ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 497 - 9/2/2010
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"LIBERDADE DE EXPRESSÃO COMERCIAL"
57 bilhões contra a cidadania

Por Carlos H. Knapp em 5/8/2008

O professor Venício A. de Lima escreveu neste Observatório um vigoroso e irretocável artigo sobre a pretensão da auto-denominada indústria da comunicação de blindar aquilo que chama de "liberdade de expressão comercial". Sugiro a releitura dessa matéria ["Sobre a "liberdade de expressão comercial"] antes de passar ao parágrafo seguinte.

Uma "indústria de 57 bilhões de reais por ano", em que pontifica o conjunto das grandes agências de propaganda que atuam no Brasil (contam-se nos dedos as que não são multinacionais), defende a liberdade de dizer ao consumidor brasileiro o que deve consumir e que hábitos de consumo convém adotar. Quer colocar-se sob o mesmo guarda-chuva da liberdade de expressão democrática, tão cara à imprensa. E para conseguir isso não hesitará em aplicar o poder de convicção daqueles bilhões de reais/ano em tentativas de mudar a Constituição ou criar legislação favorável.

Liberdade de expressão comercial tem a ver com liberdade de comércio e as restrições a essa liberdade não têm nada a ver com censura à liberdade de expressão. A legislação municipal de São Paulo, por exemplo, que instituiu o programa Cidade Limpa, é medida civilizadora, de ordenação urbana, e nos protestos que gerou entre os empresários de outdoor não percebi alusões à ofensa a essa liberdade de expressão comercial.

Existem restrições

Passei boa parte da minha vida profissional criando anúncios e nunca senti tolhida a minha liberdade de criá-los, nem mesmo durante a ditadura. Ou melhor, o grande cerceamento a essa peculiar liberdade de expressão vinha do dono do dinheiro, o anunciante, que pagava o espaço em que eu exercia a minha "liberdade".

Tal como o deviam fazer todos os meus colegas de profissão bem-sucedidos, habituei-me a censurar a mim mesmo, a só dizer aquilo que convinha (ao anunciante), aquilo que poderia "motivar" o público-alvo. E tratava de dizê-lo de modo amável, sem chocar ninguém, criando peças pasteurizadas, porém atraentes, que também fossem palatáveis ao dono do negócio, à agência. Deixei de receber aumentos de salário quando ousei criar campanhas que a agência nem ousou apresentar ao anunciante.

Eu tinha toda a liberdade de fazer anúncio de qualquer produto – bebida, chiclete, sabão, pneu, dentifrício, liquidificador e fortificante. Era só o patrão mandar e eu fazia. Pedro Mourão, então meu chefe, recusou-se a fazer um anúncio para rádios Telespark, alegando, por preguiça ou convicção, que rádio não era mais um produto anunciável. Foi despedido e eu fiz o anúncio.

Se então me fosse confiada a tarefa de criar uma campanha para difundir o consumo de, digamos, uma marca de maconha, devidamente legalizada, tenho a certeza de que a cabeça de publicitário que então pairava sobre meus ombros conceberia uma campanha brilhante, candidata aos "leões" de Cannes. E se o cliente aplicasse na mídia uma verba suficiente, nem de longe parecida com os atuais 57 bilhões de reais da indústria, a maioria dos brasileiros seria convertida em felizes viciados. Hoje isso já não seria possível, pois existem, sim, restrições à liberdade de expressão comercial.

Medida "severa e excessiva"

Ao reivindicar liberdade de expressão comercial, a indústria da comunicação não pretende conservar ou ampliar a liberdade a que me referi, a liberdade de criação das agências. Ela busca, na verdade, garantir liberdade de ação aos interesses dos que gastam 57 bilhões reais para consolidar, multiplicar e se "posicionar" nos mercados. O inimigo a abater é, então, o poder público que, em suas várias instâncias, pretende proteger o cidadão que existe dentro desses mercados e é às vezes vítima das investidas publicitárias contra sua saúde, bolso, cultura ou integridade.

A indústria instituiu o Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) para coibir abusos, praticando a auto-regulamentação, e o considera bastante. Em seu artigo,. Venício Lima dá um expressivo exemplo de deficiência dessa auto-regulamentação e de descumprimento da lei.

A resistência a normas e regulamentos que restringem a expressão publicitária não é monopólio nacional. Veja só o que acontece na civilizada Europa. A Comissão Européia pretende obrigar a indústria automobilística a reservar 20% do espaço de cada anúncio de carro para que o possível comprador seja informado sobre a quantidade de dióxido de carbono que aquele modelo despeja na atmosfera. Trata-se de mais uma etapa de uma ofensiva continental para diminuir as emissões de CO2.

Segundo o El País (23/7), os automóveis respondem na Europa por 12% dessas emissões. Entretanto, a indústria automobilística se opõe à medida. Para Fernando Acebrón, diretor da Associação Espanhola de Fabricantes de Automóveis, a imposição é "muito severa e excessiva". Disse textualmente: "Limita a capacidade criativa e a liberdade do anúncio, que não deve estar centrado em informar, e sim em ser atraente".

Ofensiva ecológica

De acordo com o jornal, a indústria que mais gasta em propaganda na Espanha é a automobilística: 913 milhões de euros em 2007. Por isso, os anunciantes também estão inquietos com as intenções do governo europeu. "Regulamentar a publicidade não irá solucionar o problema", afirma Carlos Lema, assessor jurídico da Associação Espanhola de Anunciantes. "Só vai tornar os anúncios mais caros." E acrescenta: "Até agora, a indústria demonstrou um comportamento responsável, obedecendo a uma férrea auto-regulamentação".

Mais cândida no repúdio à obrigação de informar nos anúncios a quantidade de CO2 emitida pelos carros, outra corporação, a Associação dos Construtores Espanhóis de Automóveis, declara que "corre-se o risco de desmotivar os compradores de veículos. Além disso, a publicidade é uma importante fonte de receita para a mídia e um dos pilares da liberdade de imprensa".

O consumidor espanhol, que não é bobo, não esperou os anúncios com a "atraente" informação sobre a quantidade de CO2 emitida pelos carros. Desde janeiro, os únicos carros que registraram aumento de vendas (32%!) são aqueles que emitem menos de 120 g/km.Todos os demais tiveram queda de vendas. Os carrões e os 4x4 venderam 44% menos. A razão foi menos o amor à natureza e mais o amor ao bolso: também desde janeiro os carros menos poluidores gozam de isenção do Impuesto de Imatriculación, equivalente ao nosso IPVA.

Não sei se Venício Lima e eu estamos gastando demasiada tinta com este assunto. A indústria da comunicação não será tão retrógrada, tão reacionária, diante dos ainda tímidos avanços civilizatórios que vêm acontecendo no nosso país. E, a propósito de gastar tinta, tenho conhecimento de que o próximo lance da União Européia na sua ofensiva ecológica será compelir todos os produtos de consumo a estamparem nos seus rótulos a quantidade de poluentes liberados no seu ciclo de produção. Cosméticos, refrigerantes, alimentos industrializados e tudo mais, inclusive os cartuchos de tinta, deverão informar ao consumidor qual é o lixo criado por eles desde a matéria-prima até o descarte dos resíduos finais. E as indústrias parecem estar de acordo.

Leia também
Tomando liberdades com a liberdade – Alberto Dines

"Liberdade de expressão publicitária", uma falsa discussão – Paula Ligia Martins e Maíra Magro

Comentários (14)
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Thiago Conceição , Campinas-SP - Programador
Enviado em 11/8/2008 às 15:23:06
Excluíram um dos meus comentários. Por quê? Eu apenas disse que se a esquerda deseja defender a "ética e os valores morais" da maioria, ela deveria combater o samba entre outras coisas. O carnaval é extremamente negativo para as crianças, pois passa os valores errados.
Thiago Conceição , Campinas-SP - Programador
Enviado em 11/8/2008 às 14:10:14
"Liberdade de expressão BESTIAL", é assim que deve ser chamado a liberdade para publicidade e programas de TV que mostram samba, axé, funk, etc, com ou sem dançarinas seminuas. Haha. Isso é um malefício para as crianças? Não deveríamos impedi-los de aparecer na TV pelo bem da maioria?
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 10/8/2008 às 09:55:51
Excelente artigo. Você mostrou claramente que estamos diante de uma renovação de um velho conflito. Os "barões", "viscondes" e "marqueses" da comunicação de massa e da indústria não querem defender a liberdade de expressão, mas proteger seus privilégios e dignidades oriundos do capitalismo. Como os membros do Primeiro Estado do "ancien regime" os novos aristocratas também se recusam a dar sua parcela de contribuição à sociedade e de se submeter à mesma ordem jurídica que os consumidores (que hoje compõe o Terceiro Estado). Os "barões", "viscondes" e "marqueses" da comunicação de massa e da indústria desejam intensamente ter uma ordem jurídica só deles, o poder de definir quais são as regras aplicáveis entre eles e quais só podem ser aplicadas entre aos consumidores. Precisamos urgentemente cortar as azinhas deles... antes que eles mesmos coloquem seus pescoços na guilotina.
Milton Jung , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 9/8/2008 às 11:33:11
Caros, Publiquei nesta semana texto do doutor em marketing de moda Carlos Magno Gibrail no qual relaciona o tema da liberdade de expressão na publicidade e o ensino da Filosofia na sala de aula. Vale uma visita nos comentários, também, que inclui mensagens de diretores de escolas sobre o assunto http://www.miltonjung.globolog.com.br/archive_2008_08_06_88.html
Paulo Guerra , São Paulo-SP - --
Enviado em 6/8/2008 às 23:50:07
É, essa liberdade de expressão é o grande lobby das empresas que vendem espaços de anúncios. Mexam com elas e verão o poder de fogo. Não basta o acúmulo de capital já mais que satisfatório. É preciso o controle total sobre o consumidor.
Liber  Matteucci , Lisboa-IN - Jornalista/Publicitário
Enviado em 6/8/2008 às 19:06:02
A propósito da civilizada Europa, não esqueçamos que é ainda a responsável pela miséria de inúmeros países africanos, de onde tira o que pode e deixa só restos (há um documentário sobre a Tanzânia, por exemplo, onde se vê que as tilápias do lago Victoria são beneficiadas por industrias européias lá radicadas, depois os filés seguem de avião para os europeus comerem, e os nativos, que pescam para terceiros por um salário de fome, ficam só com as espinhas do peixe - é sério, trituram-nas e fazem uma farinha delas). Mas o velho continente também dá trambique nos seus próprios cidadãos, na publicidade ou onde for. Veja-se o caso dos transgênicos nos supermercados de Portugal: hoje é possível olhar na latinha e ver se o milho tem ou não tem OGM - organismos geneticamente modificados. Só que o consumo pode acontecer sem que o cidadão saiba, ao comer um frango alimentado por milho transgênico (nesse caso, não há obrigatoriedade de avisar que o galináceo engordou com os aliens da Monsanto). Meu pai, um jornalista brincalhão, dizia que era vegetariano por via indireta, porque o boi comia capim e ele comia o boi. Por esse processo, é possível um europeu ficar entupido de transgênicos mesmo que só compre produtos sem OGM. Civilizado, cara-pálida?
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 6/8/2008 às 17:53:10
Os grandes jornais e as grandes revistas da cidade de São Paulo foram a favor da Lei Cidade Limpa. Até eloqüentes editoriais foram publicados a respeito, sem contar inúmeras reportagens. Outdoors não existem mais. Possivelmente as então verbas publicitárias destinadas aos outdoors migraram para os veículos de comunicação social impressos. Diferentemente das opiniões editoriais dos jornalecões e das revistazonas a prática empresarial das empresas que os editam é outra, contrária à Lei Cidade Limpa. Todos os dias ( após a sanção da Lei Cidade Limpa ), inclusive atualmente, vê-se nas paredes externas das bancas de jornais enormes ( ou pequenos ) cartazes publicitários ( geralmente horrendos ) de jornalecões e de revistazonas . Ou seja: jornais e revistas apoiaram a Lei Cidade Limpa. Mas, não a cumprem. Aliás, bem antes da Lei Cidade Limpa lia-se nas bancas de jornais: "proibido colar cartazes". A publicidade de jornalecões e de revistazonas não são imunes à Lei Cidade Limpa!.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 6/8/2008 às 16:49:50
A publicidade é sim (importante) fonte de receita para a mídia ( para a Imprensa ), mas, não é um dos pilares da liberdade de imprensa. Aliás, nunca foi, não é e nunca será ( ou nunca deveria ser ). O único pilar da liberdade de imprensa é a própria Imprensa!.
Lisa  Cavalieri , São Paulo-SP - Veterinária
Enviado em 6/8/2008 às 15:36:05
Não sou a favor de toda e qualquer regulamentação mas essa especificamente sobre a propaganda apoio. Não é uma restrição radical à propaganda mas sim a elementos contidos nela, sendo que ela poderá ser feita, inclusive conquistando novos clientes/consumidores, de maneira diferente. E não é? Há propagandas muito boas feitas no Brasil e no exterior que são criativas e interessantes sem que sejam exageradas/novivas/agressivas. Não é aqui no Brasil mesmo que se endeusa a criatividade dos publicitários brasileiros? Oras, a criatividade se mede diante das dificuldades também. Não tenho dúvidas de que a indústria publicitária vai encarar um grande problema se for regulamentada em alguns aspectos mas não sinto pena nem dó pois todos sabemos das intenções dessa indústria. Essa regulamentação sobre as bebidas, remédios etc., não vai deixar ninguém pobre, talvez apenas um pouquinho menos milionário. Não sou contra o lucro, também gosto e não ligo de outros o terem, desde que não em detrimento do bem estar social. Essas restrições à propaganda ferem o lucro; os que alegam perda de liberdade, posso concordar, realmente, perde-se a liberdade de fazer a propaganda do jeito que se quer, mas isso ninguém nunca pode, e vivendo em sociedade, a plena liberdade é impossível. Uma regulamentação BEM FEITA só ferirá intenções deturpadas.
André Guedes , São Paulo-SP - Engenheiro
Enviado em 6/8/2008 às 14:45:21
Oi Carlos! Seu gasto de tinta é absolutamente louvável. Tenho acompanhado os últimos meses desse debate em torno do conceito de "liberdade de expressão comercial". Acho fundamental que essa posição de combate a tal argumento publicitário seja posta à todos nós, digo à população brasileira, e da forma como está sendo feita por vocês (você e vários outros articulistas do OI, por exemplo): com argumentos, com clareza, demonstrando a hierarquia dos valores envolvidos. Não acho que a distinção entre as várias formas de comunicação (jornalismo e publicidade, por exemplo) seja óbvia para todos, e por isso vejo grande relevância nesses artigos de vocês. Um abraço, André.
j batista , grlhs-SP - f publ
Enviado em 6/8/2008 às 14:35:33
A propagandas deveriam ser dirigidas somente ao publico adulto, bem como com os pros e contra do produto e não com artifícios enganosos .E continua na mídia: as manipulações de informações;o sensacionalismo; propagandas enganosas; drogas licitas, promiscuidades e lascividades em horários ditos nobres, sem restrições, corrompendo nossa Juventude em formação,atendendo somente a grupos corruptos e gananciosos. Propagandas indistintamente induzindo aqueles de um deficiente sistema educacional e de desenvolvimento mental incapaz de analise criteriosa.a mídia e as leis não devem ignorar a ética valores morais da maioria, para não caírem na vala comum do total descrédito.
Ricardo Pierri , Santos-SP - advogado
Enviado em 5/8/2008 às 23:58:00
Uma idéia: já que a indústria não vê problema algum em gastar bilhões para contratar gente qualificada para ficar 24 horas por dia pensando em como convencer as pessoas a consumirem determinado produto, em como driblar a razão do consumidor e, de certa maneira, enganá-lo, pq o Estado não pode contratar gente para fazer exatamente o inverso, mostrando à população o que não está sendo dito nas propagandas, alertando a razão para que não se deixe driblar? Uma agência de anti-propaganda, mostrando a realidade por detrás dela. Tenho absoluta certeza de que ou a indústria insistiria em controlar uma agência desse tipo ou simplesmente a condenaria de pronto, acusaria de "uso político", etc. E aceitariam a regulamentação de bom grado...
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 5/8/2008 às 20:09:01
O grande vício modernoso que nos contaminou nas últimas 4 décadas chama-se "formação de opinião". E a publicidade moderna é apenas uma parte dela. Realmente me parece improvável que algum dono de agência tenha perdido um cliente por razões morais. A ação do publicitário hoje tende a se parecer com a de um advogado de defesa, onde se fatura sobre a parte "boa" do cliente - formar a opinião do cliente/jurado. Também vê-se hoje muito a abstração do produto vendido, a tal ponto que alguma vezes custa-se a saber o que está sendo vendido. A liberdade que eles desejam não inclui a liberdade da informação imparcial. E liberdade parcial NÃO é liberdade alguma.
Eduardo Ferreira , Rio de Janeiro-RJ - Analista de Sistemas
Enviado em 5/8/2008 às 19:41:15
Sobre este assunto, me causou espanto a posição do Ricardo Kotscho, que publicou em seu blog (17/07) longo post louvando o último congresso de publicidade e sua posição progressista de apelo à liberdade de expressão. espanto, para não falar em decepção, mesmo...
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