ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 493 - 9/2/2010
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OI NA TV
Ingrid libertada: fim da
guerra-fria latino-americana?

Por Lilia Diniz em 9/7/2008

A mídia é condescendente com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)? O Observatório da Imprensa exibido terça-feira (08/07) pela TV Brasil discutiu a relação dos meios de comunicação com as Farc. Na semana passada, o exército colombiano libertou a ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Farc há seis anos, e outros 14 reféns que estavam em poder da organização.

Participaram do programa ao vivo em São Paulo o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Wálter Maierovitch, estudioso da criminalidade organizada e do terrorismo, e Lourival Sant’Anna, repórter especial de O Estado de S.Paulo. O jornalista e escritor Fábio Pannunzio, repórter especial da Rede Bandeirantes, participou pelo estúdio de Brasília.

Alberto Dines comentou os assuntos que estiveram em evidência nos últimos dias. O primeiro tema da seção "A mídia na semana" foi a pane da Telefonica que deixou cerca de 2,4 milhões usuários do serviço de banda larga da empresa sem acesso à Internet em São Paulo por quase 24horas na semana passada. Em seguida, o jornalista comentou o início da campanha eleitoral para prefeito e vereador e disse que os candidatos foram às ruas não para apresentar suas propostas, mas para "mostrar suas qualidades e que são capazes de comer qualquer gororoba".

Outro assunto foi a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o especulador Naji Nahas. A operação investiga desdobramentos do caso mensalão. O grupo está sendo acusado de cometer crimes financeiros. "Quantos dias ficarão na mídia é outra questão", alertou Dines. O último assunto da seção foi o assassinato do menino João Roberto, ocorrido segunda-feira, no Rio de Janeiro. A criança de quatro anos foi morta por engano pela polícia carioca quando voltava de uma festa com a mãe e o irmão mais novo. Dines questionou se os jornais paulistas teriam dado destaque ao caso se o erro tivesse sido cometido pela polícia paulista.

No editorial que precede o debate, Dines disse que os meios de comunicação têm um papel relevante para o esclarecimento de dúvidas que persistem a respeito da libertação de Ingrid Betencourt e dos demais reféns. "A mais importante tarefa da imprensa será o desarmamento dos espíritos. A guerra fria, que acabou na Europa em 1989, precisa terminar também aqui. A imprensa pode ser o principal instrumento desta pacificação atrasada há duas décadas", observou.

A reportagem que foi ao ar antes da discussão ao vivo, mostrou a opinião do comentarista internacional Claudio Bojunga. Para ele, a imprensa é importante como instrumento de análise. O jornalista comentou que recentemente leu artigos que mostram que a opinião pública está exaurida desta "guerra absurda". As Farc teriam prorrogado demais a idéia de uma guerrilha latino-americana. Nessa questão, a imprensa teria um ponto de vista "militante". O fator decisivo para o declínio das Farc não teria sido a participação da mídia, mas sim a disposição do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de derrotar a guerrilha.

Bojunga relatou que a maior parte da imprensa colombiana classifica as Farc como "guerrilha terrorista" porque ataca civis como meio para alcançar seus objetivos. O jornalista analisou a transformação que o projeto de poder da organização sofreu. Até a queda do Muro de Berlim, ocorrida em 1989, e o declínio da União Soviética, as Farc eram o braço armado do Partido Comunista na Colômbia e se guiavam por uma retórica "marxista-leninista".

Ao perder essas importantes fontes de financiamento, passaram a adotar um "vago bolivarianismo". Perverteram-se ao buscar no narcotráfico e no seqüestro de civis novas fontes de financiamento. O jornalista considera que o governo brasileiro adota uma postura inteligente ao não classificar as Farc como "guerrilha". Com isso, não perderia a possibilidade de ser mediador em um processo de paz.

O secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães Neto, explicou que para o governo brasileiro a guerrilha na Colômbia é uma questão interna da sociedade e do Estado colombianos e que o Brasil respeita o princípio da não intervenção. O embaixador afirmou que o Brasil se colocou à disposição do governo da Colômbia para colaborar no processo de libertação dos reféns das Farc.

Jacques Gomes Filho, corresponde do SBT na América Latina, comentou uma série de reportagens que fez sobre as Farc em 1999, para as quais entrevistou o então o então segundo homem mais importante da guerrilha, Raul Reyes. O jornalista contou que ficou impressionado com a preocupação excessiva que Reyes mostrava com a imagem da organização. O correspondente ficou quatro dias no acampamento das Farc, mas só pode filmar na manhã de um deles. Os guerrilheiros alegavam que não estavam com roupas adequadas e que o local ainda não estava preparado. Neste período, o grupo queria ser reconhecido como uma organização que tinha regras claras e que eram respeitadas, queriam sair da ilegalidade. Atualmente, para o jornalista, as Farc se sentiriam injustiçadas tanto pela ação do governo quanto pela pressão da mídia colombiana. Por isso, uma aproximação com meios de comunicação estrangeiros seria menos arriscada.

No debate ao vivo, o desembargador Wálter Maierovitch comentou a influência das fontes de arrecadação das Farc no caráter da organização. No início as Farc, cobravam uma espécie de pedágio dos grandes latifundiários para que estes não fossem seqüestrados; extorquiam e cobravam para proteger áreas de plantio de coca. Em uma fase posterior, já na década de 1990, sofrendo pressões do governo colombiano e dos Estados Unidos, começaram a atuar no tráfico de drogas. Essa passou a ser a maior fonte de financiamento da organização.

O especialista em criminalidade organizada e terrorismo explicou que o termo "narco-guerrilha" foi utilizado em 1984 pelo então embaixador dos Estados Unidos para designar cartéis de drogas como os de Cali e de Medelín. "Saiu a narco-guerrilha e entrou o narcoterrorismo e a imprensa brasileira ainda fala na narco-guerrilha como se estivessem vivos os cartéis de Escobar", criticou. Maierovitch destacou que no início do governo Uribe as Farc estavam a "800 metros do Palácio do Governo" e hoje está embrenhada na selva, sem executar ações de guerrilha urbana.

Lourival Sant’Anna, que esteve recentemente em Bogotá, comentou que um dos desafios da cobertura do fim do seqüestro de Ingrid Betancourt foi conseguir entender como o comandante que coordenava o acampamento – homem de confiança do comandante militar das Farc - foi convencido de reunir os reféns e embarcá-los em um helicóptero com desconhecidos. "Nós jornalistas odiamos comprar uma versão, principalmente oficial, que subestime a nossa inteligência", afirmou.

Sant’Anna, que freqüenta a Colômbia há mais de dez anos e tem inúmeras fontes no país, disse que analistas internacionais acreditam que o comandante das Farc foi trapaceado. Para ele, o resgate da ex-senadora muda o "tabuleiro regional" e coloca Álvaro Uribe em uma boa posição entre os líderes da América Latina.

A TV brasileira no acampamento das Farc

Fabio Pannunzio contou que teve o privilégio de visitar o acampamento das Farc no "ocaso" do romantismo ideológico da guerrilha, no início dos anos 2000. O período era de auto-afirmação da organização, que tentava mostrar que estava disposta a negociar com o governo uma solução pacífica. Os primeiros contatos se deram através de um representante das organização no Brasil, mas os acertos finais foram firmados na Colômbia. Dois repórteres da imprensa escrita brasileira já tinham estado no acampamento.

Para o desembargador Wálter Maierovitch a libertaçaõ da ex-senadora não representa, em curto prazo, o fim das Farc. O fato de o grupo saber se movimentar na selva, seria uma grande vantagem em relação aos seus oponentes. E mesmo o conflito interno e a falta de novas adesões não seriam suficientes para decretar o fim da guerrilha. Maierovitch acredita que possa surgir uma outra facção dentro da organização.

Na opinião do desembargador, o currículo do presidente Uribe "não é recomendável". Uribe e sua família estariam envolvidos com o narcotráfico, inclusive tendo participado do projeto social do traficante Pablo Escobar e teriam empregados em fazendas vivendo em regime de escravidão. Essa supervalorização da figura do presidente ocorrida recentemente inspiraria cuidados, já que sempre teria representado as oligarquias colombianas.

Sant’Anna disse que o tráfico de entorpecentes foi praticamente aceito na sociedade colombiana no passado. Para ele, a história recente do país é traumática. Uribe teria sido o único governante do país que conteve a guerrilha, reduzindo drasticamente suas ações, por isso a gratidão do povo. O jornalista ressaltou que o pai de Uribe foi assassinado pelas Farc, daí o ódio que o presidente nutre pelo grupo guerrilheiro.

Outro assunto do programa foi uma possível comparação entre as Farc e os traficantes de drogas do Rio de Janeiro. Fábio Pannunzio, acredita que o crime organizado em uma favela carioca nada tem a ver com uma organização política revolucionário que chegou ao tráfico de drogas para financiar seus projetos.

 

Perfil dos convidados:

Wálter Maierovitch é juiz e desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. Fundou e preside o Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, especializado em criminalidade organizada e terrorismo. Foi secretário Nacional Anti-drogas da presidência da República.

Lourival Sant’Anna é repórter especial de O Estado de S.Paulo, onde também foi editor-chefe, editorialista e corresponde em Londres. Trabalhou no Serviço Brasileiro da BBC e na CNN.

Fábio Pannunzio, jornalista e escritor, é repórter especial da Rede Bandeirantes. Autor de reportagens investigativas, trabalhou nas principais redes abertas de televisão do país. Foi o primeiro repórter de TV brasileiro a ser admitido pelas Farc em seus acampamentos.

 

***

Mídia poderá ser um instrumento de pacificação

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 468 exibido em 87/2008

Tem tudo para ser o fato do ano. A libertação de Ingrid Betancourt pode representar uma reviravolta no quadro político latino-americano e transformar o continente conflagrado num projeto de convivência.

Uma coisa já está clara: as próprias FARC encarregaram-se de liquidar a mística da insurgência política. E quem o disse foi Fidel Castro ao condenar como cruel e anti-revolucionária a indústria de seqüestros colombiana.

Falta ainda esclarecer muita coisa no episódio da libertação dos 15 seqüestrados na quarta-feira passada e a mídia deve desempenhar um papel importante no desvendamento dos mistérios que subsistem.

A mais importante tarefa da imprensa será o desarmamento dos espíritos. A guerra fria, que acabou na Europa em 1989, precisa terminar também aqui. A imprensa pode ser o principal instrumento desta pacificação atrasada há duas décadas.

Comentários (7)
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Hermes  de Paula , Uberaba-MG - prof
Enviado em 14/7/2008 às 16:21:59
Se houve venda de reféns pelas Farc:1° mostra o carater criminoso das Farc; 2° quem desmoralizou o Hugo Chaves foi mesmo as Farcs, mostrando que nem confiável para os aliados eles são; 3° se o objetivo do governo colombiano era libertar a Ingrid, consegui, por isso saiu vitorioso de uma forma ou de outra. É de estranhar, socialistas ditos democratas, apoiarem sequestradores, traficantes e terroristas que se passam por guerreiros pela liberdade! O socialismo é isto? Sequestro, terrorismo, tráfico? Se for, viva o capitalismo!
Hermes de Paula , Uberaba-MG - prof
Enviado em 14/7/2008 às 16:15:14
Cobra criada é o Uribe que ao mesmo tempo que derrota as Farcs, dá uma desmoralizada no proto-ditador Hugo Chaves. Saudações liberais.
Marco Antônio Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 12/7/2008 às 12:05:09
O comandante Chávez é cobra criada, ele espera uma oportunidade para picar o fantoche dos Americanos, cujo verdadeiro presidente é o buchetismo filho. Abraços socialistas caro Faria?
Felipe Faria , Rio-RJ - estudante
Enviado em 11/7/2008 às 22:38:32
Ah Marco Antonio , que que isso interessa? |Interessa é que o Chaves está todo amiguinho do Uribe, pois estaria completamente isolado se não se aproximasse da Colombia. A atitude de Chaves mostra bem o que aconteceu, e parece que v. tem todos os motivos do mundo para ficar aborrecido.
Marco Antônio Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 10/7/2008 às 19:20:07
Essa liberdade feita por membros do Exército do "grande" Uribe presidente da República do sistema ultra-direitista URIBENHO, não passou de uma farsa. É inadmissível que um grupelho de homens ligados ao exército da Colômbia tenha penetrado nas entranhas da floresta colombiana e sem mais nem menos libertarem a dama Ingrid, seu enfermeiro de desdita florestal, três americanos que foram escolhidos a dedos pelo Buchianismo Norte Americano e um punhado de soldados seqüestrados há alguns anos atrás. Como pode esse grupelho de soldados conseguir achar essas pessoas num universo de quase oitocentos seqüestrados, levá-los para próximo de um enorme helicóptero e, libertá-los perante a dois míseros guerrilheiros. Ora senhores acreditar em Saci-Pererê disputando pulo à distância nessa concorrida olimpíada florestal, somente um idiota poderá crer nesse jogo. Na realidade houve um troca-troca, eu solto os reféns e em troca vocês liberam 20 milhões de dólares. Certo ou Errado?
EDSON CASTRO , bh-MG - Administrador
Enviado em 9/7/2008 às 12:32:54
Gostaria de saber o nome do livro e autor que fala sobre o Uribe...o desembargador citou mas não consegui anotar. obrigado Dines.
DENIO BEM , Recife-PE - farmacêutico
Enviado em 8/7/2008 às 23:32:23
minha pergunta é para qualquer um dos convidados, alguém de vcs não acha deveria ser feita uma reportagem investigativa neste caso, ao invês de fazer sensacionalismo ao governo da colombia? pois na minha opiniao foi uma veradeira farsa esse resgate devido ao interesse dos Estados Unidos em desmoralizar Hugo Chavez, liberar os tres americanos dentro de um universo de mais de 750 reféns junto com Ingrid e alguns outros reféns para disfarçar, que dizer ninguém guerrilheiro acompanhou esse grupo ou foi preso ate agora, confiando apenas na conversa de um grupo que se dizia que era uma ONG o comandante foi humilhado mundialmente e houve nenhum resposta, fora pouco tempo de filmagem do video mostrado e muito acreditar nessa historia????
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