ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 506 - 7/10/2008
  Jornal de Debates
Início > Índice Geral > Jornal de Debates + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

CRISE FINANCEIRA GLOBAL
E a bolha estourou

Por Ivo Lucchesi em 7/10/2008

Sim, a bolha estourou. Era 09 de novembro de 1989 quando o mundo ouviu efusivas marretadas no muro de Berlim. A mídia, que jamais despreza um "novo" espetáculo, à época embarcou na nave da comemoração, sem se dar conta de que abdicava de um foco crítico. Pouco tempo passou, e como conseqüência direta da "demolição do muro", irrompia, na antiga Iugoslávia de Tito, o conflito da Bósnia. A região dos Bálcãs rapidamente se transformaria numa arena de atrocidades. A mídia engoliu seco. Não passou recibo e, ao contrário, ganhou novas e atraentes pautas.

Também não podemos ignorar que, em outro continente, forças militares norte-americanas, sempre em nome da defesa da liberdade ou da autonomia dos povos, escrevia a narrativa da primeira "invasão" na guerra do Golfo. Paralelamente, o projeto de unificação da Europa adiava, por conta da dupla turbulência, por sete anos, a adoção do euro como moeda única. Outra vez, a mídia, viciada em lidar com fatos diários, não soube (ou não quis) oferecer ao público-receptor análises conjunturais.

Nesse mesmo quadro, surgiam, na política internacional, nomes inteiramente estranhos que, de modo célere, galgaram postos máximos: Berlusconi, na Itália; Yeltsin, na Rússia; Collor, no Brasil; Clinton, nos EUA, entre outros.

O sonho do "crédito fácil"

Enfim, a queda do muro de Berlim tinha "zerado" qualquer embaraço para o projeto de "gozo libertário do capital". Nesse diferente cenário, longa estrada estava disponível para, sem limites, a ideologia neoliberal imperar nas suas aspirações máximas. Nesse horizonte voraz, a fome feroz do "capitalismo financeiro" encontrou a paisagem paradisíaca. Daí decorreu um "projeto orgiástico-antropofágico". O "gozo" foi atingido quando, para residir na Casa Branca, foi escolhida a figura inexpressiva de G. W. Bush. A mídia, habitualmente comedida (ou limitada), abdicando de seu necessário olhar crítico, optou, outra vez, pelo "modelo bem-comportado".

Eis que veio o 11 de Setembro de 2001. A mídia, uma vez mais, embarcou no horror (e o foi) do derretimento das "torres gêmeas", fingindo ignorar os saldos que a indústria bélica e a indústria extrativista faturariam com as invasões do Afeganistão e do Iraque, justamente, aliás, as duas áreas de maior financiamento da campanha presidencial republicana.

A bolha do "capital financeiro" foi tirando todos os proveitos num contexto mundial sem oponente. Sepultando os ideais formulados por Adam Smith e ignorando os princípios desenhados por Stuart Mill, a nova face voraz do capital virtualizado (ou "capitalismo financeiro", em prejuízo do "capitalismo de produção") inoculou, no frágil imaginário do cidadão-consumista, o sonho do "crédito fácil". A mensagem é simples: "assuma dívidas e pague-as depois". Muitos cidadãos norte-americanos, na sua ingenuidade, contraíram dívidas que, no presente de suas vidas, eram administráveis, embora os mesmos compromissos, a médio e a longo prazos, se revelariam impagáveis. A mídia, por sua vez, se manteve numa posição radicalmente acrítica.

A moeda e o valor da emancipação

A propósito, recordo-me de algumas matérias, tanto no jornalismo impresso quanto no eletrônico, que, ao longo de 2007, no Brasil, exaltavam adolescentes usando cartões de créditos cedidos por seus respectivos pais, além de outros que promoviam aplicações de seus "rendimentos" no mercado de capitais. Inclusive, em algumas escolas particulares, há "ensinamentos" no tocante a essa prática, o que é abominável para quem pensa em educação como um pilar de formação do caráter e do conhecimento.

Seja como for, a atual crise, sob o patrocínio dos EUA, oferece ao restante do mundo a possibilidade de dar um passo atrás contra a espiral ensandecida na qual milhares de seres no mundo vêem a vida como um "grande e atraente cassino". Não, a vida é uma oferenda para a aventura de quem compreenda que existir é a oportunidade de descobrir vislumbres novos, de se apaixonar pela ânsia de conhecimento. Isto não quer dizer substituir uma consciência pragmática por uma expectativa romântica (ou utópica). Ao contrário, a observação pretende sinalizar que viver é uma experiência singular para a qual cada um tem o dever de colaborar com o que, em si, puder reunir de melhor (para si e para todos).

Viver para alimentar o imaginário de Wall Street é reduzir a vida ao seu estrato mais apequenado, no qual o indivíduo troca o patrimônio intransferível de sua "imaginação" pelo paradigma congelado pelos ditames dos poderosos. A mídia poderia (ou deveria), no centro dessa crise, ser capaz de oferecer ao público um olhar mais abrangente no qual o peso da moeda fosse bem menor do que o valor da emancipação crítica dos cidadãos. Algo alertado, no passado, por pensadores de certo quilate, a exemplo de Arthur Schopenhauer e Max Weber, ilustra melhor do que estas aflitas linhas.

Comentários (13)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Paulo  de Almeida , --IN - -
Enviado em 12/10/2008 às 13:02:35
Prezado prof. Ivo, grato pela atencäo. Porém näo pretendi com minha reflexäo banir as fontes repercussoras, muito menos a despeito de simples imperfeicöes, ao apontar um grande nome, mas sim o que vejo atrás dele como uma das causas principais desta "bolha que estourou", pois ela tem muito a ver com a filosofia equivocada empurrada com a barriga por várias geracöes, e que agora, com a maré baixa, fica difícil fazer vista grossa para tais erros. No mesmo embalo do qual Kant é o verdadeiro "pai da tropa", cuja crítica genial e bem humorada o Ariano Suassuna quase matou o povo de rir, está os germes de abstracöes perigosas que influenciam a ciência em geral, e inevitavelmente a economia.
Ivo Lucchesi , RJ-RJ - Professor universitário
Enviado em 11/10/2008 às 23:14:19
Agradeço os comentários que, contrários ou favoráveis, sempre fortalecem o sadio exercício crítico. No tocante à restrição do leitor à menção de Schopenhauer, sem discordar plenamente, devo alertar a importância que teve o pensador, principalmente quanto a seus sucessores. A diligência crítica e a vigilância reflexiva devem ser capazes de não banirem as fontes repercussoras, a despeito de suas imperfeições. Congratulo-me, pois, com todos.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 11/10/2008 às 20:49:42
Levi Bronzeado, ótimo comentário. Quando o bicho pegar, quando o Apocalipse estiver arranhando a porta, nós vamos chorar com nossas mães através da tecnologia 3G, e não vai fazer diferença alguma...
Paulo  de almeida , --IN - -
Enviado em 11/10/2008 às 14:50:27
Bom texto e os comentários ricos, e seria melhor ainda sem o "Schopenhauer", cujos tropecos daninhos foram demostrados com brilhantismo no livro (leitura obrigatória p quem näo quer se conformar com o erro) A Filosofia da Liberdade, do R. Steiner. No trabalho do Steiner está a semente de muito daquilo que se vê hoje quando a maré baixa...
Levi Bronzeado dos Santos bronze , Guarabira-PB - médico
Enviado em 11/10/2008 às 11:01:52
Estamos pagando o preço das facilidades adquiridas sob o rótulo de "progresso". A riqueza dos paises se evaporando, mas a gente tem celular de ponta, Tv LCD, Internet, Carrões guardados em gatragens sem ter como usar devido péssimas estradas e engarrafamentos monstruosos; temos shoppings ao lado de casa; mansões financiadas com papeis podres, faculdades de faz de conta em cada bairro, "bolsa família" para a familia de baixa renda se acomodar em casa jogando dominó e baralho, Temos um presidente que descaradamente diz que a crise não chegou aqui, e ri na cara dos velhinhos aposentados insolventes pelos empréstimos que enriqueceram os Bancos "Petistas". A lama aqui é da pior espécie. Tapem os narizes.
José de Souza  Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 10/10/2008 às 16:25:51
O mercado ficou tão anestesiado desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, que nem o estouro da bolha, estrondoso, desperta-o do sonho do consumo. Há dois dias vi um anúncio de televisão de uma revendedora Volkswagen de Belo Horizonte atraindo compradores com o aceno de pagamento da entrada do financiamento só em 2013. No mesmo dia, o governo alemão tentava salvar mais um banco da falência... O Deus Mercado endoidou de vez.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 9/10/2008 às 19:26:08
"É quando a maré baixa que você vê quem estava nadando pelado". Nunca vi maré tão baixa ...
Ivo A. Auerbach , Palhoça-SC - Aposentado
Enviado em 9/10/2008 às 15:54:50
Existe um ditado no mercado financeiro que diz o seguinte: "é quando a maré baixa que você vê quem estava nadando pelado".(rs)
Ivo Lucchesi , RJ-RJ - Professor universitário
Enviado em 8/10/2008 às 23:24:35
Aos comentaristas, presto agradecimento pelo tanto que agregam ao tema exposto. Ao Ricardo Camargo, em especial, devo uma explicação: estive em viagem pela Europa (de 07 a 26/09). Nesse período, por acesso complicado, não pude comentar um seu artigo que saíra na edição de 09/09. Quando pude, a edição já havia sido retirada. Não foi, portanto, descaso; apenas, impedimento circunstancial. Reitero, pois, a todos o agradecimento.
André Sampaio , Rio de Janeiro-RJ - Escritor / Designer
Enviado em 8/10/2008 às 08:59:48
Lembrou-me o poema de Drummond, que permite uma nova leitura face às crises financeira/petrolífera: Stop / a vida parou / ou foi o automóvel?
André Sampaio , Rio de Janeiro-RJ - Escritor / Designer
Enviado em 8/10/2008 às 08:27:23
No passado, para endossar a arbitrariedade do "valor" do dinheiro, este foi associado a metais e pedras "preciosos", tendo o ouro como lastro mais difundido na atualidade. A virtualização e a especulação desvincularam o dinheiro de seu lastro. Dinheiro é o produto mais vendido no mundo atualmente (crédito/financiamentos), mas não é um produto real... nem ao menos um serviço. E no campo da especulação, como no da interpretação, qualquer coisa pode significar qualquer coisa. Adiciono aos fenômenos extremos de Baudrillard (em "A ilusão vital") este: a êxtase do dinheiro: o crédito, mais valioso que o próprio dinheiro. Dinheiro virtual... pessoas virtuais... mundo virtual... noves fora, nada.
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 7/10/2008 às 21:53:21
O texto traz uma constatação importante, que é a da visão quase que escatológica a respeito da instauração de um paraíso terrestre do mercado, como se o "crack" de 1929 tivesse sido um mero acidente de percurso e nada estivesse, até então, ocorrendo no restante do mundo. Na Europa mesma, o capitalismo tivera de se "humanizar", como o comprova a Constituição de Weimar, de 1919, de cuja feitura participou Max Weber, e cuja influência tem sido estudada entre nós pelo Prof Giberto Bercovici, da USP. Quer dizer: já não era mais o caso, mesmo depois da queda do Muro de Berlim, de reduzir a humanidade aos seres que tivessem serventia para o mercado.
wagner  guimarães , lins-SP - radialista
Enviado em 7/10/2008 às 21:39:18
A sociedade que prega o "ter" em detrimento do "ser" esta a dois passos do inferno de Dante. E estão querendo jogar talco nas labaredas. A história da civilização mostra ascensão declínio e queda dos grande impe´rios. O da vez é o império capitalista americano e suas ramificações dolarizadas mundo afora. Poderia ser o advento de uma forma mais ponderada de usar o dinheiro e não ser escravizado por ele, gerir seres menos subservientes ao TER e sim, ao SER. A América está à bancarrota. Urge-se parir novos conceitos economicos. O mundo precisa de mais poesia e menos economistas com suas teorias funestas que lançam a esperança ao regime pré-falimentar.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Ivo Lucchesi

Outros artigos desta Seção
SIP MIGRA PARA A ESPANHA
O Senhor Mercado
não manda mais

Alberto Dines
7/10/2008
ELEIÇÕES 2008
Debates na Globo e
o interesse público

Venício A. de Lima
7/10/2008
Candidatos desconsideram
as políticas de comunicação

Ana Rita Marini e Pedro Luiz S. Osório
7/10/2008
IMPRENSA & CULTURA
O jornalismo e
a blogosfera

Muniz Sodré
7/10/2008
ENTREVISTA / FERNANDO GONZÁLEZ URBANEJA
"Estamos em uma
situação de crise"

Rogério Faria Tavares
7/10/2008
DIREITOS AUTORAIS
Lawrence Lessig: "Criminalizar internautas é um erro"
Marco Aurélio Canônico
7/10/2008
CRISE FINANCEIRA GLOBAL
E a bolha estourou
Ivo Lucchesi
7/10/2008
Ficção e realidade
na crise bancária

César Fonseca
7/10/2008
MÍDIA & POLÍTICA
A toalha do Gabeira
Paulo Cezar Guimarães
8/10/2008
Imprensa menospreza a
performance das candidatas

Ligia Martins de Almeida
8/10/2008
MERCADOS EM PÂNICO
Cobertura da crise: sobra
sobe-desce, falta análise

Alberto Dines
10/10/2008
DIREITO À INFORMAÇÃO
Bisbilhotices, grampos e sigilo da fonte
Eugênio Bucci
13/10/2008

Últimos 5 artigos de
Ivo Lucchesi
COPA DO MUNDO
E o vento levou...
13/7/2010
COPA DO MUNDO
A face real da paranóia
6/7/2010
COPA DO MUNDO
A paranóia fake continua
29/6/2010
JORNALISMO & CULTURA
Estética de inspiração e a infantilização
1/6/2010
MÍDIA & TECNOLOGIA
Esquecimento é uma virtude?
4/5/2010
Mais artigos de
Ivo Lucchesi >>