ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 531 - 9/2/2010
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FORMAÇÃO DO JORNALISTA
Jornalista, só com diploma

Por Sérgio Murillo de Andrade em 31/3/2009

Reproduzido do sítio da Fenaj, 27/3/2009

Em 1964, há 45 anos, na madrugada de 1º de abril, um golpe militar depôs o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura de 21 anos no Brasil. Em 2009, a sociedade brasileira pode estar diante de um novo golpe. Desta vez contra o seu direito de receber informação qualificada, apurada por profissionais capacitados para exercer o jornalismo, com formação teórica, técnica e ética.

A exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista, em vigor há 40 anos (1969/2009), encontra-se ameaçada. O Supremo Tribunal Federal (STF) julgará, também em 1º de abril, o recurso que questiona a constitucionalidade da regulamentação da profissão de jornalista. O ataque à profissão jornalística é mais um ataque às liberdades sociais, cujo objetivo fundamental é desregulamentar as profissões em geral e aumentar as barreiras para a construção de um mundo mais pluralista, democrático e justo.

É importante esclarecer: defender que o jornalismo seja exercido por jornalistas está longe de ser uma questão unicamente corporativa. Trata-se, acima de tudo, de atender à exigência cada vez maior, na sociedade contemporânea, de que os profissionais da comunicação tenham uma formação de alto nível. Depois de 70 anos da regulamentação da profissão e mais de 40 anos de criação dos cursos de Jornalismo, derrubar este requisito à prática profissional significará retrocesso a um tempo em que o acesso ao exercício do jornalismo dependia de relações de apadrinhamentos e interesses outros que não o do real compromisso com a função social da mídia.

Prática profissional responsável

A Constituição, ao garantir a liberdade de informação jornalística e do exercício das profissões, reserva à lei dispor sobre a qualificação profissional. A regulamentação das profissões é bastante salutar em qualquer área do conhecimento humano. É meio legítimo de defesa corporativa, mas sobretudo certificação social de qualidade e segurança ao cidadão. Impor aos profissionais do Jornalismo a satisfação de requisitos mínimos, indispensáveis ao bom desempenho do ofício, longe de ameaçar à liberdade de Imprensa, é um dos meios pelos quais, no estado democrático de direito, se garante à população qualidade na informação prestada - base para a visibilidade pública dos fatos, debates, versões e opiniões contemporâneas.

A existência de uma imprensa livre, comprometida com os valores éticos e os princípios fundamentais da cidadania, portanto cumpridora da função social do jornalismo de atender ao interesse público, depende também de uma prática profissional responsável. A melhor forma, a mais democrática, de se preparar jornalistas capazes a desenvolver tal prática é através de um curso superior de graduação em Jornalismo.

Interesses e motivações

A manutenção da exigência de formação de nível superior específica para o exercício da profissão, portanto, representa um avanço no difícil equilíbrio entre interesses privados e o direito da sociedade à informação livre, plural e democrática.

A sociedade já disse o que quer: jornalista com diploma. Pesquisa realizada pelo Instituto Sensus, em setembro de 2008, em todo país, mostrou que 75% dos brasileiros são a favor da exigência do diploma de Jornalismo.

Não apenas a categoria dos jornalistas, mas toda a nação perderá se o poder de decidir quem pode ou não exercer a profissão no país ficar nas mãos de interesses privados e motivações particulares. Os jornalistas esperam que o STF não vire as costas aos anseios da população e vote pela manutenção da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista no Brasil. Para o bem do jornalismo e da própria democracia.

Comentários (6)
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Esteban Vianna , são paulo-SP - ex-jornalista
Enviado em 17/6/2009 às 11:31:45
O primeiro parágrafo é um primor de lógica e discernimento histórico: em 1 de abril de 64 instalou-se, por golpe, uma ditadura que vigiria por 21 anos. Em 2009, alega-se, estamos diante da possibilidade de um novo golpe: derrubar uma lei criada por aquele mesmo golpe, autoritária e ilegítimo por princípio, pois - uma lei que não encontra par em nenhuma outra democracia. Santo Aristóteles, Batman!
tiago jucá , poa-RS - traficante de idéias
Enviado em 17/6/2009 às 08:42:23
quanto mais eu leio e ouço o sérgio, mais eu fico contra o diploma. o AI- 5 já acabou!
eduardo lettieri , sp-SP - free
Enviado em 2/4/2009 às 12:32:06
O gato subiu no telhado....
Álvaro Passos , São Paulo-SP - --
Enviado em 1/4/2009 às 14:47:33
Olá, Sérgio. Interessantes, essas "reservas de mercado". O "Python" tem razão. Pessoalmente, acho que devem ser obrigatórios diplomas para tudo:escritor,comentarista de matérias quaisquer,pintor (pintor, é extremamente importante. Pintor de quadros), Pintor (de paredes. Também de extrema importância), mas, uma profissão à qual ninguém dá valor, é a de PEDREIRO. Já notaram quantas edificações caem? Por falta de um diploma do pedreiro...Motorista de ônibus, idem. Tem na sua mão centenas de vidas...A carteira de motorista não serve para argumentação, porque o jornalista sem diploma superior, tem a carteira do sindicato. Quero ver, é quando resolverem atribuir exigencia de diploma para DESEMPREGADO...vai faltar papel. Se o Diploma significasse responsabilidade, ética, cultura, caráter, independência moral e profissional, honestidade, capacidade, etc..., daria nota cem para o canudo. Mas não...os homens (que o Presidente diz serem brancos e de olhos azuis - não sei se são, e se são todos assim), responsáveis pelas maiores canalhices, nos últimos anos, TODOS possuem não um, mas vários diplomas. Sao Mestres, Doutores, PhD´s, professores universitário nas horas vagas e Seminaristas, Palestrantes, etc... NOTE-SE QUE NÃO QUERO DIZER QUE TODOS OS PROFISSIONAIS CITADOS, SEJAM DA MESMA LAIA... MAS, OS GRANDES CANALHAS, possuem vários diplomas. Não é o manto, o hábito, que faz o monge...
Michele  do Carmo , Vitória da Conquista-BA - Jornalista
Enviado em 31/3/2009 às 23:23:40
Olá, Sérgio! Como jornalista e sinto muito contemplada pelo seu texto. Eu desconhecia a pesquisa citada e acho que esa prova da manifestaçao popular com relaçao à nossa profissão já é um ótimo indicativo a favor da obrigatoriedade do diploma. A minha preocupação é quantos estudantes e jornalistas pelo país estão discutindo sobre o assunto nesse momento? Muitos dos meus colegas nem ao menos sabem da decissão do STF amanhã. Essa falta de interesse e união da categoria só enfraquece nosssa luta. De qualquer forma, também escrevi sobre o assunto no blog: www.midocarmo.blogspot.com Um abraço.
Juca Crispim , São Paulo-SP - Python
Enviado em 31/3/2009 às 22:37:07
Até um tempo atrás estavam (se é que ainda não estão) querendo "regulamentar" a minha área de atuação... Simplesmente ridículo. Faculdade dá diploma e só. Mas, bom... Pra eu saber se diploma de jornalista é bom ou não, você pode me dizer o que vocês estudam na escola de jornalista? Eu trabalho "numa das melhores escolas de comunicação da américa latina" e a coisa aqui é feia, viu... Ainda bem que não levo jornalistas à sério só pelo fato de serem jornalistas.
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