ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 504 - 9/2/2010
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INTERATIVIDADES
O Globo vai além do papel. E o papel do jornal?

Por Alberto Dines em 23/9/2008

Apoiada numa portentosa campanha publicitária, as Organizações Globo relançaram no domingo (21/9) a Infoglobo, empresa que editará o jornalão carioca, seu site, o noticiário via celular e, posteriormente, a CBN e a GloboNews, ambas com projetos multimeios em andamento.

Batizado pela agência F/Nazca Saatchi&Saatchi com um sugestivo apelo – "Muito além do papel de um jornal" – o projeto pretende fornecer informações para o jornal, o site e as operadoras de telefonia móvel. Além do investimento publicitário e a promessa de iniciar imediatamente a transmissão de notícias pelo celular, o projeto não tem novidade.

Todos os grandes grupos de mídia desenvolvem seus esquemas de interatividade. Sobretudo os que se assumiram como parte da "indústria jornalística" e abriram mão da sua função institucional dentro da sociedade democrática.

A filosofia do projeto está expressa com excepcional clareza no material publicitário:

"Hoje a informação precisa estar onde você quiser. Aprofundada. Analisada. Comentada. Por nós. Por seu vizinho. Por você. Por isso, um jornal tem que estar no papel. Na tela. Na sua mão. Tem que estar na cidade. No país. No planeta. On line. On time. Full time".

Isto posto, às indagações: o papel de um jornal seria o meio físico, material, onde está impresso ou está sendo usado como sinônimo de função/compromisso social? Ir "além do papel" traduz uma opção de marketing ou tem algum sentido institucional?

Descendo ao nível técnico: como aprofundar e analisar notícias através do telefone celular? Se os portais dos três jornalões na internet não conseguem aprofundar as matérias saídas no veículo impresso, como esperar que consigam fazê-lo com flashes de algumas linhas na telinha do telefone de bolso?

Cortar custos

A promessa de fornecimento full time também soa enganosa: os mesmos portais sequer conseguem oferecer um serviço noticioso razoável no intervalo entre o fechamento do jornal-matriz (cerca das 22 horas) até a hora em que chega aos leitores (8 da manhã).

Para cumprir as promessas do projeto "Muito Além do Papel de um Jornal" é indispensável investir em jornalismo e jornalistas. Indispensável adotar voluntariamente posturas capazes de restabelecer a credibilidade da imprensa.

Para transformar em pílulas as análises políticas ou econômicas que o leitor espera do seu informador será necessário contratar redatores qualificados capazes de fazer a "compressão" do texto sem a supressão de idéias ou dados.

Investimento em qualidade jornalística é a última coisa que os grandes grupos pretendem fazer. Há 20 anos perseguem, irmanados, um único objetivo: cortar custos, ainda que diminuindo a qualidade.

Os projetos de interatividade no Brasil visam apenas à rentabilização do investimento na redação: sai mais barato contratar um jovem profissional disposto a fazer três versões da mesma notícia do que admitir um jornalista experiente capaz de oferecer um material jornalístico de qualidade, ainda que em formato único.

Idéia abandonada

Estamos diante da reedição da mesma bolha que no fim dos anos 1990 foi soprada pela mídia, certa de que seria a maior beneficiária das novas tecnologias da informação. Estourou antes de encher. Agora a mídia aposta todas as fichas na "interatividade", a mesma coisa com outro nome.

Os grandes grupos midiáticos americanos estão desnorteados – como aliás o país inteiro – e ainda não fizeram as contas nem avaliariam o rombo produzido pela bolha hipotecária que não conseguiram abortar há cerca de dois anos. Não estiveram à altura do seu papel como defensores do interesse público e não sabem o que dizer.

Seus parceiros brasileiros são mais felizes: enquanto o governo diverte-se com o pré-sal, podem divertir-se com novidades e modismos. "Muito além do papel de um jornal" é apenas uma frase de efeito, sem qualquer sentido. Nada acrescenta a uma imprensa que não compete, não disputa e que há muito abandonou a idéia de apostar em excelência jornalística.

De qualquer forma este observador agradece, penhorado, a engenhosa paráfrase do título do seu livro, O Papel do Jornal (1974, Summus, 8ª edição).

Comentários (21)
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Ivo A. Auerbach , Palhoça-SC - Aposentado
Enviado em 1/10/2008 às 23:57:07
O papel do jornal não serve nem prá isso (prá higiene), haja vista a quantidade de sujeira (inverdades) contida em suas páginas.
Fabio Passos , Curitiba-PR - Engenheiro
Enviado em 28/9/2008 às 00:10:16
Liber, há aqueles que consideram informação nada mais que um produto. Ignoram a função social do jornalismo. Pieguice neoliberal na veia. Muitos anos lendo e assistindo mídia-corporativa... danos cerebrais quase irreversíveis.
Liber Matteucci , Lisboa-IN - Jornalista/Publicitário
Enviado em 27/9/2008 às 17:24:32
Não sei como a idéia de lucro pode ter tantos defensores. A maioria não lucra com o lucro (que pode ser explicado desta forma: poucos ganham muito trabalhando pouco enquanto muitos ganham pouco trabalhando muito). 90% dos defensores do lucro são empregados dos 10% que lucram, mas eles mesmos não lucram, e a gente fica sem saber se são otários ou masoquistas. Mas enquanto alguém achar que o lucro é defensável, nem os jornais vão melhorar nem o Brasil vai chegar a lugar nenhum. Neste caso , se o papel do jornal é ficar no papel ou sair do papel, é de somenos.
Joel Minusculi , Itajaí-SC - Estudante, Pesquisador
Enviado em 25/9/2008 às 14:38:47
Dines, sobre suas indagações na primeira parte do texto. Ir além do papel significa abrir as possibilidades de alcance de público. Por exemplo, com as versões online, eu, aqui em Santa Catarina, posso ter acesso ao conteúdo em qualquer computador – sem precisar carregar um jornal embaixo do braço. É uma questão de acessibilidade e portabilidade. Falando em questão de portabilidade, as notícias enviadas por celular sempre serão superficiais e simplistas (na essência), pois são mera referência. Elas servem para suprir a necessidade atual de estar imerso e atualizado. As notícias enviadas por celular servem como um rápido lead, que induz a pessoa mais interessada buscar mais informações (rapidamente) no meio online e, posteriormente, um aprofundamento no impresso. A questão é: porque os jornais impressos insistem em concorrer com o meio eletrônico? Pois, cada vez mais, as pessoas não buscam a informação, é a informação que vai até elas (exemplo disso são os Feeds e as informações que chegam no celular). Depois disso, os interessados em saber mais buscam na internet o desdobramento dos casos. A internet tem a vantagem de poder agregar informações multimídia, que deixam o conteúdo mais completo, no sentido de transmitir a mensagem. O papel das publicações de papel não é concorrer, mas sim ser um instrumento que traga uma análise aprofundada do tema, através da contextualização.
Lucas Nery , Madrid-IN - estudante
Enviado em 25/9/2008 às 12:20:48
Excelente artigo Dines! Só nao esqueçamos que as empresas jornalísticas de capital aberto e privado sao movidas legitimamente pela busca do lucro. Nao há nada de errado até aí. Errado é estampar mais uma grande hipocrisia do tipo "Muito além do papel de um jornal". Só há uma conclusao possível para sintetizar essa abominável, opróbria e nada criativa mensagem das Organizaçoes Globo. Vou batizá-la de Operaçao: Alienaçao (OPERATION ALIENATION). As empresas de interatividade só se preocupam com a difusao da matéria e da informaçao, apostando na comodidade e "preguiça" de leitura dos cidadaos. Qualidade que nada, essa vai pro lixo. O grande segredo da atividade jornalística é o espírito de curiosidade em querer investigar as coisas. Como ir à fonte da notícia, se ela já foi fabricada e clonada? Essa globalizaáo é realmente inimiga da criatividade humana. A TV Pública é talvez a política mais urgente que o Gov. Lula deve pôr e prática e acelerar a sua implantaçao a nível nacional. Do jeito que tá indo, a vaca vao pro brejo!
Gabriel Nunes , Cotia-SP - estudante
Enviado em 25/9/2008 às 09:37:01
Nunca, na história deste país, a oposição teve tanto espaço na mídia como agora. Percebam que na maioria das manchetes de tvs e jornais impressos, se destaca a conjunção "mas". Parabéns, Brasil... essa gestão não só ensina, mas permite que se faça a verdadeira democracia, mesmo sabendo das verdadeiras intenções dessas velhas e conhecidas raposas, que buscam o "bem" do povo, sem ferir-lhes a carne.
Thomaz Magalhães , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 24/9/2008 às 21:21:59
Caro Ivan, o meu sofrível texto em português (com acentos) refere matéria publicada no blog do Dirceu, onte está a íntegra. É do Raimundo Pereira, que tem um trecho aspeado ao final do meu comentário. Outra dica pra você: vá ao Google e digite Raimundo Rodrigues Pereira, para saber quem é e o que fez o cara nos últimos 40 anos, antes de dizer que ele também não é jornalista porque critica o governo. Mais uma dica, uma curiosidade, agora sobre a "Retrato", revista que publicou a matéria citada: um de seus conselheiros editoriais é Mino, o capital da Carta.
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 24/9/2008 às 11:19:41
Alguem pode traduzir ao portugues o que o Thomaz acabou de falar em sofrivel grego?
André Cruz de Aguiar , São Paulo-SP - Advogado
Enviado em 24/9/2008 às 09:31:55
A empresa jornalística também é uma empresa, além de ser um veículo de comunicação social. Vale dizer: como empresa, tem o dever de lucrar, reinventar-se, acompanhar o mercado, concomitante com o cumprimento da sua função social de manter a sociedade informada. Não adianta somente ser um "jornalão de qualidade" que ninguém compra e ninguém lê, até porque esse tipo de empresa quebra mais para a frente ou passa a ser sustentada pelo Estado (o poder público, não o grupo de SP) ou algum outro grupo e perde a sua independência. Enfim, para manter-se à tona, tão importante quanto ter conteúdo de qualidade é disponibilizar outros meios de acesso, outras mídias, para continuar sendo lido, para continuar no mercado.
Jonas Paulo Negreiros , Jundaí-SP - técnico em eletrônica
Enviado em 24/9/2008 às 06:45:59
A campanha assusta, não pelo poder da informação, mas pelo poder de quem informa. O Estadão já é da Globo?
alan valente , bh-MG - educador
Enviado em 24/9/2008 às 00:47:18
Sr. Dines, Gostei da sua avaliação da proposta da poderosa Globo. Faltou acrescentar que, historicamente, todos os impérios caem em ruína. Se eles mal dão conta do para-casa, como é que vão fazer hora-extra? Para que ir além do papel do jornal? Se respeitassem o público, poderiam ficar por aí mesmo, não precisariam de ir além.
Fabio Passos , Curitiba-PR - Engenheiro
Enviado em 23/9/2008 às 21:22:29
A verdadeira mudança para a imprensa não virá de uma corporação. É a sociedade que precisa modificar o péssimo nível da imprensa e impedir o monopólio e concentração de meios nas mãos de uma organização privada. Tem de impedir que TV Aberta / Cabo / Radio / Jornal / Revista etc, sejam controlados por uma só família. Um só grupo.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 23/9/2008 às 19:35:01
"Interatividade" supôe "democracia de escolha". Exemplo : os milhões de telespectadores de uma novela poderão escolher o final dela. Isso já é feito hoje, Globo e Record adequam personagens e situações dentro de suas novelas através de pesquisas que indicam que este ou aquele personagem ou situação dramática estão agradando ou não. Me pergunto quantos "Memórias Póstumas de Brás Cubas" ou "Os Miseráveis" serão escritos por esse sistema. Ele é tudo, menos criativo; ele assassina a ousadia e a experimentação, gira dentro de si mesmo e acaba no mesmo lugar - o lugar comum, também chamado de mediocridade. Já em relação ao jornalismo, temo que eles estão numa fria - a solução encontrada até agora, misturar publicidade com notícia, tende a envenenar a credibilidade dos meios rapidamente. Interatividade dentro da mídia tem valor limitado; o que realmente tem valor é credibilidade e quantidade de informação. A mídia que mais enriqueceu meu conhecimento foi a Enciclópédia Mirador - e não passava de papel pintado. Não consigo ver solução fácil para esse dilema.
Thomaz Magalhães , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 23/9/2008 às 19:27:05
Albeto Dines a desdenhar as táticas marqueteiras d Oglobo, enquanto que um monstro do jornalismo, de todo ele, do alternativo e da grande imprensa, faz a felicidade do comissário Joseph Dirceu. Ninguém menos que Raimundo Pereira. O jornalista no qual aquilo que chamo de trio esperança (Luiz Nassif/Mino Carta/Paulo Henrique Amorim) tenta se espelhar e nem perto chega. Sabem o que fala, em sua revista Retrato? Que a operação Satiaagrha do Protógenes é "ridícula". Fala o mesmo que o "PIG". Faz pensar que a esquerda competente sabe de coisas que a festiva, lulopetista, nem desconfia. O parágrafo final da matéria, para deleite dos comentaristas daqui que bradam por provas, audios e fatos: "(...) A hipótese básica de que existem duas organizações criminosas, a de Dantas e a de Najas, encimadas por uma terceira, cuja cabeça aparentemente estaria no Palácio do Planalto não se sustenta nos fatos. E como a hipótese mãe é ruim e o trabalho é mal feito, as coisas não andam. Ficam uns arapongas escrevendo relatórios sofríveis, que provavelmente ninguém leva mesmo a sério e que acabam servindo basicamente para levar fofocas a jornalistas que, mal editados, acabam tornando a parte política da imprensa conservadora brasileira ruim como ela é". Há link, livre acesso, para a íntegra, no blog do Dirceu.
Bruno Poppe , Rio de Janeiro-RJ - Fotógrafo
Enviado em 23/9/2008 às 18:54:00
Isso é aponta o iceberg. Tudo tem um início, uma fase de experimentação, visando as melhorias. Concordo que o jornalismo eletrônico seja muito superficial, entretanto, só a busca por novos conhecimentos e tecnologias podem possibilitar que um dia deixe de ser, e chegue a um nível melhor. Navegar é preciso.
Fabiano Mendes , Belo Horizonte-MG - Rep Comercial
Enviado em 23/9/2008 às 17:42:47
Tá difícil Dines.O Governo diverte com o pre-sal?Quem lhe passou essa desinformação? Vcs que fazem oposição ao governo não aprendem nunca.Enquanto tentam desclassificar quem está mudando esse País para melhor,que está sendo desqualificado e desacreditado é o PIG. Não viu a última pesquisa?Ah,claro que não,estava preocupado como o jornaleco Globo que vcs acham que é um grande jornal só porque imprime um grande número de páginas e igual número de acusações sem prova,de factóides,de besteiras que um tal “sociólogo” e um tal camelo escrevem,que quando não consegue esconder as notícias boas que acontecem nesse Pais e em alguns da America do Sul que a Globo detesta,menos o Uribe,o queridinho do PIG,tenta desqualifica las como vc fez em seu texto.O PIG está fazendo escola. Tivesse apontado queda na aprovação do Governo Lula,seria manchetes nos tais jornalecos, seria chamada dos telepessimismo que a Globo tenta injetar na população diariamente com direito a gráficos e outros truques eletrônicos.Mas como foi uma aprovação “Record” ela se fez de muda e surda.Azar dela. Trauma?
dante caleffi , rio de janeiro-RJ - publicitário
Enviado em 23/9/2008 às 16:14:14
"Muito além de um jornal de papel , também ,oferecemos infâmias eletrônicas"
josé césar  dos santos , brasília-DF - professor
Enviado em 23/9/2008 às 16:12:12
Alberto Dines, só gostaria de acrescentar que a paráfrase feita com o seu livro também pode ser estendida ao livro "Muito além do Jardim Botânico", de Carlos Eduardo Lins da Silva (Summus, 1985).
Melchíades A. Prado , BH-MG -
Enviado em 23/9/2008 às 16:05:44
É claro do o Dines tinha de enfiar o "governo" no embrulho com papel de jornal. Como disse o rapaz de New Wark, o papel de jornal e o papel do jornal são mote para uma piadinha que os confunda com um ato de higiene antigo, quando o papel higiênico não era tão difundido como é hoje. Cada vez mais este "papel de jornal" nos evoca o velho costume, pois não está servindo mais para outra coisa.
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 23/9/2008 às 13:56:26
"O Globo vai além do papel. E o papel do jornal?": PO, Dines, voce implora, a gente manda um piada pronta... depois nao venha reclamar nao senhor!
Leônidas Silva , Portugal-IN - jornalista
Enviado em 23/9/2008 às 12:23:23
O texto é bom até seu penúltimo parágrafo. Depois, a ironia no parágrafo final é ruim.
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