ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 529 - 17/3/2009
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VIOLÊNCIA URBANA
Ruas de presas e de caçadores

Por Muniz Sodré em 17/3/2009

Sem uma pesquisa sistemática sobre o assunto, parece, à primeira vista, que os jornais cariocas são mais prolíficos em notícias de crime do que os paulistas. A explicação mais óbvia diria que a criminalidade é provavelmente maior em uma cidade do que na outra. Seria motivo, então, para que os cariocas se tornassem mais inquietos do que já estão com a alarmante escalada da anomia em seu território.

Em menos de uma semana, invadiram-se duas instalações militares para roubar armas, com êxito absoluto. Os tiroteios são cotidianos nas vias de acesso ao centro urbano e mesmo nesse centro, onde quadrilhas organizam "bondes" para tomar de assalto pedestres e motoristas. Nem mesmo membros das famigeradas "milícias" estão inteiramente a salvo: semana passada, roubou-se a moto de um miliciano encarregado de vigiar uma rua num subúrbio. Ou seja, as quadrilhas vitimizam-se mutuamente, do mesmo modo como costuma acontecer com as batalhas pelo controle de pontos de droga.

Ainda assim, essas ocorrências têm intensidade emocional baixa na mídia quando confrontadas com o episódio, largamente explorado, dos assaltantes que empurraram o casal no despenhadeiro da Avenida Niemeyer depois de tê-los despojado de seus pertences. O caso é semelhante a outro acontecido há menos de um mês na Linha Amarela, quando um dos assaltantes de um idoso e sua acompanhante num automóvel retornou, depois de ter-se apropriado do dinheiro, para assassinar a vítima.

"A morte dos outros dá-nos vida"

A semelhança está na gratuidade do ato, em algo que parece situar-se além da própria violência. De fato, em seu sentido histórico, a violência atende à lógica dos fins, isto é, o abuso da força destina-se a compensar uma falta qualquer ou à apropriação de um bem. É abominável, mas finalística. O excesso violento ou de crueldade carece de finalidade imediatamente visível e (como no terrorismo) fundamenta-se na própria passagem ao ato, desinvestida de motivações compreensíveis.

Pode-se pensar na irreflexão violenta do drogado, mas o que ocorre de fato é a expressão de ódio pelo Outro, impermeável à lógica das causas mais evidentes, recorrente numa ordem social cujo tecido se esgarça de forma cada vez mais convulsiva. Convulsivo ou espasmódico, o excesso da passagem ao ato é também a passagem do Homo Sapiens àquilo que o francês Edgar Morin chama de Homo Demens.

Esse é realmente o campo fértil para quem se dispuser a fazer uma etnografia do medo urbano, senão uma "etologia", entendida como ciência do comportamento animal e humano a partir dos prismas do meio-ambiente natural e cultural. Assim, o etólogo Boris Cyrulnik – que considera a violência uma pulsão humana fundante já que relacionada à sobrevivência da espécie pelo imperativo de obtenção de alimento – vê na vitória sobre a caça uma "intensa sensação de existência para o caçador e a sua coletividade". Mais explicitamente:

"Tudo se passa como se os primeiros caçadores dissessem: a morte dos outros dá-nos vida. Matar passa, então, a ser um acontecimento, talvez fundador de humanidade."

Nem pânico, nem omissão

É muito provável que nas patologias do pertencimento social, regidas pelo sentimento de desvinculação, o sujeito da consciência convulsiva, ou o Demente, obtenha o seu sentimento de existência apenas da morte cruel de um Outro, cuja forma de vida lhe pareça inaceitável. Assim como é muito provável que estejamos vivendo, ainda em pleno bicentenário da reinvenção do Rio de Janeiro pela chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, a reinvenção de uma forma de sociabilidade definida pelo avesso do pertencimento à Cidade Humana. Cada um é objeto virtual de caça pelo outro.

Ainda que os tiroteios nas ruas e os ataques às fontes de armamentos possam parecer eventos isolados e desligados da crueldade crescente nos assaltos, é possível esboçar uma espécie de síntese social provisória, explicativa, mesmo se parcialmente, da inquietação e do medo presentes na consciência da cidadania mais avisada. Não cabe à imprensa instilar a fácil emoção do pânico em seu leitorado, nem omitir-se, para simular o melhor dos mundos possíveis. É hora de análises consistentes com vistas a ações públicas menos pontuais e mais abrangentes.

Comentários (6)
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Genival Ferreira , CUIABA-Mt - Professor de Pre-vestibular
Enviado em 25/5/2009 às 10:54:42
Excelentes ponderaçoes, parte desse texto foi utilizado no Concurso do Ministerio da Fazenda, organizado pela ESAF, na data de 24/05, domingo. Corpo de informes mui instrutivo, fica o alerta: "homem lobo, do/para outo homem (?)"
Felipe Faria , Rio-RJ - estudante
Enviado em 22/3/2009 às 19:42:35
Patologias do pertencimento social....tem CID 10?
reinaldo cabral cabral , maceio-AL - jornslista
Enviado em 21/3/2009 às 20:31:01
sodré:excelente sua abordagem. por ela se conclui o óbvio que a imprensa do rio e sp não alcançaram:é possível, ,sim,contribuir com o combate ao crime e à criminalidade ou à violência de um modo geral com reportagens ou matérias preventivas/propositivas. frequentemente, os depósitos onde a polícia,exército e a justiça guardam armas são arrombados país afora; as fronteiras do brasil continuam abertas para quem quiser passar com o que quiser; inventou-se uma política de desarmamento,mas os bandidos continuam sem nenhuma dificuldade de arranjar armas;15 deputados estaduais de alagoas formaram uma quadrilha e roubaram R$ 300 milhões da assembléia legislativa mas o ministro gilmar mendes,presidente do stf, pôs todos em liberdade, consagrando a impunidade; a contribuição da imprensa ao comabete à violência é fundamental para se acabar com essa caminhada ideológica da propria imprensa de que roubar e matar é bom; e as os valores humanos,da paz,onde ficam? porque essa imprensa não fala deles:amor,liberdade,lealdade, honestidade?
rogerio cardozo , Tubarão-SC - operario
Enviado em 21/3/2009 às 11:35:09
Professor o problema da violencia urbana e que criou-se uma mercado que vive em funçao dele e quem ta ganhando dinheiro não está preocupado com as vitimas.Que tal fazer um acordo com os paises vizinhos para que eles fechem as lojas de armas,proibir a venda e o uso de armas pela população,criar mecanismo de ajuda as populações excluidas,pode-se fazer muita coisa é só procurar soluções e trabalhar serio.
Luis Flávio  Biolchini , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 20/3/2009 às 16:23:17
Lembrei-me dessa passagem do Antonin Artaud: Se falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se lhe falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar nossos atos e nos perdermos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles. (...) Todas as nossas idéias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida. (Antonin Artaud, O teatro e seu duplo, 1984: 17)
Anabela  Paiva , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 19/3/2009 às 11:47:56
Caro Muniz, interessante o seu artigo. A necessidade de uma cobertura que incorpore mais a análise tem sido defendida nos documentos em que relatamos as pesquisas que eu e Silvia Ramos temos feito sobre a imprensa, desde 2004, pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania. Apenas como um acréscimo ao seu comentário inicial, de que a imprensa carioca cobre mais o crime, temos dados sim que comprovam essa sua percepção: numa pesquisa que analisou textos publicados em nove jornais _ três do Rio, três de SP e três de MG_ em 2004, 45% dos textos sobre crime da amostra eram de jornais do Rio. Além disso, o Rio de Janeiro era o assunto de 48% das matérias de todos os nove jornais, enquanto os restantes 52% se dividiam entre São Paulo, Minas e os demais estados brasileiros. Posso lhe enviar o relatório, se desejar, ou vc pode ver esta pesquisa no link http://www.ucamcesec.com.br/pb_bol.php. Abraços e parabéns pelo texto.
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