ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 528 - 10/3/2009
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MÍDIA & POLÍTICA
Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser

Por Ana Helena Ribeiro Tavares em 10/3/2009

Acordo e abro os jornais ainda a meio olho. De repente, o céu se queda escuro sobre meu único olho aberto e me dá uma vontade incontrolável de voltar ao travesseiro em busca de uma época mais minha.

Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Ben Bradlee para proteger rascunhos num bloquinho e ajudar a derrubar o presidente que eu nunca quis ser. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma o microfone. Quero ser Fausto Wolff, Barbosa Lima, tanta gente, mas, antes, preciso me construir...

Abro o outro olho, pego novamente o jornal e, como que de longe, pareço ouvir citarem Millôr: "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados." Adoram isso, como é cômodo… Logo depois cospem ao mundo previsões catastróficas achando que isso é oferecer algo de útil para a construção da sociedade. Por que não fazer antes uma oposição a si mesmo? Qual a bandeira de quem faz sempre oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira... É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio.

O trágico vende

Com os olhos ainda relutantes, o que vejo? O cifrão é o guru que liberta. A expressão "atrás das grades" virou chacota. O prender e o soltar se tornam, de forma cada vez mais visível, lados do ioiô que serve ao sórdido jogo político.

Um jogo regado a muito champanhe – fajuto – daqueles para fazer vista... E uma boa dose de microfones e bloquinhos comprados a 1,99 (porque senão quebra a empresa) e vendidos a preço de ouro.

O mesmo jogo para o qual não interessa um presidente como o nosso. Bem que muitos deles queriam ser ele – o admiram – mas, afinal, precisam garantir o sustento. Emprego fixo está difícil, ainda mais para jornalista.

Quem sabe na cobertura de guerra? Mas antes é preciso ver qual lado dá mais... Ou seria qual lado vai explodir primeiro? Que tipo de torcida midiática é essa que em busca de inflar os próprios egos não vê a hora de um verdadeiro apocalipse para dizer: "Nós avisamos!"?

É triste, mas a lei é da oferta e procura. Se o trágico é tão oferecido é porque vende. E muito. Em toda a história da humanidade, uma casa em ruínas sempre parou mais olhares do que um campo de girassóis.

A mania de seguir os instintos

O problema todo está em como se oferece o trágico. Para uma cobertura jornalística bem-intencionada, pode ter havido, digamos, uma explosão no botijão de gás da casa e os proprietários, gente humilde, já estão se reestruturando na casa de parentes. Para outro jornalista, pode ter havido um curto circuito na rede elétrica e os proprietários, gente humilde, estão desabrigados sem a devida assistência do governo.

Não é difícil um suicídio se tornar assassinato nas mãos de um editor. Como é fácil jogar números soltos pelas colunas de economia e dizer que aquilo aponta o fim do mundo. Que fim? De que mundo?

São tantas as perguntas que me vêm à mente, mais do que perguntas, inquietações. Por que Ben Bradlee seria demitido da Folha? Podem-se imaginar várias razões, mas a maior delas seria, sem dúvida, a feia mania de seguir seus instintos... Para que jornalista vai ter vontades se o mercado já as tem?

Notícias podem ser boas

E Robert Fisk, por que não conseguiria trabalhar para a Globo em coberturas de guerra? Talvez porque um belo dia ele fosse preferir não voltar para a redação...

E Hélio Fernandes, por que não seria preso caso escrevesse algum artigo subversivo? Ah, estamos num país democrático... Diz-se de tudo e ouve-se de tudo.

Só falta se lembrarem de fazer oposição a um velho ditado. Notícias também podem ser boas.

P.S.: Inquietação final: por que este texto dificilmente seria publicado na grande imprensa? Porque, além de ser um tanto desconfortável, não dá lucro fazer oposição a si mesmo...

Comentários (11)
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Gabriella Mendes , Lisboa-IN - Estudante
Enviado em 16/3/2009 às 11:29:49
Parabéns pelo texto, Ana. Cada vez mais só é possível constatar que a mídia jornalística só faz refletir nossa mentalidade deturpada. Queremos que os jornalistas nos digam exatamente o que queremos ouvir: que o governo não nos dá devida assistência, que a situação política do Brasil é vergonhosa, que somos vítimas de um esquema de corrupção de megaproporções que impede qualquer desenvolvimento. Pronto. Estamos satisfetíssimos em perceber que estavamos corretos ao pensar quão trágica é nossa realidade.
Anderson de Souza , Rio de Janeiro-RJ - Estudante
Enviado em 13/3/2009 às 18:10:41
Os meios de comunicação são acima de tudo: Empresas de Comunicação! Qual seria o objetivo principal de uma empresa? Sem dúvida, o LUCRO. Por isso a mídia é tão sensacionalista. O público gosta de sensacionalismo, tragédias, escândalos políticos, "barraco". Isso infelizmente é o que mais vende. Ana gostaria de parabenizá-la por este trabalho, que venham outras publicações como esta. Você com certeza terá um grande destaque na imprensa brasileira. Um grande degrau já foi alcançado, continue assim. Forte Abraço
Gilson Caroni Filho , Rio de Janeiro-RJ - Professor
Enviado em 13/3/2009 às 09:09:23
Parabéns, Ana! A beleza do texto não me surpreende, pois há um ano sou professor-leitor dessa menina. O que gostaria de enfatizar é a fortaleza ética que se deixa ver em cada linha. Não posso esconder a corujice". Nem devo.
damir vrcibradic , rio de janeiro-RJ - juiz
Enviado em 12/3/2009 às 17:43:58
Belo texto. Bem escrito, com conteúdo e até mesmo ironia não gratuita, o que é difícil. Sobretudo uma condenação merecida da chamada grande imprensa, que tem se mostrado com sua verdadeira cara: um instrumento de dominação das forças político-financeiras dominantes.
Paula Cajaty , Rio de Janeiro-RJ - escritora
Enviado em 12/3/2009 às 09:52:27
Parabéns, Ana, pelo lúcido texto. Hoje ainda, tive a notícia de que Montader al-Zaidi, o jornalista que deu a sapatada no Bush, vai pegar 3 anos de prisão. Veja que o ato de Zaidi, posteriormente copiado no mundo inteiro, e que deu o tom da saída do presidente Bush da presidência - com o legado de crise para Barack - serviu para vingar a opressão dos EUA no Iraque e protestar contra a ocupação militar em seu país. Ou, nas palavras dele: "Senti que o sangue dos inocentes corria debaixo dos meus pés quando vi o sorriso de Bush, que veio para se despedir do Iraque (...) após deixar mais de um milhão de mártires, além da destruição econômica e social do país", afirmou o jornalista na ocasião, segundo o relato de seus advogados. Veja que a oposição é importante, sim, ainda que haja custos pessoais, e quando há algo que fala muito fundo à alma, existe algo chamado legitimidade, e então é preciso responder à altura. Zaidi fez o que todo o mundo quis fazer - e o mundo deve render homenagens ao seu ato de coragem, à sua manifestação destemida de repúdio, e ser solidário nesse momento em que ele recebe, sozinho, toda a pena por um ato de todos. Acho que depois disso, Zaidi será um jornalista cada vez melhor. Não dá para ser jornalista sem convicções. Um beijo, Paula
marcia eloy  Eloy Jatahy , Rio de Janeiro-RJ - Advogada aposentada
Enviado em 11/3/2009 às 16:31:22
Parabéns Ana Muito bom seu artigo e muitíssimo atual. Na coluna do Merval Pereira de "O Globo" há duas semanas, eu li que o Lula era un Chacrinha redivivo sacudindo a pança. Este jornalista fez a cobertura das prévias e eleições dos EEUU e jamais se dirigiu nestes termos aos candidatos americanos, nem ao presidente Bush. Mas aqui, ele pode escrever estas palavras chulas sobre o Presidente pois nada acontece. Lá, ele certamente responderia a um processo.
Luiz Claudio  C. Souza , Rio de Janeiro-RJ - Contador
Enviado em 11/3/2009 às 16:03:53
Gostaria antes de mais nada, parabenizar o Alberto Dines que do alto de seus setenta anos nos proporciona um jornalismo como este aqui deste blog, verdadeira aula de cidadania e onde podemos encontrar para alívio da alma, artigos como este da Ana Helena. Eu vi recentemente um programa de entrevistas na TV Camara onde o Helio Fernandes grande jornalista dotado de uma memória ímpar, aconselhava aos jovens, antes de mais nada, fazer oposição, pois esse seria o verdadeiro jornalismo e de outra forma seria melhor que se fosse vender secos e molhados, Aquilo me chamou atenção e fiquei até meio que decepcionado. Bolas, quem faz oposição a todos na verdade não faz oposição a ninguem. Pelo menos é assim que eu penso. Me identifiquei de imediato com este artigo da Ana Helena que de forma tão bonita, desnuda os enormes dilemas e contradições da mídia e dos jornalistas. Ela aborda o problema da notícia enquanto produto de consumo, como esta pode ser manipulada para atender um ou outro interesse e a interferencia e poder do mercado nas redações e ilhas de edição. O Augusto Boal teatrólogo ao denunciar os males do neoliberalismo, há poucos dias, disse que a terceira guerra já havia começado há muito tempo e que a arma deles seria a desinformação. Esta mídia hegemonica que temos aqui no nosso país está aí para provar que tanto ele quanto a Ana Helena estão cobertos de razão.
Eduardo Sander , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 11/3/2009 às 11:47:01
Aninha... tuas palavras são um bálsamo para um espírito cansado de tanta roubalheira e desencanto. Parabéns por ser a nossa "Niemeyer" das palavras!
Tião Martins , Niteroi-RJ - Publicitário
Enviado em 11/3/2009 às 00:55:27
É bom constatar o surgimento de uma jovem jornalista que, com talento e honestidade, lança um olhar muito mais profundo e sensível sobre a mídia do que o fazem certos medalhões da imprensa. A autora está de parabéns!
Ronaldo Alvarenga , São Paulo-SP - Compositor erudito
Enviado em 10/3/2009 às 17:21:37
O texto é precioso. Muito válido e embasado. Tenho certeza que é a aurora de uma escritora/ jornalista que terá muito reconhecimento e muito virá acrescentar as nossas idéias, discussões e debates. Parabéns!
AnaLu Fernandes , Rio de Janeiro-RJ - Pedagoga
Enviado em 10/3/2009 às 15:14:11
Ao ler essa crônica, lembrei de ontem à noite, quando em resposta a um amigo(poeta que como eu, publica seus pensamentos, utopias etc. no site Overmundo), falei sobre escolhas, ficar x fugir, escrever x calar, persisitir x desistir. A vida é feita de escolhas, existem aqueles que escolhem o lado mais fácil(falando-se em jornalismo), aceitar uma boa colocação em um jornal, rádio, tv ou revista, em troca de escrever o que agrada ao patrão e o que o grande povo(que plagiando o "Admirável gado novo" de Zé Ramalho-"Eh, oh, oh, vida de gado, povo marcado he, povo feliz)prefere ler, ver e ouvir. Situação cômoda essa; bom salário, ficar bem com todos e ter um fim de semana tranquilo, em Angra, quem sabe? Mas também existem aqueles que optam pelo caminho mais difícil, porém mais prazeroso. "Ralar", é isso mesmo ralar, em busca de um lugar ao sol, ou quem sabe pelo menos debaixo de um guarda chuva(mais ou menos protegido das tempestades). O que, eu falei protegido? Acho que estou ficando louca! Protegido que nada, exposto, mostrando a cara e a palavra, contestando, fazendo pensar(talvez ele não tenha um lindo fim de semana em Angra, somente em Nova Iguaçu, quem sabe? Mas lá também é legal, tem churrasco na lage), aí eu lembro do Querido e saudoso Luiz Carlos da Vila quando falou do negro(somos todos nós, brasileiros) "Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela".
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Ana Helena Ribeiro Tavares

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