ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 497 - 9/2/2010
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TV DIGITAL vs. INFORMATIZAÇÃO
O que é melhor para o Brasil?

Por Gustavo Audi em 5/8/2008

A televisão digital está aí. Com toda sua imagem perfeita, em alta definição e interatividade, som 5.1 límpido, mobilidade e portabilidade. Vocês viram? Eu, não. O único digital que vejo no Rio de Janeiro é o "HD" escrito nas cartelas que as emissoras colocam ao lado de seus logotipos na tela – que recebo analogicamente via televisão por assinatura (desculpem, comunicação audiovisual de acesso condicionado).

Após anos de discussão, consultas públicas, incentivos financeiros à pesquisa e desenvolvimento, conversas informais e formais, reuniões com diversos setores da sociedade, o modelo criado para o Brasil ignorou todos os debates pró-democráticos de acesso à comunicação e baseou o padrão inteiramente em inovações mercadológicas.

Algumas justificativas apresentadas pelo governo (leia-se: radiodifusores) ao optar pelo modelo híbrido Brasil-Japão são o potencial inclusivo da tecnologia, a melhoria da imagem e som e a superioridade sobre os outros padrões. Tudo muito lindo se fosse verdade.

Faustão em alta definição

Vamos por partes. Realmente, o padrão brasileiro é o melhor do mundo por ser o mais novo (pegou a melhor modulação, a melhor compressão de vídeo...) – e, por isso, é um padrão caro para o consumidor adotar. No entanto, como é comum em tecnologia digital, logo ficará ultrapassado. Neste caso, então, seria melhor escolher um padrão que pelo menos conversasse com algum outro no mundo (o brasileiro não é compatível nem com o japonês). O que vai acontecer é o mesmo que aconteceu com os sistemas analógicos (NTSC não combina com PAL, que não combina com Secam, que não combina com PAL-M e o restante do alfabeto).

E se era para adotar um padrão isolado, então melhor seria se tivéssemos confeccionado um totalmente brasileiro (universidades do Brasil conseguiram desenvolver até tipos de modulação).

Em tempos de globalização, rápido acesso à informação e colaboração entre usuários, a formatação de padrões fechados vai contra toda a tendência de comportamento social e econômico. As pessoas que tomaram esta decisão deveriam ter lido as recomendações de Nicholas Negroponte sobre elaboração de padrões para a televisão digital e cultura digital – ele diz que "ser digital é ter licença para crescer".

Falar sobre a melhoria da imagem é risível. Transmissão em HD é completamente desnecessária. O que a população quer, segundo uma pesquisa do CPqD de 2004, é a melhoria da imagem, ou seja, sem ruídos ou fantasmas, e em segundo lugar maior oferta de canais. Quando os radiodifusores apresentam justificativas sobre suas escolhas, dizendo que o povo quer a alta definição, estão, na verdade, mascarando o verdadeiro motivo. Representantes da Globo, por exemplo, afirmam que a população quer ver Faustão em HD; quer ver futebol e novela em alta definição – eu não vi nenhuma pesquisa onde o Brasil dissesse isso.

Interatividade impossibilitada

E, sério, Faustão em HD?! Por favor... Não façam isso conosco...

Supondo que o povo queira alta definição: e aí? Ele tem alta definição hoje? E terá daqui a algum tempo? Obviamente, a resposta é não. A programação em HD é extremamente pequena e praticamente ninguém tem acesso a ela quando é transmitida (quem poderia receber a alta definição via transmissão aberta terrestre paga TV por assinatura).

Além disso, para receber em alta definição a pessoa precisa de um aparelho que receba este tipo de sinal, e os set top boxes, como são chamados, ainda estão além do poder aquisitivo da população brasileira. Para aproveitar todo o potencial de uma imagem como essa, não basta receber o sinal; deve-se ter um televisor com excelente definição de imagem e o tamanho mínimo (a partir de 16 polegadas). Entretanto, boa parte das pessoas que possuem uma tela de LCD ou plasma, mesmo acreditando ter uma televisão com alta definição, não a possui de fato. A maioria dessas televisões são inferiores ao padrão prometido pelo modelo brasileiro, que possui, às vezes, 1.080 linhas transmitidas de forma entrelaçada.

Acho que nem precisa falar qual o tipo de televisão que a maioria dos brasileiros possui...

Quanto à inclusão social proporcionada pela transmissão digital, vamos ser sinceros: onde isso acontece ou vai acontecer? Mais de 90% dos lares brasileiros possuem pelo menos uma televisão; portanto, o alcance possibilitado por este veículo é enorme. Pensar em inclusão social através da inclusão digital pela televisão é ótimo; infelizmente, esbarramos em péssimas decisões e interesses econômicos divergentes. As decisões dizem respeito às características do padrão brasileiro, que transformaram sua adoção muito cara para o consumidor e impossibilitaram, até agora, o uso de interatividade – elemento primordial para a inclusão.

Quem paga somos nós

O modelo da televisão brasileira de comunicação de massa, que valoriza a indústria cultural de transmissão de um para muitos, onde o espectador é considerado como um preguiçoso receptor da mercadoria informação, é extremamente lucrativo e forte. Os radiodifusores não querem perder isso. Então, por que investir em mudanças? As emissoras de televisão nunca defenderiam o uso interativo real do meio (escolher o ângulo da câmera ou ver a sinopse do filme não é interagir), pois perderiam audiência enquanto os usuários realizam serviços ou acessam a internet. E todos sabem o que acontece quando a audiência cai: o valor da hora diminui e os anunciantes param de pagar ou pagam menos pelo espaço – ou seja, lucro menor (não é nem prejuízo).

Após todas estas incongruências, ainda é espantoso o governo financiar, através de um programa do BNDES (PROTVD), a implementação do sistema brasileiro de televisão digital. É dinheiro público que deve ser usado para os radiodifusores implementarem a televisão digital?

É irreal acreditar que aderir a esta TV digital é benéfico para o povo brasileiro. O padrão mais caro foi escolhido e sobrou para a população pagar por este luxo. Somos nós que compramos os receptores e televisores compatíveis e financiamos, através de dinheiro público, a infra-estrutura (privada) dos radiodifusores. Se o set top box custa R$200,00 não é porque a indústria de eletrônicos é boazinha e fez um acordo com o governo; é porque foi cobrado menos imposto sobre ele (além de permitir a não utilização do middleware, ou o processamento de alta definição). Ilusão acreditar que este é o único custo que o cidadão precisa fazer; o restante do valor de adesão à transmissão digital está camuflado nos programas governamentais de apoio à implementação, seja através de aportes financeiros ou isenção de taxas.

Eles escolheram, mas quem paga somos nós.

Acesso e educação

A interatividade, característica mais inclusiva e inovadora possibilitada pela televisão digital, não foi usada. É ela que possibilita a bidirecionalidade da comunicação; o espectador pode, através de um canal de retorno, interagir com a programação. Aparelhos mais novos de recepção digital permitem o acesso à web e a interatividade, mas não adianta nada se a emissora não produzir conteúdo interativo. No máximo, neste caso, o espectador poderá acessar a internet.

Então, ao invés de financiar um setor viciado pelo monopólio da informação, onde a verdadeira inclusão se dá, até agora, através de uma outra mídia, por que não investir em um setor realmente democrático?

(Quero deixar claro que não sou contra a digitalização das transmissões, só discordo da forma adotada no Brasil.)

Um bilhão de reais (valor do PROTVD) poderia ser usado na compra de computadores, treinamento de usuários e instalação de redes. Escolas públicas poderiam ser agraciadas com equipamentos de informática e acesso à internet através de tecnologia wireless ou banda larga fixa (sei que há diversos programas governamentais de apoio à informatização e que eles potencializam o crescimento do número de internautas, todavia podem ser mais bem utilizados ou amplamente valorizados e divulgados). Outro modo é incentivar a criação de lan houses, aproveitando que é o principal veículo de conexão das camadas mais baixas da população.

O dinheiro acumulado no Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) pode ser usado para conectar o país inteiro, seja através da internet sem fio ou ligando novos pontos ao backbone já instalado. Se o objetivo deste fundo é universalizar os serviços de telecomunicações, então vamos fazê-lo dando equipamento, acesso e educação à população.

Telespectadores e usuários

Os diferentes financiamentos podem ocorrer em paralelo, mas é sabido que vivemos em um país rico de capital, mas pobre em gestão. Então, é melhor ser cauteloso e específico ao definir um plano de investimentos.

É errado pensar que a inclusão social via digitalização será dada pela televisão. Acesso à informação segmentada e a serviços públicos já pode ser feito em outro veículo: nos computadores.

E mais, sua importância vai além do acesso à internet. No mercado de trabalho, um pretendente a um cargo é mais valorizado pelos seus conhecimentos na confecção de planilhas do que na colocação de legenda em um filme. Saber mexer com informática tornou-se um elemento fundamental não só para o trabalho, mas também para interações sociais. A formação de comunidades online é prova desta cultura cibernética supervalorizada.

O excesso de informação obriga o usuário a saber a melhor forma de processar os dados que chegam a ele; e a melhor forma de fazer isso é utilizando a arquitetura computacional (HD, memória, processadores...). Ter noção desta tecnologia facilita o recebimento de informação, assimilação e a propagação de conhecimento.

Televisão digital é espetacular, diferente, nova, bonita, atraente... É um passo natural para a evolução do meio de comunicação – e ainda é a forma mais comum para a população ter acesso à informação. Mas as coisas estão mudando; não adianta tentar travar o desenvolvimento da informática. A audiência da televisão, principalmente com relação aos mais jovens, diminui constantemente, ao passo que o uso de computadores aumenta a cada ano. As pessoas não querem mais aquele velho paradigma da indústria cultural; elas querem escolher, participar, agir. Se até a televisão foi invadida pela digitalização e está cada vez mais parecida com um computador, por que investir em um modelo antigo?

Vamos disponibilizar os meios e deixar a população escolher como ela quer se comunicar: através da televisão ou através da internet. Particularmente, eu abro mão de uma televisão espetacular por uma com definição padrão a fim de que seja permitido à sociedade brasileira ter acesso à informação de forma democrática.

Enquanto a televisão for pensada como televisão, o país ficará preso a um oligopólio de controle da informação, restrito ao paradigma ultrapassado da hierarquia produtiva de conteúdo. A digitalização da mídia é a oportunidade que temos de democratizar em massa o acesso, passando ao próprio cidadão o poder de escolha.

Nesta televisão digital, não passamos de meros telespectadores; já na internet, somos usuários.

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A democracia em compasso de espera – James Görgen
Comentários (2)
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epimpamplerio  pamplona , São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ - desempregado
Enviado em 10/8/2008 às 20:12:41
"A televisão digital está aí. Com toda sua imagem perfeita, em alta definição e interatividade, som 5.1 límpido, mobilidade e portabilidade. Vocês viram? Eu, não. O único digital que vejo no Rio de Janeiro é o "HD" escrito nas cartelas que as emissoras colocam ao lado de seus logotipos na tela – que recebo analogicamente via televisão por assinatura (desculpem, comunicação audiovisual de acesso condicionado)." Aconselho ao amigo passar na loja do ponto frio em frente ao camelódromo do rio para que possa assistir a alguma coisa em HD. Bom, imagem perfeita não é. HDTV é uma imagem melhor que anterior, mas perfeita não é. Vamos por partes. Realmente, o padrão brasileiro é o melhor do mundo por ser o mais novo (pegou a melhor modulação, a melhor compressão de vídeo...) – e, por isso, é um padrão caro para o consumidor adotar. Não sei deonde foi retirado isso. Poderia informar-me aonde posso aprender mais sobre essa história de padrão brasileiro ser o melhor do mundo? Falar sobre a melhoria da imagem é risível. Transmissão em HD é completamente desnecessária. O que a população quer, segundo uma pesquisa do CPqD de 2004, é a melhoria da imagem, ou seja, sem ruídos ou fantasmas, e em segundo lugar maior oferta de canais. Vontade é uma coisa que dá e passa. Ainda mais em 2004! Depois eu volto pra conversar sobre o resto do texto.
Sebastião Arlém Oliveira , Goiânia-GO - advogado
Enviado em 10/8/2008 às 14:30:40
Esclarecedora a matéria, eu não havia pensado nisto, mas em contraposição, eu não tinha o material. Agora o tenho. Não consigo, ainda, pagar a tv privada. Ver o Fautão em HD...rsss... É demais o que fazem comigo, a tortura não acabou!
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