ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 486 - 9/2/2010
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CANUDO EM DEBATE
Cinegrafista sem diploma não pode ser jornalista

Por Milene Magalhães em 20/5/2008

Recente decisão da 2ª Vara do Trabalho de Aracaju, proferida pelo juiz Luiz Manoel Meneses, enquadra cinegrafista e repórter cinematográfico como jornalistas.

Muito boa decisão se não fosse por um detalhe, o diploma, que muitos, como eu, levaram quatro anos no banco de uma universidade para conseguir; mas não é necessário para aquela categoria, basta apenas uma câmera na mão para um registro profissional.

A estranheza me vem por perceber que muitos sindicatos chamados de "jornalistas", viram essa notícia como uma vitória. Agora, resta saber, vitória de quem? Da esculhambação, eu acho, pois a maior luta do jornalismo, depois da luta por uma imprensa livre, é para manter o diploma que garante benefícios não apenas ao profissional, mas também à sociedade.

Nada contra cinegrafistas ou repórteres cinematográficos; eles podem, sim, ser jornalistas, desde que diplomados. A questão não é o canudo ou o status da faculdade, até porque jornalista não tem status, mas para que todos que se enquadrem como jornalistas tenham a mesma responsabilidade com a profissão e com a sociedade que aqueles que buscaram isso no meio acadêmico. É preciso conhecer os princípios éticos da profissão, adquirir conhecimento humanista e teórico sobre a profissão para dirigir a informação à população.

Honrar a profissão

Artigo divulgado pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo – regional de Santos – afirma: "A faculdade, qualquer que seja, não ‘fabrica’ bacharéis, simplesmente. Ela prepara, dá o arcabouço técnico/humanístico e enseja o profissional que a sociedade espera. Se há desvios de caráter, bem, isso não é ‘privilégio’ de uma categoria. Jornalistas erram, advogados idem, médicos idem, dentistas idem. Mas, acertam, também, e isto é absolutamente normal no processo produtivo. Outro detalhe, que interessa às grandes corporações, diz respeito ao aviltamento profissional. Como? Por meio da extinção da regulamentação da profissão: uma pessoa de outra área, alçada à condição de ‘jornalista’, sem diploma, poderá se submeter ao ‘trabalho’ sem qualquer tipo de regra, sem piso da categoria e sem direitos pelo ato laborativo (férias, 13º salário, recolhimento de INSS e outros). Resumindo, os precários, que estão se valendo de uma decisão judicial contra o diploma, serão os fantoches que alimentarão os caixas (já muito gordos) de quem quer seguir contando cifrões sem a devida contrapartida que as relações sociais e trabalhistas, numa sociedade civilizada, justamente impõem."

Reconheço o valor desses profissionais, mas sobretudo reconheço a luta que a categoria de jornalistas de fato, com diploma, tem enfrentado. Por que não enquadrá-los como profissionais de comunicação de nível técnico, apenas? Jornalista, para mim, é o que passa quatro anos dentro de uma faculdade aprendendo sobre ética profissional, se preparando mesmo. Conheço muita gente que é jornalista há séculos, porém mesmo tendo um reconhecimento na carreira fez faculdade para ser jornalista de fato. Para honrar o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que diz no Capítulo II – Da conduta profissional do Jornalista Art. 6° inciso v –, é dever do jornalista valorizar, honrar e dignificar a profissão.

Compromisso é coisa do passado

Essa decisão fere em cheio esse artigo do nosso Código de Ética, uma vez que desvaloriza o diploma, desonra aqueles que buscaram se qualificar em uma universidade para exercer com direito à profissão e não dignifica a classe, pois quem vai querer passar quatro anos em uma faculdade aprendendo sobre ética, direito de imagem, compromisso com a informação, e não com o corporativismo que permeia o universo da comunicação, se você pode fazer um curso para cinegrafista, trabalhar por um mês ou mais e tirar seu registro de jornalista? Sem dúvida, tal decisão abre precedentes para que a profissão de jornalista se torne a cada dia mais sucateada.

Na verdade, é uma chacota descarada aqueles que lutam pelo diploma de jornalismo, que buscam por melhores condições de trabalho, pois como vão fiscalizar o exercício da profissão? Um cinegrafista ou repórter cinematográfico podem ser responsáveis por um house organ de associação, empresa etc. Sem a mínima preocupação com o conteúdo, ele está jornalista para colocar seu registro lá, assumindo uma função que muitos lutaram para valorizar, mas que agora parece não ser nada.

Adeus, jornalistas de verdade, agora com qualquer curso básico, de uma semana ou um mês, no máximo, de operadores de câmera e cinegrafistas é possível se tornar jornalista, pois o que importa é ter carteira de jornalista, ética; compromisso com a profissão é coisa de quem leva muito a sério a profissão, ou melhor, é coisa do passado.

Não permitam essa farsa

Essa atitude aviltante desmerece o jornalista e precariza o empenho de muitos em qualificar e educar nossos profissionais em todas as áreas. Sendo assim, profissionais formados em Letras podem ser jornalistas, pois dominam a língua portuguesa. Uma pessoa boa de conversa, pode ser psicólogo, desde que saiba ouvir.

Percebo que daqui a alguns anos não vai existir faculdade de Jornalismo, como vem ocorrendo com o curso de Economia, que vê suas funções serem agregadas por profissionais de Administração, Contabilidade etc. A exigência do diploma de jornalismo deve seguir exemplo de outras profissões. Tome-se como exemplo as professoras de jardim de infância que, com segundo grau lecionavam. No entanto, hoje a rede pública de ensino exige o curso Normal Superior para esses profissionais. Outro bom exemplo: para ser advogado não basta um diploma de faculdade, é necessário ser aprovado nas duas etapas do exame da OAB para realmente exercer a função.

Minha esperança é que aqueles que realmente amam e lutam pela profissão de jornalista não permitam que essa farsa destrua nossa categoria. Cinegrafista jornalista, só se for com diploma.

Comentários (17)
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kleyton cintra cintra , salvador-ba-BA - reporter cinematográfico
Enviado em 2/9/2009 às 15:51:35
falando da minha "classe" os reporteres cinematogárficos ou cinegrafistas de todo o brasil, tem o direito sim de ser conhecido e reconhecido como um jornalista, afinal,levamos e registramos imagens no qual delas são usadas por ditos "JORNALISTAS" entendo que é um trabalho tecnico,de muita responsabilidade,muitos cinegrafistas competentes tem esperiência as vezes mais do que um DIRETOR que passa anos e anos estudando ! não vivemos da teoria e sim da prática ! defendo minha profissão e queremos ter nossos direitos iguais, somos comunicólogos. kleyton cintra-salavador-ba
Roglison Sousa , São Paulo-SP - cinegrafista
Enviado em 7/6/2009 às 20:35:26
Gostaria de saber dos altores do texto assima, tenho 10 anos trabalhando como cinegrafista, passei por emissora de tv e produtora, hoje trabalho em Aracaju -SE, Tenho um filho de 10 anos na escola uma esposa na faculdade, estou trabalhando pra manter-los estudando, trabalho numa Igreja Evangérica, estou quais perdendo um emprego que sustenta minha familia, por causa desse diploma, tenho um ano e 5 meses como cinegrafista dessa Igreja, minha pergunta eu teria que ser demetido meu filho teria que ir pra uma escola pública minha esposa sair da faculdade, por causa das suas preocupação se eu tenho ou não um canudo nas mãos? Não sou médico que tem que salvar vida ou adivogado que pode tirar ou deixar um assasino na cadeia, sou apenas um trabalhadorque usa suas mãos e seus olhos pra trabalhar com diguinidade, até pensei sim em terminar meus estudos pra ter um canudo nas mãos pra deixar vcs feliz, mas tenho que escolher entre vcs e minha familia, como vcs possa já saber eu prefiro vestir da estudo e comida pra minha familia, me desculpe se eu fui ridiculo nas palavras mais eu fico pensando se nesse nosso país quem vai pra faculdade particular é o poble, e o rico pra a públlica por quer ele estudou sempre em escola particular e concorre com quem foi sempre de escola pública, é injusto, ou vc tem como pagar uma faculdade oui fica vendo comentário maudoso da sua profissão. obg. a todos
renato  meo , campinas-SP - cinegrafista
Enviado em 1/6/2009 às 18:43:22
" O mercado de trabalho exige que o profissional seja atualizado e completo, ou seja, quem se aventura na profissão repórter nos dias de hoje, deve ser seu próprio, diretor, editor, produtor, e no caso dos veículos multimídia, como o webjornalismo por exemplo, além de acumular essas funções devem também atuar como fotógrafo, cinegrafista e repórter de sua própria matéria. As empresas de comunicação buscam todas essas qualidades em um único profissional, mesmo porque é preciso realizar a matéria nos mais diversos formatos em tempo hábil para ir ao ar, o tempo é precioso e a informação deve ser precisa." texto do presidente do sindicato dos jornalista de Sergipe sr George Washington que nao ve problema nenhum em que os reporteres usurpem o trabalho de fotografos, cinegrafistas, produtores, diretores... tudo a ver com a crônica acima, me embra o ditado: dois pesos duas medidas!!!
renato meo , campinas-SP - cinegrafista
Enviado em 1/6/2009 às 18:22:38
Como cinegrafista, nao pràtico e sim com curso devidamente aprovado e regulamentado pelo MEC estou solidario com o artigo e espero que essa decisao seja revista pelo bem dos jornaistas e tb pelo bem dos cinegrafistas que poderam com esse mesmo argumento impedir os jornalistas que nao sabem nada sobre câmera, enquadramento, linguagem visual de sairem com um equipamento nas mãos denegrindo o nosso trabalho com imagens pessimanente gravadas.Estranhamente a ética dos jornalistas parece nao se importar que os mesmos atrapalhem o exercicio de uma outra profissao devidamente reguarizada. Briguem com toda razao pela profissao mas atentem para o fato que para ser um cinegrafista com DRT é necessario um curso teorioc e pratico com mais de 300 horas e nao um curso basico de no maximo um mês como a pouco informada jornalista afirmou..qualquer duvida ela deveria acessar o site do senac por exemplo e se informar um pouco mais sobre a profissao alheia antes de sair desinformando... se informara antes de emitir uma opinao é coisa que todo jornaista de respeito costuma fazer antes de expor uma noticia ou ideia.
renato meo , campinas-SP - cinegrafista
Enviado em 1/6/2009 às 18:20:34
Como cinegrafista, nao pràtico e sim com curso devidamente aprovado e regulamentado pelo MEC estou solidario com o artigo e espero que essa decisao seja revista pelo bem dos jornaistas e tb pelo bem dos cinegrafistas que poderam com esse mesmo argumento impedir os jornalistas que nao sabem nada sobre câmera, enquadramento, linguagem visual de sairem com um equipamento nas mãos denegrindo o nosso trabalho com imagens pessimanente gravadas.Estranhamente a ética dos jornalistas parece nao se importar que os mesmos atrapalhem o exercicio de uma outra profissao devidamente reguarizada. Briguem com toda razao pela profissao mas atentem para o fato que para ser um cinegrafista com DRT é necessario um curso teorioc e pratico com mais de 300 horas e nao um curso basico de no maximo um mês como a pouco informada jornalista afirmou..qualquer duvida ela deveria acessar o site do senac por exemplo e se informar um pouco mais sobre a profissao alheia antes de sair desinformando... se informara antes de emitir uma opinao é coisa que todo jornaista de respeito costuma fazer antes de expor uma noticia ou ideia.
Marcelo Liso , São Paulo-SP - Repórter Fotográfico
Enviado em 1/4/2009 às 05:23:15
Concordo com o autor do primeiro comentário, sem contar que ética e respeito aos colegas deve ser a coisa que menos se ensina na faculdade. Jornalistas diplomados, editores e diretores de redação de sites de celebridades são os que mais roubam fotos de agências internacionais. O fotógrafo mais bem pago e que mais publica é o "Reprodução", foto esta roubada ou com autorização do editor ou diretor, na maioria das vezes diplomado. Por outro lado, muitos destes profissionais com MTB mas sem diploma faz valer a lei de direito autoral que parece esquecido pelos editores ou diretores diplomados. Vale lembrar que nem todos trabalham de maneira errada e faz honrar a profissão, Jornalista.
pedro zero , poa-RS - comunicólogo
Enviado em 19/1/2009 às 15:04:30
os comentários aqui foram mais interessantes e construtivos do que a "crônica" pessoal, e ressentida, da jornalista - diplomada, pelo visto. bem... diploma para quem precisa de diploma, oras! mas concordo plenamente com um dos comentários aqui registrados: a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo está com os dias contados. certamente! acredito, sim, na necessidade de alguma especialização - mas não, necessariamente, em jornalismo - para o exercício diário deste ofício. o jornalismo é uma prática, uma técnica, um estilo de redação - quando muito... o que falta por aí são jornalista habilitados e experientes nas respectivas editorias jornalísticas... alguém formado em História, por exemplo, pode sim ser um excelente jornalista de "Mundo" ou "Economia" sem ter cursado os "quatro anos da facul de jornal"!... na boa, para fazer um lead (l-i-d-e) é necessário - quando muito - ter a quarta série do primário completa (pois é na quarta série em que aprendemos a responder "quem, quando, onde como e por que" em uma redação)... o que falta aos nossos muitos jornalistas diplomados é visão do mundo e experiência nas áreas em que atuam... e falta, também, um pouco de humildade por parte desses nossos colegas jornalistas: sempre dizem saber atuar em equipe mas nunca acham que estamos no mesmo nível, nós, jornalistas - sim! obrigado - forjados pela vida.
Aídes  Brasil de Arruda , Campina Grande-PB - Repórter Cinematográfico
Enviado em 18/8/2008 às 13:41:23
Colegas jornalistas,a luta é justa e correta ,mas não devemos confundir ética,condições de trabalho e incompetência de uns com direito adquirido.Convido à todos que leiam os artigos da nossa regulamentação e façam uma refexão.lei não se contesta se cumpre!"Estamos juntos nessa luta", um abraço!!!
paulo nunes , poa-RS - fotógrafo
Enviado em 9/6/2008 às 15:00:07
... diploma = reserva de mercado.... nada além disso.
Catarina Bicudo , Campinas-SP - Jornalista
Enviado em 23/5/2008 às 21:32:25
E agora? Quem poderá nos defender??? Por essas e outras é tão importante a atuação do Conselho Federal dos Jornalistas. O mercado capitalista está cada vez mais absorvendo "mão de obra barata" no lugar de jornalistas profissionais e isso acontece com o incentivo de jornalistas, políticos, etc. Isso significa: falta de qualidade, salários baixo, muitos erros, falta de atenção a ética. Se a Globo que tem jornalistas renomados erra feio, imagina o restante...
eduardo lettieri , São Paulo-SP - free
Enviado em 23/5/2008 às 13:18:28
Prezada Milene, não perca tempo com isso. Essa aberração do diploma está com os dias contados. Guarde sua indignação para outras coisas.
Cláudio Buongermino , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 23/5/2008 às 00:28:24
A exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista está suspensa por determinação da Justiça. A pendenga deve ir para o Supremo, e nele é quase certo que a decisão final será por acabar com a obrigatoriedade. Tanto que Fenaj e sindicatos nem falam mais no assunto, que já foi uma bandeira de luta deles. Na prática, a Internet transformou a exigência do diploma específico numa tolice. Demais disso, trabalho há 14 anos sem diploma específico, conheço dezenas de colegas de redação formados em outras áreas, e o fato cristalino é que em redações de alto nível os profissionais nem perdem tempo discutindo esse tema. Há várias, inclusive, que são comandadas brilhantemente por não-diplomados.
Felipe Rariz , São Paulo-SP - Estudante de jornalismo
Enviado em 21/5/2008 às 11:35:24
Estou de acordo com Milene Magalhães, é injusta a disputa de mercado sendo que qualquer pessoa possa assumir a mesma responsabilidade sem o devido preparo, e tome o lugar de tantas outras que passam quatro anos inteiros estudando todos os aspectos que cercam o jornalismo, se ontem jornalistas com canudo derrubaram um avião, imaginem uma equipe inteira sem o devido preparo fazendo jornalismo, quanto coisa não derrubariam, imaginem um médico operando sem sequer ter estudado medicina, imaginem um advogado fazendo uma defesa sem sequer conhecer os códigos penais, imaginem um jornalista informando milhares de pessoas sem saber como fazer isso,.
Juliana  Leite , Londrina-PR - Jornalista
Enviado em 21/5/2008 às 11:11:07
O diploma é válido na luta dos direitos trabalhistas para profissionais que atuem em qualquer área, seja na comunicação ou não. Diplomada, concordo que há necessidade de aprofundar os estudos, porém, ética e compromisso não significam jornalista qualificado. O simples fato de estudar quatro anos em uma instituição não garante boa formação. Principalmente se for levada em consideração a qualidade de ensino que as faculdades oferecem.
Paulo Sergio Machado , Brasilia-DF - Jornalista
Enviado em 21/5/2008 às 09:22:43
Você diz:" mas para que todos que se enquadrem como jornalistas tenham a mesma responsabilidade com a profissão e com a sociedade que aqueles que buscaram isso no meio acadêmico. É preciso conhecer os princípios éticos da profissão, adquirir conhecimento humanista e teórico sobre a profissão para dirigir a informação à população." Ontem, jornalistas com canudo derrubaram um avião em São Paulo.
Arthur Alencastro Puls , Porto Alegre-RS - Estudante de Jornalismo
Enviado em 21/5/2008 às 09:09:03
A defesa do diploma até seria cabível se as Faculdades de Jornalismo estivessem num nível minimamente aceitável de qualidade.
Juca Crispim , São Paulo-SP - Estagiário.
Enviado em 20/5/2008 às 14:26:42
Mania de diploma, viu... Pelamor!
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