ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 526 - 23/2/2009
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REDE GLOBO
A nudez da Globeleza

Por Ivanir Yazbeck em 23/2/2009

Uma propaganda eficiente, que vende o Brasil como um paraíso do turismo sexual, foi criada pela Rede Globo e se repete há anos no período do carnaval.

A campanha foi batizada com o nome de Globeleza e seu autor chama-se Hans Donner, austríaco, designer responsável pelo padrão visual da emissora desde 1975, quando criou o lendário logotipo do globo terrestre reduzido à dimensão de uma tela de TV. Foi o seu primeiro trabalho para a Globo e não parou mais.

Trecho extraído de sua biografia:

"A criatividade inovadora de Hans gerava as mais incríveis animações, estabelecendo os padrões de todas as produções modernas da televisão. O toque mágico de suas idéias tornou-o popularíssimo, um fenômeno de audiência – nacional e internacional. Revistas gráficas do mundo inteiro editavam seus projetos e incentivavam os designers da televisão européia e norte-americana a seguirem o exemplo da Globo. Ele logo se transformou em `Hans Donner, o homem que todas as emissoras de TV desejam contratar´."

Mais à frente, conta-se que ele se deslumbrou por uma sambista, uma mulata escultural, Valéria Valenssa, de 18 anos, em 1989, ao vê-la desfilar no concurso para eleger a "Garota de Ipanema". Os dois se tornaram namorados e oficializaram o casamento em 2003.

Poder de imposição de valores

Chamado a criar uma vinheta para o carnaval, em 1992, Hans Donner despiu a namorada, pintou seu corpo com tintas brilhantes para disfarçar a nudez total, a pôs a dar uns passos de samba, e apresentou o trabalho ao todo-poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. "Genial!", reagiu Boni, com a concordância de todo o estado-maior da Globo, entre eles o rei-de-todos, o então quase nonagenário Roberto Marinho.

Por esta época, as imagens da Globo eram limitadas ao território nacional e serviam apenas ao consumo interno. (As transmissões internacionais, via satélite, como hoje, ainda estavam engatinhando.) Bem, nudez no carnaval já era, digamos assim, uma ocorrência natural, incentivada e estimulada pela cobertura dos desfiles das escolas de samba pelas emissoras de TV – Manchete, Bandeirantes e Globo. Havia entre elas um torneio em surdina para destacar a mais ousada na transmissão das cenas de nudez. E era difícil escolher a melhor... ou pior – dependendo do ponto de vista.

Assim, ano após ano, a tal Globeleza foi adquirindo status de ícone da temporada carnavalesca da Globo, ganhou notoriedade nacional e tornou-se símbolo do próprio carnaval brasileiro, pelo poder da emissora na imposição de seus valores estéticos e morais ao comportamento dos telespectadores em geral.

Turismo sexual e prostituição infantil

Eis a melhor prova disso: a vinheta musical que marca os passos da Globeleza no anúncio institucional – "Na tela da TV, no meio deste povo, a gente vai se ver na Globo..." – passou a ser cantada nos bailes e desfiles de blocos, assim como as clássicas marchinhas e sambas nos antigos carnavais.

Ocorre que desde que as imagens da Globo passaram a ser vistas no mundo inteiro, via Globosat, a partir do final da segunda metade dos anos 90, quando a emissora já assumira a exclusividade da cobertura dos desfiles na Sapucaí, a mulata pelada passou a freqüentar também a casa dos europeus, norte e sul-americanos, asiáticos, árabes, israelenses, africanos, canadenses, caribenhos, australianos, neozelandeses e até esquimós.

Dá para se imaginar a reação deles, os gringos – do alegre espanto ao chocante estupor – diante da mensagem subliminar que a tal Globeleza lhes transmite: no carnaval do Brasil, todas as jovens sambam nuas, alegremente, nas ruas e nos salões, durante os dias de folia.

Dessa forma, a Rede Globo, ao exibir a "obra de arte" do mestre Donner ao mundo inteiro, indiscriminadamente, joga por terra o esforço que o governo federal vem fazendo para acabar com o turismo sexual no Brasil, a exploração da prostituição infantil e desfazer um pouco a imagem de um país em que o sexo predomina sobre todas as preocupações sociais.

Mais seriedade e cuidado

Para este ano, assim como nos anteriores, o mal já está feito. A Globeleza está no ar – chama-se Aline Aniceto, é também mulata, com as mesmas medidas da original, que abdicou do papel ao se tornar mãe. Em uma ou outra, a verdade é que a cada ano, o mago Hans Donner economiza mais nas tintas, tornando cada vez mais visível a nudez desavergonhada, para ser exibida na telinha a qualquer hora, onde quer que seja, sem qualquer pudor – arrisco a palavrinha meio em desuso.

Quem sabe para o ano que vem a tal Globeleza venha com um pouco menos de "arte" e mais imaginação de seu criador, para transmitir a alegria do carnaval brasileiro através de outros recursos artísticos, com menos apelação e, digamos, menos sacanagem explícita. Genialidade, todos concordam, é o que não lhe falta. Basta que os irmãos Marinho, Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto, sucessores do império global, lhe encomendem a tarefa.

Afinal, eles hão de convir que deva haver mais seriedade e cuidado ao divulgar no exterior um símbolo nacional, que a própria Rede Globo lançou, sem criar constrangimentos aos que se esforçam em fazer o nosso país ser mais respeitado lá fora.

Comentários (12)
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Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 2/3/2009 às 10:46:34
Bem, eu pego a TV DIÁRIO na parabólica sem problemas, se bem que para os amantes do moralismo e da xenofobia, a TV DIÁRIO não seja muito edificante. Sem dúvida aquelas dançarinas cearenses em suas sumárias fantasias de felinas devem ser um convite ao turismo sexual em Fortaleza. Ah, nada como a Canção Nova...
emerson montenegro , Petrolina-PE - advogado e pedagogo
Enviado em 1/3/2009 às 21:23:50
Acerca das ações da Globo, além de fatos com esse, em que contribui para uma distorção da imagem do país la fora, informo aos demais internautas que um canal de TV, que era transmitido para todo o país em canal aberto via parabólica, foi retirado do ar por força da rede globo porque a mesma estava perdendo espaço junto ao público nordestino. Esse canal é a TV DIÁRIO de Fortaleza, que antes de se discutir a quaidade da sua programação, há que se defender a liberdade de imprensa.
Boris Capone , Rio-RJ - Engenheiro
Enviado em 28/2/2009 às 21:33:26
Artigo moralista e desnecessário. Existem coisas muito mais importantes a se preocupar a respeito da mídia no Brasil que gringos vendo uma mulher pelada no carnaval. Francamente.
Lyana  de Miranda , Florianópolis-SC - Publicitária
Enviado em 28/2/2009 às 15:19:36
A Globeleza ou qualquer outra forma de expressão, vinculando o país à nudez e sexo, contribuiu, e muito, para a imagem de que as mulheres brasileiras são "fáceis" (pra não dizer outra coisa). As brasileiras passam por poucas e boas no exterior, e isso é, certamente, influência dessa mídia sensacionalista e sem limites que temos no Brasil.
Pedro Tomaz , São Paulo-SP - jornalista em formação
Enviado em 28/2/2009 às 14:49:56
É verdade que a rede Globo tem desmoralizado a sociedade brasileira e os seu bons costumes. Isso pode ser visto no Carnaval, nas novelas, nos filmes e até mesmo no jornalismo que é produzido por tal emissora. Embora seja a maior responsável por vulgarizar a imagem do país e promover a prostituição em série, não é a única militante da pornografia. Outros canais de televisão, rádio, internet, jornais e revistas fecham a cadeia do sexo desgovernado. Só essas mentes fantasiosas acham que é doce o veneno do escorpião. O melhor nessas horas talvez seja relaxar e... o resto todos sabem. Depois a gente esquece todos os transtornos, é o que pensam.
Cecília  de Queiroz , Fortaleza-CE - Estudante de Jornalismo
Enviado em 28/2/2009 às 11:03:38
É incrível mesmo como a Globo é apelativa, aliás, não só ela...Os brasileiros acham o máximo serem reconhecidos como país do carnaval, pura falta do que fazer, o Brasil deveria mesmo era lutar para ser reconhecido como um país de educação excelente para todos, que aí sim, conquistaríamo todo o resto. Mas se quando ligamos a TV, temos que nos deparar com essas apelações de nudez, com a banalidade feminina, como as crianças vão ter uma boa base de vida, resta a nós, pais, o trabalho dobrado de educarmos nossos filhos. Excelente texto Ivanir !
carlos alberto soares , rio de janeiro-RJ - economista
Enviado em 27/2/2009 às 21:00:03
moralismo ,puritanismo [ ],fora de contexto na linha manifesto contra nudez do ator e padre pedro cardoso .
Maria Catarina Lima , recife-PE - Administradora
Enviado em 27/2/2009 às 11:38:11
Mas gente, na GLOBO tudo pode, lembram?! Jamais a GLOBO faria um negócio desses, a GLOBO é muito inocente com suas novelas, malhações, globelezas, BBBs e por aí vai, ela mesmo , a GLOBO, diz isso é o que as pessoas querem ver essa tal "realidade"! quem aguenta isso e acredtida nisso, hem!?
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 27/2/2009 às 10:01:42
O artigo é uma mistura de moralismo vitoriano com nacionalismo tolo. Hans Doner é austríaco? E daí? Os alemães vão pensar mal de nós! Caramba! Bobagem de digna da TFP.
Ricardo Oliveira , Campinas-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 25/2/2009 às 22:17:08
Depois, quando os alemães troca de roupa no saguão do aeroporto de Salvador, a polícia quer prender os caras.... Eles acharam que aqui era como as imagens que viam pela Rede Globo. Eles viram as chamadas de carnaval e pensaram que era tudo sacanagem por aqui. Viva o Carnaval e a Globo !!!!
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 25/2/2009 às 10:48:07
Existe uma linha fina entre moralidade e moralismo, que deve ser esmiuiçada para se evitar academicismos e leviandades. Desde tempos remotos o Carnaval serve para extravasar pudores reprimidos. Se nos tempos de entrudos e corsos, de grandes sociedades carnavalescas e de bailes comportados se pensava suposta e ingenuamente na dança, na música e nas "guerras" de água e farinha, vale lembrar que a festa maior do povo brasileiro é derivada das festividades sensuais greco-romanas, depois associadas aos povos celtas, onde o que menos importava era a Moral. E o passar dos tempos expôs aqui o que é possível revelar na cultura do momento, deixando para a próxima fase o que ainda se revelará. Portanto, imaginar pudismos nesta festa é exagerado, na medida em que a permissividade é inerente ao próprio evento. Já vi mulheres e homens recatados em qualquer outro momento de suas vidas se exporem libertinadamente lascivos e nada impolutos num baile de Carnaval. A sociedade, contudo, com seus padrões éticos é quem deve permitir ou liberar aquilo que agora pode e antes não podia, sem hipocrisias. Em tempo: eu, particularmente, não gosto de Carnaval.
Ricardo  Pereira , Campinas-SP - quimico
Enviado em 24/2/2009 às 17:29:34
Quando a Globeleza apareceu pela primeira vez, eu passava distraido pelo canal e parei estupefato. Criado no interior mineiro, por pais bem conservadores, jamais tinha visto uma imagem tão impactante de nudez explorada comercialmente de forma explicita. E com um sambinha maneiro dando o molho. Considerando que a exploraçao feminina ja era denunciada na epoca e que algumas amigas se sentiam ofendidas com o "mostruario de genitalia desnuda" exibido em horario livre, fiquei imaginando que haveria protesto e tal exibiçao seria efemera. Mas a necessidade de manter os machos ligados na programaçao falou mais alto. E hoje, aproveitando este fato, um politico italiano nos insulta dizendo que nao somos famosos pelos nossos juizes, mas por nossas bailarinas. Aplausos para a rede Gloebels: a mentira mostrada repetidamente tornou-se a "verdade".
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