ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 473 - 9/2/2010
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A IMAGEM FIXA
(que, no entanto, se move)

A vida pelas tabelas

Por Eugênio Bucci em 19/2/2008

A divulgação, nos jornais de terça-feira (19/2), dos números da mais recente pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes, a já tradicional "CNT/Sensus", vem abastecer a obsessão nacional pela popularidade das figuras públicas e, mais que isso, pelo monitoramento minucioso dos indicadores que atestam a força ou a fraqueza dessa popularidade. Temos aí um dos traços que distinguem nossa era das que a precederam: a mania por indicadores. Eles ganharam o estatuto de critério da verdade – na política, na economia, em qualquer setor.

Na economia, nem se fala (só se conta, com o perdão do trocadilho). Analistas de investimentos transnacionais avaliam o nível de reservas cambiais, a taxa de inflação, a política de juros e mais dezenas, centenas, milhares de numerozinhos antes de recomendar compras de papéis deste ou daquele país. Da mesma forma, os que compram e vendem ações na Bolsa de Valores se divertem ao acompanhar balanços, projeções e performance das empresas.

Em atividades bem mais comezinhas, como dirigir um automóvel, dá-se o mesmo. Nos carros, há ponteiros para cada oscilação do motor, da suspensão, da temperatura externa, da pressão dos pneus, cabendo ao motorista supervisionar aquilo tudo com a fleuma de um comandante de Boeing – profissão, aliás, que se resume à administração de um painel digital repleto de indicadores.

A popularidade dos homens públicos

Também no cuidado do corpo miserável de cada um de nós, o acompanhamento dos indicadores tornou-se uma febre epidêmica, a ponto de as neuroses da gestão corporativa terem se transferido sem a menor adaptação para o que eu poderia chamar aqui de gestão do corpo saudável.

As principais vítimas da nova febre são os executivos, os pobres executivos. Nas empresas, submetem-se a doutrinações que tentam ferozmente convencê-los da necessidade de que – a expressão é boa – gerenciem a própria saúde. Em pouco tempo, eles passam a olhar os índices de açúcares e gorduras no sangue, os ácidos, a cronometragem da caminhada diária como se olhassem para as planilhas de fluxo de caixa, de margem operacional, do "yibítida", como dizem.

Os operários das minas de carvão do século 19 tinham os pulmões abatidos pela fuligem; os executivos do século 21 têm a alma calcinada pelos indicadores numéricos. Vão ao médico religiosamente e este, mais do que apalpar-lhes o corpo, analisam os algarismos. Regularmente, com ar de reprovação, passam-lhes pitos e novas tarefas – novas metas, novas metas, sempre – aos ansiosos executivos. Para eles, a doença pesa como vergonha: é um erro de gestão que cometeram. O bem-estar, a felicidade, essas coisas não importam: o que conta são os indicadores.

É, portanto, culturalmente natural que, na era, ou melhor, na civilização da imagem, tenhamos nos tornado obcecados pelos indicadores de saúde também da imagem. Da imagem dos outros, de preferência, mas também da nossa, uma vez que nossos movimentos tendem a conformar ou a estragar a nossa imagem. Pois bem, se o que mais importa é a imagem, como se pode gerenciá-la? A boa imagem dos homens públicos, ou seja, a sua popularidade – que, evidentemente, vale muito mais que sua reputação –, é acompanhada periodicamente, mais ou menos como se fosse um reality show. É isso, essa apetitosa atração, que a CNT/Sensus vem nos trazer.

Então tudo seria um truque de comunicação?

Os reis de Tebas, na Grécia mítica, quando se punham em dúvida, mandavam chamar Tirésias, o adivinho, que, embora cego, sabia dizer do passado, do presente e do futuro. Sabia o que tinha acontecido nas gerações anteriores – conhecia mesmo os segredos de morte, aquelas terríveis histórias que ninguém jamais contava para ninguém – e tinha o dom de prever perfeitamente o que estava para acontecer.

No século 18, os revolucionários franceses, quando em dúvida, chamavam os filósofos ou, melhor ainda, invocavam o melhor da filosofia para ilustrar o povo e acender a bola de cristal da opinião pública. Aí, olhando com atenção para o seu brilho fatídico – a luz sem sombras da opinião pública – concebiam o melhor caminho a seguir.

Os bolcheviques, quando em dúvida (embora para os bolcheviques a dúvida fosse um sintoma grave de menchevismo atroz), mandavam vir o ideólogo que havia dentro de cada um. Sapecavam uma análise de conjuntura pelo método de que dispunham e então extraíam a melhor direção para conduzir as massas.

Na política hodierna – o adjetivo, aqui, é imperativo, com o que ele tem de moderno e de odioso –, o protagonista, o observador ou o financiador do jogo do poder, habitualmente, manda contratar o marqueteiro – e este, por sua vez, cuida de providenciar uma pesquisa. Às vezes uma "quali". Outras vezes, uma "quanti", com sói ser o caso da CNT/Sensus.

O retrato da pesquisa é absolutamente favorável ao presidente Lula. Ele tem 66,8% de aprovação e seu governo conta com 52,7% avaliação positiva, os melhores índices desde o início de 2003. Há uma profusão de indicadores, para todo tipo de ilação. Quantos votariam no candidato indicado pelo presidente, agora, nas próximas eleições das prefeituras? A quantas anda a cotação dos possíveis candidatos para 2010? O escândalo dos cartões corporativos vai prejudicar a popularidade presidencial?

Claro que não vou fazer aqui interpretação da "quanti" (o objetivo desta coluna não é comentar pesquisa). O meu foco reside em explorar um pouco mais o fascínio que a imagem, a construção e a gestão da imagem e, acima de tudo, essa intrigante possibilidade de a imagem se mover exercem no noticiário político.

Uma marca, uma grife

A dificuldade dos interpretadores – tanto os governistas como os oposicionistas – em lidar com o fato de que a alta popularidade do presidente parece passar ao largo das críticas veiculadas pela imprensa indica que, no senso comum da nossa cultura política, a imagem de um político é pensada, ainda, como um produto que se constrói com técnicas de comunicação.

A ilusão de que a ação consciente do sujeito-manipulador tudo pode, a presunção da onipotência, ainda habita o imaginário político. Mesmo aqueles que embasam na economia – "é a economia, estúpido" – as explicações para o bom "desempenho" de Lula, falam em "blindagem" para justificar o que parece contrariar as leis dessa ciência exata que é a avançadíssima gestão privada das imagens públicas dos outros. Sugerem que a economia foi e vai tão bem que a figura do presidente paira, inatingível, sobre o plano conturbado em que os políticos mortais se estapeiam com denúncias de prevaricação de todo tipo. Nesse sentido, a explicação de matiz econômico não desautoriza a crença de que a imagem é algo que se fabrica por meio da propaganda massiva, mas identifica, no caso de Lula, uma exceção que confirma a regra.

É como se dissessem: o caso do presidente é uma exceção, pois tem carisma e, além de carisma, tem a sorte de estar blindado pela economia; caso ele não fosse exceção, hoje a sua popularidade estaria bastante abalada. Nesse sentido, a ideologia da pesquisa, se é que se pode falar aqui em uma "ideologia" de pesquisa, seria aquela de, ao apresentar o diagnóstico, vender o remédio, qual seja, uma boa e permanente assessoria de comunicação. O governante, enfim, recebe as análises que uma marca de calçados receberia – ele é uma marca, alguns chegam a dizer, é uma grife –, e sua imagem, portanto, carece de ser administrada como tal.

A opinião pública não tem que obedecer a opinião de articulistas – nem estes precisam dizer amém às preferências da massa: a imprensa é boa quando é lugar de dissenso, não de regência do pensamento alheio

O vínculo direto, um tanto linear, que alguns estabelecem entre a opinião média dos articulistas de jornais e a opinião dos eleitores já deveria ter caído há mais tempo. Não se trata de um vínculo necessário: a formação da opinião e da vontade admite outros ingredientes além daqueles fornecidos pelos meios de comunicação convencionais – e isso há muito, muito tempo.

A formação da opinião e da vontade vem de experiências e vivências, o que envolve mecanismos imaginários, até narrativos (o modo como cada um descreve e narra sua própria condição), mas envolve também percepções menos verbais e mais palpáveis como alterações no padrão material de vida e, sobretudo, de perspectivas de vida.

Vendo o mesmo fenômeno por outro ângulo, o fato de a opinião dos articulistas não ser corroborada pela opinião dos eleitores – em pesquisas, ou mesmo nas eleições – não significa que eles estejam errados, pois as razões que movem suas convicções são absolutamente outras – e igualmente legítimas.

As páginas dos jornais abrigam – e é bom que abriguem – questionamentos e críticas; noticiam temas que, na maior parte das vezes, o poder gostaria que ficassem ignorados. Se houvesse – e talvez devesse existir – uma listinha dos indicadores da qualidade nos jornais, veríamos que, por mais que isso incomode, a saúde deles é dada pelo bom tratamento – objetivo, crítico, apartidário, aprofundado – de assuntos que, nos gabinetes de governo, seriam chamados de pauta negativa.

Ora, não é porque os jornais cumprem o seu dever de problematizar o que parece pacífico que um governo passará a ser mal avaliado. Ele será mal avaliado quando, na sua vivência prática, os cidadãos tiverem contato com os malefícios materiais trazidos pelos problemas apontados pelos articulistas. Em suma, o entrevistado pela pesquisa diz, a seu modo, que, se o assunto da pergunta não mudou sua rotina, ou, mais exatamente, não piorou sua vida, é um assunto para o qual ele não está nem aí.

Isto posto, deixo isso pra lá. Como tenho avisado em artigos anteriores, o meu objeto é a imagem e seus desígnios – nada a ver com o jornalismo político. A política, a exemplo de quase todos os outros territórios da nossa vida, tem sido governada pela imagem – e esta, como o resto, é obsessivamente acompanhada pelo público por meio dos indicadores que inventamos e nos quais acreditamos como os reis de Tebas acreditavam nos oráculos. Vamos assim, com a vida esquadrinhada pelas tabelas.

Os gráficos das enquetes de opinião mostram como a imagem fixa pode se mover. Como ela está prestes a se mover. A de Lula, é bem verdade, vem se movendo cada vez mais para o alto, mas até ela poderá cair. E isso, como se fosse novela, captura a audiência. É uma questão de crença, mais que de ciência. No país onde todo mundo dá palpite sobre futebol, novela de televisão e economia, agora todo mundo é especialista em imagem, ou melhor, em monitoramento de imagem. Um fetiche, provavelmente, mas um fetiche que diz mais sobre como vivemos do que a pesquisa CNT/Sensus diz sobre a imagem do presidente da República.

Comentários (9)
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Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 25/2/2008 às 04:34:13
"É inegável que a imprensa age dentro de certos interesses": nos ultimos 10 ou 12 anos a imprensa esteve COBERTA de elogios e mais elogios -e blindagems sem fim- a pessoas que essencialmente destruiram o Brasil multiplas vezes. Todos dos 2 mesmissimos partidos.
Geraldo da Silva , Porto Alegre-RS - Jornalista
Enviado em 23/2/2008 às 17:24:54
Está chegando a um momento interessante este debate sobre a disputa entre imprensa e governo Lula, e seu efeito sobre a população. É inegável que a imprensa age dentro de certos interesses (claro, há os casos extremos que nem precisam ser citados) e só algum romantismo me faria crer que pudesse ser diferente. Mas é inegável que, apesar disso, esta mesma imprensa cumpre um papel imprescindível como contraponto aos inquilinos do governo, deste e de qualquer governo. Por outro lado, é inegável que há no governo Lula falcatruas, erros, falhas administrativas, casos de corrupção etc, que precisam ser denunciados. Casos que não se diferem dos ocorridos em governos anteriores, o que não justifica. Movida por seus interesses, e dentro de uma estratégia acertada com a oposição, a imprensa transforma qualquer caso em crise, de forma que uma crise é igual a outra e outra e outra. E nenhuma é maior que outra, a ajuda a firmar a versão de que a mídia fabrica crises. Mas, para o bem ou para o mal, a imprensa tem este papel de manter a população informada (65% sabem do caso dos cartões, diz a Sensus). Mas o mais interessante desta história é que, confirmando o que a eleição de 2006 mostrara - que a imprensa não tem o poder de condicionar a opinião pública -, evidencia-se que a população definitivamente aprendeu a filtrar o que há de verdade e o que a de exagero nas coberturas.
Carlos Esteves , sp-SP - autônomo
Enviado em 22/2/2008 às 09:18:02
O grupo do qual fazem parte os donos da mídia governou este país por muito tempo. Resultado? Submissão ao FMI, dívida externa que parecia insolúvel, crises internas ao menor espirro dos EUA, baixo crescimento, baixa geração de empregos, etc. O Brasil parecia mesmo aquele Brasil Jeca-Tatu dos que queriam que a gente acreditasse que este país nunca teria jeito. Pois bem, faz só 5 anos que um homem oriundo do povo tornou-se presidente graças a um partido nascido do movimento sindical e ontem nós tivemos a notícia de que as reservas cambiais superaram o valor da dívida externa... É pra continuar levando a sério uma mídia que passa o tempo todo malhando o governo federal por conta de uma tapióca enquanto se esmera por minimizar os maus-feitos dos governos estaduais/municipais em mãos da oposição? Não dá mais pra levar a sério articulistas & cia ltda porque as idéias deles "não correspondem aos fatos". O Brasil progride e para desespero dos barões da mídia e seus amigos, ele progride sob comando de um homem de origem popular. Lula entrou para a história, não só do Brasil, mas do mundo como prova de que o povo é mais sábio do que pensam os coronéis modernos. Mas a nossa mídia serviçal de interesses outros tenta tapar o sol com a peneira. Até quando, até as tiragens de jornais, revistas e a audiência do JN caírem a zero? "Prestoa tenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada"...
álvaro  marins , rio de janeiro-RJ - professor
Enviado em 21/2/2008 às 18:05:46
Quanta tergiversação! Um artigo deste tamanho apenas para esconder o fato de que quem está caindo pelas tabelas é a mídia e sua campanha insana contra o presidente Lula e o PT. Senão vejamos: Veja (-9%); Época (-15%); Isto É (-35%). Enquanto isso a economia cresce, o emprego cresce, a renda cresce e a aprovação do governo Lula já se aproxima da marca de 70% de aprovação. Em tempos de tanto crescimento em todos os setores, os únicos índices que estão se reduzindo é a audiência e a tiragem da mídia e a desigualdade social. E essa é uma ironia prá lá de deliciosa. Viva o povo brasileiro!
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 21/2/2008 às 09:27:21
A grande imprensa dizendo que o povo não sabe o quê é opinião pública ? Desespero, perda de controle sobre o rebanho... É por isso que eles querem nossas escolas públicas cada vez piores - rebanho mais domesticável. As escolas privadas já fazem o jogo da pré-formação de opinião, criando futuros leitores de Veja ainda no ensino fundamental - repare naqueles trabalhos de leitura que os professores pedem a seus filhos. Mas algo nisso tudo está saindo do planejado, e Lula não cai. Há muita gente influente preocupada com isso. Se cuida presidente, que aí vem chumbo. Jornais tem que investigar sim, mas só será justo se lembrarem também dos maç, digo, do PSDB. Até para poderem dar um selo de "nada consta" pro governo Serra e seus buracos.
Fabiano  Mendes , Belo Horizonte-MG - Rep Comercial
Enviado em 20/2/2008 às 18:50:04
Vamos por parte: A opinião pública não tem que obedecer a opinião de articulistas. Graças a Deus a população já não vai mais na onda desses articulistas, que articulam sempre a favor de determinados grupos, de donos dos jornais que lhes pagam, de certos outorgados que ganharam o direito de explorar o espectro das ondas hertezianas, e usam essas concessões públicas para atingir o Governo com mentiras e calúnias, escondendo o que de bom acontece nesse País, de políticos que sempre exploraram a população mais humilde e hoje posam de éticos e defensores da moralidade. Nem estes precisam dizer amém às preferências da massa Muito boa essa assertiva, ou seja, é por isso que houve a campanha do desarmamento orquestrado pelo PIG para que os pais de família brasileiros não tenham oportunidade de defender os seus quando um marginal invade o seu lar. É por isso que malham o Presidente da República todo santo dia, dando vozes aos derrotados pela maioria da população brasileira. ´ É por isso que não pressionam os políticos que fazem oposição a serem transparentes, a aprovarem as mudanças de leis que tramitam a anos no Congresso na questão da segurança da população. A imprensa é boa quando é lugar de dissenso, não de regência do pensamento alheio Essa assertiva então é o máximo. Engraçado que em São Paulo, em Minas, no Rio Grande do Sul, dissenso é palavrão.
André Bezerra , Rio de Janeiro-RJ - Prof. Liberal
Enviado em 20/2/2008 às 17:29:18
Caro Eugênio Bucci, acho que está na hora de rever o papel da imprensa e como ela seleciona o que é notícia. Veja que análise interesante em : http://www.skeptic.com/eskeptic/08-02-13.html#feature
Rafael Dias , Porto Alegre-SE - economista
Enviado em 20/2/2008 às 15:06:31
É um artigo escrito para a grande imprensa. Algo do gênero " desculpem por ter trabalhado no governo Lula". Estão de parabéns C.Rossi, Merval e outros. Eugênio faz questão de lembrar:" não se esqueçam, eu sou um de vocês". Quase chorei, tive que me conter. Francamente.....
Sérgio Baker , Fortaleza-CE - Funcionario Publico
Enviado em 20/2/2008 às 14:23:45
" O articulista não precisa dizer amém para opinião pública, e a opinião pública não precisa obedecer ao articulista". Isso, hoje. Até bem pouco atrás havia uma simbiose articulista/opinião pública. Por quê mudou? Essa pergunta atormenta a nossa mídia, pois não consegue entender porque ainda não derrubou Lula.
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