ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 518 - 9/2/2010
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MUNTAZER AL-ZAIDI
O jornalista do ano

Por Mário Bentes em 29/12/2008

O julgamento de Muntazer al-Zaidi – o jornalista iraquiano que atirou seus dois sapatos contra George W. Bush e ainda o chamou de "cachorro", durante visita do presidente estadunidense ao Iraque – está marcado para quarta-feira (31/12), mas se depender do bom-senso e do sentimento de milhares de pessoas ao redor do mundo, o veredicto já está decidido: al-Zaidi não apenas é inocente, como também pode ser considerado um herói.

Muntazer é inocente porque um simples par de sapatos lançados contra alguém jamais faria o mesmo o que fizeram as tropas estadunidenses e as forças de coalizão em quase seis anos de ocupação: matar, até o dia 11 dezembro, quase 100 mil civis iraquianos inocentes, segundo o site Iraq Body Count ("Contagem de corpos no Iraque", em português).

Da mesma forma, al-Zaidi pode ser considerado um herói por ter realizado o sonho de muitas pessoas ao redor do mundo: executar um protesto veemente e de grande repercussão contra um pseudo-líder, um mentiroso de carta maior, um fanfarrão que nada via além de petróleo e de uma vingança particular contra Saddam Hussein, que anos antes humilhara Bush pai perante o mundo.

Críticas ao militarismo

Mas é claro que nem todos, sobretudo muitos profissionais de imprensa, pensam assim. Muntazer al-Zaidi, que trabalhava para a emissora Al-Baghdadia, fez o que, na teoria, seria um "crime" para qualquer jornalista: virar a notícia. Por outro lado, al-Zaidi fez o que muitos auto-intitulados "jornalistas" há muito deixaram de fazer: traduzir, explicar, fazer entender a notícia. Ou seja, o que está por trás dela.

Mas enquanto a maioria dos jornalistas "sérios" perdem tempo com o óbvio, com o discurso das fontes oficiais, com as coletivas de imprensa formais e de perguntas e respostas de "cartas marcadas", al-Zaidi fez o jornalisticamente mais acertado: ele correspondeu aos anseios de seus leitores imediatos, os árabes, usando apenas uma linguagem editorial "alternativa". Não foi à toa que tão logo o jornalista passou a ser visto como herói local.

Mas a atitude de Muntazer foi muito além do que ele próprio deveria imaginar e deu o tom "prático" a muitos discursos anteriores. Personalidades conhecidas mundialmente, como o ator George Clooney – filho do jornalista e político democrata Nick Clooney – e o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, já deixaram evidente sua antipatia e até sua raiva declarada publicamente contra Bush, mas nada disso chamou a atenção do mundo em tamanha proporção como al-Zaidi.

Diversos grupos musicais, entre eles o Rage Against the Machine (RATM) e o System of a Down (S.O.A.D.), despejaram letras e mais letras na cabeça dos jovens do mundo com críticas severas contra o militarismo dos EUA, contra Bush e a Guerra no Iraque. Músicas como Killing in the Name ("Matando em nome de", em português), do RATM, e B.Y.O.B., ou, mais detalhadamente, Bring Your Own Bombs ("Tragam Suas Próprias Bombas", em português), do S.O.A.D., tiveram repercussão, mas nada comparado aos sapatos de Muntazer.

Escrevendo a História

Portanto, aos jornalistas-inquisidores de plantão, que já condenaram de antemão o profissional iraquiano pelo crime de "antiprofissionalismo", fica a sugestão: esqueçam os manuais "politicamente corretos" das academias e das chamadas "grandes" redações, e pensem no conceito filosofal e social de jornalismo, levando em conta a situação de cada povo ou país.

Quem sabe assim, muitos de vocês deixem de ter o jornalismo como uma mera forma de entrar gratuitamente em festas e shows mostrando o crachá de imprensa, para assumir uma postura mais compromissada com a realidade à sua volta, repleta de fome e miséria, e, quem sabe, ajudar a escrever (ou reescrever) a História. Para o Iraque, Muntazer al-Zaidi já deu o primeiro grande passo.

Comentários (3)
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Rodrigo  Oliveira Fonseca , Porto Alegre-RS - educador
Enviado em 3/3/2009 às 01:15:55
E aos que perguntarem se isso é jornalismo, perguntemos: e isso é mundo? Muntazer al-Zaidi com seu gesto prova que ainda não fracassamos enquanto gente.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 29/12/2008 às 20:38:16
Se eu visse meu país invadido, ocupado, dividido e massacrado como está o Iraque de hoje, eu seria um herói se me expusesse da forma que Zaidi se expôs, principalmente porque foi contra o líder da nação invasora e por acaso, a mais poderosa do mundo. Não concebo ficar passivo se visse o Brasil em tal situação. Uma sapatada para vingar mais de 200.00 mortos ? Ficou muito barato. E foi um grande recado do cidadão (não o jornalista) Zaidi para o povo iraquiano, mostrando que podem reagir. Bush pode dormir tranquilo - as obras sanguinárias dos governantes americanos costumam, desde do massacre dos Sioux, a a ficar sem castigo. Uma quase sapatada é tudo que ele vai pagar pelo Iraque.
Filipe Fonseca , Niterói-RJ - Funcionário Público
Enviado em 29/12/2008 às 13:47:59
"Muntazer é inocente porque um simples par de sapatos lançados contra alguém jamais faria o mesmo o que fizeram as tropas estadunidenses e as forças de coalizão em quase seis anos de ocupação: matar, até o dia 11 dezembro, quase 100 mil civis iraquianos inocentes..." Isso não faz nenhum sentido. Objetivamente, o que o estudante Mário Bentes afirma é que o "jornalista" iraquiano seria inocente mesmo se matasse Bush, ou se assassinasse 90.000 civis americanos. É a vulgaridade elevada a medida máxima de moralidade. Eis o que Julien Benda chamava a traição dos intelectuais, particularmente quando o Sr. Bentes evoca a filosofia "levando em conta a situação de cada povo ou país", exatamente como faziam os apologistas do Estado autoritário que sustentaram o fascismo, o nacional-socialismo e o comunismo. Temos sorte que o Sr. Bentes tenha escolhido a carreira de jornalista e não a de magistrado.
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