ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 511 - 9/2/2010
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FORMAÇÃO ACADÊMICA
A difícil tarefa de fazer jornalistas

Por Carlos Chaparro em 11/11/2008

Reproduzido do sítio da Fenaj, 3/11/2008

No ensino do jornalismo, que Deus e os homens nos livrem da tentação de modelos únicos ou hegemônicos. Qualquer que seja, porém, a escolha curricular adotada, ela deve conter estratégias que integrem a formação teórica e a capacitação técnica, em crescentes níveis de aprofundamento e interação, tendo como eixo pedagógico espaços laboratoriais multidisciplinares.

Cursos com identidade própria

Qualquer que seja o padrão de ensino proposto ou defendido para a formação de jornalistas, a questão terá de passar, inevitavelmente, por escolhas curriculares. Se quisermos encarar seriamente o assunto, não poderemos fugir à polêmica dos currículos. E para isso aqui estou, na retomada da conversa sobre a formação de jornalistas.

Claro que não serei leviano a ponto de apresentar, aqui, o modelo ideal de currículo. Currículo ideal não existe. Nem seria desejável que existisse. Entendo, até, que cada curso de jornalismo deveria assumir, preservar e desenvolver uma vocação própria (de ensino, pesquisa e extensão), assumindo preponderâncias que o tornem referência em determinadas vertentes disciplinares do jornalismo.

Quero dizer o seguinte: sem prejuízo da visão global do campo de estudo em que o jornalismo já se constitui, e sem renúncia a compromissos com a formação integral (humanística e técnica) dos futuros profissionais, cada curso deveria desenvolver padrões de excelência em alguma vertente do aprendizado de jornalismo. E fazer disso marca de identidade.

A meu ver, seria ótimo, por exemplo, que houvesse cursos de referência no ensino e na capacitação de profissionais para as linguagens da mídia eletrônica; outros, com qualidade superior na formação para o pensar e o fazer jornalismo nos meios impressos, em um mundo movido a notícias em tempo real; outros, ainda, que aprofundassem conhecimentos para o domínio das artes e técnicas da narrativa jornalística. E (por que não?) que bom seria se algum curso de jornalismo se pudesse distinguir pela excelência do seu ensino e dos seus estudos em disciplinas relacionadas com a argumentação. A propósito, estou convencido de que a competência argumentativa do jornalismo será exigência crescente da sociedade, no mundo cada vez mais complicado em que vivemos.

Laboratórios multidisciplinares

Claro que pode haver uma certa margem de utopia nessa idéia de cursos com vocação própria, com padrões de excelência em certos agrupamentos disciplinares. Mas já se vislumbram, por aí, alguns cursos que souberam desenvolver características particulares, e com elas trabalham marcas de excelência.

Qualquer que seja, porém, ou possa ser, a vocação particular de cada curso, repito o que escrevi no texto anterior: o jornalista que a Universidade deverá formar terá de ser um profissional com educadas aptidões de intelectual, capaz de apreender, atribuir significados e dar exposição social confiável (isto é, independente, crítica e honesta) aos conflitos discursivos da atualidade. Mas será intelectualmente inepto se, ao mesmo tempo, não dominar, plena e criativamente, os conceitos, os recursos, as técnicas, as artes e as implicações da linguagem jornalística – ferramentas do seu ofício.

Defendo, portanto, combinações disciplinares que combinem a formação teórica e a capacitação técnica, em crescentes níveis de aprofundamento, ao longo do curso. Para isso, exige-se, como estratégia pedagógica, investimentos prioritários em espaços laboratoriais que não sejam apenas templos do fazer, mas onde a experimentação jamais esteja dissociada do pensar intelectual, para que aí se produza um saber consistente, no domínio dos porquês e para quês do jornalismo – jornalismo entendido como linguagem hoje essencial dos processos sócio-culturais.

Proponho, portanto, espaços laboratoriais com orientação e docência multidisciplinares.

Três momentos

Uma das discussões mais interessantes nas divergências sobre a questão curricular anda em torno das proporções ideais entre teoria e prática, na evolução do curso. Para o debate, deixo, aqui, a proposta em que mais acredito, formada sobre a minha própria experiência de profissional e professor de jornalismo.

Defendo que, com qualquer currículo, o curso de jornalismo seja ordenado em três grandes momentos articulados, de complexidade progressiva, com arranjos disciplinares que combinem conteúdos teóricos e técnicos:

** INICIAÇÃO – Em nível de iniciação, e com carga horária preponderante, os alunos ingressantes deveriam ter acesso a conteúdos básicos de formação humanística, entre os quais, indispensáveis, História da Cultura e da Cidadania, História do Jornalismo, Ética e Deontologia, Economia, Ciência Política, Filosofia da Linguagem, Metodologia, Antropologia e Geografia (Política e Humana). Ao mesmo tempo, também em formato de iniciação nas técnicas jornalísticas, e com carga horária menor, mas crescente, os alunos devem dispor de espaços de aprendizado experimental, em projetos vivos, para práticas de jornalismo real, sem simulações.

** APROFUNDAMENTO – Seria a fase mais alongada do curso, em que, no plano das idéias e da formação teórica, o caráter mais extensivo da iniciação daria lugar à possibilidade de escolhas para o estudo aprofundado (por meio de disciplinas optativas, por exemplo) em jornalismo e em no máximo duas áreas complementares de conhecimento, da preferência do aluno. Simultaneamente, a experimentação técnica cresceria em complexidade e carga horária, pedagogicamente inserida em espaços laboratoriais multidisciplinares, propícios às interações entre teoria e prática, espaços que, nesta fase, funcionariam como eixos do curso.

** MATURAÇÃO – Seria o momento do atendimento pedagógico individualizado, preenchido com atividades orientadas de leituras, pesquisa e experimentação, para a produção do trabalho final de avaliação. Em um percurso de seis meses a um ano de estudo direcionado, em torno de um projeto ou de uma monografia, o aluno se defronta com seus limites e suas potencialidades, para demonstrar, de forma consolidada, os conhecimentos adquiridos e as aptidões desenvolvidas ao longo do curso.

Comentários (3)
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Milton  Costa , São Paulo-SP - Designer gráfico
Enviado em 17/11/2008 às 23:41:41
Professor, tenho 34 anos e concluo o curso de Jornalismo semana que vem, na Cásper Líbero. Curiosamente, a parte do seu texto "Três momentos" resume com incrível semelhança o que temos na Cásper. E eu, sinceramente, creio que esteja longe do ideal. Não quero fazer um muro de lamentações, longe disso, mas acho que o grande problema está na idade em que o aluno ingressa no curso. A faculdade é excelente, com todos os seus defeitos -- como as outras. Mas acho cada vez mais que um curso de jornalismo deva ser de pós-graduação, e não de graduação. A molecada de 20 e poucos anos tem uma bagagem, com raras exceções, muito pequena e, o pior, está na fase aguda da soberba, o que os atrapalha muito. Sentem-se donos de si e sabedores de tudo, implicam demais, lêem de menos, parecem adolescentes tardios. Os melhores jornalistas que vi e conheci são simples e alguns também humildes. Os que pensam que são os melhores transpiram frustração e vaidade. É ruim pra qualquer profissão, mas para o jornalista é pior, eu acho. Seríamos hipócritas se disséssemos não saber que os veículos têm seus próprios treinamentos e que por vezes dão conta dos quatro anos de curso para a maioria dos alunos. Por que não discutir uma uma reformulação profunda, até com cursos mais extensos e com menos aulas semanais? Ajudaria até a despejar menos desempregados no mercado. Bacana a sua discussão. Sempre bom. Abraço!
Antonio Brasil Brasil , Rio de Janeiro -RJ - jornalista
Enviado em 17/11/2008 às 18:06:13
Enquanto jornalista e professor, parabéns pelas boas idéias. O problema é que talvez não interesse aos donos do poder no governo, nos ministérios, nos sindicatos e nas empresas "melhorar" o jornalismo. Jornalistas mais qualificados e preparados são mais críticos, investigativos e exigentes. E isso não interessa aos donos do poder. Talvez essa seja a razão porque falamos tanto em "reformas" e tudo continue sempre da mesma forma. O discurso das mudanças esbarra nas possíveis conseqüências dessas mudanças. Concordo: qualidade não precisa ser sinônimo de padronização e rima melhor com "diversidade". Parabéns novamente pelas boas idéias. Bom reencontrá-lo no OI. Abraços Antonio Brasil
Maurício Tuffani , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 13/11/2008 às 07:53:24
São muito importantes esas observações do professor Chaparro. Faltou eu dizer em meu artigo "Debate na USP isola as falácias sobre exigência do diploma", publicado em meu blog (http://laudascriticas.wordpress.com) e neste mesma edição do OI, que a professora Maria Elisabete Antonioli disse algo muito semelhante no debate realizado na ECA-USP em 06/11.
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