ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 492 - 9/2/2010
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LEI AZEREDO
Uma ameaça à liberdade na rede

Por Cristina Charão e Henrique Costa em 2/7/2008

Reproduzido do Observatório do Direito à Comunicação, 30/6/2008; título original "Lei sobre crimes eletrônicos é ameaça à liberdade na rede"

Tramita em regime de urgência no Senado Federal o Projeto de Lei 89/2003, de autoria do senador Eduardo Azeredo, batizada Lei dos Crimes Eletrônicos. Amparada pelo discurso do combate ao cibercrime e, especialmente, à pedofilia, o projeto passou praticamente sem causar polêmica pelas comissões de Assuntos Econômicos e de Constituição e Justiça, onde ganhou, no último dia 18/6, o selo de urgente. Do lado de fora do Congresso, porém, a simples menção ao PL 89/03 causa indignação entre militantes e especialistas, que se organizam para reverter a tendência de naturalização da aprovação do projeto, considerado por eles um empecilho ao desenvolvimento e ao uso democrático das redes.

As críticas são bastante duras. Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-Rio, compara o processo de discussão do PL 89/03 com a aprovação do Patriot Act pelo governo Bush. "Utilizar este assunto [a pedofilia] para regulamentar de forma apressada assuntos mais abrangentes, afetando toda a internet, é uma estratégia antidemocrática, que lembra ações tomadas pelo governo Bush, que em nome do terrorismo regulamentou do petróleo às telecomunicações", afirmou.

Lemos considera que o principal resultado da aprovação do PL será a criação de uma "rede de vigilância privada" no Brasil. "O projeto coloca os provedores de acesso à Internet como responsáveis pela vigilância dos dados trafegados pelos usuários. Não só: obriga os provedores a encaminharem `sigilosamente´ denúncias que tenham recebido de crimes. Com isso, dá-se início a uma dupla cultura, da vigilância privada e do denuncismo, ambas amparadas por lei", comentou.

"O PLC incentiva o temor, o vigilantismo e a quebra da privacidade. Prejudica a liberdade de fluxos e a criatividade. Impõe o medo de expandir as redes", resumiu em seu blog Sérgio Amadeu, sociólogo, autor de diversos livros sobre políticas para a internet e militante do movimento Software Livre.

Criminalização do acesso

A análise dos especialistas ouvidos pelo Observatório do Direito à Comunicação mostra que o PL torna crime o simples uso de uma série de recursos que, hoje, democratizam o acesso à internet e a circulação de conteúdo. Para Ronaldo Lemos, a aprovação do projeto resultará na criminalização em massa dos usuários da internet, uma vez que torna crime o mero acesso à rede. "O senador criou um projeto de lei que possui dezenas de artigos que criminalizam atividades cotidianas na rede", afirmou.

João Cassino, militante do movimento Software Livre, chama a atenção para o fato de que, ao exigir que todo usuário que acessar uma rede de computadores seja identificado e tenha seus dados armazenados pelo operador da rede, o projeto inviabiliza as redes abertas de uso gratuito. "Se essa lei for aprovada, eu teria que me identificar no provedor. E as cidades com wireless aberto? Até a orla de Copacabana vai ter sinal aberto... como cobrar que um turista se registre para utilizá-la?", questiona Cassino. "Vai tornar a coisa tão burocrática que vai dificultar o acesso a informação."

Sérgio Amadeu aponta os efeitos do projeto sobre o uso de mecanismos do tipo peer to peer (P2P), que foram criados para acelerar a transferência de arquivos "transformando" cada máquina ligada à rede e que tenha este tipo de dispositivo instalado em um potencial servidor de onde se pode baixar o conteúdo, diminuindo as distâncias a serem percorridas pelos pacotes de informações.

O P2P se tornaria inviável por duas previsões do projeto de lei. O PL caracteriza como crime o acesso a rede ou dispositivo sem prévia autorização. Como para baixar um arquivo usando um dispositivo P2P utiliza-se o computador de outras pessoas como "caminho" para a transferência, o usuário estaria incorrendo em uma prática criminal.

A segunda previsão do PL 89/03 que inviabiliza o uso do P2P – e de outros mecanismos de compartilhamento de conteúdos – é a obrigação dos provedores informarem à polícia sobre o tráfego de conteúdos suspeitos. Como os diferentes conteúdos circulam pela rede em "pacotes de informação" fechados, os provedores apenas podem identificar conteúdos suspeitos "quebrando" estes pacotes. "É provável que se escolha entre dois caminhos: invadir a privacidade e olhar os pacotes baixados ou simplesmente proibir o uso do Torrent para evitar um processo posterior. Um terceiro caminho (mais absurdo ainda!) é inundar a polícia com listas semanais de usuários do provedor que acessaram redes P2P", escreve Amadeu [ver aqui].

CDs, celulares e MP3 players

O projeto do senador Azeredo teria ainda outro efeito que atingiria um número incontável de cidadãos que utilizam MP3 players, celulares que comportam arquivos de mídia ou qualquer outro tipo de aparelho de comunicação similar. Segundo o PLC 89/03, "obter dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização do legítimo titular, quando exigida" se configuraria em crime, passível de dois a quatro anos de detenção. Avançando, "nas mesmas penas incorre quem mantém consigo, transporta ou fornece dado ou informação obtida nas mesmas circunstâncias". Ou seja, o PLC tem ainda a pretensão de impedir o transporte e armazenamento de arquivos MP3, por exemplo.

Além disso, o projeto tem em vista tornar crime "acessar rede de computador, sistema informatizado ou dispositivo digital sem a autorização do legítimo titular", o que implicaria inutilizar os IPods ou outros dispositivos que tenham acesso à rede. "O projeto é tão abrangente que vale não só para sites da internet, mas também para aparelhos celulares, IPods, tocadores de DVD, conversores de tv digital e assim por diante", comenta Ronaldo Lemos.

Lei inaplicável

João Cassino acredita, no entanto, que se aprovado o PLC 89/03, a lei já nascerá obsoleta e de difícil execução. Nesse caso, a lei seria utilizada para encontrar exemplos para a opinião pública. "É como a lei da pirataria. As pessoas vão continuar baixando música, mas de vez em quando eles usarão alguém para servir de exemplo." Lemos concorda afirmando que mais um efeito maléfico da lei seria a geração de "bodes expiatórios". "Com uma lei em que praticamente todos são criminosos, abre-se a possibilidade de que a punição seja aplicada por critérios políticos", afirma, prevendo conseqüências ainda mais preocupantes. "Com isso, caem por terra princípios básicos do Estado democrático de direito."

Necessidade da regulamentação

Marcos Dantas, professor da PUC-RJ e especialista em políticas de comunicação, acredita que a internet pode ser considerada hoje um espaço público e que, portanto, devem existir leis que a regulem, assim como acontece no mundo real. Ele lembra que vários crimes são cometidos na rede, inclusive atentados à segurança nacional e ao Estado democrático. Acredita, contudo, que se pode adotar soluções mais drásticas, antidemocráticas, ou soluções democráticas e socialmente equilibradas, mas que não se pode subestimar a constante violação à privacidade que já acontece, inclusive e principalmente pelas grandes corporações.

"Talvez seja mesmo necessária uma legislação que me proteja dos interesses corporativos, dos spams, que puna a pornografia e a discriminação, que impeça o uso da rede para a prática de crimes e, mesmo, atentados ao Estado democrático", afirma. Dantas cita, ainda, mensagens do tipo "este programa precisa ser atualizado", comumente enviadas por grandes empresas de software e que não deixam de configurar uma invasão aos computadores.

"Acho que a intenção dos parlamentares é ter um arcabouço legal contra crimes contra bancos, previdência. Mas o projeto é muito hermético, não tem abrangência, não permite trabalho compartilhado", comenta Cassino, revelando que existe um consenso na necessidade de regulamentação, com a qual também concorda Lemos. "O que o Brasil precisa nesse momento é que a internet seja regulamentada do ponto de vista civil", diz o especialista da FGV.

Lemos detalha quais seriam os passos necessários para que se defina do ponto de vista legal a privacidade, o comércio eletrônico e a responsabilidade dos provedores da internet. "Após essa experiência legislativa ser posta em prática, é preciso avaliar dentro de alguns anos o que deu certo ou não e aí sim, como última instância regulatória, tratar da questão nos casos excepcionais através do direito penal."

Comentários (15)
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João Sérgio  da Silva Costa , Cataguases-MG - Universitário
Enviado em 2/8/2008 às 19:12:06
é estranho como esse projeto não tem sido objeto de discussões nas TVs comerciais, apesar da amplitude de sua influência na vida dos 44 milhões de internautas brasileiros
Magno Neto , Natal-RN - Administrador de redes
Enviado em 14/7/2008 às 11:57:20
o Brasil precisa é de um projeto de lei que puna os políticos corruptos e descarados. Anos e anos de escândalos, falcatruas e crimes contra a população sem qualquer punição efetiva. As nossas leis estão cheias de brechas e esgotos "burrocráticos" por onde os ratos com poder aquisitivo ou cargo político escapam ilesos. o Senado aproveitando-se dessa "onda de pedofilia na rede mundial", aprovou essa pérola. Difícil será aplicá-la com justiça, sem ferir os direitos dos cidadãos brasileiros, a liberdade de expressão e a privacidade. No Brasil, palhaços que mal sabem utilizar um laptop se atrevem a criar leis absurdas como estas....prepotência pura e simples ou pra dizer que trabalham? gastam nosso dinheiro de forma tão improdutiva..... Para refletir: "A maior parte dos políticos brasileiros e os pedófilos possuem várias caracteristicas em comum, entre elas uma se destaca (talvez a principal e mais visível): Ambos aproveitam-se da ingenuidade e fragilidade de suas vítimas em benefício próprio e de seus comparsas." existem várias outras características. Se você pensar a respeito se surpreenderá com a semelhança entre essas duas classes de insetos.
j batista , grhls-SP - fpubl
Enviado em 5/7/2008 às 08:16:41
InternetxCensura- a internet é o meio mais democrático, sendo que não sofre tanta influencia do poder econômico quanto as outras mídias, (jornais,revista,radio e a televisão), que cada vez mais carecem de credibilidade diante da manipulação das informações por grupos de interesses econômicos e até no patrocínio de políticos que futuramente defenderão seus interesses particulares em detrimento ao publico, ignorando a vontade da maioria dos cidadãos, abandonando os valores morais, eticos e patrióticos, prescindíveis no fortalecimento e respeito da nossa Nação. A internet e uma educação de qualidade para todos os cidadãos( sem discriminação ou privilégios) é o caminho para realmente desfrutarmos de uma futura democracia verdadeira.
Carlos Alberto , Rio-RJ - professor
Enviado em 4/7/2008 às 21:06:28
O atentado ao estado democrático e de direito está nos noticiários dirigidos e na manipulação descarada das notícias para atingir governos legalmente eleitos e constituídos. Aí sim, que se esperar a mão pesada da lei. Não existe espaço maior para o contraditório do que a internet. Isso aborrece e incomoda enormemente aos "senhores" do país.
José de Souza Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 4/7/2008 às 14:37:36
"Se ficarem escutando o meu canal de dados eu cifro a mensagem e não conseguirão ler nada, como é feito em sites de transação financeira". É a maior crítica que já li, até agora, ao livro "Fortaleza Digital", de Dan Brown, o autor de "O Código da Vinci". Ele nos diz que existe um departamento do governo dos Estados Unidos, "a ultra-secreta NSA, a Agência de Segurança Nacional", capaz de decifrar com o supercomputador Transltr, em poucos minutos, qualquer mensagem encriptada enviada pela Internet. O Azeredo talvez pensasse em contratar a NSA para controlar nossos e-mails e, de cambulhada, o blog Tamos com Raiva...
Pedro Lívio de Oliveira , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 4/7/2008 às 13:53:38
Boa tarde. Procurei pelo projeto no site do Senado e não o encontrei. Podem me ajudar? obrigado
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/7/2008 às 13:39:24
Certos mecanismos da sociedade brasileira soam como piada. Pra quê serve a tal de Comissão de Constitucionalidade da Câmara ? Não seria para rejeitar leis ou artigos que não tem embasamento na Constitução Federal ? Se tal Comissão funcionasse, ninguém estaria se preocupando com algo tão absurdo como essa cripto-censura do senador tucano. Mais uma, por sinal.
Eduardo  dos Santos , Florianópolis-SC - Analista de sistemas
Enviado em 4/7/2008 às 11:43:55
O controle da internet é uma preocupação mundial. Os Estados Unidos já tentaram criar vários mecanismos de controle e regulação. Isso não funciona. Se ficarem escutando o meu canal de dados eu cifro a mensagem e não conseguirão ler nada, como é feito em sites de transação financeira (compras, bancos, etc.). O que farão quanto a isso, proibirão a utilização de qualquer ferramenta criptográfica? Não conseguiram nem proibir o jogo Counter Strike no Brasil. Isso é lei tosca que fica só no papel.
Anderson Luiz , Cachoeiro deitapemirim-ES - Designer
Enviado em 4/7/2008 às 03:33:15
Com tantos projetos de leis muito mais importantes a ser criado, o nobre deputado vem com essa lei idiota.
Jorge Fernando dos Santos Santos , Belo Horizonte-MG - Jornalista e escritor
Enviado em 3/7/2008 às 22:13:21
O projeto de lei do senador Eduardo Azeredo é mais uma tentativa de tirar da internet o que ela tem de mais revolucionário, que é justamente a liberdade de pensamento e o livre debate sobre qualquer assunto. Para impedir a pedofilia, não precisa cencura prévia. Basta agir judicialmente, como a PF tem feito. O curioso da decadente república brasileira é que grande parte dos políticos que se diziam progressistas durante a ditatura militar adota hoje uma postura autoritária e antidemocrática, inclusive tentando silenciar as vozes discordantes. Num país onde boa parte da grande imprensa é vendida aos poderosos e trata a intelectualidade a ponta-pés, os blogs, e-mails e sites particulares são o último refúgio da liberdade.
André  Marra , Oliveira-MG - Radialista
Enviado em 3/7/2008 às 20:23:19
Tem que por um fim nestas atividades ilegais sim, infelismente posso estar errado mas, é minha opnião. Não tem nada de mais nisso quem nào deve não teme. E mais: a imprensa é brasileira é a campeã em denunismo, portanto pode até opniar mas , já deveria saber que é possível com boa vontade separar o joio do trigo. Seria o momento de alavancar o debate com argumentos mais convincentes e nào supondo e aladardeano hipótese com sempre faz.
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 3/7/2008 às 16:35:47
Os políticos estão preocupados? Então estou tranquilo. Vou me preparar bastante para DEFENDER meus direitos e garantias individuais no Judiciário e na OEA (se necessário for). A tal lei cheira a inconstitucionalidade e a um verdadeiro GOLPE contra a sociedade civil. Sob a mascara de legalidade, os autoproclamados donos deste Estado tacanho, corrupto e ineficiente QUEREM SILENCIAR os descontentes. Sob a mascara da legalidade, eles PRETENDEM CONTINUAR SUAS MUTRETAS SEM SEREM INCOMODADOS. Vão quebrar a cara.
José de Souza Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 3/7/2008 às 15:23:28
Eduardo Azeredo se considera um especialista em informática. Ele começou a trabalhar na IBM, depois de formado em engenharia pela UFMG. Aos 34 anos, foi nomeado pelo governador Tancredo Neves presidente da Prodemge (Companhia de Processamento de Dados do Estado de Minas Gerais). Seu pai, o ex-deputado federal Renato Azeredo, era secretário de Governo. Começava ali sua carreira política. Foi escolhido vice na chapa de Pimenta da Veiga à prefeitura de Belo Horizonte. Em 1990, no meio do mandato, Pimenta saiu para ser candidato a governador, abrindo espaço para que Azeredo crescesse politicamente, sendo reeleito e se candidatando a governador, com o apoio do governador Hélio Garcia. Não conseguiu se reeleger, mas quatro anos depois chegou ao Senado. Nesse meio tempo, presidiu a empresa de informática do Grupo Belgo. Seu ódio à Internet livre pode ter nascido em 2005, quando foi exposto, principalmente pelos blogs, no caso Mensalão. Foi em seu governo que começou o Mensalão, mas a imprensa fingia não ver. Em 2005, porém, viu-se carregado na onda feita pela grande imprensa que queria assim desestabilizar o governo Lula, e Azeredo foi obrigado a renunciar à presidência nacional de seu partido, o PSDB. "Minha vingança será maligrina", deve ter pensado ele...
Marcelo Thompson , Niteroi-RJ - Eng
Enviado em 3/7/2008 às 13:03:54
Para variar, nossos ilustres representantes elaboram uma lei sem consultar especialistas no assunto, baseadas em puros "achismos" ou mesmo em conceitos que não se aplicam à grande rede. Mas é só o Google e a Apple fazerem uma pressãozinha, já que seus produtos ficaram seriamente prejudicados, que nossos parlamentares mudam de opinião.
Ronaldo Santana , Campinas-SP - Empresário
Enviado em 3/7/2008 às 12:17:26
Essa lei foi feita por quem não conhece a complexidade da troca de dados na internet. É claro que a internet precisa de leis específicas, não só contra pedofilia, mas também contra atividades cracking que causam prejuízos imensos a bancos, empresas e clientes. Querer controlar o fluxo de informações entre os usuários vai gerar um custo enorme (que obviamente será repassado ao consumidor), além de esbarrar em questões delicadas: alguém vai vigiar minhas operações bancárias ou saber pra quem eu ligo no voIP? O pior dessa lei é inverter a ordem natural das coisas: vigia e investiga antes de uma denúncia (motivo), quando deveria ser o inverso.
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