ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 490 - 9/2/2010
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TV DIGITAL
O problema é o modelo, não o ritmo

Por Jonas Valente em 18/6/2008

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 17/6/2008; título original "Problema da TVD é o modelo e não o ritmo da implantação, dizem especialistas"

A lentidão na introdução da TV Digital no Brasil vem preocupando seriamente governo e emissoras. Sinal disso foi o destaque dado pelos telejornais do maior grupo de televisão do país, a Rede Globo, na segunda-feira (17/6), à entrada do sinal digital de sua emissora no Rio de Janeiro. Nas notícias, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, reiterou a promessa de conversores a preços populares informando que um protótipo estaria disponível no mercado a 230 reais a partir do mês de julho.

No entanto, para especialistas consultados pelo Observatório do Direito à Comunicação, a explicação para a falta de popularidade da TV digital não está no ritmo da entrada em operação das emissoras ou no preço dos conversores, mas no modelo adotado. "A TV digital não é interessante para o usuário porque é um investimento muito grande para não ter nada diferente daquilo que já é oferecido pela TV analógica", explica César Bolaño, professor da Universidade Federal de Sergipe e autor de livro sobre o tema.

A semelhança com o analógico se dá pelo fato de o modelo digital brasileiro ter optado pela lógica de canal ao invés da de programação. No lugar de permitir a veiculação simultânea de uma programação em formato digital até que a transição de modelos fosse completa, o governo optou por destinar um canal adicional. A diferença e o grande problema é que uma programação digitalizada pode ser transmitida usando muito menos espaço do espectro radioelétrico, mas o que as emissoras ocupam hoje é uma faixa equivalente ao que é usado para transmitir com a tecnologia analógica – 6 MHz –, o que significa algo como quatro ou cinco vezes mais do que o necessário.

Nesta lógica, a possibilidade de ampliar o número de programações no espaço do espectro eletromagnético, opção possível com a digitalização, foi desprezada pelas emissoras comerciais. "A gente compreende que isso é inerente ao modelo comercial na medida em que para fazer multiprogramação elas teriam que dividir bolo publicitário em quatro canais e isso não é da dinâmica capitalista", analisa Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasil de Comunicação.

Mesmos canais e sem interatividade

Para o professor da PUC do Rio de Janeiro, Marcos Dantas, este quadro faz com que as emissoras comerciais de televisão estejam apenas preocupadas em acelerar o processo sem compromissos com o aproveitamento de novas potencialidades que a tecnologia viabiliza, como a interatividade. A ânsia para agilizar a transição contribui para aprofundar este processo, uma vez que seu principal desafio, o barateamento dos conversores, só será obtido à custa da retirada de qualquer nova funcionalidade que encareça seu custo de produção.

Assim, os protótipos prometidos pelo ministro das Comunicações a 230 reais serviriam apenas para converter o sinal e gerar uma melhoria na qualidade da imagem. "Se não tiver um aparelho de televisão bom, a diferença não será tão significativa assim. Quem quer melhorar imagem da recepção deve estar mais preocupado em mudar o televisor do que comprar conversor para assistir na televisão antiga que possui", argumenta César Bolaño.

Além disso, acrescenta o professor, com o "mais do mesmo" da TV digital, as pessoas de maior renda, que geralmente dão escala às inovações tecnológicas ao adquiri-las enquanto seus preços ainda estão altos, dificilmente vão comprar a nova tecnologia agora, devendo optar pela TV a cabo ou por satélite que, afinal, ofertam mais canais.

Outra funcionalidade além da multiplicação de canais, a interatividade, continua na gaveta. "O Ginga teve que voltar para a prancheta, por conta de sua parte conhecida como Ginga-J. E não há previsão para que set top boxes saiam das fábricas com o Ginga embarcado", conta Gustavo Gindre, do Intervozes. De acordo com Moris Arditti, do Fórum SBTVD, o software Ginga está totalmente especificado, mas o desenvolvimento não está pronto ainda. "O que o Fórum fez foi uma parceria com a Sun [empresa de software] para fazer o desenvolvimento do Ginga-J e, assim, definir que o custo do licenciamento seja bem mais acessível", diz.

Ele prevê que, até o final do ano, algumas máquinas com interatividade já estejam nas prateleiras, mas lembra que, por conta dos aplicativos, da memória adicional e dos licenciamentos o preço desses conversores será mais alto. O risco já apontado nas discussões sobre a escolha do padrão tecnológico é criar duas categorias de telespectadores: os da "caixinha barata", famílias de baixa renda que terão um conversor apenas para conseguir receber o sinal digital sem qualquer diferença em relação ao televisor comum, e os da "caixinha incrementada", pessoas com renda alta que poderão comprar set top boxes mais caros e com funcionalidades adicionais.

Caso isso se confirme, inverte-se a lógica do interesse público. O acesso à TV digital volta-se para garantir o modelo de exploração das emissoras ao invés de servir aos interesses da população, distribuindo de forma democrática as funcionalidades da nova tecnologia.

Comentários (6)
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Alessandra  Bacelar de Farias , Brasília-DF - jornalista
Enviado em 20/6/2008 às 11:37:42
Não é coerente o que as emissoras comerciais estão fazendo diante da possibilidade de ampliar o número de programações no espaço do espectro eletromagnético, por meio da digitalização. A ganância publicitária está fazendo com que as emissoras comerciais se distanciem da ampliação do leque de programação. À princípio poderia representar à eles um certo prejuízo, mas se este espaço for bem planejado pode ser a conquista dos telespectadores pela TV aberta! As TVs a cabo que se cuidem!
Jonas Paulo  Negreiros , Jundiaí-SP - técnico em eletrônica
Enviado em 20/6/2008 às 06:36:54
Tenho a impressão que os Radiodifusores pouco se importam se a TV digital vai demorar para tornar-se uma realidade. A TV digital não veio para competir com a Internet, veio apenas para garantir a manutenção do espectro de rádio na mão de poucos. Faço um paralelo com o Rádio AM x FM: o AM surgiu no início dos anos 1930, o FM em 1960. Ninguém nega a superioridade do som do FM. No entanto essa transição tecnológica ainda não terminou. E a maioria das concessionárias exploram as duas mídias.
luiz galvão , são paulo-SP - jornalista
Enviado em 19/6/2008 às 12:16:28
Jonas, caso se interesse pelas minhas idéias estou a disposição..tenho um video gravado onde o Marcello Zuffo fala que seria impossível tantas interatividades num controle remoto, como enviar videos em tempo real no telejornal (a ser avaliado e jogado ao ar intantaneamente),chamadas do assunto principal do telejornal e o receptor manda videos sobre o assunto ou informações antes ou na hora, acessar menú com detalhes do especialista entrevistado,(chefia de reportagem disponibiliza fone, endereço, etc se assim ele liberar) acesso ao arquivo da emissora e sacar reportagens já exibidas e disponíveis, menu onde se vê a paginação do jornal e se pode sacar a última matéria(se já editada) e assistir(poder gravar em dvd seria um sonho)..saber a hora e em que bloco vai entrar um link,ouvir o noticiário e num menú ficar vendo a hora que quiser imagens do trânsito do helicóptero pela cidade, e muito mais...o Guido Lemos diz que o Ginga J dá todas essas possibilidades..mas a multiprogramação seria ainda mais importante e o monopólio não deseja e enm o modelo de implantação da digitalização facilita..como vc bem escreveu nesse excelente artigo..abraços.
lui galvão soares , são paulo-SP - jornalista
Enviado em 19/6/2008 às 12:02:13
Fiz um projeto de interativida no telejornal e ao vivo com 12 opções no menú.O cientista, prof.dr. Guido Lemos, um dos comandantes do consórcio de universidades, aprovou todos.Disse ainda que nossso Ginga J é o mais podereso conversor por "chegar" atrasado apenas vinte anos.Com linguagem java é rico para os aplicativos de interatividade e multiprogramação.Para ele, o ginga j não interessa exatamente às indústrias eletro-eletrônicas, vc sabem o porquê.Meu projeto é baseado na "comunidade manda e faz notícias" e propõe até mudanças no formato de telejornal atual e o fim da hierarquisação da notícia e dos jornalistas, donos da notícia.Com um controle remoto com interface de celular(menu de opções nele) e usabilidade de um comum, é caso para TI, evidente.Mas a tv digital e multiprogramação não passa de um grande BUG do mulênio.Chegaria aos lares dos brasileiros mais rápido do que a inclusão digital proporcionando educação, interatividade, etc.Mas a IPTV chegará primeiro, claro.No mené de opções dar para colocar uma cam no monitor e ser acessada a comunidade em volta pela própria emissora e estabelecer um debate ao vivo com o âncora ou comentarista sem a necessidade do velho link..entraria em wap em rede na tela.Ao invés de ter que ir ao pc para acessar programas já editados ou reportagens, basta a emissora disponibilizar tudo e com o nosso conversor "sacar" todos e qualquer produto
Vagner Luiz dos Reis , sabara-MG - Jornalista / Fotografo
Enviado em 19/6/2008 às 10:01:25
O que chama a atenção é exatamente o fato de a mídia não tratar o tema da interativida e da multi-programação. O usuário de TV, que tem nela a maior fonte de informação, não tem noção das possibilidades que tem a TV Digital. Claro que convém às emissoras omitir essas informações uma vez que produzir para a TV Digital implicará na contratação e administração de um número muito superior de profissionais. Que venha a TV Digital, mas que venha com qualidade.
Diego Rosinha , São Leopoldo-RS - jornalista
Enviado em 18/6/2008 às 15:15:24
É algo que já se previa. A população ficou a margem desse processo, e desconfio que ainda nem saiba muito bem do que se trata. É o jogo dos grandes, que mais uma vez deixou de fora a grande maioria da população tupiniquim. e chamam isso de democracia...
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