ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 530 - 9/2/2010
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REALITY SHOW DA MORTE
Jade Goody, a mesma até o fim

Por Emanuelle Najjar em 24/3/2009

Navegando pelo G1, descubro uma notícia em destaque que poderia fazer muitos pensarem: a morte de Jade Goody, ex-Big Brother britânica. Não seria destaque em circunstâncias normais, mas no caso de Jade foi diferente. Ela transformou sua batalha contra o câncer cervical e seus últimos dias de vida num verdadeiro reality show.

Para quem não se lembra, Jade Goody, 27 anos, foi quem criou uma grande polêmica ao ser acusada de racismo contra a atriz indiana Shilpa Shetty, em 2007, durante período de confinamento, num BB apenas para celebridades. Episódio pelo qual ela deve ser mais conhecida no Brasil, já que a mídia fez um grande barulho com o assunto. Também era conhecida por diversas gafes e também como a primeira participante de um reality show inglês a fazer sexo diante das câmeras, em 2002.

A polêmica parecia correr nas veias de Goody. Após os incidentes com Shilpa, ela reatou relações com a atriz, além de doar dinheiro para a caridade na Índia. Em 2008, a britânica se ofereceu para participar da versão indiana do Big Brother e, durante as filmagens do programa, descobriu que tinha câncer, deixando a casa apenas dois dias após sua entrada.

Assim que começou a lutar contra a doença, Jade passou a cobrar por entrevistas exclusivas aos jornais e redes de televisão, com intuito de garantir o futuro financeiro de seus dois filhos. Ela também vendeu os direitos de transmissão de seu casamento com um colega de confinamento por 1 milhão de libras para uma emissora de televisão.

Exposição voluntária

Sobre a polêmica que causou ao expor para a mídia todo o seu cotidiano depois da descoberta da doença, Jade foi enfática.

"Eu vivi toda a vida adulta falando sobre a minha vida. A única diferença é que agora eu estou falando sobre a minha morte. Está tudo bem. Eu vivi na frente das câmeras. Talvez morra na frente delas", disse ela em fevereiro ao jornal News of the World.Jade Goody morreu em casa na madrugada de domingo, ao lado da mãe e do marido. E se a sua popularidade foi afetada pelo incidente com Sheltty, seus últimos dias a tornaram bem mais que um ícone.

O ministro Gordon Brown disse em um comunicado que "ela foi uma mulher corajosa diante da vida e da morte e todo o país admira sua determinação para dar um futuro promissor às suas crianças".

Mídia? Oportunismo? Talvez, mas mesmo que tenha sido um espetáculo desnecessário, sua exposição rendeu frutos. Goody se expôs de forma voluntária, sabendo de todos os riscos. Assim passou toda sua vida adulta, e por isso será lembrada, não apenas como o que possa se chamar de pseudo-celebridade, mas como quem luta por sua vida e garantindo seu futuro fazendo aquilo que fazia de melhor: sendo ela mesma.

Curso superior não faz milagres

Costuma-se dizer que a voz do povo é a voz de Deus. Bradamos aos quatro ventos que somos uma democracia e a nossa importância na vida em sociedade. Dizem que são participativos, idealistas, cidadãos modelo em conduta.

Na verdade, dizem muitas coisas. A maior parte, talvez um folclore. Apenas uma fantasia.

A opinião pública é a unanimidade. É a maioria. Talvez, não por número, mas simplesmente pela força nossa influência, pelo menos no Brasil. Somos uma classe pouco mais abastada, frente a um país onde a desigualdade é grande, temos um pouco mais de estudo num lugar onde o ensino tem muito a melhorar. Somente por isso, acha-se que tem mais capacidade de discernimento e poder de decisão.

Ledo engano. Pura lenda.

Poder de discernimento? Não necessariamente. Afinal, um curso superior não faz grandes milagres. Não muda posturas éticas. Abre novos horizontes, promove descobertas, mas que podem não ser maiores que o acúmulo de jargões de trabalho em vocabulário coloquial.

O ciclo vicioso do pão e circo

Na verdade, o que fazemos é seguir a onda. Fazemos aquilo que esperam que façamos, dizemos aquilo que esperam que digamos. É como seguir uma moda, crendo que ela é inédita e revolucionária, quando ela está aí já há tempos.

Por exemplo: o choque com o caso Isabella Nardoni. Ele só veio à mídia pelo fato de a família ser de classe econômica superior à da maioria dos brasileiros. Isabella não foi a única e nem a última criança a morrer devido a violência doméstica. Quantas vezes isso não deve ter acontecido e foi solenemente ignorado?

E violência urbana? Esperamos que um caso envolvendo crianças abale nossa paz de espírito, enquanto várias pessoas já foram vítimas e sequer foram dignas de nota em jornal. Ou, também, violência contra as mulheres: esperamos que uma estrela da música seja atacada pelo namorado também um astro, para que possamos discutir o assunto, ignorando os casos que às vezes acontecem bem ao nosso lado.

Para quem se diz tão antenada com a realidade, ou tão conectada com o que acontece ao nosso redor, talvez estejamos entorpecidos, alienados. Pregamos ser donos de uma superioridade e de um poder que na realidade não existem. Continuamos sofrendo de cegueira e surdez seletiva: enxergamos e ouvimos apenas que queremos.

Preferimos o ciclo vicioso do pão e circo, do qual temos conhecimento, mas nos recusamos a deixá-lo, pois o entorpecimento é mais gratificante que a realidade nua e crua. Queremos o glamour e o conforto de realidades que não nos pertencem, de festas e luxos que não vamos compartilhar, do que ter poder sobre aquilo que efetivamente podemos fazer e do qual bradamos aos quatro ventos ser nossa obrigação.

Pois afinal desfrutar da fama é bem mais confortável que trabalhar por ela.

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