ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 490 - 9/2/2010
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VISÕES DE PORTUGAL
Crioulo Doido faz matéria de turismo

Por Carlos H. Knapp em 17/6/2008

Com um sorriso irônico, Carlos Saboga, querido amigo e cineasta português a quem fui visitar há três semanas, me estendeu recorte de Mulher Moderna, semanário de Lisboa, onde li o seguinte:

"Será que existe outra Lisboa?

A falta de conhecimento do nosso país por terras americanas é algo a que estamos habituados. Parecia difícil imaginar que uma publicação brasileira, especializada em viagens, pudesse ser tão "imprecisa" sobre o nosso país, em particular, Lisboa. Turismo & Negócios foi fundada há 12 anos em Maceió e circula por toda a América do Sul. Bom, vamos lá ao que interessa. Aqui fica um excerto do texto que nos faz pensar se estamos no continente, no país ou na cidade certa...

Lisboa em ascensão turística

A capital de Portugal, Lisboa, é a porta de entrada para a Europa. A cidade está em ascensão turística. O idioma oficial é o português mas fala-se fluentemente o espanhol. É uma civilização marcada por diferentes costumes, de origem européia e africana. Sua arquitetura é essencialmente gótica. Banhada pelo Oceano Pacífico e tendo como principal o rio Tejo, Lisboa tem entre seus vultos históricos nomes importantes da história do Brasil, haja vista que já fomos colônia portuguesa. D. Pedro I e II, D.João VI e Dona Maria Leopoldina, entre outras, figuram em nomes de ruas, museus e demais patrimônios públicos. Lisboa é uma cidade plana, de velhos mas bem conservados casarios, clima tropical úmido, temperatura variável, fria no inverno e quente no verão, mas nada comparável ao calor brasileiro. Graças ao Estreito de Gibraltar, Portugal liga-se também ao Oceano Atlântico. O curioso é que 2/3 da capital portuguesa desapareceram após a II Guerra Mundial, mas o primeiro ministro de então, Marquês de Pombal, providenciou a recuperação das ruínas, com orientação de excelentes arquitetos, preservando a originalidade das construções (...)"

Primeiro, não acreditei. Achei que se tratava de humorismo da publicação lisboeta. Afinal, para eles, os brasileiros é que são os "portugueses" da anedota. Depois, refleti, só podia ser que a revista Turismo & Negócios tivesse uma página humorística, tipo Planeta & Casseta. Podia, por exemplo, ter transcrito um desses bestialógicos que, verdadeiros ou falsos, circulam na internet como sendo respostas dadas por estudantes a certas questões de provas escritas. E o que Mulher Moderna, com curto senso de humor, não tivesse percebido a graça.

Decadência do ensino

A revista Turismo & Negócios existiria realmente? Não seria uma invencionice? Fui à internet e verifiquei que, sim, ela até parece ter alguma significação. Eis o que informa o seu expediente:

"A revista bimestral Turismo & Negócios circula em todo o País e no Mercosul, através de mala direta para órgãos oficiais de turismo, companhias aéreas, operadoras turísticas, agências de viagens, agências marítimas, hotéis, restaurantes, locadoras, bancos, autoridades em geral, jornalistas da imprensa especializada, e está presente em grandes eventos.

Artigos assinados e conceitos emitidos por entrevistados não representam necessariamente a opinião da revista."

Esse último parágrafo salva um pouco a cara do editor. Ele poderá afirmar que não acredita que Portugal seja banhado pelo Oceano Pacífico, que este oceano se comunique com o Atlântico pelo estreito de Gibraltar, que o Marquês de Pombal ressuscitou para mandar reconstruir Lisboa semidestruída na Segunda Guerra Mundial, que Lisboa seja uma cidade plana (teria sido achatada pelos bombardeios nazistas?), de clima tropical úmido, que sua arquitetura seja gótica etc. Enfim, poderá discordar do Crioulo Doido, já que os conceitos deste não representam necessariamente a opinião da revista.

Mas, se a matéria não foi assinada, não foi uma entrevista, como fica a cara da publicação? Não pude esclarecer este ponto porque o site da revista não dá acesso a edição alguma, impressa ou digital. Pedi uma busca pelo título da matéria, "Lisboa em ascensão turística", e obtive como resposta vários textos relacionados com Portugal, mas nenhum é aquele em questão. De qualquer modo, não posso duvidar da seriedade de Mulher Moderna. Ela não iria transcrever um texto inexistente.

Sergio Porto incluiria o caso no Festival de Besteiras que Assola o País. Mas ele não chegou a ver como a decadência do ensino enriqueceu o Febeapá, hoje um megaevento e grande desgraça do nosso país.

Comentários (6)
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Nuno Melo , Lisboa-IN - Engenheiro
Enviado em 20/4/2009 às 14:52:27
Gostava mesmo de encontrar [ ] que escreveu tal matéria! Além de umas lições de história, geografia, e até cultura geral, acho que lhe dava um outro tipo de lições! meu deus!!! mas foi bom ler o artigo, fiquei a saber que o terramoto de 1755 que tanto ensinam nas nossas escolas afinal não passa de uma calúnia! afinal fomos bombardeados na 2ª Guerra Mundial... Sempre que for à praia vou fazer de conta que estou no Hawaii... sim, já que temos o oceano pacífico aqui ao lado!!!! talvez seja por isso que temos um clima tropical!!! A pessoa que escreveu tal artigo devia ser irradiado de qualquer tipo de publicação impressa ou electrónica! Para além de um pedido de desculpas ao Presidente da República Portuguesa e aos portugueses! Sim, caso o tal senho não saiba, também somos um estado de direito independente que não pertence à nossa vizinha Espanha!!!
Margarida Moura , Faro-IN - Informática
Enviado em 9/10/2008 às 18:18:15
Viva! Também recebi isto por email, em Outubro de 2008. Mas custou-me a acreditar. Procurei e encontrei isto: http://www2.uol.com.br/JC/_1998/1905/cc1905d.htm Foi Fatos, Turismo e Negócios, Mulher Moderna? Não sei. Mas 10 anos depois, já devia ter prescrito. Creio que temos que começar a esquecer o que não vale a pena ser lembrado. Bem hajam. Margarida
Maria Neves , Lisboa-IN - Cientista
Enviado em 28/8/2008 às 10:20:31
Não dá para acreditar. Pensei que fosse noticia de pais africano ou de algum bem longe asiático....Como é possível uma revista de Turismo escrever tanto disparate....
André Fiori , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 23/6/2008 às 19:52:59
Essa é a ANALfaburrice funcional que infelizmente vem permeando fortemente a categoria. Fazem com os dedos no teclado o que deveriam fazer com o [ ]. Vale lembrar que 75% dos brasileiros lêem, mas não decodificam corretamente o que lá está escrito e, na maior parte das vezes, só entendem algo do tamanho de um letreiro de ônibus. Com tal porcentagem na população, não se surpreendam se virem gente com superior completo tendo atitudes de americanos que não sabem apontar países no mapa (o que é pessimo, pois conheço o brasileiro simples e ele não comete essas batatadas que os jornalistas andam cometendo). E o pior de tudo é que os jornalistas [ ] funcionais são bem cheios de si. Se você o alerta que na prática ele é iletrado, logo vem ele "cheio de razões e calibres em punho" (Racionais) para cima de ti, quando na realidade deveria ter ficado quieto, isso para não dizer que deveria ter ficado quieto antes de proferir a batatada que suscitou o alerta. Se bem que, pelo que já vi dessa gente, só aprendem mesmo na base do relho. Simplesmente lamentável que nossos colegas esqueçam-se cada vez mais que ler e ter noções de geografia, história, física e outras coisas que deveriam ter aprendido no colegial é condição sine qua nom para o exercício profissional. Será a fetichização do ofício se manifestando?
Otávio Santos , Sobral-CE - Psicólogo
Enviado em 23/6/2008 às 13:16:44
Ou, com requintes de incompetência!
Renato Fonseca , Brasília-DF - analista
Enviado em 19/6/2008 às 11:58:22
Nossa, passou pelo jornalista, editor... e mataram a história, geografia e a noção de ridículo com requintes de crueldade.
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