ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 346 - 13/9/2005
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NOTAS DE UM LEITOR
Polícia é polícia, bandido é bandido – e jornalista devia ser jornalista

Por Luiz Weis em 12/9/2005

Publicado originalmente no blog Verbo Solto, deste OI

É absolutamente inadmissível a participação de um jornalista – no caso o repórter César Tralli, da Rede Globo – no circo armado pela Polícia Federal ao chegar a São Paulo com o filho de Paulo Maluf, Flávio. Ele foi preso pouco antes do amanhecer de sábado [10/9], no interior paulista. Ajudou a pilotar o helicóptero que percorreu os 280 quilômetros entre o município de Dourado e a capital.

Paulo foi algemado sem nenhuma necessidade; só para os federais poderem fazer o seu show, que configura uma agressão aos direitos individuais incompatível com o estado democrático de direito. Se este fosse um país decente, de há muito Maluf pai e Maluf filho estariam na cadeia. E os policiais autores da violência contra este último seriam imediatamente afastados e submetidos a inquérito.

O pior de tudo é a cumplicidade do jornalista – se ele de fato estava vestido de policial, como denunciou, sabendo o que dizia, José Roberto Battochio, o advogado de Flávio. A propósito, a única foto dele, algemado, publicada no domingo (11/9) em todos os jornais, foi feita por Edilson Lopes, do jornal Diário de S.Paulo, das Organizações Globo. A foto foi distribuída pela Agência O Globo.

A ética jornalística foi tão golpeada quanto o direito de Flávio Maluf de não ser algemado. Se este fosse um país civilizado, a Globo daria ao seu repórter hoje mesmo a oportunidade de trocar de ofício, para poder usar roupa de tira legitimamente, sendo um deles.

É imperativo que a Associação Brasileira de Imprensa e a Federação Nacional dos Jornalistas condenem já e com toda a dureza a quebra de decoro profissional no vergonhoso episódio.

E todos os jornalistas "com redação própria", ou seja, com espaço na mídia para a sua expressão pessoal, deveriam manifestar o seu repúdio pelo ocorrido. Não é preciso lembrar a ninguém que polícia é polícia, bandido é bandido – e jornalista deveria ser jornalista. [Postado às 11h34 de 11/9/2005]

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Comentários (13)
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Josué Duarte , São Pauoo-SP - jornalista
Enviado em 24/9/2005 às 19:04:19

Uma experiencia pessoal demonstra bem esta situação dúbia do repórter policial: repórter da geral do jornal Última Hora de São Paulo, em 1968, fui atrás de um nissei no bairro oriental da Liberdade, que estaria promovendo o envio de brasileiras para serem prostitutas no Japão. Meu chefe de reportagem, Remo Pangela, fez com que eu me acompanhasse de uma repórter, que passaria por minha irmã e candidata à viagem. A moça era bonita e despertou interesse no nissei, mas não conseguimos tirar as informações mínimas para uma denúncia. Eis que um repórter policial de nossa redação se interessou em levantar o caso, no dia seguinte. Desinteressado, por estar fora do caso, só fui tomar conhecimento, quando vi no jornal a foto do nissei, que havia sido preso por tráfico de mulheres, com reportagem assinada pelo dito repórter policial. Logo quis saber como tinha sido e o próprio repórter me contou, sem a menor cerimônia: entrou no escritório do nissei, deu voz de prisão, algemou-o e levou-o para a delegacia. Diga-se de passagem, nesta época os reporteres policiais andavam armados e muitos eram até funcionários da Secretaria de Segurança (não assessores de imprensa, mas escrivães e investigadores). O repórter dessa surpreendente ação não era policial. Um dos poucos repórteres de polícia que fugiam a este padrão era o Percival de Souza, na época, do Jornal da Tarde.

Francisco Nabuco , Natal-RN - professor universitário
Enviado em 20/9/2005 às 14:34:03
O maior problema da incapacidade de punirmos corruptos é a falta da criminalização pela sociedade. A sociedade não vê num rico um ladrão. A figura do ladrão está sedimentada no brasileiro como a de um pobre, armado, negro e violento. Precisamos da construção da visão de que os ricos, de terno italiano, belos carros, helicópteros e maravilhosas mulheres, podem ser grandes ladrões. É profundamente didática a algema nos milionários delinqüentes...
Gilberto Geraldo , Santa Cruz do Capibaribe-PE - estudante de Jornalismo
Enviado em 19/9/2005 às 09:31:41
Concordo que César Tralli agiu de má fé ao disfarçar-se de policial. Mas discordo do autor no tocante a se indignar por "Paulo", como tão intimamente o chamou, ter sido algemado. Quando um coitado que rouba uma lata de leite para dar de comer a seus filhos é algemado, ninguem se indigna. Se é para não se usarem algemas, que não se use com ninguém, e não que seja regra apenas para esses senhores que usurpam o dinheiro público. E que nas manchetes, ao invés de serem tratados como criminosos, são tratados de doutores, ou senhores. Hipocrisia, meu caro. Em nosso país nós só levamos em consideração as "agressões aos direitos individuais" quando estas são praticadas contra nossos senhores, quando deveria ser uma regra para todos... mas a igualdade de condições não passa de uma utopia, que se explodam os miseraveis.
Ira Sydronio , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 19/9/2005 às 06:52:18
Em aula terça-feira passada na PUC-RJ com Herodoto Barbeiro, a questão foi levantada e a maioria da turma acredita que o Tralli "mandou bem" (para usar os termos dos alunos). A questão é: a culpa é da Globo? A culpa é do Tralli? A culpa é da educação dada aos futuros jornalistas? A culpa é da mentalidade da nova geração? Não existe culpa, estou na profissão errada e Papai Noel existe?
Jose Anselmo Duarte , São Paulo-SP - contabilista
Enviado em 17/9/2005 às 22:14:33
De há muito que o papel da imprensa no Brasil deixou de ser o de bem informar e produzir, através de comentários inteligentes, o senso crítico adequado a situações de conflito. Quando surge uma crise, em qualquer área, que se torna notícia, o que vemos é um bando de papagaios tomando partido ora de um lado ora de outro, sem qualquer isenção na análise da matéria. E dão com os burros n´água, como nos casos da Escola Base, do Sr. Ibsen Pinheiro e uma quantidade enorme de informações que com o tempo se mostram inúteis. No meu intendimento, a responsabilidade da notícia jamais poderia se esconder atrás de leis protetoras. Noticiou sem a devida veracidade, paga indenização e pronto. Quem sabe melhoraremos nossas manchetes.
Luiz Carloa Anjos , Governador Valadares-MG - técnico em eletrônica/intormática
Enviado em 17/9/2005 às 15:25:33

Inadmissível a participação de um jornalista? Inadmissível, sim, é Maluf ter estado solto até agora. Filmar a prisão do Maluf e do filho algemado foi pouco. É um absurdo o que acontece neste país, deputado ganha não sei quantas vezes na loteria e tem a cara de pau de dizer "Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro"; o Severino foi pego no pulo e ainda tem ignorante indo a Juazeiro pedir a padre Cícero para ajudar um ladrão desses. Roberto Jefferson foi pego e para escapar dedura, coisa que por sinal adorei - mas ainda vira herói nacional. O que aconteceu foi pouco, quero ver o cara numa cela com outros 20 presos, isso sim, é justiça, e cana por uns 15 anos pelo menos e perda de patrimônio "conquistado".

Paulo Drummond , Rio de Janeiro-RJ - funcionário público estadual
Enviado em 17/9/2005 às 06:15:42
Não tenho procuração da Globo e não morro de amores por essa empresa, mas quando um ladrão de galinhas é preso e algemado, a imprensa não sai em sua defesa. O filho do Maluf não pode passar por este constrangimento, pois aparecem logo para defendê-lo. Tem que divulgar mesmo, esses assaltantes do dinheiro público sendo trancafiados, esses são os piores.
Marcio Varella , Brasília-DF - jornalista
Enviado em 16/9/2005 às 21:36:51

Não acredito que tudo isto a que chamam de crise possa vir da inteligência do homem. Os parlamentares, os jornalistas, os empresários envolvidos, a Justiça - todos falam e escrevem apenas interesses imediatistas, interesses desmemoriados, com uma falta absoluta de interesse pela História. Acredito que se há por parte do parlamento e da justiça interesse real em descobrir os ladrões, colocá-los na cadeia, fazer leis que impeçam novos atos - se os há, e se este desejo é realmente sincero -, então só existe uma saída, a mais saudável, a mais democrática: a partir da raia do PT, estender os braços e abraçar todas as outras raias, todas aquelas das quais nos lembramos, atingindo não apenas todos os partidos - principalmente aqueles que têm capital mais graúdo -, mas a polícia, os juízes, os ex-parlamentares, os ex-juízes, as ex-autoridades, todos hoje locupletados de bens desnecessários à sobrevivência digna mas completamente necessários à pose, à demonstração de força e riqueza, ao fala-fala elitista.

Drummond faria uma festa, Vinicius, músicas eternas, caso encarnados fossem e vissem essa situaçãozinha ridícula que a imprensa colocou aos olhos e ouvidos do brasileiro. A luta pelo poder no Brasil extrapolou a raia da sanidade. Tá todo mundo querendo participar do Domingão do Faustão, do BBB, da revista Sexy. Tá todo mundo querendo ser importante. Em todo esse burburinho ainda não vi uma lição de humildade, por parte de ninguém. Estamos dando um péssimo exemplo às crianças, aos estudantes, à juventude. E, pior, aos idosos, que sabem que tudo isso não passa de uma grande palhaçada.

Nídia Martins , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 16/9/2005 às 13:16:23
Lúcido e preciso. Apoiado!
Abraão Marques , Manaus-SP - eletricitário
Enviado em 15/9/2005 às 18:33:10
Jornalista Luiz Weis. discordo frontalmente de Sr. quando diz: "Paulo foi algemado sem nenhuma necessidade; só para os federais poderem fazer o seu show, que configura uma agressão aos direitos individuais incompatível com o estado democrático de direito". Se todos são iguais perante a lei, por que diferenciar se o preso tem o sobrenome Maluf? Se sua opinião for aceita, nenhum bandido desse pais (não vejo diferença entre o ladrão que rouba o Erário e o ladrão de outra espécie) seria algemado. Nós temos é que aplaudir a PF por tê-lo algemado.
Érica Chianca , João Pessoa-PB - estudante
Enviado em 15/9/2005 às 17:31:56
E o papel do apresentador Gilberto Barros em seu programa do dia 13? Ao vivo, negociou um seqüestro que acontecia em São Paulo. Será que tudo aquilo foi armado? A minha descrença na mídia fez-me indagar se tudo aquilo foi verdade... O jornalista no papel de super-herói da sociedade? Pronto para executar qualquer papel, até mesmo de negociador onde vidas estavam envolvidas?
Helen Martins , Belém-PA - estudante
Enviado em 14/9/2005 às 21:11:28
Acho importante ressaltar o papel do jornalismo como agente social, como utilidade pública, e César Tralli ganhou inclusive prêmio pela matéria denunciado o esquema de corrupção de Maluf. Quanto às algemas, acho que ele é um criminoso e deve ser tratado como tal, não é só por ser um Maluf que deve ser privilegiado e isento da aplicação da lei. Tralli cunpriu seu papel, o que devia ser exemplo para os jornalistas.
Fábio Carvalho , Porto Alegre-RS - jornalista
Enviado em 14/9/2005 às 15:56:34
Com a palavra, o senhor Ali Kamel.
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