ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 478 - 9/2/2010
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IMPRENSA ALAGOANA
Os contendores estão cobertos de razão

Por Fernando Soares Campos em 25/3/2008

O senador Renan Calheiros, em entrevista exclusiva à revista Folha Revista, de Barra de São Miguel (AL), declarou: "Por mais que eu tenha feito, é muito pouco, diante da necessidade dos alagoanos". Com isso, Renan apenas revelou o óbvio: pouco, quase nada, um fiasco, é o que se pode dizer de sua atuação e contribuição para o estado de Alagoas. Entretanto, ele certamente fez muito por si próprio e pelos seus apaniguados. Também serviu àqueles que podem ser considerados os mentores políticos do "rei do gado" alagoano.

Em 31 de janeiro último, Renan apresentou sua verdadeira "boiada" à imprensa: reuniu, em sua residência alagoana, cerca de 80 prefeitos, ex-prefeitos e "lideranças", oriundos daquilo que ele considera como sendo os seus currais eleitorais no interior de Alagoas. A Folha Revista, de Barra de São Miguel, litoral sul do Estado, cobriu o evento – para o qual lançou edição especial, com uma tiragem de 10.000 exemplares, distribuídos gratuitamente, porta a porta. São 22 páginas, fartamente ilustradas com fotos, em que Renan aparece abraçado aos seus melhores exemplares de "gado eleitoral", competentes reprodutores de voto.

A revista também publicou entrevista com Renan, considerada furo jornalístico: "É a primeira entrevista que dou depois da crise", afirmou ele, referindo-se ao período em que enfrentou processo de cassação do mandato sob acusação de quebra de decoro parlamentar, do qual escapou; sobrevivendo, porém, na condição de "paraplégico político".

Declarações reveladoras

Quem pagou pela produção da edição especial da Folha Revista? Provavelmente os três únicos anunciantes: a prefeitura de Maceió, um restaurante especializado em comidas típicas do Nordeste e certo empreendimento imobiliário destinado à elite econômica da região. Ainda assim, a revista informa que está "há 4 anos editando credibilidade e responsabilidade". Acho que cada um de nós pode dizer o que bem entende sobre si próprio; mesmo que as pessoas em geral entendam de maneira diferente aquilo que pretendemos dizer.

Além das ilustrações e da entrevista-furo, a revista destaca os salamaleques de alguns prefeitos. O ex-ministro da Integração e atual prefeito da cidade de Arapiraca, Luciano Barbosa, declarou: "Renan é um exemplo de homem público correto, honesto, transparente". Acredite, se quiser.

A "especialíssima" edição da Folha Revista também publicou fotos do folião Renan se esbaldando em meio ao povo, no carnaval de Murici (AL), onde, depois do tríduo momesco, cada um cuida de si, dos bois e dos votos. Pode-se ver ainda Renan numa procissão, num estádio de futebol e soltando a voz, dando uma canja, sob o acompanhamento de uma banda liderada por um ex-prefeito.

Porém, nem tudo é apenas confete e rasgação de seda, pois, na entrevista, o ex-presidente do Senado faz reveladoras declarações sobre o comportamento da ex-senadora Heloísa Helena.

Balcão de negócios sujos

Perguntado sobre sua relação com HH, Renan respondeu: "Nos bastidores, ela era outra pessoa. Vivia se insinuando sobre dinheiro a mim e a outros senadores". O ex-presidente do Senado conta ainda: "Três dias depois da primeira denúncia, quando eu estava reunido com meus advogados, no domingo à noite, ela me telefonou com a colaboração de Laércio, meu motorista, e, chorando, me disse que tudo era uma armação e que estava sendo pressionada pela direção do partido [PSOL] e pela oposição ao governo Lula a assinar a representação. Disse, aos prantos, que me conhecia, sabia de detalhes da senhora Mônica [Veloso] e chegou a afirmar que agi como homem, assumindo a minha responsabilidade como pai, fazendo o que poucos fazem nessas horas".

Ano passado, escrevi artigo sobre a atuação de HH no caso Renan. Pode parecer intuição ou mera coincidência, porém, o que falei, o fiz fundamentado em informações de alagoanos bem relacionados com Heloísa, todos já com a pulga atrás da orelha, cansados do seu histerismo inócuo.

Eis alguns trechos do artigo "Heloísa Helena, hoje: uma versão light da HHH":

"Por que Heloísa Helena não solta o verbo para cima de Renan Calheiros? Simplesmente porque contra Renan o buraco é mais embaixo. Como assim? Ora, se fosse contra Lula, a Heloísa estaria esbravejando aos quatro cantos, como aconteceu durante a campanha eleitoral de 2006. Entretanto, agora se trata de Renan e ela sabe que o senador alagoano conhece tudo sobre Heloísa Helena, portanto qualquer frase ou palavra fora do script pode fazer Renan soltar os podres da Heloísa." (...)

Hoje, de vez em quando, Heloísa cutuca o satanás com vara curta. Mas são só umas cutucadazinhas de leve, para agradar aos senhores da mídia golpista. Geralmente, quando ela critica Renan, dá sempre um jeito de fazer sua crítica se desviar para o Planalto. Como nessa fala: "A base bajulatória do Congresso Nacional e o balcão de negócios sujos distribuindo cargos, prestígio e poder do governo federal", em Porto Alegre, mês passado.

Coisas impublicáveis

No mesmo dia, respondendo a uma acusação de Renan – que chamou Heloísa Helena e o usineiro João Lira, ex-deputado, de "derrotados rancorosos" – HH pegou leve, disse apenas: "Em vez de responder às denúncias graves contra ele, disse que eu estou fazendo calúnias porque quero aparecer na mídia nacional". E completou: "Renan está nesta tática porque eu sei que o desespero deve estar muito grande". Só faltou dizer "Coitado!"

Ei!, turma do PSOL, não faz isso com a Heloísa, não empurra a coitada para o precipício. A professora HH está entre a cruz e a espada. Na cruz do PSOL e ameaçada pela espada do Renan, que, se abrir a boca, fere até a mãe do calor de figo.

***

Transcrevo a seguir mais algumas abordagens da Folha Revista e as respostas de Renan.

"Como o senhor explicaria o fato de a ex-senadora Heloísa Helena ter tentado organizar um movimento nacional contra o senhor, depois desse diálogo que acabou de narrar?

"Renan: Sinceramente, volto a dizer, eu não queria falar sobre essas coisas, mas como já comecei, vou continuar. Uma vez ela me mandou recado por meio de uma senadora, propondo um acordo sobre o que ela e eu falaríamos. Como eu não estava falando nada, desconsiderei. Mesmo assim, ela continuou ligando para vários senadores, pedindo para me condenar. Seguiu pelo Brasil tentando montar o movimento "Fora Renan", que não conseguiu juntar mais de 30 pessoas. Em outras duas oportunidades, fui procurado, em minha residência, por seu companheiro, Mário Agra, que dizia falar em nome da `baixinha´, na presença do Roseevelt Patriota e do seu irmão, pedindo para que eu ajudasse a liberar recursos de emenda coletiva que ela dizia ser dela. Não dei conseqüência à conversa. Ela vive a ambigüidade com a briga do personagem que gostaria de representar e a outra pessoa que ela é. Como disseram, fazendo coisas impublicáveis.

"E como foi o mal-estar da primeira sessão de julgamento, quando a ex-senadora Heloísa Helena representou o PSOL na acusação?

"Renan: Bem, infelizmente vou ter de falar também sobre isso. No dia do julgamento, ela mandou dizer que iria medir suas palavras porque sabia da armação. Como não mediu, optando pelo noticiário fácil, o plenário e o país acabaram tendo conhecimento da sua falsa qualidade de vestal. Ela me obrigou a exibir para os senadores a senadoras todo o processo que tramitou no STJ e no Supremo Tribunal Federal, onde ela foi condenada a pagar mais de 1 milhão de reais por valores recebidos indevidamente da Assembléia Legislativa de Alagoas e da Prefeitura de Maceió, onde acumulou salários. Pior, a condenação, que já passa de 1 milhão de reais, diz respeito também a verbas assistenciais que eram para ser distribuídas com entidades e não foram. Ela usou essas verbas em benefício próprio e nunca entregou a relação das entidades beneficiadas porque com o sistema de fiscalização bancária isso seria facilmente identificável e desmascarado. Preferiu apresentar um ofício do Presidente da Assembléia, que não foi aceito pela Justiça. Ela é a Taturana-mãe porque já foi condenada. Basta ver os documentos da época e o site do Supremo Tribunal Federal.

"Na votação do Luiz Estêvão, o senhor foi citado como responsável pelo voto dela. O que tem a dizer sobre isso?

"Renan: Não foi bem assim. Na briga que ela teve com Antonio Carlos Magalhães, no episódio do voto dela pela absolvição do Luiz Estevão, eu a defendi nos embates, pois considero direito votar como quiser, é problema de consciência. Porém, o repugnante no episódio foi que ela chegou ao cúmulo de afirmar que era filha de empregada doméstica, que havia sido criada nos porões das casas de madames, desnecessária e mentirosamente, quando em Alagoas todos sabem que ela é filha de um fiscal de renda falecido, cuja pensão sua mãe recebe. Ou seja, ela sempre viveu bem, tanto que estudou no Santíssimo Sacramento, na época o colégio mais caro de Maceió, onde também estudavam Teresa Collor e outras pessoas ligadas ao setor produtivo local."

Pelo visto, em relação à troca de acusações entre Renan Calheiros e Heloísa Helena, quando os dois qualificam um ao outro da forma mais degradante possível, infelizmente ambos parecem estar cobertos de razão.

Comentários (4)
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Dilma Alves , Palmas-TO - Func. pública
Enviado em 5/6/2008 às 15:04:34
É um absurdo... São todos hipócritas, "farinha do mesmo saco", infelizmente!
Socorro  Pinheiro , Limoeiro do Norte.-CE - aposentada-serv. público federal.
Enviado em 28/3/2008 às 16:34:31
Gosto da forma como vc escreve, caro jornalista. Suas colocações, ou metodologia dos artigos, são esclarecedoras. Mas, esse díálogo entre os senadores alagoanos(ex) não me surpreende. Nunca pensei que fossem diferentes. HH faz o stilo esquerda radical que só convence aos ingênuos.
Júlio César Montenegro , Fortaleza-CE - Agricultor
Enviado em 26/3/2008 às 11:28:19
Uma das grandes dificuldades, nessa sociedade do espetáculo em que vivemos, é conseguir se manter uma pessoa. Um ser que se relaciona com o mundo, com realidades de impressionante vastidão. Uma pessoa que reconhece e assume sentimentos experimentados, principios aprendidos, circunstâncias encaradas. Além de complexa, tal postura complica a impressão que se passa aos outros, ao público. Daí as novelas, por exemplo, catalogarem as complicações pessoais em categorias simplificadas, mais facilmente assimiláveis pela massa de telespectadores. Há os personagens do BEM e seus oponentes do MAL. Afinal nada como as guerras para despertarem torcidas aguerridas. HH escolheu uma personagem simplezinha, assexuada, honesta, dedicada... furiosamente DO BEM. Daí já facilita classificar quaisquer opositores que "evidentemente" serão DO MAL. Ela faz parte do elenco que procura escamotear as quotidianas maldades, indispensáveis à própria sobrevivência, com bondades eternas alardeadas na praça do mercado. Como isso é moeda amplamente usada, sempre encontra aceitação. Pra mim dá pena.
Bruno  Resende Ramos , Viçosa-MG - Escritor
Enviado em 25/3/2008 às 16:50:14
Em pleno século XXI, a retórica e o embate político não abrem mão da enfadonha circunscrição do discurso. "Eu matei a galinha, mas você matou o cachorro". "Eu matei o cachorro, mas quem matou o cabrito foi você". Um espetáculo típico dos canais de TV que fazem o povo se entreter como num circo. "Respeitável público, eis a Nova (antiga) República!" Felicito o amigo pela publicação do artigo, pois aquele que repousa o senso crítico tem de tê-lo em estado de alerta. AS eleições vêm e temo que no novo pleito novos "Renans" e "HHs"
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Fernando Soares Campos

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