ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 429 - 9/2/2010
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SUICIDIO POR CONTÁGIO
A morte voluntária e
as formas de noticiá-la

Por Victor Gentilli em 17/4/2007

Morreu na contramão – o suicídio como notícia, de Arthur Dapieve, 191 pp., Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007

Embora os manuais de redação em geral nem façam referência, a maioria dos jornais brasileiros entende que suicídios não devem ser noticiados. O principal argumento usado para justificar esta posição é o suposto fato de que "suicídio é contagioso". Isto é, a notícia de um suicídio tende a estimular aqueles propensos a comportamento semelhante a praticá-lo. Na origem de tal concepção é indefectível a referência ao chamado "efeito Werther". Quando das primeiras exibições da peça teatral O sofrimento do jovem Werther, de Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), a incidência de suicídios entre jovens, na Alemanha da época, acentuou-se de forma incontestável.

Apesar do fato de ser "contagioso" e das referências ao "efeito Werther", os jornais, quando entendem tratar-se de questão de interesse público, sempre terminam por noticiar os suicídios.

Arthur Dapieve, jornalista de O Globo, no seu recém-lançado Morreu na contramão – o suicídio como notícia, supera o senso comum e faz um esforço para tentar compreender a questão de uma maneira menos superficial. O livro tem como base a dissertação de mestrado que o autor defendeu no ano passado na PUC-RJ, cujo título é "Suicídio por contágio: a maneira pela qual a imprensa trata a morte voluntária".

Dapieve revisita os mais importantes estudos sobre suicídios. O clássico O suicídio de Emile Durkheim (1858-1917), que aponta a anomia como uma causa do crescimento da incidência da morte voluntária, mas distingue entre suicídios egoístas e altruístas. Os suicídios egoístas são aqueles em que a motivação de quem pratica a morte voluntária são problemas, questões ou dramas essencialmente pessoais. Nas palavras do autor, interpretando o clássico, aquele "praticado por quem já não vê razão de ser na vida". O suicídio altruísta é aquele em que a intenção de quem o pratica é de que o ato extremo produzirá bons efeitos na sociedade.

Riqueza de detalhes

O desempregado que ateou fogo às vestes em frente ao Palácio do Planalto para "protestar" contra Lula é um típico suicida altruísta, embora evidentemente a motivação maior era a situação pessoal do trabalhador, que morreu dias depois. Assim como os "homens-bombas" ou "jihadistas", esta forma de suicídio é bastante diversa. Os haraquiris japoneses diferem dos camicases, que se diferenciam dos atuais suicidas-terroristas. Mas no rigor de Durkheim, que Dapieve preserva, no suicídio altruísta "o motivo da morte voluntária até é considerado louvável o bastante para não ser qualificado como suicídio." E, aí, cita o que chama de "exemplo extremo": Jesus não seria um suicida "ao caminhar para a morte certa, consciente de ser ela a sua missão na terra". Seria o abençoado Jesus tão suicida como o amaldiçoado Judas? – pergunta Dapieve, lembrando que o fato tomou três séculos de debates entre os teólogos.

A idéia do suicídio como contágio é de Dukheim, que chega a afirmar que "o suicídio é eminentemente contagioso" e que "não há dúvida que a idéia de suicídio se transmite por contágio". Para mostrar a importância que Durkheim dá ao conceito, o autor lembra que um dos capítulos do famoso livro O suicídio foi batizado como "A imitação" (pág. 47).

Dapieve se debruça também sobre a obra de Albert Camus (1913-1960), em especial o livro O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. É nesta obra que Camus escreve aquela frase que se tornaria famosa:

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto (...), vem depois". (pág. 51)

Embora não seja propriamente um texto leve, a leitura é fluente apesar da densidade e da riqueza de detalhes que o autor usa para tratar do tema.

Coberturas precárias

As mortes por suicídio de Primo Levi (1919-1987) e Cesare Pavese (1908-1950), ambos em Turim, são esmiuçadas a partir de estudo atento e sistemático de boas biografias. Noutro capítulo, o autor já analisa o suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954). E este é usado como recurso para passar à segunda parte do trabalho. Exemplo feliz de mostrar um suicídio altruísta que era inquestionavelmente uma notícia e não resultou em contágio.

Neste aspecto, algumas mortes voluntárias praticadas no Brasil por personalidades públicas são deixadas de lado. Uma pena: Santos Dumont (1873-1932) e Stefan Sweig (1881-1942) poderiam certamente ilustrar melhor a pesquisa, pois a maneira como a imprensa da época noticiou suas mortes certamente traria elementos importantes para compreender o comportamento da imprensa de hoje.

O autor analisa vários casos de suicídios noticiados pelo jornal O Globo nos anos recentes. É a partir daí que Dapieve se liberta das amarras acadêmicas para debruçar-se sobre cada caso, cada edição, cada título, cada lide – e oferecer ao leitor reflexões instigantes e bem formuladas. o que faz com método e rigor. Nesta parte, o leitor nem mais se dá conta que o texto teve como base uma dissertação. Tanto melhor.

Se logo no início é explicitado ao leitor que o contágio é fato, mas decorre de uma série de outras circunstâncias, nesta última parte o autor analisa vários casos e várias formas noticiosas de forma a ilustrar sua conclusão. Antes de tudo, é preciso romper com a noção de contágio vista como senso comum e definidora de coberturas precárias ou simplificadas.

Trata-se de uma obra que não pode ser desconhecida por quem pretende compreender melhor as questões que envolvem a morte voluntária e a forma como a imprensa a noticia – seja jornalista, estudante de jornalismo, pesquisador de jornalismo, estudioso do fenômeno da morte voluntária ou qualquer um que tenha curiosidade no assunto.

Comentários (6)
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Mônica Salmazo , Uberaba-MG - Estudante de Jornalismo
Enviado em 23/4/2007 às 11:58:17
A mídia e o seu avassalador poder não consegue conter sua má influência, não só o suicídio mas diversos temas são de má repercussão, aumentam o índice de poluição, sustentam o comércio inútil, influenciam mortes e causas desnecessárias e etc. Sei que ainda estou no primeiro período de jornalismo, mas mesmo assim penso que tenho uma boa opnião, autores como Victor Gentilli e Arthur Dapieve são bons exemplos dos que querem resgatar a verdade e expô-la nua e crua como deve ser. E eu também estou indo comprar o livro hehehe...
paolo marconi , saalvador-BA - jornalista
Enviado em 20/4/2007 às 12:01:14
Obrigado, Gentilli. Graças a seu belo artigo já estou correndo atrás do livro para compra-lo. Abraço
Victor Gentilli , Vitória-ES - jornalista
Enviado em 19/4/2007 às 19:47:44
Paolo Marconi tem razão. Mas não se trata de erro do autor. Todo texto do Armazém Literário vem com ficha técnica do livro logo entre o nome do autor e o início do texto. Por algum motivo que desconheço, a ficha aparece apenas na página de Índice da Edição. Em outras palavras: a ficha técnica ficou um clique do mouse antes do texto. Copiada e colada, ei-la: SUICIDIO POR CONTÁGIO A morte voluntária e as formas de noticiá-la Victor Gentilli Morreu na contramão – o suicídio como notícia, de Arthur Dapieve, 191 pp., Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007
paolo marconi , salvador-BA - jornalista
Enviado em 19/4/2007 às 11:08:53
Só faltou ao autor do artigo, Victor Gentilli, informar a editora do livro de Dapieve. Isso facilita a vida - sem ironia - de quem queira compra-lo, o que é meu caso.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 18/4/2007 às 18:45:21
Realmente deve este tema ser muito cuidadoso pois não resta dúvidas do "contágio" em produzir novas vítimas decididas pelo disparo do gatilho da noticia de outro suicida que precedeu! Parece que a abordagem foi um pouco superficial e dando ares de filosofia que as pessoas levam a este comportamento e não por doença mental. Assunto, claro, para especialistas que estudam a fundo o problema e não acreditam que o primeiro problema a resolver se a vida deva ser vivida. Não estaria aí já um sinal de doença mostrando a inabilidade de viver? Mas as minhas observações tem mostrado que não é apenas suicídios que são “contagiosos”. Veja o caso do índio Galdino que inaugurou uma série de atentados em outros índios e mendigos motivados pela primeira ação. Assim como ocorre com recém-nascidos jogados em lago, abandonados nas ruas ou jogados em lixeiras! Ocorre em um local do país, em seguida aparecem em outros cantos!
Aline  Campos , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 18/4/2007 às 14:46:07
Muito bacana esse resgate do tema mídia/suicídio. É um assunto espinhoso mas que precisa ser melhor trabalhado pela mídia e pela academia para a melhor cobertura possível dos fatos, pois em alguns casos, há todo uma história por trás que pode ser de interesse público.
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