ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 499 - 9/2/2010
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TENDÊNCIAS, PERIGOS
A universalização do "informe publicitário"

Por Alberto Dines em 19/8/2008

O primeiro dia do 7º Congresso Brasileiro de Jornais foi um gigantesco faz-de-conta. A mídia engana-se, se auto-engana, acredita no que veicula. Intoxica-se com placebos [ver "Jornais, o passado e o futuro"].

A cobertura do evento mostrada pelo Jornal Nacional (segunda, 18/8) revela uma instituição fragmentada, à beira da esquizofrenia: reclama privilégios como uma indústria, mas desfralda a bandeira da liberdade de expressão como se fosse um poder ameaçado.

Por outro lado, uma visita aos comentários postados neste Observatório da Imprensa a respeito do texto "A imprensa de Dantas" mostra o outro lado dessa ilusão: leitores empolgados apenas com a refrega.

Não se trata de fascínio pelo bom combate, mas pela possibilidade de dar um tranco em alguém. Inclusive nos demais leitores que entraram na liça com outros propósitos. A celebrada sociedade cordial mostra quão reduzido é o seu pavio.

Pop-up impresso

Tudo muito instrutivo. Chamou a atenção deste observador um comentário a seu respeito (embora jamais tenha se pronunciado sobre o lodaçal revelado pela Operação Satiagraha, onde tantos, sob os mais diferentes pretextos, estão enfiados até o pescoço). Reclamava o ilustre cidadão que, diante de uma questão de tamanha transcendência como o Caso Dantas, este observador preocupava-se apenas com a questão insignificante dos "Informes Publicitários" [ver "Jornalismo de mentirinha, publicidade de verdade" e "Aspargos em Marte, promiscuidade na Terra"].

A questão dos "Informes Publicitários" e do seu mais perigoso subproduto, os "Projetos Especiais", é central na chamada "indústria jornalística". O projeto de acabar com a distinção entre informação jornalística e informação comercial está na pauta dos futurólogos, mercadólogos, publicitólogos e consultólogos que se ocupam de desenhar a chamada re-construção do jornal para a Era Digital.

Para eles, a publicidade de amanhã deve romper os atuais formatos e convenções visuais. Querem enfiar suas mensagens (como aquela esfera verde-vômito que está aparecendo em toda a mídia) em qualquer canto, até em santuários como o da primeira página. Breve tomarão de assalto a página de opinião, para alegria geral.

O sonho desses ilusionistas é encontrar o equivalente impresso do pop-up da mídia digital que se impõe e sobrepõe às informações jornalísticas e só desaparece quando o desgraçado leitor afinal encontra o sinalzinho para fechá-lo.

Perigo real

"Informes Publicitários" e "Projetos Especiais" estão na raiz da contenda entre as diversas facções que se digladiam debaixo da retranca "DD, Daniel Dantas". Parte considerável desta militância ou telemilitância (contra ou a favor do Midas que converte tudo em matéria marrom) está querendo faturar alguns trocados à custa das suas informações e veemências. Não seria isto um gigantesco e subliminal "informe publicitário"?

O antigo "jornalismo de serviços" que antes estava rigidamente circunscrito às revistas, principalmente femininas, irrompeu em todos os recantos. O serviço – informação de utilidade – universalizou-se: domina o show business, cadernos especializados, colunas mundanas e nem-tão-mundanas. O setor dos "projetos especiais", terra de ninguém criada no lugar das divisórias que separavam as redações dos departamentos de publicidade, hoje dispõe de uma tropa de elite, altamente especializada, capaz de confundir o mais atento leitor.

Estamos nos aproximando velozmente do momento em que a mídia impressa vai servir apenas como pretexto para imprimir anúncios, semi-anúncios e semi-notícias.

Este é um perigo real. Qualquer que seja o nome que se adote para designar o fenômeno. Qualquer que seja o escândalo que esteja em cartaz.

***

Boas-vindas à rádio CBN, que começou a apresentar às segundas-feiras (das 19h às 20 h) o programa Notícia em Foco. Com a ancoragem do experiente Renato Machado e a participação de Marisa Tavares, diretora de jornalismo da rede, dá-se um passo mais importante para o jornalismo do que o congresso de jornais. Serve ao ouvinte, serve à sociedade. Não é um programa de crítica da mídia, é uma conversa inteligente sobre os assuntos que estão na pauta jornalística. Conviria imitar.

Comentários (11)
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Renato  Gianuca , Porto Alegre-RS - Jornalista
Enviado em 22/8/2008 às 16:47:44
Prezado mestre Dines: Não apenas "estamos nos aproximando velozmente" deste modelito. Na minha opinião, já estamos em plena era de uma mídia impressa acrítica, servindo tão-somente para imprimir os antigos "reclames" e outros derivados desta modalidade. Esta é a pura realidade. Haverá, ainda, uma saída ? Renato Gianuca, Jornalista, Porto Alegre (RS).
Pedro pereira P , Palmas-TO - EStudante
Enviado em 21/8/2008 às 22:41:26
¨Estamos nos aproximando velozmente do momento em que a mídia impressa vai servir apenas como pretexto para imprimir anúncios, semi-anúncios e semi-notícias.¨ Quanto a mídia eletronica, como a do observatório, pode ser finacianda pelos anunciantes acima? Deixa disso Sr DInes, há necessidade de pecunios para que se possa finaciar qualquer mídia. Quem deve ditar as regras da quantidade é o prorpio mercado. O dia que eu não concordar mais de um financiador de um jornal , eu paro de comprar. Eu por exemplo, não gosto muito da história da Odebrecht, mas tem ótimos articuistas por aqui, então , leio todos os dias, e me dou o direito de concordar ou não. Eu não sou boi!!!
Maurício Tuffani , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 20/8/2008 às 13:52:33
Enquanto isso, o que interessa da imprensa para duas vizinhas do mesmo andar do prédio em que moro são os jornais velhos que descarto. Eles os aproveitam para forrar "banheiro de gato".
Pedro Pereira Pereira , Palmas-TO - EStudante
Enviado em 20/8/2008 às 12:19:00
Vcs realmente só publicam os comentários que alinham com seus pensamentos.Mesmo que esteja obedecendo os critérios acima ,se desmascar o que dizem ..... decaput.
Fernando Mathias , São Paulo-SP - engenheiro
Enviado em 20/8/2008 às 11:54:00
Será que o "Observatório" tem observado que a cobertura do caso Dantas pela imprensa omite descaradamente as razões pelas quais ele foi preso e indiciado pela Justiça? Só são comentadas as questões sobre algemas, erros de português do delegado, escutas telefônicas etc. Nenhuma palavra sobre as acusações contidas num inquérito que demandou 4 anos de investigações. Para que servem observadores desse tipo que não enxergam o óbvio? A imprensa está na dela, devidamente cooptada, mas e vocês onde estão?
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 20/8/2008 às 09:59:42
No Informe Publicitário do e-mail "grátis" da Folha lê-se que a Folha é o maior jornal do país. Maior em quê?. Realmente a Folha é, fisicamente, enorme e imensa. Não chega a ser um folhão ou uma folhona. Mas esse tipo de slogan deveria ser proibido pelo tal Conar. É o maior em quê?.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 20/8/2008 às 09:30:31
Informe Literacitário: Na página E16 (ilustradíssima) de sábado, 9 de agosto de 2008, o filósofo Antonio Cicero escreve uma matéria de conteúdo comercial travestida de conteúdo editorial ou cultural ou musical ou letral. Em "Notas sobre Vinicius de Moraes" fica evidente (transparente) o conteúdo comercial. Pois, a segunda matéria da mesma página trata-se de Informe Publicitário também disfarçado de Informe Cultural. É a FolhaCultural vendendo CDs da Bossa Nova. A matéria é assinada pela Reportagem Local , mas, trata-se de Publicitagem Local. A FolhaCultural tem o direito de vender o que quiser, mas, não tem o direito de publicar matéria comercial disfarçada de matéria editorial ou reportal. A prova disso é a "coincidência" da matéria do filósofo sobre o poetinha e o lançamento (a venda) do CD de Vinicius de Moraes. Alguém precisa vender (produzir e comercializar) os tais CDs da Bossa Nova, mas, não é necessário (nem ético) colocar um filósofo para copidescar um anúncio (disfarçado) de artigo.
Liber Matteucci , Lisboa-IN - Jornalista/Publicitário
Enviado em 19/8/2008 às 21:23:14
Leitor on-line que sou, não posso nem ouvir falar em pop-ups. Fazem-me lembrar duas Testemunhas de Jeová que apareciam na porta da minha casa e depois nunca mais iam embora. Mas, pensando bem, a esperança talvez resida justamente aí, na insistência e falta de tato da publicidade (que exagera, extrapola, se excede, é dose para leão). Eu, que trabalho no meio, já estou vacinado, não acredito em nada do que ela diz, não compro nada do que vende. Até imagino, com algum otimismo, que os meus conterrâneos também vão criar anticorpos contra essa terrível pandemia que assola o país, para não falar do resto do planeta. "Tudo o que é demais enjoa", dizia a minha mãe, ao que o meu pai acrescentava: "até chantilly com morango". Que dizer então de comerciais na TV, spots de rádio, anúncios impressos, out-doors, faixas, folhetos, monofolhas, auto-colantes, cartazes de loja, posters, pins, T-shirts promocionais, capas falsas de jornalões, informes publicitários travestidos de matérias jornalísticas e, antes que eu me esqueça da midia digital, pop-ups?
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 19/8/2008 às 19:37:02
No programa "Notícia em Foco" de 18/08/2008 cujo tema era o "jornalismo econômico" o jornalista econômico da rádio CBN Carlos Alberto Sardenberg sentenciou: "o melhor que o jornalista econômico pode fazer ao dirigir-se ao leigo é dizer: A notícia é boa ou é ruim". A notícia é boa ou ruim para quem?. Por que apenas essa divisão de bom ou ruim?. Aliás, a rádio CBN tem um "vício de linguagem" que é a de afirmar "notícia boa ou notícia ruim". Ora, não há notícia boa nem notícia ruim. Há notícia. Quem acha que a notícia é boa ou ruim é o ouvinte. Aliás, não é nem a notícia que é boa ou ruim. É o fato. É o acontecido. Recentemente a "ancôra" Cidral deu uma notícia "não-boa". A rádio CBN tem até uma "seção" -piegas- de Boa Notícia. Relativamente ao noticiário econômico: Transferir a péssima qualidade aos tais "analistas de mercado" ou mesmo aos próprios jornalistas, simplesmente, é tão inócuo como não tomar nenhuma providência no sentido de melhorar ou mesmo qualificar os profissionais da Redação. Frase de Carlos Alberto Sardenbeg: "Diziam qua o Ibovespa chegaria a 80 mil pontos e agora dizem que chegará a 40 mil pontos". Quem dizia e quem diz? Por que o "jornalismo econômico! apenas reproduz o diz que diz?. Ora, ninguém do tal jornalismo econômico "lembrou" de que a Bovespa estava e ainda está em pleno Encilhamento!. Os jornalistas econômicos sabem o que foi (ou é) o Encilhamento?.
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 19/8/2008 às 18:42:54
Se os publicitários (que já se querem libertos de todas as amarras da mesma legalidade imposta aos consumidores e são radicalmente contras à possibilidade de serem responsabilizados pelos seus abusos) transformarem os jornais em veículos de suas mensagens redondinhas, aparadinhas, bem-comportadinhas, encomendadinhas e politicamente corretinhas, o que será da democracia? Identificar nazista carrancudo vestido em farda preta da SS em filme de Hollywood é fácil. Difícil mesmo é combater este nazismo malemolente, cheio de firulas, aves-marias e nove-horas que estão enfiando goela abaixo de nós em pleno século XX. Se estivesse vivo o Ministro da Propaganda de Hitler se daria bem neste Brasil em que qualquer meia-verdade repetida milhares de vezes se torna jornalismo.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 19/8/2008 às 18:32:16
No programa Notícias em Foco de 18/08/2008 todos criticaram as editorias de economia dos "jornais". Não houve nenhuma menção "crítica" ao jornalismo econômico do rádio. Muito menos do "jornalismo econômico" da própria rádio CBN.
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