ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 490 - 9/2/2010
  Feitos & Desfeitas
Início > Índice Geral > Feitos & Desfeitas + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

MÍDIA & MULHER
O poder feminino na imprensa

Por Ligia Martins de Almeida em 17/6/2008

A mulher consumidora, a modelo e a mulher na política foram tema da mídia na semana que passou. Três imagens que ajudam a compor um painel da mulher de hoje, ou, mais especificamente, da mulher de classe média hoje.

Em todas as matérias, uma constante: o poder das mulheres. E, na atitude da imprensa, uma novidade: mulheres vistas por um ângulo que não apenas o da futilidade.

Na matéria sobre a mulher consumidora, por exemplo, as características femininas na hora da compra são mostradas com o respeito devido às consumidoras que já são o segmento mais visado pelo comércio:

"O poder aquisitivo da mulher cresceu tremendamente nos últimos anos. Os salários médios, embora ainda menores que os dos homens, também aumentaram consideravelmente. Contribui para isso, sem dúvida, o fato de terem galgado posições de destaque em empresas. Dados recentes mostram que elas já detêm a maioria dos cartões de créditos, 51%... A mulher decide 80% de todas as compras" (O Estado de S.Paulo, 15/6/2008).

Moda e política

Na matéria inspirada na Semana de Moda de São Paulo, nada de fofocas, detalhes sobre namoricos ou chiliques das modelos. Aqui, se trata da importância econômica das modelos: "As tops agregam valor ao evento", diz Silvio Passarelli, professor de Gestão de Luxo, da FAAP, de São Paulo: "Como elas são grandes nomes internacionais, o grande público sabe o poder que essas mulheres têm de escolher o trabalho. O fato de elas participarem da SPFW significa que o evento é realmente bom". Segundo o jornal, há reflexos positivos também nos negócios: "Estima-se que cada vez que uma empresa usa a modelo brasileira Gisele Bündchen em alguma campanha, suas ações na Bolsa têm uma valorização média de 15%" (O Estado de S. Paulo, 15/6/2008).

A imagem final é a da mulher política, tratada com respeito (e até com tristeza) em artigo de Eliane Cantanhêde:

"Em 2002, as pesquisas políticas indicavam que as mulheres eram consideradas mais responsáveis, confiáveis e principalmente honestas. O céu era o limite para as candidaturas femininas e veio a de Roseana Sarney, embalada por uma bonita campanha publicitária, cabelos ao vento. Mas o vôo foi meteórico, derrubado pelo mal explicado caso Lunus. Roseana (MA) foi a primeira mulher eleita (e reeleita) para um governo de Estado, assim como Maria Luiza Fontenelle, de Fortaleza, foi para uma prefeitura da capital, e Luiza Erundina, para São Paulo. Agora, as mulheres estão em todas. Rosinha Garotinho (RJ) governou um dos principais Estados, Wilma de Faria (RN) é veterana, Ana Júlia Carepa (PA) e Yeda Crusius (RS) eram promissoras. Marta Suplicy foi prefeita de São Paulo e é candidata a voltar. Há três jovens guerreiras disputando em Porto Alegre e Heloísa Helena (AL) foi candidata à Presidência. Um avanço enorme em duas décadas. E o que acontece? O filho de Wilma de Faria está preso, Rosinha é fonte de escândalos, uma fita gravada desintegra o governo de Yeda e Ana Júlia, em outra escala, vive pisando na bola. É constrangedor. Nesse ambiente, Dilma Rousseff surge como candidata de um presidente fortíssimo, alçada pela fama de competente e enérgica. Mas também capaz de conviver com dossiês contra adversários políticos, desprezar as leis para salvar empresa falida e de ter como braço-direito Erenice Guerra, a dos fins que justificam os meios. As mulheres no poder (não todas, claro) estão destroçando a percepção popular de que podem ser mais responsáveis e confiáveis. Uma pena" (Folha de S.Paulo, 15/6/2008).

Ainda são exceção

É realmente uma pena. Mas é bom lembrar que – embora a mídia pareça dar mais destaque aos erros das mulheres do que aos dos homens na política – o fato é que acabamos aceitando que as mulheres são diferentes e por isso mais honestas, o que não é rigorosamente verdade. A verdade é que enquanto não estiverem em igualdade numérica com os homens no poder, enquanto forem exceções nos cargos de mando, as mulheres vão continuar sendo mais visadas.

A julgar pelas matérias, as mulheres já conquistaram poder – e o respeito da mídia – como consumidoras e como incentivadoras dos negócios. Quanto ao poder na política, parece que as mulheres ainda enfrentam sérios problemas. Seria o caso de ser feito um estudo que mostrasse por que os governos liderados por mulheres estão se caracterizando por erros e mais erros. Se não é preconceito da mídia – e nada levar a crer que seja só isso –, é preciso descobrir por que tantos escândalos envolvendo mulheres. Ou elas são despreparadas – o que é difícil acreditar –, ou estão se deixando manipular por seus assessores, os experimentados homens da política. Enquanto não tivermos uma resposta, a mídia vai continuar discutindo o caso dessas políticas, exceções ainda num mundo dominado por homens. E as detentoras do poder vão ter que lembrar que não basta ser honestas. É preciso parecer honestas.

Enquanto as mulheres continuarem sendo notícia pelos erros de seus governos, não se pode acusar a mídia de ênfase exagerada no noticiário. Elas ainda são exceção e, até por isso, são mais notícia. A situação só vai mudar quando houver número igual de governadores e governadoras. Tomara que homens e mulheres no poder trabalhem com tal seriedade e honestidade que a imprensa não lembre que eles existem. E que os leitores fiquem livres, finalmente, das repetitivas matérias sobre corrupção.

Comentários (0)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Ligia Martins de Almeida

Outros artigos desta Seção
CARTA CAPITAL, 500
Uma história de catorze anos
Mino Carta
17/6/2008
SERAFINA
Emburrecendo com glamour
Rui Daher
17/6/2008
MÍDIA & MULHER
O poder feminino na imprensa
Ligia Martins de Almeida
17/6/2008
JORNALISMO ESPORTIVO
Bluebus, Globo e os anticorinthianismos
Walter Falceta Jr.
17/6/2008
Polêmicas futebolísticas ou polêmicas da imprensa?
Pedro Eduardo Portilho de Nader
17/6/2008
JORNALISMO CIENTÍFICO
Novo formato, velho discurso
Felipe Izar Xavier
17/6/2008
Para onde caminha a humanidade?
Moisés Viana
17/6/2008
VISÕES DE PORTUGAL
Crioulo Doido faz
matéria de turismo

Carlos H. Knapp
17/6/2008
TELEVISÃO FRANCESA
O petit enfant e a
plebe do jornalismo

Raice Cabral, de Paris
17/6/2008
MANIPULAÇÃO DA MÍDIA
A verdade paga em dólar
Mário Augusto Jakobskind
17/6/2008
MÍDIA & FILOSOFIA
Sobre a "crítica" jornalística
à razão positiva

Gustavo Biscaia de Lacerda
17/6/2008
RESPONSABILIDADE SOCIAL
A CSS e os termos distorcidos do debate
Eduardo R. Gomes
17/6/2008
MÍDIA & POLÍTICA
Leia Lazarsfeld em ano eleitoral
Rafael Duarte Oliveira Venancio
17/6/2008
MÍDIA & EDUCAÇÃO
Matéria induz leitor a pensar que escola é péssima
André Tosta Mendes
17/6/2008
IMPRENSA, BICENTENÁRIO
Papel revolucionário
Domingos de Abreu Miranda
17/6/2008
COMUNICAÇÃO & SOCIEDADE
Mídia e ser humano, juntos até que a morte os separe
Selma Rizzetto Tronco
17/6/2008
MÍDIA & ELEIÇÕES
Luz, câmera, voto!
Luiz Guilherme Melo
17/6/2008
CRISE ALIMENTAR
A imprensa e o debate dos biocombustíveis
Paulo Bento Bandarra
17/6/2008
HQ
O Alienista na cabeça de quadrinistas
Wemerson Augusto
17/6/2008
OBSERVAÇÃO DO LEITOR
Jornalismo abaixo da crítica
Mário Adolfo
17/6/2008

Últimos 5 artigos de
Ligia Martins de Almeida
LEITURAS DE CLAUDIA
Capa não faz jus ao conteúdo
9/2/2010
SÃO PAULO FASHION WEEK
Contradições sobre a beleza feminina
26/1/2010
TRAGÉDIAS & ENCHENTES
Destruição sem mortes não dá notícia
26/1/2010
ELEIÇÕES 2010
O ano das mulheres no noticiário político
12/1/2010
CASO SEAN
O espetáculo na mídia americana
29/12/2009
Mais artigos de
Ligia Martins de Almeida >>