ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 527 - 3/3/2009
  Imprensa em Questão
Início > Índice Geral > Imprensa em Questão + A | - A
 
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]

RACIONAL & EMOCIONAL
A mídia não gosta da verdade

Por Ivo Lucchesi em 3/3/2009

Inicialmente, cabe relembrar que mídia e jornalismo são e não são a mesma coisa. Para qualquer iniciante em conceitos a respeito do campo da comunicação, a afirmação não causa problema algum. O problema real está no fato de que, progressivamente, a atividade jornalística vem sendo contaminada (ou usurpada) pelo (d)efeito da voracidade simplificadora e deformadora de uma estética midiática. Esta é parceira fiel e submissa da exploração sensorial.

Enquanto o jornalismo procura o equilíbrio entre fatos e verdade, a mídia explora as relações entre fatos e sensações. A conclusão, portanto, é simples: quando o jornalismo perde território para a invasão do esquema midiático, o que fica debilitado é a nobre missão de perseguir a verdade das coisas do mundo. No tocante à realidade brasileira, vejo-me obrigado a constatar que, cada vez mais, há uma codificação voltada para apelos de caráter emocional, em detrimento de codificação direcionada ao racional. Em poucos dias, pelo menos, dois fatos chamaram atenção para o tema do presente artigo.

Caso 1

De antemão, devo declarar que, desde as primeiras horas da campanha presidencial, minha opção era (e continua sendo) pelo nome do senador Barack Obama, sobre quem, neste Observatório, publiquei um artigo, no limiar da campanha (ver "Obama, uma vanguarda estética"). Feito o registro, vamos em frente.

Primeiramente, houve, em vários telejornais, a notícia de que o presidente Obama decretara o fim da "guerra no Iraque" em 31/08 do ano seguinte (2010). Em menos de 24 horas, os jornais afirmavam que o novo governo do presidente Obama decidira encerrar a "guerra" (entenda-se: invasão) na data de 31/08/2011. Bem, não vem ao caso se telejornais ou jornais se equivocaram em relação à informação da fonte. O que, efetivamente, sob o aspecto jornalístico, interessaria é o dado surpreendente de um governo que fixa uma data para decretar o fim de uma "guerra". O mesmo fato, numa época na qual o jornalismo não tivesse sido capturado (ou capitulado) pela "armadilha midiática", no mínimo abriria espaço para o jornalista indagar a uma autoridade governamental acerca da fixação de uma data. Por que em 31/08/11? Não poderia ser em 20/08/11 (ou qualquer outro dia)?

Fico a imaginar, numa outra configuração de mundo, uma autoridade governamental comunicar que a Segunda Guerra Mundial terminará em... Será que nenhum jornalista teve a curiosidade de tentar saber a razão a envolver uma data? Será que o prazo firmado pelo atual governo dos EUA tem a ver com a política de esgotamento extrativo de petróleo, razão maior que fez o governo anterior determinar a invasão? Não sei. Os jornais é que deveriam promover a indagação. Todavia, nada a respeito foi divulgado. Quem dança é a verdade.

Caso 2

No programa Fantástico, exibido no domingo (1/3) pela TV Globo, após a "dramática" cobertura sobre turistas brasileiros que "viveram o inferno" num transatlântico – vale registrar que nenhum deles correu o menor risco de complicações –, o tema seguinte foi sobre uma "lenda" a respeito do "fim do mundo em 21/12/12". Nesse caso, a "equipe jornalística" do Fantástico superou a ineficiência de todos que noticiaram a decisão do governo norte-americano quanto ao "término da guerra" no Iraque.

Vamos ao fato. A "equipe do Fantástico" descobriu que, na internet, há dezenas de sites sobre o fim do mundo, com base numa profecia firmada pelos Maias, cuja data seria a já mencionada. Com base nessa "pesquisa", a reportagem do Fantástico saiu, em externas, para indagar se, na data prevista, um tal asteróide (não recordo o nome dado) colidiria com a Terra, levando-a à extinção de qualquer vida. Realmente, a matéria foi digna do nome do programa.

Além de a "equipe jornalística" entrevistar populares, também houve depoimento de astrofísico. A pergunta queria confirmar (ou não) se, na data estabelecida, um certo asteróide iria (ou não) colidir com o nosso planeta. Diante de uma questão precisa, o astrofísico negou tal possibilidade, em função dos recursos científicos de que a humanidade dispõe. Como conclusão, a "douta" equipe "jornalística" do Fantástico considerou que tal profecia é "coisa de maluco".

Opção pelo caminho mais idiota

A sentença do Fantástico simplesmente acabou de recomendar à equipe de pesquisa jornalística da BBC a passar uma temporada em algum manicômio. A questão é simples. Há algum tempo, o Discovery Channel, alocado na Globosat (para quem tem a NET), reprisa o documentário a respeito do acontecimento. Segundo o documentário da rede mais respeitada no mundo sobre tal gênero, os cálculos da cultura dos Maias davam conta de que, de 26 em 26 mil anos, a Terra sofreria mutações profundas. Muito tempo passou e a ciência astrofísica constatou que o fato é matematicamente real. Todavia, qual é o fato prenunciado pelo calendário Maia e ratificado por renomados astrofísicos?

Em 21/12/2012, o sol migrará para o centro da Via Láctea, levando consigo o sistema solar no qual estamos. Em nenhum momento do documentário é nomeado qualquer asteróide que com a Terra irá colidir. O que, verdadeiramente, é dito, e por todos os depoentes confirmado, é o fato de que o sistema solar ocupará uma vasta área chamada de "cinturão de asteróides" (uma espécie de "lixão cósmico").

O fato, portanto, aumentará expressivamente a possibilidade de colisões com corpos do sistema solar. Este é o acontecimento. No mesmo documentário da BBC é dito que, em face da existência dos planetas Júpiter e Saturno (ambos muito maiores), a Terra se torna um alvo bem mais protegido, o que reduz enormemente a possibilidade de colisão. Por outro lado, o mesmo documentário não descarta o fato de que, dependendo do efeito de colisões atraídas pelos dois gigantescos planetas (Júpiter e Saturno), a Terra não possa vir a sofrer alterações.

Enfim, este é o relato de conceituados astrofísicos que emprestaram sua reputação profissional a repórteres não menos qualificados para a realização do documentário que traz a assinatura da mais reconhecida rede de televisão mundial, em matéria de "teledocumentário". Contudo, a "equipe do Fantástico" optou pelo caminho mais tacanho e idiota. Que pobreza!

Comentários (11)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas – e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Fabiana  Catão , Rio de Janeiro-RJ - Estudante de Publicidade
Enviado em 13/3/2009 às 10:39:49
E isso não é de hoje. Se bem me recordo, o Fantástico foi um dos programas que mais divulgou e tentou confirmar a qualquer custo a profecia de Nostradamus, de que o Apocalipse aconteceria no ano 2000. Para completar apelativamente o pacote "baboseira", veio a Xuxa e lançou uma música citando o tal profeta. Outros terrores psicológicos da série "asteróides" também vieram a ser enfatizados até pelo Jornal Nacional. E o mundo não acabou até hoje. Não é fantástico??
Ivo Lucchesi , RJ-RJ - Professor Universitário
Enviado em 7/3/2009 às 20:12:29
Obrigado, Ricardo (tão bom leitor quanto exímio articulista). Seu comentário preencheu, com sobra, a paciência que me faltou para rebater seu conterrâneo. Bastaria citar o legado arquitetônico deixados pelas culturas Maia e Azteca, a despeito do quanto as ferozes expedições invasoras dos espanhóis destruíram. Igualmente, sou parceiro do comentário de Marcelo Conti. Reiterado agradecimento.
Marcelo Conti , São Paulo-SP - Bibliotecário
Enviado em 7/3/2009 às 12:35:51
Infelizmente temos muitos jornali$ta$ empenhados em escrever o que patrões e empresários assim determinam...
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 7/3/2009 às 11:59:17
Auspicioso retorno do Prof. Ivo Lucchesi, que tem no signatário um leitor cativo, a este espaço. Por outra banda, só para que se registre um dado que o ilustre co-estaduano talvez ignore: os maias, embora "ameríndios" (como o eram culturas tão díspares como os apaches e os guaicurus, os kaingangues e os aztecas, os sioux e os quichuas), tinham sistema numérico, sim, e foi exatamente por isto que tinham um calendário tão sofisticado que lhes permitia aproveitar para agricultura um meio ambiente hostil, onde o que não era selva era deserto, e puderam erigir cidades como Copan, Tikal, Palenque, Uxmal, Chichen Itza e tantas outras que tive oportunidade de visitar há mais de dez anos. Todas elas pré-hispânicas. E, à época em que foram erigidas, a astronomia e a astrologia se confundiam não só na América como na Europa.
Ivo Lucchesi , RJ-RJ - Professor Universitário
Enviado em 6/3/2009 às 21:58:44
Agradecido pelos comentários que primam pelo tom sério. Ignoro, portanto, o preconceituoso comentário do leitor que, abaixo, se apresenta com a hilariante identidade de"Remindo Sauim, a feliz Canoas do PT-RS". Com tal "nome", fico sem saber se estou lidando com alguém do mesmo planeta. De repente, pode ser um "leitor alienígena".
Remindo Sauim , A feliz Canoas do PT-RS - Aposentado
Enviado em 5/3/2009 às 22:12:27
Me desculpe, Ivo. mas o Discovery só pode ser levado a sério pelas viúvas inglesas. O seu enfoque é o entretenimento, o mesmo do Fantástico. Adoro disco-voador, profecias e cataclismas cósmicos, mas só no cinema e na TV. Ciência não tem vez na telinha e nem na telona, mas pelo menos o Fantástico foi mais inteligente. Como é que um povo que não tinha um sistema numérico ia fazer uma profecia astronômica. Os ameríndios eram astrólogos e não astrônomos. Brasil 1 x Inglaterra 0. Abraços
Bryan Clem , Rio d Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 5/3/2009 às 20:05:06
Concordo plenamnte à respeito da noticia publicada em relaçao a decisao de terminar uma guerra, essa é de espantar qualquer um mesmo, uma data para acabar uma tal guerra.Em relaçao ao fantastico eles sempre fazem isso toda reportagem se voce ler direitinho o que eles estao amostrando pode perceber que sempre tem a ver com a proxima ou a anterior, usando para ridicularizar,provocar ou ironizar os fatos .
calypso thereza escobar velloso , rio de janeiro-RJ - poeta
Enviado em 3/3/2009 às 18:54:22
quanto a GLOBO,há milenios valia reconhecimento...BBB9,Fantático,Novelas,jornal nacional,nada ,mas nada mais presta como ,cultura,são relatórios com tesoura na mão....grata calypso escobar
calypso thereza escobar , rio de janeiro-RJ - poeta
Enviado em 3/3/2009 às 18:46:30
sem dúvida que fóra de nosso país tais (ditos )seriam piadas,concordo.A meu ver sem lapsos mentais,títulos registrados,esta estoria é àqueles que se colocam em pedestais e incansáveis deglutem fantasias na mais negra obscuridade,não assustando,mas fazendo o mexido do sonho da imortalidade ou coisa parecida...nem falo dos cultuados,porem dos místificantes que um dia leu e registrou como o drama quixotesco...entra na realidade que não é fácil,vamos nos alegrar com a mudança de dita branca,grata calypso escobar...que os jornais impressos aceitem a segunda infância...
Luciano Pinheiro , Macapá-AP - Funcionário Público
Enviado em 3/3/2009 às 12:56:55
Não assisti à reportagem nem ao documentário, mas vejo uma incorreção em seu texto. "Em 21/12/2012, o sol migrará para o centro da Via Láctea, levando consigo o sistema solar no qual estamos." O sol está a 8 kpc [1] de distância do centro da galáxia [2]. Só a luz emitida hoje chegará daqui a 26 mil anos. Se o sol viajasse à velocidade da luz (o que não ocorre) E estivesse indo para lá, não haveria mais planetas nem sol, porque lá "mora" um buraco negro super massivo [3]. [1] http://www.on.br/glossario/alfabeto/u/unidades_de_medida.html#parsec [2] http://www.astronomy.ohio-state.edu/~pogge/Ast162/Unit4/milkyway.html [3] http://www.observatorio.ufmg.br/pas19.htm
Romullo Assis , Rio de Janeiro-RJ - Estagiário de assessoria de imprensa
Enviado em 3/3/2009 às 12:30:10
Realmente, o Fantástico cada vez mais faz juz ao seu nome... E o engraçado é que boa parte da população se deixa levar por pautas fracas e mau apuradas... Vejo uma massificação da população, que a meu ver, deveria ter um olhar muito mais crítico. Agora pergunto: será que tal matéria teria um impacto na Europa? Creio que por lá, ela seria motivo de piadas...
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Ivo Lucchesi

Outros artigos desta Seção
MUDANÇAS NA FOLHA
A reforma (prevista)
já começou

Alberto Dines
3/3/2009
REVISTAS SEMANAIS
O otimismo de Veja
Luciano Martins Costa
3/3/2009
DEMISSÕES NA EMBRAER
Censura privada
em céu nebuloso

Júlio Ottoboni
3/3/2009
RACIONAL & EMOCIONAL
A mídia não
gosta da verdade

Ivo Lucchesi
3/3/2009
JORNALISMO EM CRISE
O modelo em
uso se esgotou?

Washington Araújo
3/3/2009
IMPRENSA PARAENSE
Contorcionismos
de um anacronismo

Lúcio Flávio Pinto
3/3/2009
MÍDIA ESPANHOLA
Um pedido de
ajuda ao governo

Rosario G. Gómez
3/3/2009
JORNALISMO POLÍTICO
O arrastão anunciado
Luciano Martins Costa
5/3/2009
QUADRO DA CRISE
O que não está nos jornais
Luciano Martins Costa
6/3/2009
ECOS DA “DITABRANDA”
Folha admite que errou
FSP
8/3/2009
Retratação da Folha, silêncio da imprensa
Alberto Dines
9/3/2009
LEITURAS DE VEJA
O país dos bisbilhoteiros
Luciano Martins Costa
9/3/2009

Últimos 5 artigos de
Ivo Lucchesi
COPA DO MUNDO
E o vento levou...
13/7/2010
COPA DO MUNDO
A face real da paranóia
6/7/2010
COPA DO MUNDO
A paranóia fake continua
29/6/2010
JORNALISMO & CULTURA
Estética de inspiração e a infantilização
1/6/2010
MÍDIA & TECNOLOGIA
Esquecimento é uma virtude?
4/5/2010
Mais artigos de
Ivo Lucchesi >>