ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 481 - 9/2/2010
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PERPLEXIDADES E ESPERANÇA
Poder da mídia e contrapoder cidadão

Por Venício A. de Lima em 15/4/2008

É conhecido o argumento de Ignácio Ramonet sobre a mídia nas sociedades contemporâneas (ver, neste Observatório, "O quinto poder"). Segundo ele os atuais grupos de mídia possuem duas características: primeiro, "encarregam-se de tudo o que envolve texto, imagem e som e o divulgam por meio dos canais mais variados (jornais, rádios, televisões abertas, a cabo ou por satélite, internet e por todo tipo de rede digital)." Segundo, "são mundiais, planetários e globais – e não apenas nacionais e locais." Isto faz com esses "grupos (deixem) de ter como objetivo cívico o de ser um `quarto poder´, assim como (deixem) de denunciar os abusos contra os direitos ou corrigir as disfunções da democracia (...)."

A lembrança de Ramonet vem a propósito de fatos recentes, tanto no Brasil como na América Latina, que revelam, ainda mais uma vez, o enorme poder dos grupos de mídia, sobretudo na construção da agenda pública e na conseqüente definição dos temas de interesse e debate por parte da maioria da população.

CPI do Detran-RS

Um desses fatos é o impressionante desinteresse da grande mídia pelos trabalhos da CPI do Detran que se desenvolvem na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, em torno do desvio de cerca de 45 milhões de reais de dinheiro público. Resultado de uma investigação da Polícia Federal que começa com contratos do Detran-RS com uma fundação – a Fatec – ligada à Universidade Federal de Santa Maria, as investigações apontam para o envolvimento de partidos políticos através da formação de um caixa 2 destinado a financiar campanhas eleitorais.

Os fatos investigados no Rio Grande do Sul não deveriam merecer a mesma atenção dedicada pela grande mídia, por exemplo, aos graves problemas envolvendo a Universidade de Brasília e a fundação Finatec ou a outras investigações de financiamento ilegal de campanhas eleitorais por partidos políticos?

Governo Kirchner vs. Clarín

Fora do Brasil, chama a atenção a recorrência de problemas entre governos democraticamente eleitos e os principais grupos privados de mídia na América Latina.

Discutir com isenção, por exemplo, o que ocorre na Venezuela, na Bolívia e no Equador tornou-se praticamente impossível tendo em vista a permanente cobertura "adversária" que vem sendo feita pela grande mídia aos seus presidentes.

Ganha nova dimensão, agora, um antigo "mal-estar" entre o governo da presidente Cristina Kirchner e os principais grupos privados de mídia da Argentina, sobretudo, o Grupo Clarín.

O Grupo Clarín, como se sabe, é associado a multinacionais como Goldman Sachs, Buena Vista-Disney e Telefônica; controla o jornal – Clarín – mais vendido, as emissoras de rádio de maior audiência em Buenos Aires, uma das principais redes de TV aberta, canais a cabo, sites de internet, produtoras de cinema e TV e operadoras de telefonia celular, entre outros negócios (ver neste OI "Grupo Clarín: O dono da boca").

O enfretamento recrudesceu com a intenção declarada pelo governo argentino de criar, em parceria com a Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Buenos Aires, um "Observatorio dos Medios" que teria por objetivo promover "a liberdade de que todas as vozes, plurais e democráticas, possam ter acesso aos meios de comunicação". Para o governo argentino, a cobertura que a mídia argentina faz é "discriminatória" e não oferece uma "visão imparcial da realidade".

Inclusão digital

Ao lado da confirmação do poder de agenda dos grandes grupos de mídia, aqui e alhures, continuam surgindo também informações sobre o acelerado avanço da inclusão digital entre nós.

Foi publicado no Diário Oficial da União (7/4/2008) o decreto nº 6424, assinado pelo presidente da República no dia 4 de abril. Esse decreto determina que as operadoras de telefonia fixa criem as condições técnicas (vale dizer, instalem os backhaul) para que a banda larga alcance todos os municípios brasileiros.

Junto à publicação do decreto o governo anunciou também (em 8/4) um acordo com as teles que prevê a instalação de conexão de banda larga – sem custos para os governos (federal, estaduais e municipais) – em cada uma das 56 mil escolas públicas urbanas até o vencimento dos atuais contratos de concessão, em 2025. Todas as escolas públicas deverão ter a banda larga instalada e funcionando até 2010.

Apesar das críticas de que, na forma como ficou, o decreto favorece as teles e sufoca os provedores regionais e comunitários, e de que o acordo para instalação da banda larga nas escolas esconde a entrega da exploração privada do acesso à internet às teles, ele é, mesmo assim, um avanço no sentido da inclusão digital.

Esperança

Ao observador de mídia resta apostar que a universalização da inclusão digital possa um dia permitir que o espaço virtual da internet se constitua no espaço público democrático onde o debate plural e diverso da maioria dos cidadãos possa acontecer. É exatamente isso o que a grande mídia privada não tem conseguido oferecer, não só do Brasil, mas também em outras sociedades democráticas.

Comentários (14)
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Guilherme  Cardoso , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 22/4/2008 às 10:04:31
Estou de pleno acordo com o autor. Infelizmente, quem nos passam as informações do que acontece no mundo são os grandes grupos econômicos. A qualidade e a isenção da notícia não podem jamais existir e ser confiável se quem a produz ou divulga estiver ligado ao poder, seja ele público ou privado. A imprensa ideal seria aquela livre de dependência financeira de terceiros. Que não ficasse refém da publicidade governamental ou privada. Que tivesse outras fontes de recursos. Por exemplo: que as pessoas fossem bastante politizadas e conscientizadas e aceitassem contribuir mensalmente com uma importância para manter um veículo de comunicação. Aí sim, poderia haver jornalismo de verdade.
Lucas Artur , Paiva-MG - *****
Enviado em 21/4/2008 às 21:59:12
Por falar em grande mídia a Tv Globo vem se mostrando em seus jornais uma emissora mediucre em suas criticas ao MST, semana passada assistindo ao Jornal da Globo, vi um comentário lastimavel, do analista politico, social, Arnaldo Jabour dizendo atrassidades contra o MST. A grande midia versus aqueles que a compreendem, num jogo de xadrez, tornam jornalistas como Arnaldo um mero Pião, não um cavalo do Rei, por que jornalista com ética não fala tanta asneira assim, por que se o MST ataca a torre da rainha. poderá certamente deixar a emissora em cheque. Temas como aqueles só são abordados por ancoras pra garantir a economia publicitária da emissora, que mostra propagandas da Vale, de cino em cinco minutos. A Vale nesse caso é o cavalo do Rei, contra-atacando.
salete pretto , canoas-RS - farmácia
Enviado em 21/4/2008 às 16:32:20
A midia gaúcha deixou o rs cheirando a mofo,até os adolescentes já pensam de forma muito conservadora.Quem governa o estado é a família midiática que tem ojeriza por tudo que lembre povo.A prefeitura de Canoas, cidade pertencente a grande poa, foi investigada pela PF e a justiça bloqueou os bens do prefeito e secretários por envolvimento no esquema DETRAN, desvio na merenda escolar, no carnaval de rua, e várias outras irregularidades.Tudo comprovado e a midia não comenta nada sobre porque os corruptos são do PSDB.O rs está à mercê da mídia e os gaúchos viraram boizinhos de curral.Temos a governadora do PSDB que tem sido chamada de corajosa pela mídia.Fechar escolas, não ter plano de governo para o todo mas só para uma minoria , passou a ser sinônimo de coragem. Todos os investimentos que o governo federal manda para o estado, e só dessa forma o rs tem sobrevivido, são anunciados pela midia como " benefícios proporcionados" pela governadora do estado.Um governo que tem muita coisa sob suspeição, é totalmente, vergonhosamente, protegido.
nilton franzoi , joinville-SC - metalurgico
Enviado em 20/4/2008 às 23:19:41
sem comentario ,parabeniso Carlos N Mendes pelo comentario,mais certo do que isso imposivel.voce falou tudo.PARABENS!
Walter Regis , Ponta Grossa-PR - cidadão
Enviado em 20/4/2008 às 09:27:30
Todos os comentários remetem a cenários cada vez mais estarrecedores, desviam as atenções como se estivessem manobrando um veículo. E onde nos levará? Sem amor, a lugar algum e a uma mutação barbara.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 20/4/2008 às 09:12:33
Todo o ano, milhões de paulistas e acredito, outros milhões de brasileiros, são coagidos a contratar os serviços de um despachante. Por quê ? O serviço público de atendimento direto ao cidadão demora meses para fornecer o documento solicitado; o despachante consegue em três dias e, se você estiver com o relógio nas costas, pode pagar o "plus" e voilà! tem o que precisa no dia seguinte. O despachante - ou facilitador, ou intermediário, ou agenciador - que deveria ser um agente para serviços buracráticos, criou uma simbiose tão grande com os DETRANS que, ao menos aqui em minha cidade, as pessoas acham que é o ÚNICO jeito de conseguir alguma coisa com aquela autarquia. Só consegui renovar minha CNH depois de dois meses e cinco idas ao DETRAN local. Um conhecido conseguiu a renovação em 3 dias - depois de ficar R$ 300 mais pobre, é claro. Política não é só votar na urna - é uma luta diária para romper paradigmas de exploração dos cidadãos pelos "mais expertos", sejam eles funcionários do DETRAN, despachantes, políticos ou empresários bem relacionados. No dia que cada um de nós gastar 5 minutos por dia fazendo política, não vamos sequer lembrar o que era uma CPI.
j batista , grlhs-SP - func publ
Enviado em 20/4/2008 às 08:34:38
EDUCAÇÃOXMIDIA-/saimos de uma ditadura para uma libertinagem,rotulada de democracia.A Nação Brasileira de maioria cristã, leis imorais são aprovadas e a midia manipulada, em que a etica,moral e patriotismo são ignorados, afetando a formação de nossos jovens.As escolas deficitaria em eduação e diciplinas, são impotentes para concorrerem com tal midia.Uma professora comentou que após uma novela alunas passaram assediar outras colegas.Na zona leste de sp, uma aluna de treze anos não sabia assinar o nome.Disvirtuando a real finalidade da escola,uma emissora de tv fez uma materia sobre a normalidade de se namorar nas escolas.
antonio barbosa filho , taubaté-SP - jornalista
Enviado em 20/4/2008 às 02:52:06
Entre 10 e 11 milhões de internautas brasileiros visitam os blogs, forma recente de comunicação independente da mídia tradicional e cartelizada. É uma esperança, e devemos aplaudir as iniciativas do governo., correndo os riscos pertinentes. A chamada grande Imprensa tem feito exatamente o que o articulista afirma: tenta pautar a política no interesse do poder econônimo secular; é multinacional, se não global; e tem a ver com Liberdade de Empresa, não de Imprensa. Assisti ao encontro "Latinoamerica vs Terrorismo Midiático", no final de março, em Caracas. Nos 14 países representados o fenômeno é o mesmo. O golpe e seqüestro do presidente Chávez foi tramado dentro de uma amissora de TV, como é notório. E poucos países têm tanta liberdade de expressão como aquele país. A única reação do governo é usar seus canais de Tv para contra-atacar e informar suas realizações. Não há jornalistas presos por opinião, nenhum jornal foi fechado. Dezenas de novos órgãos e emissoras regionais surgiram nos últimos anos, e ninguém investiria em mídia num país sob censura, certo? Só a Miriam Leitão e o Jabor não sabem disso e ainda chamam Chávez de "ditador"....
marcos omag , sao paulo -SP - auxiliar administrativo
Enviado em 20/4/2008 às 00:47:40
O desinteresse da mídia pelo escândalo do Detran-RS é devido exclusivamente ao fato de que tal escândalo envolve políticos do PSDB, e a imprensa apóia o PSDB.Em governos do PT, uma tapioca de R$ 8 é suficiente para a mídia encher a nossa paciência (e perder credibilidade) espetacularizando o nada. Já governos do PSDB poderiam até massacrar toda a periferia da cidades, em "solução final" à lá Hitler que a imprensa ignoraria olimpicamente o assunto.
Marco Antonio Fornaciari , Rio Bonito-RJ - Farmacêutico
Enviado em 19/4/2008 às 12:23:44
Vã esperança a sua Venício. A proliferação da Banda Larga nas escolas só irá transformá-las nas novas LAN Houses do Molusco, com alunos (e professores!) o tempo todo no Orkut, desaprendendo a escrever e a pensar. No Brasil não há a tradição histórica da mídia local (TVs e Jornais principalmente). Desde a criação das redes de TV nacionais o que se viu foi o massacre das culturas e interesses regionais em favor das ideologias de poder dos detentores das redes, e essa ideologia se baseia fundamentalmente na imbecilização das massas e na domesticação das elites intelectuais. A Internet é hoje apenas um depósito de coisas inúteis em sua grande maioria de gigabytes. As precursoras redes de pesquisas e trocas de informações foram engolidas pelo lixo daqueles que tem opinião para tudo, sem nunca terem lido sobre nada! Repare nas "nuvens de tags" de qualquer blog ou site, verá que o que é mais procurado são vídeos, entretenimento e outras idiotices. Praticamente ninguem se interessa por ciência, educação, política... A dita "inclusão digital" só está colocando ferraris para cegos dirigirem e tirando das ruas os bons motoristas. Com certeza, a Internet veio para ficar, mas muito em breve estará povoada apenas de asneiras, banalidades e internautas semi-analfabetos a propagarem mundialmente o vírus da ignorância global, com a aquiescência e complacência dos intelectualóides da esquina
Carlos  Rajão , Macae-RJ - Engenheiro
Enviado em 15/4/2008 às 21:44:09
A democracia só interessa a quem se acha no direito exercê-la para o seu bem, a favor de seu patrimônio. Taí ainda vivo as pressões para Chaves não cumprir com seu direito na Venezuela, O índio doido na Bolívia (como o chamam) fazer suas nacionalizações, o louco do Equador brigando com o EUA na Colômbia, O metalúrgico brasileiro, etc.. Agora, fechando, a mulher argentina, ainda não apelidada, acho). Seria o medo de Hilary, Cristina, Dilma, e outras pegar para valer? O mundo gira e eles permanecem na óbita da Lua. A inclusão digital dá voto contra a elite, isto não pode. Ela quer voltar ao poder. Custe o que custar.
Marco Antônio Leite , SCS-SP - TST
Enviado em 15/4/2008 às 19:26:27
Para que aja inclusão digital se faz necessário facilitar a compra de micro-computadores pela grande massa, como também cobrar uma taxa simbólica do sistema de internet, aquela que leva o cidadão ao amplo conhecimento da vida da navegação virtual. Só assim poderemos afirmar que vivemos num verdadeiro sistema democrático. Igualmente, liberar geral às rádios comunitárias, TV, jornais de papel entre outros meios de comunicação. Esses meios não podem permanecer no poder de meia dúzia de reis da comunicação, dessa forma eles fazem o que bem entendem da massa subdesenvolvida, manipulando a bel prazer, como estamos assistindo nos dias de hoje.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 15/4/2008 às 18:56:42
Meu Deus, como eu queria uma CPI do DETRAN / despachantes paulistas... Mas em Serra tucana não nasce nem chuchu...
Fernando Meiras , São Paulo-SP - Dentista
Enviado em 15/4/2008 às 18:11:13
Venício, particularmente, não acredito na prática das chamadas sociedades democráticas. Esse título parece representar apenas a ilusão, voluntariamente fabricada, para controlar os ingênuos incultos. Por isso a questão da banda larga nas escolas só cheira a manobra eleitoral, e infelizmente, do PT, que deveria dar um exemplo melhor de administração educacional, já que os tucanos amordaçaram esse sonho.
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Venício A. de Lima

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