ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 483 - 9/2/2010
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A IMAGEM FIXA
(que no entanto se move)

Mapas dos novos tempos

Por Eugênio Bucci em 29/4/2008

Engana-se quem pensa que os mapas apontam o lugar das coisas no espaço. A muralha da China passa exatamente por aqui, diz a professora, confiante em sua certeza de pedras. Aquela plataforma de petróleo se situa na latitude tal com a longitude tal, no meio do mar. A fronteira do Brasil com o Paraguai passa bem ali, no meio do rio, no meio das instalações de Itaipu. No computador, o GoogleMaps revela a posição exata da casa da sogra de qualquer um. Lá, acolá, do lado de lá. Quase sempre, pensamos em mapas como uma disposição das dimensões do espaço, ou, mais exatamente, de um espaço meramente bidimensional, plano, ainda que acidentado.

A verdade, a despeito das aparências, é que os mapas nos situam no tempo. Eles são bichos vivos quando observados na dimensão do tempo. As linhas mudam de lugar e os lugares mudam de cor. Países se estreitam, outros engordam, sem falar nas fronteiras que se esfumaçam e somem. Há ainda as unidades que se subdividem, como numa meiose geográfica, dando cria a novas unidadezinhas.

Mapas, na linha do tempo, comportam-se como um filme, como um desenho animado sem roteiro certo. Atlas históricos deveriam ser vendidos como desenhos animados. Na tela do tempo, os mapas móveis mostram a ausência de razão e de propósito, mostram a desvinculação entre causas e efeitos na trama da aventura humana sobre a face da Terra. Mapas são tolos quando congelados – e destrambelhados quando vistos em movimento. Há mais previsibilidade nos abalos sísmicos das placas tectônicas do que nas nuances dinâmicas da geografia política. O que não faz a mínima diferença.

Fuso com fuso

Não é preciso recuar ou avançar nos séculos para experimentar a natureza temporal dos mapas. A cada instante, a cada fração de segundo, os mapas nos situam no tempo, mais que no espaço. Pense o leitor, por exemplo, nos fusos horários. Pense nos mapas de fusos horários. São eles que estabelecem a que horas a vida de cada um de nós acontece. É um tanto pacificador imaginar que ainda somos regidos por institutos como o "relógio natural", o nascer do Sol, a roda das estações do ano, mas, além de pacificador, é mentira. O tempo é uma convenção política – bem de acordo com o que vem escrito no mapa astral, ou melhor, dos fusos horários de cada um. E isso é uma coisa tão recente na linha do tempo...

Os acordos para a unificação dos horários mundiais com referência ao meridiano de Greenwich foram concluídos em 1912, em Paris. Há menos de um século. Foi outro dia. Foi ontem. Mesmo o relógio, embora não seja uma invenção assim tão nova, ganhou centralidade na cena política praticamente às vésperas da Revolução Industrial. A máquina de medir tempo de trabalho, indispensável diante das novas relações de produção, vai parar nas portas das fábricas, medindo a quantidade de força extraída de cada trabalhador.

Para o ordenamento do Estado, a unificação do horário se tornou requisito essencial. O relógio assume também um posto de destaque no espaço público. Instala-se nos campanários, centralizando o tempo comum. O centro do poder passa a ditar também a medida do tempo. As unificações políticas impuseram a unificação dos horários – o tempo virou uma questão de poder, os senhores da política se alçaram à condição de senhores do tempo.

Em tempo, bom tempo, lembremos que o tempo nunca foi um dado da natureza, como os vulcões, os mares, as frutas no quintal e o mosquito da dengue. Ao contrário, nasceu e vive como invenção lingüística – embora subsistam línguas que não têm formas verbais no passado e no futuro. O tempo surge na cultura como abstração e, a partir daí, adquire o estatuto de um vínculo de poder. Habitar um país significa submeter-se a seu horário legal. Nós existimos, portanto, em tempos postos por outros. Pertencemos ao tempo do outro.

Isso é o que nos informam os mapas dos fusos. É o que nos ordenam os fusos.

Acre na velocidade da luz

Mapas são imagens fixas – que, no entanto, se movem.

Aliás, acabam de mover-se no Brasil. Leio no Estado de S.Paulo e na Folha de sexta-feira (25/4), num vôo de São Paulo para Brasília e depois de Brasília para João Pessoa, que o presidente da República sancionou a lei segundo a qual o fuso horário do Pará e o fuso horário do Acre ficam de hoje em diante em outro lugar – outro lugar no tempo, eu quero dizer. Revogam-se as disposições em contrário. Olho para o estado do Acre, no mapinha que a Folha publicou [ver a imagem ao lado]. Acho que os infografistas erraram no caso do Pará, que continua exatamente igual no mapa do "antes" e no mapa do "depois". O texto diz que o Pará, inteirinho, adotará um fuso só a partir de agora. Mas o mapa contradiz o texto. Tudo bem.

O que mais me comove é o efêmero estado do Acre. Pobre estado do Acre. O Acre não está mais onde costumava estar, quero dizer, no horário em que costumava existir. Àquele horário, o Acre já não pertence. O Acre sumiu dali, isto é, aquele fuso sumiu de cima do estado do Acre. Cadê o Acre?

Eis então que ele reaparece em outro horário. Por força da sanção do presidente da República, o Acre empreendeu uma viagem no tempo. O poder político suprimiu-lhe uma hora, aquela famosa hora-a-mais. Sua hora foi-se. Virou pó. Alguns acreanos talvez se indagem: o que eu poderia ter vivido naquela hora, justamente da hora que não houve? A hora que jamais terei? São perguntas vãs, quase tolas, posto que aquela ora apenas

mudou de lugar, digo, de tempo. No entanto, são interrogações mortais. Como o tempo não é um dado natural, mas lingüístico e político, é apavorante que possam nos arrancar um minuto que seja por decreto. E podem.

Quando a Igreja ajustou o calendário, em 1582, foi bem pior. Suprimiram dez dias inteiros. Quem foi dormir no dia 4 de outubro de 1582 acordou no dia 15 de outubro. Mesmo hoje em dia, quando nos suprimem um minuto que seja, ainda é incômodo. Estão nos suprimindo o chão. Num lapso, passamos a pisar o vazio. Em seguida esse chão temporal será refeito, é fato, mas por um átimo ficamos no vazio. Despencando, soltos, não no espaço, mas no tempo.

Olho o mapa da Folha e penso outra vez que a imagem fixa se move. Lá está o Acre, que desapareceu de onde estava e ingressou onde não existia. Quero dizer: o Acre agora é onde antes não estava. Mas está. E ainda é.

O tempo da TV

A reportagem de do Estadão sobre a incrível viagem no tempo do estado do Acre informa que as razões da mudança do fuso se devem ao lobby das emissoras de TV:

"A pressão pela aprovação do projeto aumentou, por parte das emissoras de televisão, depois que o governo determinou a exibição dos programas em horários de acordo com a classificação indicativa por faixa etária. Essa decisão dificultou o funcionamento das emissoras em rede nacional [ver íntegra aqui]."

A explicação, ainda absolutamente crível, é espantosa. Tanto mais espantosa por ser crível. Com dificuldades operacionais para se adequar aos fusos horários de cada lugar e, assim, cumprir o que estabelece a classificação indicativa do ministério da Justiça, as emissoras encontraram um jeito de eliminar a causa do problema. O tempo do Acre passa a ser idêntico ao tempo do Amazonas e a operação de transmissão em rede será mais fácil. Em vez de se adaptar ao relógio do telespectador do Acre, as redes de TV, que funcionam em rede nacional durante quase todo o dia, adaptaram o telespectador do Acre ao seu relógio.

Relógio? Falei em relógio? Não deveria ter usado essa palavra. O termo relógio é um tanto anacrônico. Falar em relógio agora é como falar em vitrola, em casco de cerveja, em creme rinse. Na era do espetáculo, já não se trata mais de medir o tempo linear em unidades adequadas para quantificar a força de trabalho extraída do corpo humano. A questão, agora, é alargar ao máximo os horários comuns para alargar ao máximo a extensão da platéia ligada nas atrações ao vivo. A tendência já não é a unificação dos espaços nacionais, mas a unificação das audiências, a despeito da posição do sol, de ser dia ou de ser noite: todas as platéias, ao vivo, no mesmo espetáculo.

Como o dinheiro, que viaja na velocidade da luz de uma bolsa de valores para outra, as atrações da TV também voam. Mais ainda: elas são ubíquas e precisam de escala, mais escala, mais escala. Quando possível, atropela os fusos horários, essa coisa tão nova, não tem nem cem anos, e tão antiquada. O nosso país-continente agora só tem dois fusos horários – sem contar Fernando de Noronha. Ficou mais confortável para as redes de TV.

Imagem mutante

Não por acaso, foram princípios análogos que definiram as mudanças de horários nos jogos de futebol. Os atletas começam a jogar às dez da noite não porque rendam mais à medida que os ponteiros se aproximam da meia-noite, mas porque o entretenimento assim impôs. A cada dia mais, o tempo da civilização se afasta dos ciclos da natureza – da natureza do corpo humano, inclusive – para se referenciar no tempo do espetáculo.

Voltando ao Acre, as emissoras de televisão, a rigor, já ignoravam o fuso que vigorava por ali. Transmitiam a programação para os lares acreanos como se eles seguissem o mesmo horário de Brasília – e um pouco seguiam, já que a programação da TV faz as vezes do relógio da nova era. De repente, quando alguém, timidamente, levantou a mão para dizer que o relógio da floresta era outro, o tempo da televisão respondeu sem hesitar: pior para o relógio da floresta; ele que se ajuste ao nosso.

Não que nada disso seja ruim. Tampouco é bom. Isso é apenas o que é. Não há muito o que fazer. Escapo o olhar para a vidraça do escritório e vejo que o sol se põe para lá do rio Pinheiros. Está uma luz bonita lá fora. E também muito brega. A natureza é brega. Volto os olhos para a tela do computador. Daqui a pouco vou ligar a TV. O meu tempo, senhores, é o vosso. A vossa imagem, mutante, é meu espelho.

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Comentários (9)
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elda  penha , rio branco-AC - professora
Enviado em 4/10/2008 às 00:12:54
Já tinha lido essa matéria sem a fonte original em primeira instancia adorei a forma como foi tratado os mapas. Como estou escrevendo um livro estou pedindo permissão para passar uma parte no q/ diz respeito das flexibilidades das fronteiras.
José Porfiro da Silva , Rio Branco - Temporário no Rio-AC - Economista
Enviado em 3/5/2008 às 10:41:43
Como a mudança do fuso horário, o melhor, o avançar do relógio nãto tem, concretamente, nenhum impacto para 98% da população do Acre, já há um projeto de Lei em pleno trâmite propondo o deslocamento espacial do Acre para o litoral. Caso este seja aprovado, possivelmente o clima também mudará, passará a ser mais temperado. jporfiro.blog.uol.com.br
Suziane Patricia  Rocha Silva , Rio Branco-AC - Jornalista
Enviado em 2/5/2008 às 13:57:04
Sem dúvidas é o texto mais inteligente que já li sobre o assunto. Parabéns Bucci,pela forma abrangente,contextualizada, e respeitosa como elaborou a matéria. Sou uma jornalista ‘acreana de coração e por adoção’,resido e trabalho na capital Rio Branco há quase 2 anos.Pelo que pude observar,posso dizer que a nova lei gerou muita polêmica e questionamentos. - Particularmente, sou favorável à lei,que deve amenizar inúmeros contratempos enfrentados pela população,especialmente no período em que entra em vigor o horário de verão,quando o estado passa a ficar com 3 horas de diferença em relação ao horário oficial de Brasília. Por outro lado,acho inviável o atraso de 2 horas na programação da TV.A Rede Globo, por exemplo,passou a ter duas grades de programação básica – Rede Nacional e Rede Fuso,com mudanças de horário,mas preservando a exibição em mercado nacional.Isso significa que nenhum acreano assiste mais aos jogos de futebol,jornais,ou programas ao vivo,no horário em que realmente estão sendo transmitidos.A meu ver,desde que mundo é mundo,cabe aos pais controlar o que suas crianças assistem na TV. Para finalizar, quero dizer que considero infeliz o comentário da colega Nara Alves. Em outras palavras, ela opina que Bucci não deveria se preocupar em escrever sobre o assunto, já que no seu ponto de vista (semelhante aos leigos da geografia brasileira) "O Acre não Existe".
silvia  ambrósio nogueira de sá , são borja-RS - estudante
Enviado em 1/5/2008 às 21:06:31
Estipulações sobre tempo e espaço são apenas convençoes firmadas por alguns que acharam conveniente ser assim. Tb compartilho da idéia de que, na verdade, o tempo nao existe, os corpos e objetos apenas se modificam conforme a sua propria natureza, e nao pq acabou um mes, ou mudou de ano. Mas, é necessário q sejamos regidos por regras q controlem nosso tempo e espaço, é bom para o sistema.
Ilda de Freitas , Anchieta-ES - empresária
Enviado em 1/5/2008 às 18:24:53
Lindo texto! Parabéns!
Walter Regis , Ponta Grossa-PR - cidadão
Enviado em 30/4/2008 às 21:40:36
Caro Bucci, o assunto está na pauta, Ronaldo o fenomeno e o feliz travesti, como o jornalismo brasileiro irá tratar desse furo de reportagem? Quero ver a coragem e o poder do capital do fenomeno... Ora se quero...
alex prado , poços de caldas-MG - jornalista
Enviado em 30/4/2008 às 03:39:00
Caro Bucci, o texto é bem escrito, mas são palavras ao vento. Desculpe-me. mas fui ao Acre! Fui mesmo! E vi que não é o Estado da Floresta, mas de uma devastação silenciosa, apesar da ministra Marina e dos irmãos Viana. Mas é um Estado "vermelho". Vc pode cruzar o Estado do Acre e ver a destruição da floresta, mas nas árvores que restam está lá uma bandeira vermelha. A questão do fuso, pode e deve ter sido apropriada pelas tv s, mas não foi uma lei proposta de afogadilho. Era desejo dos acreanos. Pode, a lei, ter sido aprovado às pressas, para saciar a mídia televisiva. Mas você, Bucci, parece ter olhado apenas para o mapa impresso! Eu mesmo, tenho em casa uma versão do Mapa Mundi inverso, onde o Sul está por cima do Norte. Então, se a Bolívia, de quem compramos o Acre, tem horário de -1 hora de Brasília, pq o Acre estaria há - 2h de Brasília? Não se trata de aceitar o lobby contra a restrição horária para veiculação de material inapropriado, mas acreditar que os quase 500 mil hab do Estado acreano - a maioria concentrada na porção leste - minaram os efeitos da política indicativa. O Acre é Brasil. E que a hora subtraída - e que não faz falta - sirva de alavanca para um Estado efetivamente da Floresta. "Em Brasília, 19 horas".
Bruno  de Pierro , São Paulo-SP - estudante de jornalismo da PUC-SP
Enviado em 29/4/2008 às 19:33:05
Gostei do texto por ser extremamente contextualizador. Leva a questão do fuso horário (e suas alterações) para um plano mais profundo, filósófico diria, para, depois, podermos compreender melhor o que se passa com a mudança do "relógio" do Acre. Destaco este trecho: "Na era do espetáculo, já não se trata mais de medir o tempo linear em unidades adequadas para quantificar a força de trabalho extraída do corpo humano. A questão, agora, é alargar ao máximo os horários comuns para alargar ao máximo a extensão da platéia ligada nas atrações ao vivo. A tendência já não é a unificação dos espaços nacionais, mas a unificação das audiências, a despeito da posição do sol, de ser dia ou de ser noite: todas as platéias, ao vivo, no mesmo espetáculo". Parabéns.
Nara  Alves , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 29/4/2008 às 12:29:37
Bucci, o Estado do Acre, na verdade, não existe. Vide o documentário: A Farsa do Acre http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=2014. E o povo corrobora. Vide comunidade no Orkut: Acre is a lie http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=47757 Abraço e obrigada pelo texto. "fronteiras se esfumaçam e somem" - fiquei emocionada
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