ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 516 - 9/2/2010
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TV GLOBO
Uma Capitu saída da Festa da Uva

Por Deonísio da Silva em 16/12/2008

Capitu, de Dom Casmurro, foi infiel por mais de meio século. Desvios do movimento feminista, porém, num processo que depois viria a queimar sutiãs em praça pública, extirparam os chifres de Bentinho.

Tenho tratado do tema desde meus verdes anos. A partir do dia em que fui apresentado a Machado de Assis, nunca mais deixei de ler o rapaz. Mais do que gênio, ele é um oxigênio em nossas letras. Como professor, tenho produzido muitos leitores para Machado: em escolas do ensino médio, em oficinas literárias, em aulas e em seminários em diversas universidades. Sintetizei minha leitura em artigo para a Revista da Biblioteca Nacional (número 44), transcrito em outros periódicos e sites: "Dom Casmurro, o adultério mais comprovado do mundo". Certa vez, numa Bienal do Livro, no Rio, a poeta Neide Archanjo, o professor Domício Proença Filho, quando ainda não era da ABL, e eu participamos de mesa em que o tema era a infidelidade de Capitu.

Em 29 de janeiro escrevi no Observatório da Imprensa:

"Quis a caprichosa História que o maior escritor brasileiro de todos os tempos fosse órfão (outros cuidaram dele que não seus pais), voluntariamente estéril (num país que valorizava por demais as genealogias), preto (num país escravocrata), pobre (ou `sem berço´, como então se dizia), epiléptico (doença que era tida como um castigo Deus), casasse com uma solteirona (desprezada por outrem ou a quem outros desprezaram, a sua amada Carolina) e gago (num país que sempre valorizou mais a capacidade de dizer do que a de escrever, mais a fala do que a escrita). Machado tinha tudo para perder uma partida por sete a zero, portanto. Mas venceu por um a zero. O gol solitário foi o talento: ele sabia escrever. Seu saber era este. Não era apenas isso que sabia fazer, mas era o que sabia fazer melhor" [ver íntegra aqui].

Uma leitura controversa

Em outros textos lembrei a frase antológica de Dalton Trevisan: "Se Capitu não traiu Bentinho, então Machado de Assis é José de Alencar". Otto Lara Resende recebeu cartas indignadas, sobretudo de leitoras, quando garantiu em artigo publicado na Folha de S.Paulo que Capitu era, sim, adúltera.

A mulher adúltera foi personagem solar de romances europeus importantes e que tiveram influência decisiva na formação do romance brasileiro. Entre os casos emblemáticos estão Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e O Primo Brasílio, de Eça de Queiroz. Um pouco mais tarde do que esses dois, temos Anna Karenina, de Tolstoi, cuja figura feminina que dá título ao romance, é igualmente adúltera.

Mas na década de 1960 começaram a ler de outro modo o romance de Machado de Assis. Foi influência de um livro da norte-americana Helen Caldwell, O Otelo Brasileiro (por sua vez inspirado em Shakespeare), publicado na década de 1950. Na esteira de uma leitura controversa, sem base no texto de Machado de Assis e desligada do contexto das grandes personagens adúlteras que estruturavam os romances da segunda metade do século 19, começaram a questionar ninguém menos do que Bentinho, o marido traído, posto pelo autor como narrador do romance.

Sem complexidades sutis

O narrador, por ser marido, é suspeito de caluniar e difamar a mulher, alegam. Naturalmente, todos os outros eventos narrados por ele merecem crédito, inclusive a morte de Escobar, afogado numa praia do Rio. Por que, então, apenas e tão-somente o adultério, que tem o mesmo narrador, é negado? Os defensores desta segunda leitura não respondem à pergunta capital, estratégica.

Temos um narrador, Bentinho, o marido, já homem velho, sem nenhum ressentimento, perdoando a infidelidade de Capitu, sua mulher, e perdoando também a traição perpetrada por Escobar, o melhor amigo do casal, com estas frases que encerram o romance: "E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve". Cadê o ressentimento?

Em entrevista a O Estado de S. Paulo (27/01/08), a escritora Lygia Fagundes Telles, da ABL, à pergunta "Capitu traiu Bentinho?", responde: "Eu já não sei mais (risos) (...) No começo (nas primeiras leituras), ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei".

A TV Globo, com a série Capitu, veio abastardar mais um pouco o romance. Machado de Assis parece ter vindo para a Festa da Uva. Bentinho, Capitu, Escobar e principalmente José Dias estão rasos, perderam as sutis complexidades com que foram arquitetados. Escobar, pobre comborço, perdeu qualquer marca de homem interessado no amor das mulheres, especialmente no de Capitu. Talvez queiram demonstrar que esteja interessado no marido dela.

Comentários (9)
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Ivo Lucchesi , RJ-RJ - Professor Universitário
Enviado em 22/12/2008 às 01:59:23
É isso, Deinísio. O que esperar de "Capitu", em versão "global"? O talento de Machado, ao inaugurar, na ficção ocidental, a "lógica da dubiedade", não poderia ser capturada pela limitada percepção novelística. Assim, é melhor que todos ignoremos o que a TV Globo exibiu. Fiquemos, apenas, com a genialidade do que o "bruxo do Cosme Velho" concebeu e que, dentre outras, abriu portas para que um "jovem Kafka" drivasse sua narrativa para a "lógica da indecidibilidade". De resto, não há como TV ir além do que pode a literatura. Minha esperança é a de que, um dia, o brasileiro compreenda essa lição elementar.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 18/12/2008 às 17:54:59
Se há uma traição no texto jamais saberemos, mas uma coisa é certa: a Globo traiu Machado de Assis.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 18/12/2008 às 07:51:46
Cara Marta, também não sou especialista em literatura, apenas um leitor apaixonado. Creio que se o tema do adultério fosse motivo de um romance nos dias de hoje realmente seria de menor importância. Não digo que ele seja o tema principal, mas certamente ele é parte importantíssima da trama. Trata-se de um tema tabu e, ponha tabu nisso, para a época. Creio também que passa longe do autor, ele mesmo vindo dos excluídos e discriminados, a idéia de julgar as personagens. Certamente a maneira com que cada uma delas encara os problemas que aparecem criam um perfil psicológico e expõem as mazelas de uma sociedade.
Helena Felisbino , São Paulo-SP - Educadora
Enviado em 17/12/2008 às 22:51:05
Se há evidências de que Capitu é uma infiel há também indícios de que Bentinho teria tido um caso com Sancha. É importante lembrar que quem conta a história é Bentinho, um indivíduo que se comportava como louco: jogava bolas envenenadas aos cachorros e ofereceu café envenenado ao filho. Porém Bento era de família rica, era advogado, letrado. Capitu não: vivia na casa abaixo, filha de Padua, desempregado e pobre. Quem seria o ruim da história? Aliás esta história se repete ainda hoje no Brasil.
Marta Camilo , Uberaba-MG - Bióloga
Enviado em 17/12/2008 às 15:49:55
Por eu, também, adorar Machado de Assis, já li e reli Dom Casmurro. Mas tenho deste outra opinião: o adultério é coisa secundária no romance; o genial Assis só se utilizou dele para prender o leitor aos outros conteúdos do romance. Por exemplo, ele descreve minuciosamente, ainda que de forma sutil, por ser artística, vários dos tipos de personalidades e comportamentos nas relações humanas, numa época em que a psicologia e a sociologia nem existiam como ciências. Outra consideração minha é a seguinte: o desfecho do romance, bem diferente das “estórias de cinderelas”, é uma marca do período realista que se inicia na literatura, fato, que em minha opinião, deve ser observado nas aulas de literatura; posso estar errada, pois não sou especialista em literatura. Em ralação ao papel da televisão na representação desta obra, a preocupação da TV é com a audiência e não com a fidelidade ao romance. Raquel de Queiroz, antes de morrer, reclamou um pouco desta atitude da TV, quando representaram sua obra.
José Guido Fré , Santos-SP - Jornalista
Enviado em 17/12/2008 às 15:19:55
. Maria Fernanda Cândido foi escalada para ser “Capitu”. Quem o fez não entendeu a metáfora machadiana relativa à ressaca do mar. Achou que o nosso maior escritor via em Capitu um fim de festa eterno, ou uma ressaca provocada por fenomenal cachaçada. Perdoem-me, mas a única “Capitu” possível seria a ex-modelo italiana Capuccini. .
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 17/12/2008 às 13:56:05
Interessante observar que num momento em que todos o ditos pré-conceitos são questionados ainda não tenha desaparecido essa interpretação preconceituosa das feministas de plantão. Lembremos que Bentinho não estava interessado em guarda de filhos, partilha de bens, herança ou coisa que o valha sem portanto qualquer necessidade de mentir em seu narrado, ao contrário, admitir o adultério seria uma desonra sem precedentes para os homens do período. De outro lado, seria subestimar Machado de Assis admitir a fidelidade de Capitu, pois a trama perderia muito de sua força psicológica e, Machado era um incrível observador e crítico dos costumes e pessoas de seu tempo. Capitu, não me iludas nem te enganes. Tu foste sempre, ainda hoje é e serás para sempre adúltera queiram ou não as feministas de plantão.
Sérgio Henrique Cunha Zica , Taguatinga-DF - Técnico - Informática
Enviado em 17/12/2008 às 12:27:36
Bentinho e Escobar? Eu sempre desconfiei. Esse Machado de Assis era modernoso mesmo... Mas, cá entre nós, eu duvido que a Globo mostre o beijo na série...
cleumir souza , Uberlandia-MG - Bancario
Enviado em 17/12/2008 às 12:09:23
>>Pertinente o seu texto, eu não li ainda Dom Casmurro, uma vergonha para um brasileiro, que como muitos ficam enfiados na sala de tv e agora felismente um pouco mais no computador. Tendo oportunidade de ler um texto inteligente como o seu, comentando um assunto interessante e importante. Assistí e gravei com muito interesse a série, acho que vai despertar o interesse de muitos como eu que não leram o Machado e portanto pelo menos esse mérito a minissérie terá. Parabéns pelo Feito & Desfeitas que me permite a oportunidade de expor minha humilde opinião, uma das primeiras que faço na Net, criei coragem! rsrs! Felicidades!
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