ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 482 - 9/2/2010
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CASO ISABELLA
A verdade não merece a primeira página

Por Ivan Trindade em 22/4/2008

Jogaram a menina do sexto andar. Bela, branca, com cara de quem seria alguém na vida. Uma maldade, sem dúvida, uma crueldade, uma monstruosidade, pode-se dizer. A culpa foi crescendo aos poucos e os dedos apontando cada vez mais para os grandes suspeitos. O pai e a madrasta que, verdade se diga, pareciam tão calmos, e até frios, frente a tamanha tragédia. Mas quem sabe como cada um reage frente ao mal, frente ao fim, à morte de uma filha?

E lá veio a mídia, com seu circo, seus repórteres de televisão, todos lindos, todos com menos de 30 anos, todos repetindo seus lugares-comuns e enfiando suas câmeras na cara de qualquer um que derrame uma lágrima. Que vergonha. E depois apareceram a delegada, os advogados de defesa e o promotor, a voz da justiça (grande chance de ser candidato a vereador se o casal for condenado). Todos sedentos pelo Jornal Nacional, os 30 minutos mais caros do Brasil. Todos sem qualquer cuidado. Citando vizinhos do prédio ao lado, esquecendo-se de que todos são inocentes até que se prove em contrário. Esquecendo-se da Escola Base, nessa mesma São Paulo, onde algumas vidas foram destruídas, pois ali estava lotado de estupradores e molestadores de criancinhas, ou não? Na verdade, não, mas a verdade não merece primeira página. Muito menos uma verdade que grite: "Nós erramos!"

Não se sabe se foi o casal que matou. São os principais suspeitos, com certeza. E talvez os únicos. Mas, e se? E se houver uma terceira pessoa? E se realmente houver alguém por aí que estrangulou a menina e a jogou do alto do prédio enquanto o casal pegava as duas outras crianças no carro? Improvável? Parece que sim. Mas, e se? Por isso, cuidado. O que menos se viu até agora.

Triste país

Pelo que se viu e ouviu até agora, Anna Carolina é uma histérica descontrolada e Alexandre um homem omisso que faz tudo pela namorada, até jogar sua primeira filha semimorta pela janela. Ninguém foi saber por que a outra Ana Carolina, a mãe, deixava Isabella com o casal, se a madrasta era assim tão descontrolada. Ninguém foi saber com os amigos do casal quantas cenas de ciúme e descontrole Anna Carolina protagonizou. Mas aos vizinhos perguntaram. Você sabe quem são seus vizinhos? Sabe o que eles fazem, quem são, quando fazem amor, consegue ouvir? Eu não consigo e moro num prédio de mais de 120 apartamentos colado a outro com o mesmo número. Como, de repente, aqueles vizinhos têm tanta certeza de que as brigas que ouviram eram do casal em questão? Será que eles serão condenados por um inquérito baseado apenas em o que os vizinhos ouviram? Ninguém viu nada.

Mas a imprensa e o seu circo já julgaram. Já condenaram. Não dizem claramente, é verdade, mas seguem o que dá mais audiência e o que imaginam que a opinião pública pensa. Opinião formada por quem, cara-pálida? Brincam com a vida de duas pessoas, julgam o caráter, desenham cenários. Mas nada sabem. Depois, se estiverem errados, notinha na página 24.

Enquanto isso, no Rio, morrem diariamente, de dengue, várias crianças. Mas essas não têm cara de que podem ser algo na vida. Então, não viram primeira página ou abrem o JN. Triste país.

Comentários (3)
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Ana Dias , São Paulo-SP - Dona de Casa
Enviado em 24/4/2008 às 12:28:16
"Ninguém foi saber porque a outra Ana Carolina, a mãe, deixava Isabella com o casal, se a madrastra era tão descontrolada assim". Deixava pq a legislação diz que o pai tem este direito. Dificilmente uma mãe consegue impedir a convivência da filha com o tal pai, alegando que a outra pode significar perigo. Ninguém dá crédito para isso, pois acham q é questão mal resolvida entre o casal. Infelizmente é isso, a mãe que tem a guarda e toda a responsabilidade com o filho fica a mercÊ de ter o dever de liberar o filho para a cada 15 dias ficar com o pai, não importa com quem esteja acompanhado.... ao pai fica o prazer dos momentos de lazer... Mesmo q não sejam culpados, ao dizerem que a menina gostaria de morar com eles, frisar isso o tempo todo, dizer q a menina a chamava de mãe... é forçar demais a barra.
Daniel Trovó , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 22/4/2008 às 18:16:19
Belo texto. A imprensa, urubus que são, ceia a morte de uma garotinha enquanto protege, sob suas asas, seu filhote eleitoral de uma tempestade chamada dengue. Parabéns.
ANDRÉ LEME , sao paulo-SP - Suporte técnico
Enviado em 22/4/2008 às 16:14:26
Seguindo o raciocíno do e se... e se a policia não encontrar vestigios nem provas suficientes para condenar o casal, legalmente eles são inocentes, e moralmente como a mídia vai se colocar, e ela (midia) pode condenar a moral de alguém? Em Portugal a um caso semelhante em que a policia deve encerrar o caso como não resolvido. e se for este o destino deste caso?
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