ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 466 - 9/2/2010
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TV BRASIL
O que será que será

Por José Paulo Cavalcanti Filho em 3/1/2008

Reproduzido da seção “Tendências/Dabates”, Folha de S.Paulo, 2/1/2008; intertítulos da Redação do OI

No íntimo de todos e cada um de nós, há duas dúvidas principais sobre a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), mais conhecida como TV Brasil. 1) Ela vai fazer propaganda do governo? 2) Em país socialmente carente, como o nosso, vale a pena transferir recursos públicos para uma televisão?

A primeira dúvida é fácil de responder. E essa resposta é: não se sabe. Em mais vasto horizonte de tempo, ninguém poderá mesmo garantir que não possa estar a serviço de interesses políticos. Mas é também fácil dizer que não está sendo montada para esse fim. As biografias do ministro Franklin Martins; da presidente da TV, Tereza Cruvinel, e sua equipe; do presidente Luiz Belluzzo e dos demais membros do Conselho Curador não autorizam admitir que essa TV seja usada, hoje, como chapa-branca – assim se referem a ela alguns jornais.

Ocorre que, no fundo, a verdadeira independência da TV Brasil só será garantida com o rigoroso cumprimento do seu orçamento. Já se sabendo que restrições nos recursos corresponderão à morte da iniciativa. Ao menos, à sua morte como um projeto independente. E, nesse ponto, a sociedade será parceira para que funcione, não como TV estatal, mas verdadeiramente como pública.

A segunda questão é mais complexa. Que, em país de saúde e educação precárias, transferir recursos a uma televisão certamente produz (alguma) perplexidade. E a essa dúvida, mais ética que política, não se responde apenas fazendo uma boa televisão. Ou uma boa televisão independente.

Comunicação e democracia

É pouco. A TV Brasil tem que ser isso, claro. Só que deve ser mais. E, aqui, o futuro aponta em duas linhas de ação.

Primeiro, deve ser a cara do país. O Brasil deve se reconhecer nela, com todos os seus sotaques e cores. Compreendendo que tantas diferenças nos enriquecem. Funcionando à margem da "lógica de rede", que preside a programação das grandes corporações privadas.

Na prática, já se vendo, não deve ser uma emissora do Rio ou de São Paulo que transmita programas das diversas regiões do país. Mas estimulando que programas sejam produzidos em cada um desses lugares. Integrando TVs educativas, culturas ou universitárias já presentes em (quase) todo o país. Aqui, a tentação de concentração deve ser fortemente evitada.

A segunda linha exige pensar grande. Começando por reconhecer que a lógica da informação mudou. Até a década de 90, era basicamente compreendida em sua dimensão nacional; sendo a principal preocupação as relações entre as corporações de comunicação e a democracia. Mas, agora, vale também como soberania. Importante sobretudo porque vivemos a internacionalização dessa informação.

Ambiente digital

Nesse campo, a resposta da TV Brasil deve ser buscar parceiros na América Latina, em ação mais ampla. A Federal Communication Commission americana, por exemplo, passou, nos anos 2000, a apoiar a formação de fortes conglomerados de mídia. Por compreender que o jogo se jogará, agora, fora dos Estados Unidos. O mundo é o mercado. Tudo sugerindo que o ambiente dos meios de comunicação vive mudança extrema, para a qual talvez nós não estejamos preparados.

Por tudo, cabe agora produzir conteúdo que expresse nosso verdadeiro rosto. E, para além, decidir também se vamos jogar esse jogo de uma mídia internacional ou continuaremos no papel passivo e subalterno que até agora exercemos. Decidir se estamos dispostos a fazer parte desse conjunto de extraordinárias transformações prometidas pelos meios de comunicação eletrônica. Um desafio que, bem visto, une interesses de TVs públicas e privadas brasileiras.

A TV Brasil está em seus primórdios, é certo; que só poderá se afirmar em um ambiente digital, ainda em formação no país. Belo projeto, concebido como espaço de afirmação dos compromissos previstos na Constituição Federal (artigo 221), com educação e diversidade cultural. Amanhã, poderemos até concluir não ter valido a pena. Mas é cedo para previsões pessimistas, senhores.

Comentários (5)
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rogerio  cardozo , Tubarão-SC - vendedor
Enviado em 6/1/2008 às 11:23:26
A educação é carissima no nosso pais, espero que a tv publica tambem olhe para esse lado, em prena era da informatica e internet só existe um programa que fale disso na tv ( HARDSOFT), ou a tv tem medo da internet ou é falta de visão mesmo. A tv publica tem que ser inovadora usando a tv não só para informar mais formar, o Brasil precisa de u8m canal de tv que mostre o que os artistas braliseiros estão fazendo de melhor em todas as areas: Cinema, Desenhos, Documentarios, Musica, etc.... . Para mim hoje o melhor canal de tv do Brasil é a Tv Cultura de SP, que tem uma linha de conduta voltada para o bem publico. Um abraço.
Thiago Conceição , Campinas-SP - Programador
Enviado em 4/1/2008 às 17:39:58
Mas isso só pode ser piada: "censurando os movimentos que surgem da luta de classes". Como a mente dessas pessoas funciona? Mas sem querer o "publicitário" deixou claro como será a TV Brasil. Será exatamente assim, com essa mentalidade Marxista. José Paulo Cavalcanti, eu não diria que será uma emissora de TV puramente com o propósito de ser "chapa branca", mas com certeza será uma emissora que usará do Marxismo para produzir o seu conteúdo assim como tão perfeitamente fez o tal Luiz Aragão. Marxismo que, diga-se de passagem, já foi destruído no mundo civilizado como uma fraude, mas aparentemente os "acadêmicos" brasileiros, que mais parecem ser de escola de samba, não se deram conta.
Luis Antonio Aragão , fortaleza-CE - publicitário
Enviado em 4/1/2008 às 12:28:18
A ditadura da comunicação dos meios privados,existe apenas com o objetivo de manter o sistema livre de quaisquer manifestações políticas,e censurando os movimentos que surgem da luta de classes.A forma tendenciosa e leviana da mídia,tem levado ao atraso o desenvolvimento intelectual do povo,produzindo autômatos da sociedade de consumo,em detrimento das necessidades reais da população.Esse atraso,levou o país a um retrocesso cultural de proporções catastróficas.Há mais de meio século ,à esse poder subliminar ninguém se contrapóe,pelas reações nefastas que vão desde a vida pessoal do contestador,até a sua integridade física.Esse modêlo econômico perverso,se encontra firme até hoje,graças a mídia corrupta,Cassaram a Tupi,para fixarem de maneira anticonstituicional uma emprêsa estruturada com capital estrangeiro.Que são concessões?Quanto tempo duram?Como se admite que as ondas eletromagnéticas que pertencem ao povo,sejam vetadas à ele?A pornografia e a violência estão sendo banalizadas,extraindo a dignidade e a infância,criando uma geração que nos apavora.Diria que Goobles não imginou tal crueldade.
Luciana Carvalho de Melo , São Gonçalo-RJ - Estudante
Enviado em 4/1/2008 às 09:29:43
Acho que as iniciativas pública e privada deveriam acabar com esse tipo de discussão que só atrasa quem quer fazer algo pela educação do povo! Poderiam investir, juntos, na TV Brasil. Se o governo quer realmente deixar seu povo informado, encontrará medidas para essa questão. Porém, sem propagandas enaltecendo a prefeitura, o governo ou empresas, mas sim, as pessoas que trabalham realmente!
Edmilson Fidelis , BH-MG - Analista de Sistema
Enviado em 3/1/2008 às 15:10:01
A primeira pergunta está errada. Creio que a preocupação é: A TV pública vai fazer propaganda enganosa do governo? Ou melhor: A TV pública vai contradizer as TVs abertas? Ou melhor ainda: A TV pública vai fazer campanha política para o governo? E para qual governo? Este ou o próximo? Ou, o após o próximo? Os que são contra a suposta propaganda deste governo manterão esta opinião em um próximo? Ou seria: A TV pública será capaz de concorrer, em qualidade, com as TVs abertas, que temem perder a hegemonia no padrão imposto aos telespectadores? Teria a diversidade proposta para a TV pública o poder de quebrar a uniformidade conseguida pelas TVs abertas ao longo de tantos anos de massificação? Poderia ser detectado algum sinal de inteligência e talento fora da Grande RJ ou da Grande SP? Em um país socialmente carente o que vale a pena? Fazer boas escolas públicas? A iniciativa privada não deixa. Fazer excelentes hospitais públicos. A iniciativa privada não deixa. Investir em cultura? A iniciativa privada não deixa. A iniciativa privada que se acha capaz de tudo, mas não faz nada sem se valer dos cofres públicos. Não sem antes satisfazer seus próprios interesses. E que são muitos. Gastar com TV pública não pode. Salvar TVs privadas pode? E a perplexidade? Quanto ao jogo internacional, nosso papel já esta reservado como meros espectadores. Aliás como já somos há muito tempo.
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