ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 512 - 9/2/2010
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LEITURAS DO ECONOMIST
Diagnóstico inútil, o paciente está morto

Por Alberto Dines em 18/11/2008

Clinicamente morto. Nosso paciente é a mídia (conjunto de meios de comunicação), a intermediária entre sociedade e realidade.

Enquanto a realidade muda com velocidade cada vez maior, a sociedade brasileira oferece claros indícios de entorpecimento. Não se surpreende, não enxerga o insólito, não se importa, não se indigna nem se deixa convocar para coisa alguma. Só se mexe movida por lances passionais, condicionada há décadas pela estrutura narrativa dos folhetins televisivos.

Nossa mídia não discute a mídia e, com isto, descumpre sua obrigação maior de servir à sociedade porque a discussão sobre a mídia é essencial para definir os seus padrões de discernimento.

Preço das mudanças

Nossa sociedade participa das eleições porque é obrigada a votar, de outra forma abdicaria completamente da faculdade de questionar ou intervir. Prefere ser conduzida por narradores medíocres e tramas banais do que experimentar enredos diferenciados. Entusiasmou-se com a vitória de Barack Obama porque esta não se deu aqui, não precisará bancar o preço das mudanças.

Desde os tempos da autocensura não se vê tamanha letargia, tamanho tartufismo: a sociedade finge que precisa da mídia e a mídia finge que serve a sociedade. O resultado é esta geléia cívica baseada em meias verdades, meias mentiras e uma colossal hipocrisia.

Nossa mídia não media, enrola e se enrola. Como não se sente cobrada nem exigida, como se considera livre de responsabilidades e compromissos, ajeita-se a uma pauta sabidamente neutra, composta de "ondas" rigorosamente inofensivas para vender a imagem de arauto da transformação.

Há cerca de um mês, o influente semanário Economist (edição de 23/10) colocou o Brasil na berlinda ao denunciar a existência de duas falhas na nossa mídia. Errou: são três. A omitida é mais importante: considerar-se acima do bem e do mal, desobrigada de discutir-se e prestar contas.

Crítica de mídia é tabu

A Folha tem, em média, doze colunas assinadas nas edições dos dias úteis, o Estadão e o Globo têm dez – são mais de trinta profissionais, recrutados entre os melhores, altamente remunerados e que, não obstante, resignam-se às imposições empresariais sobre o que podem ou não podem escrever. E escrever sobre mídia na grande imprensa é tabu. Trata-se do único setor da vida brasileira proibido de buscar excelência porque só pode fazê-lo na clandestinidade. Ou no circo.

O Economist identificou duas grandes falhas na mídia e na sociedade brasileira: a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional do jornalismo e a farta distribuição aos congressistas de concessões de radiodifusão.

Ao tratar do diploma nomeia os sindicalistas como os maiores interessados na reserva do mercado profissional. Errou novamente: a maior interessada em manter a obrigatoriedade do diploma é a própria indústria do diploma – as universidades privadas, nelas compreendidos seus donos, hoje milionários, e os corpos docente e discente, ingenuamente a seu serviço.

Mas quem sustenta esta pretensão é a própria mídia, que jamais tentou policiar efetivamente a qualidade do ensino superior privado, temerosa de perder seus anúncios. Apenas com os rankings anuais dos melhores e piores cursos não se corrige uma aberração destas proporções.

As empresas jornalísticas, aferradas à balela de que são as únicas autorizadas a empunhar a bandeira da liberdade de expressão, consideram a obrigatoriedade do diploma como um impedimento ao acesso à informação, mas não querem arriscar o seu faturamento.

O redator da Economist elogia a qualidade do jornalismo brasileiro (se comparado com o mexicano e argentino), mas não consegue perceber as nuances e sutilezas dos problemas que apontou. A questão não é linear – ser a favor ou contra o licenciamento de jornalistas ou a obrigatoriedade do diploma –, o simplismo aqui será sempre pernicioso, qualquer que seja a posição assumida.

A sociedade brasileira precisa de uma mídia capaz de manter-se como assunto de um debate nacional. Isso requer humildade, decência, transparência e, principalmente, espírito público.

Os mini Berlusconis

O redator do Economist acertou ao constatar que o maior defeito (the biggest flaw) da mídia brasileira é a concessão de canais de radiodifusão a parlamentares. Tem razão: é o pecado original, nele embutem-se todas as distorções e desvios que comprometem a mídia brasileira.

Mas os culpados não são esses "mini Berlusconis", como os designa a revista. A mídia os aceita e convive com eles, legitima-os ao resignar-se à flagrante ilegalidade. Com exceção da Folha de S.Paulo, que há anos acompanha o aumento destas concessões.

Então, por que se cala o resto da mídia impressa? Porque mídia impressa e mídia eletrônica no Brasil não são entidades separadas, com interesses divergentes, estão interligadas, reforçam-se, fazem parte do mesmo sistema.

O senador José Sarney (PMDB-AP) é um desses "mini Berlusconis": tem emissoras de rádio, TV e tem jornal. Em cada estado e região do território brasileiro há sub-Sarneys, mini-mini Berlusconis que nenhum governo teria a coragem de enfrentar.

O Economist está teoricamente certo, Na prática, seu diagnóstico é deletério porque ignora os desdobramentos do problema. Basta lembrar que em 25 de outubro de 2005, o Instituto Projor (mantenedor do projeto Observatório da Imprensa) entregou à Procuradoria Geral da República (PGR) um minucioso cruzamento de dados comprovando que mesmo integrantes da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados (CCTCI), encarregada de verificar as concessões, são concessionários de radiodifusão. A Procuradoria recebeu a contribuição, agradeceu, examinou o estudo ao longo de dois anos e... arquivou. Promete usá-lo oportunamente.

Quando? O Economist não sabe.

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Licensed to scribbleThe Economist

Relatório da pesquisa "Concessionários de radiodifusão no Congresso Nacional" [coord. de Venício A. de Lima; rolar a página]

Comentários (17)
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Luciano Prado , Rio de Janeiro-RJ - advogado
Enviado em 24/11/2008 às 15:27:00
Essa de “analisar” a mídia já está enchendo o saco. Desde que me entendo por gente que ouço falar nessa baboseira e nada muda. A própria imprensa não quer mudar, porque o objetivo não é informar corretamente o leitor. O alvo dos senhores da grande mídia é o poder, político e financeiro. A imprensa brasileira pratica a política partidária até na numeração das páginas dos jornais. Uma vergonha. No mais, todas essas “pseudo” análises são mais um “encher de lingüiças” que enchem o nosso já abarrotado saco, a nossa paciência.
Vanderlei Lázaro Crepaldi , São Paulo-SP - Técnico em mecânica
Enviado em 24/11/2008 às 12:54:27
A grande novidade para mim é o fato de o Instituto Projor já ter feito a denúncia à PGR e nada ter acontecido. Pergunto: Qual seria a melhor maneira de a sociedade fazer pressão para que a PGR se mova? Vanderlei
CyberZé Gonçalves , RJ-RJ - Sem
Enviado em 24/11/2008 às 01:21:25
Caro Dines: Não entendi bem a linha de raciocínio: " não é cobrada nem exigida..." Ora bolas! Quando se fala em conselho de regulamentação o mundo vem abaixo. O jornalismo é a única categoria profissional a se considerar acima do bem, do mal, do povo e de Deus! FAz o que quer. Quando quer e ai de quem questionar isto. Ondas inofensivas? Fala sério! O que rola é uma mídia total e completamente partidarizada. Disposta a apoiar o atraso político. Informar é o que menos conta. O negócio é fazer onda e derrubar o Lula! Há meses a grande imprensa se dedica à disseminação do pânico na economia. Dedica-se diuturnamente à minar a economia através de noticiário tendencioso. À quem interessa isso? Quem ganha com isso? Tome como exemplo o Globo de hoje, domingo: Na página 28 a miriam leitão informa que um dos sinais da crise apocalíptica é que a venda de carros usados parou totalmente no Brasil. Na página 29, sob vinheta "ABALO GLOBAL", informa-se que a "Crise aumenta procura por itens usados", informando, no corpo da matéria, que aumentou em muito a venda de carros usados. Que será isso? Tropeçou nas pernas? Dissidencia nas hostes? Só o Dines nos esclarecerá... Saudações
Max Suel , SP-SP - Engº
Enviado em 22/11/2008 às 09:40:30
A verdade às vezes demora, mas ela acaba sempre vindo .... Este é dedicado ao Atrifeb Rogério de Fortaleza: eu sempre disse que o Valerioduto mineiro, que financiou a campanha do tucano Azeredo à reeleição do governo mineiro em 1998, também financiou outros partidos da base governista atual e principalmente dos candidatos a deputado federal do PT, SIM do PT. Lendo o Relatório da Polícia Federal agora publicado, vemos que o PT levou mais de R$ 800.000,00 (OITOCENTOS MIL REAIS) do Valerioduto Mineiro, sendo o 3º Partido a receber mais dinheiro daquele esquema. Mais detalhes serão fornecidos mais adiante. Ass. Max (só aqui no OI, porque tem desonestos que escrevem sandices em outros cantos e covardemente colocam meu nome)
alvaro marins , Rio de Janeiro-RJ - professor
Enviado em 21/11/2008 às 18:31:41
Ledo engano. A sociedade brasileira não está nem um pouco entorpecida. Pelo contrário; a maior prova disso é que ela não aceita mais a mídia como sua intermediária na leitura da realidade. E isso é ótimo, mostra um saudável amadurecimento da sociedade brasileira, que não se deixa mais manipular por interesses políticos disfarçados de jornalismo. Se isso é um problema para a mídia, dane-se a mídia, que nunca teve nenhum compromisso com os anseios das sociedades.
Eduardo Goulart , Niteroi-RJ - Estudante
Enviado em 21/11/2008 às 14:25:30
Quando as [ ] ideogilizadas que escrevem esses comentários se darão conta que os artigos escritos aqui não são baseados nos critérios ideológicos ou partidários de quem escreve, e sim, na busca do aperfeiçoamento dos códigos de ética jornalisticos ?
Júlio Valério Neto , Andradas-MG - produtor de tv
Enviado em 21/11/2008 às 02:01:33
Eu ja disse isso outra vez, mas temos um patrimonialismo midiático. Esse tipo talvez o mais nocivo, pois apropria-se das mentes de uma nação.
Carlo Germani , BH/MG-MG - engenheiro
Enviado em 20/11/2008 às 23:07:48
Caro Dines: Tudo no mundo é causal, nada é casual. A mídia em geral está nas mãos dos Illuminati (super maçons), a centenas de anos. Com o projeto satânico da Nova Ordem Mundial, a meta é imbecilizar, mentir,persuadir a população mundial, por meio da mídia a serviço dos seus interesses. Por exemplo: o que a mídia Illuminati fez para gerar essa histeria com Barack Obama. Uma completa fraude em todos os sentidos. Quem viver verá! O que seria de nossas mentes, sem a Internet ? Talvez o unico meio capaz de suprir o lado verdadeiro da realidade.
Cláudio Pragana , Recife-PE - Engenheiro
Enviado em 20/11/2008 às 11:53:49
Parabéns Dines,cada vez mais preciso em suas colocações,infelizmente a dita mídia não ve que cada dia com o avanço da internete e dos blogs e ela continuando com esta postura está cavando sua própia "sepultura". Abraços; Cláudio
Gersier Lima , Montes Claros-MG - Radialista
Enviado em 19/11/2008 às 23:40:45
“Clinicamente morto. Nosso paciente é a mídia”...Tá não Dinnes,ela está fingindo.Sabe aqueles dezoito milhões do Dantas?Parte dela está recebendo,e é aquela parte que “cobrava” punição aos mensaleiros.Cínica não? “Enquanto a realidade muda com velocidade cada vez maior, a sociedade brasileira oferece claros indícios de entorpecimento”.De novo não Dinnes,agora quem está fingindo é a sociedade,aliás não é fingindo,ela simplesmente ignora o que essa mídia fala,principalmente sobre a tal especulação financeira que ela chama de crise e quer porque quer comprovar que ela já atingiu o Brasil.Os fatos a desmente todos os dias.O que outrora era oscilações de mercado e suas consequencias,hoje virou comprovação. Por último quero parabenizar por vc estar de volta ao sue estado normal.Esse texto sim,tenho certeza que é seu.
calypso escobar velloso , rio de janeiro-RJ - poeta
Enviado em 19/11/2008 às 19:21:12
Letargia,nem alienação e nem cegueira.Dines já disse tudo.Não tenho querido nem me informar de que culto anda o país no descompasso.Parabens e até quando as coisas vierem inacessíveis,grata calypso escobar
Rafael Costa , São Paulo-SP - Alalista de Sistemas
Enviado em 19/11/2008 às 18:23:39
Caramba! Nunca tinha lido uma crítica à mídia tão enfática e lúcida. Só comentei aqui para dar um parabéns ao mestre Dines, pois não há mais nada a acrescentar.
Victor Barone , Campo Grande-MS - Jornalista
Enviado em 19/11/2008 às 17:11:39
Dines, parabéns pelo artigo. Uma das mais lúcidas análises sobre a nossa mídia. Infelizmente, para os problemas que você apontou não há – em min há modesta opinião – saídas fáceis. Penso que a sociedade brasileira vive uma crise moral que se reflete para todos os lados, em especial para o campo profissional. No jornalismo ela é mais flagrante. Olho o futuro e não vejo o clarear... Estamos emperrados em uma democracia representativa que já não se coaduna com o objetivo primordial de uma democracia – representar a vontade da população – e que, em última instância, é legitimada por uma imprensa corrompida, que se agarra com unhas e dentes aos seus próprios interesses.
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 19/11/2008 às 14:25:15
Por falar em Folha (de S. Paulo, hein!) a qual "acompanha" as tais "concessões de rádio e televisão: Acompanha porque ela não tem rádio nem televisão. O O Estado de S. Paulo e o O Globo não acompanham porque têm rádios e televisões. Aliás, o certo não é não tê-los e o errado é tê-los, e sim, o que fazer e por que fazer com as tais concessões. Por falar em "colunistas" José Sarney e Marina Silva são senadores desta República e Fernando Gabeira é deputado federal e Soninha é vereadora. Todos são "colunistas" da Folha (de S. Paulo, hein!). Não importa se o jornal não é concessão pública, mas, ter "colunistas" parlamentares ou com mandatos eletivos ou com cargos no poder público é uma excrescência ou várias excrescências. Agora até o empresário Emílio Odebrecht é "colunista" de "opinião" da Folha (de S. Paulo, hein!). Mas, a empresa Odebrecht é a patrocinadora do treinamento dos futuros jornalistinhas da Folha (de S. Paulo, hein!). Agora falta à Folha "convidar" o presidente da Philip Morris para também "opinar" na "nobríssima" página A2. Afinal, a Philip Morris também é a patrocinadora do treinamento dos futuros jornalistinhas da Folha (de S. Paulo, hein!). Por falar em "repórter" sem o tal diploma em jornalismo, o "colunista" folhático e assistente do doutor Freud (um tal Contardo Calligaris) foi o enviado aos states para "reportar" sobre a eleição do companheiro Obama. Pode?.
ubirajara sousa , slz-MA - psicólogo
Enviado em 19/11/2008 às 14:21:03
E eu, que não acreditava em ressurreição, vejo o Dines ressuscitado. Welcome, Mestre Dines.
Flávia Rosas , Búzios-RJ - Jornalista
Enviado em 19/11/2008 às 09:09:48
É por esse, e por tantos outros artigos, que adoraria trabalhar com você!
Zé da Silva Brasileiro , Belo Horizonte - MG-MG - Bancário
Enviado em 18/11/2008 às 12:05:07
Muito bom o artigo. Para os consumidores da informação a questão do diploma de jornalista não tem qualquer relevancia. Enquanto isso, elefantes estão voando e passando desapercebidos... Talvez o OI tenha algo a dizer, por exemplo, sobre o post de hoje (18/11/08) do blog do Noblat : "Documentos apreendidos na Operação Satiagraha indicam a existência de um esquema que movimentava R$ 18 milhões apenas em propinas para políticos, juizes e jornalistas. A revelação foi feita pelo delegado Carlos Eduardo Pelegrini Magro, um dos responsáveis pelo inquérito que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas, durante reunião de três horas com a cúpula da Polícia Federal, no dia 14 de julho. Os registros desse encontro começaram a ser publicados pelo GLOBO no último sábado . Pelegrini diz ter apreendido, na operação, bilhetes e informações digitalizadas detalhando o esquema de propina. E classificou o grupo que orbita em torno de Dantas de "muito forte". - Nosso alvo é extremamente estrategista. Ao pegar o laptop (na casa dele, na hora da apreensão) estavam os manuscritos: na PF vai a pessoa tal, falar com tal. No Judiciário vai a pessoa tal. No jornalista, a gente contrata o Mangabeira para chegar nos meios de comunicação. Estava todo o organograma dele lá - disse Pelegrini. Leia mais em Satiagraha: Documentos apreendidos mostram que propinas chegariam a R$ 18 milhões".
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