época a deputada Jandira Feghali conseguiu impedir a aprovação, que previa o fim da permissão das únicas formas de aborto no país.

A imprensa não comentou, talvez desconheça, não lembre ou considere irrelevante. A imprensa está vivendo um dos seus piores momentos e acredito que apenas esta instituição não percebeu isto. A população está muito mais atenta do que se imagina. É muita esquizofrenia. Pouquíssima informação e uma especulação assustadora. Já evito ler e ouvir notícias.

Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - biólogo
Enviado em 14/9/2005 às 07:57:55

Talvez essa crise nos ensine algumas lições, se estivermos interessados em aprender. A primeira delas seria definitivamente estabelecer o papel da imprensa e acabar de vez com essa lorota de quarto poder. Para que se aloque alguém, ou uma instituição, no poder é preciso que haja uma indicação ao menos, e se numa democracia quem indica é o povo, sob os mecanismos que conhecemos, não lembro de ter votado para dono de jornal planejar os rumos da nação.

A segunda coisa é a consciência ética e a análise crítica pela opinião pública. Saber quem está chorando de dor ou por cinismo. E isso vale também para os jornalões e para as revistas semanais, que insistem em divulgar matérias no mínimo escabrosas, e depois vêm a público desculpar-se pelo mal-entendido. Esquecem que o mal já foi feito. Uma outra coisa é perceber que as ações do Estado (não do governo) têm que ser claras e objetivas.

Isso não quer dizer que a prisão dos donos da cervejaria, da dona de boutique e do picareta-mor paulistano sirvam para desviar foco. Principalmente essas figuras, se cometeram ilícitos contra o povo, devem ter as mesmas penas que um bandido de quinta. Alías, o de quinta vai para a cadeia no mesmo dia, enquanto esses ainda se valem das benesses do Estado. Com a anuência de órgãos de imprensa, que acham que prisões assim só desviam o foco.

Paulo de Tarso Neves Junior , Curitiba-PR - engenheiro
Enviado em 13/9/2005 às 16:11:51
Por acaso Sebastião Buani não seria um criminoso confesso? Acho que pagar propina a funcionário público para proveito próprio ainda é crime no Brasil, por que esse indivíduo ainda não foi preso? Será que a mídia obteve o direito de conceder o benefício da delação premiada aos seus corruptores-colaboradores? E esse sujeito ainda recebe proposta de cinco partidos políticos para ser candidato!!! A hipocrisia da mídia e dos políticos (qual a diferença?) já está passando dos limites.
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