ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 529 - 17/3/2009
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ECOS DA "DITABRANDA"
A grande mídia e o golpe de 64

Por Venício A. de Lima em 17/3/2009

Reproduzido da Agência Carta Maior, 13/3/2009

No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas, como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.

Referência clássica

A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título 1964: A Conquista do Estado (7ª edição, 2008).

Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros ("o bloco multinacional e associado"): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.

No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública, ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI, sobre "a campanha ideológica", traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (pág. 233):

O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de S.Paulo, o Estado de S.Paulo (...) que também possuía a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).

Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 1960 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século 21. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi "infinitamente mais forte do que Roberto Marinho" e "construiu o maior império de comunicação que este continente já viu".

A visão do USIA

Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph.D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim nº 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968 (à época, editado por Muniz Sodré), sob o título "Função dos meios de comunicação de massas na crise brasileira de 1964".

Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e "recursos de partidos comunistas"). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque "o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais" (pág. 7).

O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da "esquerda" retratadas nos meios de comunicação provocaram um "desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina" que se tornou "psicologicamente insuportável" para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.

O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro – "o centro de comunicações mais importante" –, afirma:

"Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários" (pág. 7).

No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos "revolucionários", de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (brizolista). O mais importante jornal de "propaganda esquerdista" era Última Hora, "porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas". Já "no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã". E continua:

"Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart" (págs. 7-8).

Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:

"Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe" (pág. 8).

Participação ativa

A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.

A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, Jornalistas e Revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa (EDUSP, 2ª. edição 2003).

As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao "mais poderoso conglomerado de comunicações do país" como "aliado e defensor do regime" (Ditadura Escancarada, Companhia das Letras, 2004; pág. 452).

Em defesa da democracia

Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.

O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.

Tudo, é claro, sempre feito "em nome e em defesa da democracia".

Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.

Comentários (7)
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Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 22/3/2009 às 13:23:16
"Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado." Presas ? Elas são o PRÓPRIO passado. Elas que alimentam a fúria e a intolerância daqueles que a apóiam. São como velhas árvores, que ainda ramificam suas raízes e espalham seus frutos pela Nação. Velhas como a política. Velhas como Caim.
Samuel Lima , Joinville-SC - Jornalista e professor universitário
Enviado em 21/3/2009 às 10:37:05
Brilhante artigo, professor Venício. Aos srs. Carlos Kater e Eduardo Silva, recomendo a leitura atenta do excelente texto do jornalista Luciano Martins Costa (OI, edição 10/03/2009 – “A ditabranda dos alienados”). A título de ilustração e contraponto à sandice de instituir um “ditaduromêtro”, quero citar três precisas passagens daquele texto: “A maioria dos que rejeitam a tese da "ditabranda" repete que o grau de violência não pode ser qualificado da forma como propôs o editorial, como um ranking macabro de pontuações pelo número de mortos e desaparecidos ou pelo padrão das torturas impostas pelo regime militar aos seus opositores” – A comparação dos senhores é descabida; o segundo: “Por outro lado, a truculência das ditaduras só se calcula pela violência física? Quem estabeleceu os critérios desse ranking? O departamento de infográficos da Folha?” – pelo tom categórico da afirmação de ambos comentaristas, parece que consultaram algum oráculo ou o DataFolha; por último, o que considero mais extraordinário do texto de Luciano: “Fazer a conta da ditadura pelo número de mortos nas masmorras oficiais é vilipendiar a História. É coisa de alienados”. É possível afirmar que o maior prejuízo que ditadura militar impôs à sociedade foi a sacralização da corrupção, um cancro que domina as profundezas da alma do Estado brasileiro, independente do governo de plantão.
Cesar  Martins , Rio de Janeiro-RJ - informática
Enviado em 20/3/2009 às 16:19:13
""O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de S.Paulo, o Estado de S.Paulo (...) que também possuía a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP)."" Mudou alguma coisa?
Eduardo Silva , São Paulo-SP - Analista
Enviado em 20/3/2009 às 15:48:39
É fato inegável o trauma e a violencia da Ditadura e nada nem ninguém consiguirá apagar essas paginas da história recente do Brasil. Mas é fato que comparado aos regimes de nossos vizinhos, nossa ditadura foi sim a mais branda. Nossa oposição foi inócua e insipente. A revolta do araguia foi a coisa mais burra que os esquerdistas fizeram, deveriam ter trazido a revolta para a cidade, onde o exército era inexperiente em combate. Agora o fato é que isso é tudo passado e se tivermos que remoê-los e transformar os torturadores em criminosos comuns, que se transformem os revolucionários também, para que a justiça seja feita a todos sem distinção. Essas pessoas que estão querendo reabrir os arquivos da ditadura só querem mamar nas tetas do governo, tal qual seus algozes hoje o fazem. Essas pessoas, quando saíram em prol da democracia deveriam ter ciencia que isso é um ato de disprendimento, como nossos valorosos soldados hoje darão seu sangue pela nossa nação, esses revolucionários devem se portar igualmente diante da grandeza de seu desprendimento, e não se ater a reparações economicas por esse valoros deprendimento.
Ibsen Marques , CACAPAVA-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 20/3/2009 às 13:15:38
Carlos, concordo com você quando diz que a ditadura brasileira matou, prendeu e torturou menos. A única coisa que ela não fez de menor foi tolher a liberdade, principalmente a de expressão e a de opinião. Além disso essa falta de liberdade criou ambiente extremamente propício à institucionalização da corrupção que hoje vemos e vivemos. Como o que define uma ditadura não é exatamente e tão somente a violência física que ela é capaz de praticar, essa sua argumentação é totalmente sem sentido.
carlos kater , Itu-SP - funcionario público
Enviado em 20/3/2009 às 02:27:15
Por favor, deixemos as emoções de lado para que se possa analisar com o devido distanciamento necessário certos momentos da nossa historia. É inegável que em relação a outros países a ditadura brasileira matou, prendeu, e torturou menos. E isso foi consequêcia principalmente da pífia luta armada brasileira(lutabranda) Negar isso em nome de dores particulares é escamotear a verdade
sylvia moretzsohn , rio de janeiro-RJ - professora
Enviado em 17/3/2009 às 11:18:15
Caro Venício, felicito-o pelo artigo, tão oportuno, sobretudo diante das recentes iniciativas de grandes empresas de comunicação, com seus "projetos memória" que recontam a história como lhes convém.
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Venício A. de Lima

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