ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 470 - 9/2/2010
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ESTATAL OU PÚBLICA?
A televisão que não ousa dizer o nome

Por Gabriel Priolli em 29/1/2008

Televisão pública ou televisão estatal? Qual a diferença entre elas? Existe alguma distinção significativa? A emissora que o governo federal está implantando é mesmo pública ou é uma estatal dissimulada? E as emissoras já instaladas em todo o Brasil, são emissoras de interesse e uso público ou são ferramentas de marketing governamental? Enfim, do que estamos exatamente falando, quando falamos em TV pública e em TV estatal?

Faz tempo que o país precisa de uma resposta mais clara para essa diferença. A rigor, desde 1988, quando a promulgação da "Constituição Cidadã" instituiu um modelo tríplice para a televisão brasileira – ao aludir, no artigo 223, ao "princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal". Como o artigo nunca foi regulamentado nesse aspecto, segue o país sem saber quais seriam precisamente, definidos em termos legais, os três sistemas apontados; e sem saber, muito menos, o que se entende pela complementaridade entre eles. E é assim que inúmeros equívocos e problemas acontecem, como esses que envolvem no momento o governador do Paraná e a TV Educativa local.

É de conhecimento geral que o governador Roberto Requião mantém uma relação tempestuosa com a mídia privada do Paraná. Seja pelo estilo agressivo e personalista do mandatário, seja porque ele cortou totalmente os polpudos gastos de publicidade do estado (que teriam sido de 1,5 bilhão de reais no governo Jaime Lerner), o fato é que os dois bicudos não se beijam. Como não encontra nos jornais, rádios e TVs comerciais o espaço que desejaria para divulgar suas ações de governo e debater suas idéias políticas, Requião decidiu utilizar a TV Educativa. Criou o programa Escola de Governo, onde é a atração máxima, e interfere sem hesitar na linha editorial da emissora.

Por meio da TV Educativa, o governador paranaense revida ou faz críticas a seus adversários políticos. Quando pôs em sua linha de mira o Ministério Público e o Judiciário estaduais, denunciando neles o que considera privilégios, o caldo entornou. Foi proibido de usar a emissora educativa e sujeito a multa pesada, em caso de desobediência. Revidou mandando pôr no ar a sua imagem com o áudio cortado e o letreiro "censurado". Proibido novamente, agora de repetir o estratagema, e com a TVE obrigada a inserir mensagem de desagravo a promotores e juízes, Requião foi adiante: tirou a programação do ar, inserindo apenas a mensagem obrigatória, para enfatizar a suposta censura a que o estavam submetendo.

Sociedade representada

Não é o caso de analisar aqui o problema específico de Roberto Requião com a mídia e os poderes judiciais do Paraná, tema que já foi tratado com competência por outros colegas neste Observatório. Mas há que se ressaltar, no episódio, a absoluta transparência do governador no uso político da televisão educativa paranaense. Ele não tem a menor dúvida de que a TVE é uma ferramenta de governo e não vê qualquer problema em afirmar o seu direito de utilizá-la, quando julgar conveniente. "É essa a finalidade da TV Educativa do Paraná?", pergunta-lhe o repórter Fausto Macedo, do jornal O Estado de S.Paulo. "É uma televisão pública, é a televisão do estado do Paraná", responde Requião. "Ela funciona na formação da opinião."

Aí está, límpida e clara, expressa objetivamente num problema político grave de um estado brasileiro importante, a confusão conceitual entre televisão estatal e televisão pública. O que o governador Requião entende por televisão pública seria, mal e mal, uma televisão estatal – supondo que, numa estação dessas, é aceitável a comunicação política do governante, e não apenas a comunicação institucional de sua gestão. Mas, com toda a certeza, a forma como o governo Requião relaciona-se com a TVE-PR não faz dela uma TV pública, nem favorece que ela se organize como tal.

Em linhas grossas, a distinção entre os dois tipos de TV é clara. A TV estatal seria aquela diretamente financiada e gerida por organismos de Estado, da administração direta, enquanto a TV pública seria bem mais complexa. Teria financiamento tanto do Estado (recursos orçamentários) quanto do mercado (na forma de patrocínio e apoio institucional), ou ainda da própria sociedade (por intermédio de doações, mecanismos de captação direta de recursos junto aos telespectadores e fundos públicos não-geridos pelo governo – algo que inexiste ainda no Brasil). A diferença se estenderia também à gestão. A TV pública estaria submetida, necessariamente, a um conselho de representantes da sociedade, que teria autonomia total para orientar a linha editorial e destituir dirigentes, caso não a cumprissem.

Discussão interditada

O problema é que, na prática, essa diferenciação não funciona. A televisão pública, entre nós, ainda é apenas um rótulo, ou no máximo um projeto. É um rótulo para todos aqueles que julgam insuficiente o conceito de televisão educativa, o único que está tipificado em lei para distinguir a televisão não-comercial. Como acreditam que a simples idéia de educação pela TV aborrece o público, não poucos operadores desse campo passaram a utilizar o termo "televisão pública", mais palatável e "vendável". Outros, por sua vez, encaram o conceito como uma meta, um projeto político-cultural de transformar a TV educativa existente, quase toda estatal, em efetivo organismo sob controle da sociedade, livre das ingerências políticas dos governantes.

É assim que o termo TV pública serve a todos – especialistas, políticos, mídia, universidade e, cada vez mais, ao próprio cidadão comum – sem significar nada preciso para ninguém. O governo federal propõe a unificação de sua estrutura de televisão e transformação dela em TV pública, mas sob a égide de uma nova empresa estatal, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). A oposição e a mídia, juntas e fechadas nessa questão, atacam o projeto por ver nele a formação de um braço governamental de propaganda e preferem nomear a recém-criada TV Brasil de "TV Lula".

Especialistas e a universidade gastam tinta e saliva para tentar aclarar os termos do debate, mas não logram o mínimo sucesso. E o cidadão segue absolutamente perdido em meio ao tiroteio, sem saber o que, de fato, está acontecendo e que bendita televisão estão lhe propondo.

Grave nessa história é que a medida provisória que institui a EBC e a TV Brasil será examinada pelo Congresso nas próximas semanas, sem que a balbúrdia conceitual esteja aclarada. As contingências da luta política impedem que o debate se faça, até porque, preciso ou impreciso, o discurso das duas partes em torno do assunto já está montado, a opinião pública já vem sendo submetida a ele, as posições (pró ou contra) vão se consolidando e não interessa mudar nada agora. Da mesma forma, a elevada temperatura política do Paraná neste momento impede que os contendores se dediquem a discutir qual o verdadeiro caráter, atual e futuro, da TVE – se é emissora pública de interesse coletivo ou se é estatal de interesse governamental.

Nada, nada, nada

A superação desse dilema – estatal ou pública – para o estabelecimento do que a Constituição propugna – estatal e pública, e também privada – é imperiosa para o desenvolvimento harmônico da televisão brasileira – e para a complementaridade de suas partes constitutivas.

Enquanto o país não enfrentar esse debate, apenas a televisão comercial seguirá crescendo, porque não carece de definição e não depende do Estado (até porque tem poder político suficiente para mandar mais nele do que obedecê-lo). A televisão estatal e, sobretudo, a pública não terão meios de encontrar seus espaços de atuação, suas formas de viabilização e a segurança jurídico-institucional que necessitam.

Sim, mas dirão alguns do que lêem este artigo: precisamos mesmo de televisão pública e de televisão estatal? A televisão comercial que temos, explorada em regime de concessão pela iniciativa privada, já não dá conta das necessidades do país? Não seria melhor gastar os recursos da TV pública e TV estatal em outras necessidades? Aqui se opõem as visões de quem julga que o mercado é a força-motriz de todo o progresso e de quem acredita num estado forte, regulando e fiscalizando o mercado.

Se a TV comercial desse conta de tudo que se espera dela – educação, informação e cidadania, além de diversão e comércio – não haveria o que discutir. Mas não é exatamente o que ocorre. Por outro lado, o campo público da televisão é hoje composto por cerca de 180 estações geradoras de conteúdo (educativas, comunitárias, universitárias, legislativas, institucionais), com quase 3.000 repetidoras em todo o Brasil. Não é a melhor televisão do mundo, mas faz o que pode para oferecer ao público o que a TV comercial sonega.

Alguém propõe que a TV pública seja privatizada? Os insatisfeitos com a TV comercial defendem que seja estatizada, ou convertida em TV pública? Não se ouve nada a respeito, de nenhum lado. Se é assim, tratemos de respeitar a Constituição do país, regulamentando o artigo 223 e começando a discutir as questões da televisão não-comercial com mais seriedade, precisão e objetividade do que vem ocorrendo até agora.

***

Sobre o ministro das Comunicações, Hélio Costa

Agradeço a atenção que o sr. ministro Hélio Costa dedicou a comentários meus publicados neste Observatório [ver "Concessões de TV. Receita para superar a pizza"], contestando-os democraticamente no artigo "Ministério das Comunicações responde. A renovação das concessões das emissoras de TV". Mas lamento que tenha visto neles leviandade, maldade e desrespeito, quando procurei apenas exercer o direito de crítica, analisando assunto de interesse social com civilidade e estrito espírito público.

Nada tenho a acrescentar ao já colocado. As complexas relações entre a radiodifusão e o Estado, no Brasil, são de conhecimento geral, em particular dos informados leitores do OI. Todos sabem que este é um campo em que presidem as circunstâncias políticas, com a normatização jurídica sempre subordinada a estas. Se o sr. ministro assegura que "vem adotando medidas duras e severas" no enquadramento das emissoras de rádio e televisão aos imperativos legais, cabe conhecê-las, acompanhá-las e desejar que tenham a máxima efetividade.

Apenas esclareço que, embora pertencente – há menos de um mês – ao quadro diretivo da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura de São Paulo, escrevi o artigo em caráter estritamente pessoal, sem externar nele qualquer conceito que possa ser entendido como o pensamento oficial da emissora pública paulista. Estou certo de que, no momento de renovação de sua outorga, a TV Cultura demonstrará sem a menor dificuldade a sua estrita obediência às determinações constitucionais e legais da radiodifusão.

Comentários (8)
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Cid Elias , Fortaleza-CE - Hoteleiro
Enviado em 31/1/2008 às 01:39:17
Ah...o grande Gabriel faz parte do Conselho da TV cultura, aquele ninho de aves bicudas? Não precisa explicar, eu só queria entender!
Marco Vitis , São Paulo-SP - Professor
Enviado em 30/1/2008 às 21:40:56
Gabriel, você precisa apontar fatos concretos. A TV Brasil já está no ar há algum tempo. Ela foi instrumentalizada pelo governo federal ?Quando ? Você considera a TV Cultura totalmente independente do poder político do governador do Estado de SP ? A opinião tem que ser respaldada em fatos. Ou não ?
Fabiana Tambellini , São Paulo-SP - comerciante
Enviado em 30/1/2008 às 16:20:45
Essa indefinição e falta de clareza tem apenas um beneficiário: o político. Se no caso da TV Educativa do Paraná o conflito está escancarado, governador e judiciário batendo boca em torno de interesses nada públicos (o judiciário só contestou o programa de Requião quando este denunciou malfeitorias do judiciário paranaense), em São Paulo a TV Cultura posa de independente mas apresenta um jornalismo absolutamente governamental.
Marco Antônio  Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 29/1/2008 às 18:43:07
TV pública ou TV estatal são ovos do mesmo bolo! Que diferença faz ser assim ou ser assada, quem ira usá-la para promoção pessoal ou de suas agremiações políticas serão os "sinceros" e "honestos" políticos do circo mambembe que percorre todo o cenário nacional, os quais vão abrir suas lindas cavidades de entrada de alimentos que enche o bandulho e, saída automática de "abobrinhas" e bobagens em geral. O que será que poderemos esperar da grade programatial dessa emissora, é só aguardar, quem viver verá coisas e lousas?
Jose de Almeida Bispo , Itabaiana-SE - Publicitário e radialista
Enviado em 29/1/2008 às 15:45:06
Ah! Então o Sr Prioli faz parte do Conselho da TV Cultura (que, esclareça-se: juro, não tem um mínimo de intervenção do Serra; só de assessores com ele antenados desde os movimento da Juventude Católica e depois a UNE pre-1964). O lamentável, Sr Prioli, não é a opinião. É a falta de sinceridade dela. O que está por trás dela. Não vejo nada demais num colunista ser serrista, lulista, nazista... o problema é passar a idéia de isenção. Quanto à questão da TV Pública, concordo com V. S., tem que queimar. Artur Virgílio tem que inflamar o discurso e detonar. Afinal de contas este será o país de Jesus. Edir Macedo numa ponta e os numerários da Opus Dei da outra. Vai ser uma beleza. Nem a França da noite de São Bartolomeu fez tanto. Ou V S. acha que a TV comercial - que já está aos pedaços - aguentará a tonificada Record? E a sua concorrente, também tonificada, a rede Católica?
Manuel Luiz  Lopes , Brasília-DF - Geólogo
Enviado em 29/1/2008 às 15:39:46
Gostaria de entender a justificativa para o fato de as TVs abertas poderem ter patrocínio de grupos determinados, interessados em assuntos específicos, inclusive na depreciação de govêrnos que não lhes interessam, e o govêrno- órgão concedente da atuação das empresas de TVF- não pode ter uma emissora que divulgue publicamente seua atos e permita e manifestação de seus representantes, de forma diversa da permitida nas TVs ditas "abertas".Gostaria nde saber também por que razão, quando pagfo uma assinatura de TV a cabo, sou obrigado a ver não só a propaganda de produtos, como programas inteiros de divulgação de produtos pagos pelos patrocinadores. Não é o caso mais escrachante de abuso na TV ? Ou o lixo que vier para o povo não deve ser objeto de preocupação? Só o que pode confrontar os grande grupos com tendências claras e definidas, além de divulgadas, podem se defender e questionar? Democracia é poder falar o que se quer, desde que não seja o govêrno, eleito, escolhido, dirigente, a falar?
Eduardo Goulart , Niteroi-RJ - Estudante
Enviado em 29/1/2008 às 15:15:18
O artigo mais importante na nova regulamentação da tv pública deveria ser o seguinte : - Fica vedada a utilização da tv pública para usos e fins políticos.
Fernando Schweitzer de Oliveira , Florianópolis-SC - Ator Não-Global, Diretor Teatral, Cantor, Escritor e Jornalista
Enviado em 29/1/2008 às 12:15:03
Como assim? Nenhum comentário? É Gabriel. Acho que não teremos uma BBC no Brasil Varonil. Nem mesmo uma RTP. Aqui em Santa Catarina não temos TV Cultura nem Educatica deste estado... E a repetidora da TV Cultura SP, nos transmite um sinal pífio. Aqui está píor!
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Gabriel Priolli

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