ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 456 - 23/10/2007
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LEITURAS DE VEJA
Contra a esquerda, com clareza

Por Raphael Perret em 23/10/2007

Outubro de 2005. Aproximava-se o dia da votação do referendo sobre o desarmamento e a Veja põe na capa "Sete razões para votar NÃO". A primeira página, naturalmente polêmica, revelou de forma límpida a opinião da revista e gerou centenas de comentários reativos à iniciativa. Pôs-se à prova uma questão: um veículo de comunicação tão influente poderia abdicar da imparcialidade e tomar partido tão claramente assim?

Veja é criticada há muito tempo por seu posicionamento contundente e suas matérias editorializadas. Já é lugar-comum afirmar que a revista parece ser escrita pela mesma pessoa do início ao fim, tamanha a coerência das idéias expostas em todas as páginas. O problema não está exatamente na veemência das opiniões, mas no figurino de neutra e defensora dos interesses da sociedade que a publicação sempre vestiu.

Contra as críticas, Veja dizia que eram normais porque buscar a verdade era incômodo para muita gente. Entretanto, o sarcasmo acima do tom tornou a revista antipática e deselegante. Algumas matérias pareciam destinadas a um veículo humorístico. Era uma revista diferente daquela que aprendi a gostar, nos anos 80, repleta de reportagens importantes, perfis atraentes e entrevistas antológicas.

A "burguesia pseudo-esquerdista"

Nos últimos meses, Veja mudou. O texto recuperou a objetividade e a abordagem passou a ser menos arrogante. Ao mesmo tempo, a revista resolveu assumir, com mais clareza, sua posição, abandonando a roupagem da imparcialidade que não lhe caía bem. Aparentemente cansada de posar, em vão, de paladina imparcial da justiça, agora a publicação da Abril entrou na guerra e elegeu, fácil, seu inimigo principal: a esquerda brasileira, maior catapultadora de críticas à Veja, sobretudo pela perene avaliação negativa do governo petista e pela incansável produção de capas denunciando o mensalão.

Exemplos recentes da reação de Veja não faltam. A capa de 3 de outubro deste ano foi sintomática: "Che - A farsa do herói – Verdades inconvenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte". Escancarar em sua primeira página a desqualificação de um ícone mundial da esquerda não é o que pode ser chamado de ataque tímido ou discreto.

Uma semana depois, a revista entrevistou o apresentador Luciano Huck, que sofreu duras críticas por ter publicado, na Folha de S.Paulo, um artigo reclamando da violência urbana depois de ter sido assaltado em São Paulo. O texto introdutório das famosas páginas amarelas define: "O tom geral das manifestações [contra o apresentador] era o de que, rico e famoso, Huck tinha mais é que se resignar em ser vítima de bandidos. Ora, isso é uma distorção mental típica da burguesia pseudo-esquerdista brasileira" (p.11).

Texto simples e estiloso

Na edição de 17 de outubro, na reportagem sobre o sucesso do filme Tropa de Elite, Veja clarifica sua visão social contemporânea: "Mas o Brasil, infelizmente, é um país de idéias fora do lugar por causa da afecção ideológica esquerdista que inverte papéis, transformando criminosos em mocinhos e mocinhos e criminosos" (p. 82). Até os colunistas de Veja, em teoria ilhas de opinião "independentes", em geral corroboram a linha editorial da revista. Os articulistas mais eventuais parecem ter escrito seus pontos de vista no mesmo forno que produz as reportagens da publicação.

O leitor pode concordar ou não com o posicionamento anti-esquerdista de Veja. A tendência é de, no fim das contas, sobrarem apenas os leitores alinhados com a revista. O risco da postura ideológica assumida é estimular pouco o debate e transformar o semanário em uma publicação de nicho.

A sorte é que Veja conservou, em todos os seus anos de vida, um atributo importante e diferencial: a qualidade de seus textos. Mesmo quando constrói um encadeamento de idéias incoerente ao leitor de ideologia oposta, a redação das matérias é inteligente, coesa e extremamente sedutora.

Pode-se criticar a Veja por qualquer coisa, menos por ter um texto incompreensível ou pífio. Não: ele é, ao mesmo tempo, simples, estiloso, muito bem escrito. E, assim, Veja conquista leitores afinados com sua política editorial e, ao mesmo tempo, consegue ser atraente mesmo para quem discorda de todas as frases que a publicação semanalmente traz.

Comentários (14)
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Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 29/10/2007 às 02:38:23
Para se poder dizer que Veja assumiu uma postura política, ela deve publicar em editorial um manifesto declarando apoiadora ou simpatizante de alguma linha política. Isso chegou a ser feito ? Seu texto mostra que seu sentimento de frustação em relação à Veja é similar ao meu - a primeira coisa que percebi foi que, repentinamente, os textos ficaram antipáticos. A seção de cartas parece uma mesquita - totalmente vedada à infiéis. Hoje, a revista Veja está apenas dando suporte moral à quem odeia a esquerda - quem lê Veja não procura informação, procura espelho. E encontra.
Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE - ATRFB
Enviado em 27/10/2007 às 14:54:11
André Martins, xingar é diferente de caluniar e/ou difamar. Vejamos: Xingar: v. tr. e int., Brasil, insultar com palavras; vaiar, apupar; zombar. Calúnia:do Lat. calumnia - s. f. - imputação falsa, que ofende a reputação ou o crédito de alguém; aleivosia; difamação infundada; Difamar: do Lat. diffamare - v. tr., tirar a boa fama ou o crédito de; caluniar; desacreditar publicamente; infamar. Portanto, se a Veja calunia e difama, ela mente.
Menjol Almeida , São Paulo-SP - Analista Cobrança
Enviado em 26/10/2007 às 12:53:32
Daria meu salário para que Veja defendesse publicamente "os mocinhos transformados em bandidos", dando nomes aos bois, tipo: Naji Nahas, Paulo Maluf, Sérgio Naya e outros do mesmo naipe?
Julio  Valerio Neto , Espirito Santo do Pinhal-MG - produtor de tv
Enviado em 25/10/2007 às 17:32:55
Diz o ditado popular: Leu na Veja? Azar o seu!
André Martins , Bauru-SP - Engenheiro
Enviado em 25/10/2007 às 14:49:51
Rogério Ferraz Alencar, vou dar um exemplo: lembra da coluna do Mainardi sobre o macaco Mino, onde ele desfia uma série de xingamentos para "pegar" no Mino Carta?
Norton Drongek , Astorga-PR - Estudante
Enviado em 24/10/2007 às 23:30:35
Chutar cachorro morto é sacanagem, mas pergunto eu: por que será que a Veja resolveu assumir sua posição; foi de graça ou graças às opiniões que enxurreavam sua caixa-postal desmascarando-os como farsescos em busca de mentira deslavada? Cresci lendo a revista, e concordo com seu estilo descontraído, mas para quem não têm mais que 12 anos de idade mental; depois disso, só indo às seções gente e frases pra ver se pintou algum peitinho novo. Ademais, imaginem o Roberto Marinho junto ao ACM aplaudindo o pobre do Civita; riem dele pois, coitado, permanece vivo enquanto essa raça subversiva vira o jogo que, juntinhos os três, fizeram de nossas vidas essa miséria irrestrita.
Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE - ATRFB
Enviado em 24/10/2007 às 19:51:43
André Martins, se a Veja não mente, como ela pode caluniar e difamar?
Marcelo Francis Máduar , São Paulo-SP - Físico
Enviado em 24/10/2007 às 19:08:56
"Consegue ser atraente mesmo para quem discorda de todas as frases que a publicação semanalmente traz"??? Caro Raphael, devo dizer que não padeço dessa curiosa conduta, a de sentir-se atraído por aquilo de que se discorda, parecer-me-ia algum tipo de masoquismo... De qualquer forma, as qualidades de estilo que o Sr. citou podem ser constatadas em muitas outras publicações, não constituem absolutamente privilégio de "Veja". Fico com Carta Capital, Caros Amigos, ou a "Agência Carta Maior", que têm textos tão bem escritos quanto os de "Veja", e que também encadeiam as idéias de forma coesa, têm redação inteligente, etc. E com a vantagem essencial: têm conteúdo que se alinha com o que penso e acredito. Estamos empatados.
Tiago de Jesus , SP-SP - analista de sistemas
Enviado em 24/10/2007 às 17:04:40
Texto bem-escrito? Eu concordo que erros gramaticais são incomuns em Veja, mas isso é nivelar por baixo, é o mínimo que se pede de uma publicação em que trabalham mais de 3 pessoas. Que tal estes excertos? 1 Grosseria : (Ideli Salvatti) Mandou dizer ainda que nunca foi citada pela Justiça ou pelo Ministério Público em irregularidade alguma envolvendo a Fetraf ou qualquer outra entidade. É verdade. Ainda não foi. 2 Perguntas retóricas, a seção cartilha : Por que o armamento atômico é aceitável em alguns países, mas não no Irã? A resposta está nas características fanáticas do estado teocrático xiita. 3 Títulos macartistas em pleno 2007 O Pearl Harbor da Ciência, título da reportagem sobre o satélite Sputnik. 4 Por fim, um erro gramatical: [os bancos] retomaram seu papel primordial de alavancar, por meio de financiamentos, o crescimento do país. Veja tem a terrível característica de ecoar o que há de mais abjeto hoje no pensamento da classe média brasileira, inclusive nesta estranha soberba de se declarar elite e desprezar a própria cultura em favor de uma subcultura do individualismo, esta sim um nicho, lá nos EUA, de onde ela veio. Mas isto não tem nada a ver com o texto, que é ruim mesmo.
André Martins , Bauru-SP - Engenheiro
Enviado em 24/10/2007 às 15:33:01
Raphael, concordo que a Veja tem um texto ágil e "agradável" de ler. O Mainardi então, é genial. O problema é o jornalismo de péssima qualidade que ela pratica, no caso da Veja acho que não seria suficiente assumir suas preferências eleitorais, como fez a Carta Capital. A Veja distorce os fatos (ela não mente, apenas mostra o que interessa e omite o que não interessa), não permite o contraditório, não retifica o erro. Além de abusar da calúnia e da difamação, mesmo que na maioria das vezes de forma subjetiva. Se fosse um jornaleco partidário não teria importância, mas como a revista nacional mais influente ela precisaria ser um pouco mais responsável.
Paula Abreu , são paulo -SP - Sem profissão
Enviado em 24/10/2007 às 14:05:56
Alegra-me deparar com uma análise tão lúcida, diante da enxurrada de opiniões apaixonadas e mal-embasadas sobre Veja que temos acompanhado nos últimos tempos. Concordo com cada palavra do autor e acrescento que não sou leitora assídua de Veja, assim como não sou leitora assídua de The Economist, por não compartilhar do ponto de vista liberal que prevalece nas duas publicações. No entanto, em ambos os casos, reconheço se tratar de produtos de boa qualidade jornalística, ao contrário de inúmeros títulos de viés esquerdista, cujos textos se caracterizam pelo panfletismo irracional, mal-fundamentados, eivados de preconceitos e lugares-comuns que, no atual cenário, só empobrecem o debate político.
Daniele Dias , sao paulo-SP - sem profissao
Enviado em 24/10/2007 às 13:56:31
Concordo com vc Paulo Moura, a Veja não dá nem pra forrar o chão!!!!
Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 23/10/2007 às 22:13:20
Atraente ? Faz-me rir. A veja só terá utilidade novamente quando seu papel for adequado para forrar o chão onde meu cachorro faz suas necessidades. Porém, a verdade seja dita, nem mesmo um cachorro consegue por seus dejetos em determinadas páginas deste semanário...
Marcos Almeida , São Paulo-SP - Consultor
Enviado em 23/10/2007 às 16:16:53
Caro Raphael, não sou leitor assíduo de Veja, más o sou deste Observatório, considero a maior parte dos colaboradores e o Dines, em particular, brilhantes. Acredito que seja bastante positivo a tomada de posição ideológica por parte de um veículo, assim acontece no mundo todo, particularmente nos países onde a imprensa é mais avançada e independente (como França e EUA, por exemplo). O relevante é, na minha visão, identificar se existem mentiras ou meias verdades nos artigos, seja de Veja ou, por exemplo, da Carta Capital (da qual também não sou leitor assíduo), que claramente figura na outra trincheira ideológica, acho que a sociedade somente ganha quando os jornalistas e veículos colocam claramente suas tendências, sejam políticas, religiosas ou esportivas, e sendo bastante sincero, sem exceções, todos as tem. Abraços
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Raphael Perret

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