ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 518 - 30/12/2008
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IMPRENSA FRANCESA
Mídia acrítica = controle da opinião pública

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 29/12/2008

Quando as pessoas serão presas por intenções de cometer um crime ou um ato terrorista?

O que se passou na França em novembro de 2008 parece nos apontar perigosamente esse horizonte terrível como não muito longe de nós. No caso da prisão de cinco jovens militantes altermundistas, acusados de terem sabotado linhas de trem, a mídia francesa não se mostrou à altura de um país democrático e maduro, no qual a crítica às verdades oficiais deve ser exercida como um dever para com o leitor e a verdade dos fatos. Nem mesmo Libération, o mais rebelde e crítico dos diários franceses, assumidamente de esquerda, cumpriu o seu papel no início do caso dos "terroristas" de Tarnac, um vilarejo do centro da França.

A prisão de cinco jovens, todos franceses e super-diplomados – um deles é filósofo e foi aluno de Giorgio Agamben, que assinou um belo artigo em sua defesa –, acusados de serem os sabotadores que em novembro prejudicaram algumas linhas de trens de alta velocidade (TGV, o trem-bala) a partir de suspeitas e sem qualquer prova formal, é altamente preocupante.

Libération não escapou à fúria crítica de seus leitores por ter dado uma primeira página com o título "A ultra-esquerda que descarrilha". Nela, o jornal, como o resto da mídia francesa, reproduziu a versão oficial de que os jovens presos em Tarnac numa operação cinematográfica – em que não faltaram as câmeras de um canal público, convidadas para registrar a ação espetacular da polícia antiterrorista – eram perigosos terroristas de uma corrente de "ultra-esquerda de tendência anarco-autônoma".

Passividade da imprensa

Alguns leitores criticaram o fato de a imprensa validar a história divulgada pelo Ministério do Interior sobre os perigosos "terroristas" presos em Tarnac sem investigação alguma. Sem provas formais contra eles, mas apenas suspeitas, os jovens intelectuais militantes altermundistas foram presos e levados à Justiça por terrorismo.

Um leitor indignado chegou a acusar a mediocridade do mundo jornalístico atual, que permite que os jornais se deixem usar para divulgar as "verdades" oficiais sem investigarem o que está por trás de uma ação policial "antiterrorista".

Afinal, os jornais franceses não eram obrigados a aderir sem desconfiança à tese oficial da prisão de "perigosos terroristas" em Tarnac. Esse episódio faz lembrar um passado não tão remoto quando, durante a ditadura militar brasileira, um jornal como O Globo se fazia porta-voz dos órgãos de informação ao divulgar o texto do documento oficial que lamentava o "suicídio" do jornalista Vladimir Herzog na sua cela, em 1975, sem qualquer investigação ou reserva. A alternativa era a publicação da versão oficial sem aderir a ela.

Como na França não estamos (ainda) sob uma ditadura sarkozista e Libération é um jornal de esquerda, diferentemente de O Globo, não se pode aceitar essa passividade por parte da imprensa quando se trata de prisões abusivas.

Paranóia securitária

A propósito da suposta "célula terrorista" de Tarnac, o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu um artigo publicado no próprio Libération cujo título "Terrorismo ou tragicomédia?" não poderia ser mais explícito:

"É preciso ter a coragem de dizer com clareza que hoje em numerosos países europeus, particularmente França e Itália, foram criadas leis e medidas policiais que teriam sido outrora julgadas bárbaras e antidemocráticas e que não deixam nada a invejar às que estavam em vigor na Itália durante o fascismo."

Esse desvio para um cerceamento da liberdade individual e para o controle policialesco dos cidadãos, sob o pretexto de combater o "terrorismo", precisa ser denunciado pela imprensa.

Em vez disso, mesmo a imprensa de esquerda deu provas, pelo menos no início do caso, de uma docilidade lamentável. Nos dias que se seguiram à divulgação do caso pela polícia, Libération fez uma cobertura mais equilibrada e crítica e deu duas páginas de entrevista com um dos jovens acusados, logo depois de sua libertação.

A versão dos acusados de "terrorismo", que demorou a chegar aos leitores (et pour cause, pois eles estavam presos), foi a de que no início do caso – aparentemente montado pelos serviços de informação para manter um clima de insegurança ou para justificar novas leis liberticidas – só conheciam a versão oficial.

Felizmente, os leitores estão atentos e criticaram duramente a imprensa pelo que um deles chamou de suivisme policier, uma espécie de ausência total de espírito crítico que não pode estar em momento algum ausente na cobertura de fatos de "terrorismo". Esta palavra pode servir para desencadear uma paranóia securitária com objetivos escusos, assim como na década de 1960 a acusação de "subversão" serviu para impor a ditadura do AI-5 no Brasil. Nos dois casos, direitos humanos fundamentais são pisoteados.

Comentários (3)
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Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 5/1/2009 às 17:56:24
Pois é, uma mídia acrítica é tão nociva quanto aquela sob o domínio da censura. Há muito jornalista que critica alguma forma de discussão sobre o controle externo da mídia, mas vive de reportagens encomendadas pelos interesses políticos e comerciais. Talvez essa forma de jornalismo seja pior do que a própria censura explícita, pois nela sabemos exatamente o que acontece e podemos mais claramente nomear os bois. Aliás, aproveitando o espaço, tenho visto uma campanha pela obrigatoriedade do diploma no jornalismo. É só ver como anda o jornalismo no Brasil para opinar, não é necessário nem dar o contra. A própria mediocridade da imprensa brasileira já é resposta. Deveria exercer a profissão quem tem competência e não quem tem a posse de um canudo. Perder-se-á muitos homens dotados para o jornalismo com essa obrigatoriedade. O diploma é importante, mas a obrigatoriedade eliminaria do mercado midiático muitas pessoas dotadas para a profissão.
Jaimw Collier Coeli , Itanhaem-SP - aposentado
Enviado em 30/12/2008 às 17:03:10
Desde que ouvidizer que o Cannard Enchaine foi visto, bras dessus bras dessus, passeando tranquuilamente no Rive gauche com um conhecido banqueiro, perdi totalmente o sonho alucinante do jornalismo indoendente. Com certeza jamais considerei oLiberation "independente". Mas concordo que "subversivo" é uma classificação que favorece o estamento governamental, seja de que partido for.
j batista , sampa-SP - func publ
Enviado em 30/12/2008 às 08:22:52
MidiaxCredibilidade-A midia como sempre demonstrou ser manipuladora de informações, propagandas enganosas e sensacionalismo, drogas, lascividades, induzindo ao sexo, gravidez precoce e a violência, corrompendo a juventude e com reportagens tendenciosas procurando influenciar a opinião publica. Programas de TV com conteúdo sexual podem contribuir com a gravidez na adolescência, concluiu estudo feito pela organização de pesquisa americana Rand, divulgado no início da semana(nov/08). A pesquisa levou três anos para ser feita, e é a primeira a relacionar programas televisivos com conteúdo picante a comportamento sexual arriscado entre os jovens.Politico e midia tratam o cidadão como gado, favorecidos por uma deficiente educação de qualidade. Notou-se o oportunismo por parte de alguns politicos ao sairem ao lado dos eleitos, como se o povo desconhecesse suas frageis credibilidades.A midia procurou direcionar de que o apoio de certos politicos ajudou o eleito, ignorando se assim fosse Marta teria sido eleita prefeita em são paulo.
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Leneide Duarte-Plon, de Paris

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