ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 531 - 9/2/2010
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JORNALISMO EM DEBATE
O fim das ilusões

Por Emanuelle Najjar em 31/3/2009

No artigo intitulado "O jornalismo no imaginário popular", publicado neste Observatório, foram descritos os rótulos destinados aos jornalistas. Velhas imagens que envolvem televisão, câmeras, salas fumacentas, intelectualidade, falta de rotina, a eterna busca pela verdade, os riscos e a recompensa em forma de prêmios. Não exatamente mitos, mas elementos que certamente nem todos alcançam, seja por acaso do destino ou por uma discrepância de épocas históricas.

A televisão, William Bonner e prêmios acontecem com poucos. Poucos e predestinados. Além do fato de a televisão não ser o único caminho, uma carreira no jornalismo global – por assim dizer – exige mais que dedicação. Também se pede um rostinho bonito. Talvez não bonito, mas a realidade é que existe um padrão Globo de produção para isso também. De modo que, não vai adiantar os homens fazerem mechas brancas em seu cabelo. Tem que ter "borogodó".

A rotina, do qual os outros profissionais de qualquer área reclamam, no caso do jornalista ou do pretenso foca, envolverá telefone, email e releases. O risco de vida ainda existe, mas ao invés da ditadura – ou "ditabranda", segundo a Folha – será pelo crime organizado, milícias ou por prefeituras de cidades do interior, ou ainda em países de guerra. Talvez para os focas, a idéia de morrer em uma favela não faça jus ao imaginário glamouroso daqueles que morreram nos porões na época do AI-5.

Trabalho duro e mandiinga

Nessa mesma época histórica ficaram as salas fumacentas e os "intelectuais de esquerda" – sim, uma coisa estava associada à outra de forma indissociável. Agora, uma parte da antiga esquerda está no poder, fazendo com que a aura intelectual se desfizesse e mostrasse apenas pessoas comuns, geralmente birrentas e com síndrome de "donos da verdade". E as salas impregnadas de fumaça foram substituídas em nome dos hábitos saudáveis de nossa era, onde a nicotina deixou o glamour para ser veneno.

A eterna busca pela verdade, ou imparcialidade, descobre-se um mito. Podem-se ouvir os dois lados ou descobrir todas as facetas, mas a cobertura sempre será tendenciosa. O velho mito norte-americano vira pó quando se está editando uma matéria e escrevendo um texto. Cada escolha de palavra e cada vírgula pode ser usada de forma a atribuir sentidos diferentes... ou seja, puxar sardinha mesmo. Não é preciso estar no mercado para descobrir isso, basta a primeira aula na faculdade.

A verdade é cruel, mas ela tem que ser dita. Jornalistas têm uma vida difícil, não necessariamente emocionante, não obrigatoriamente bem remunerada. Este último quesito dependerá de sorte, trabalho duro e muita mandinga, pois uma boa parte dos que tentam fica no meio do caminho.

Muito chão pela frente

O começo de carreira pode ser bem conhecido; aliás, uma boa parte dos universitários sabe como é: trabalhando em algum lugar a preço de banana, sendo chamado estagiário, ou "escraviário", como queiram, geralmente fazendo o trabalho duro, talvez executando a função de seu chefe, mas com custo muito menor. Talvez essa seja a única coisa que não tenha mudado com o passar dos anos. Estagiário é estagiário em qualquer lugar do mundo.

No fundo, tudo o que o jornalista tem, e muito do que precisa, é o seu ego. A profissão exige muito, quase dedicação integral. Estudo constante. Exige faro, feeling. Sangue frio também. O mundo não é bonito, as pessoas não são gentis, a realidade não é cor-de-rosa. Talvez possa ser, quando alcançar um patamar de jornalista de turismo, ou de cobertura mais leve, mas até lá há muito chão pela frente, e uma trajetória que deixa marcas.

E aí, crianças? Ainda sonham com seu lugar na Globo?

Comentários (2)
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Ricardo Cerqueira , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 5/11/2009 às 06:55:26
Para a forma e o conteúdo do teu texto, Emanuelle, apenas uma palavra, que repito três vêzes: Clap, clap, clap.
Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 4/4/2009 às 14:53:10
As crianças eu creio que não, Emanuelle. Mas muitos acadêmicos sim, mesmo que a realidade do mercado e alguns professores alertem que a caminhada é dura, cheia de percalços e reservada para poucos. O que ocorre é que a publicidade indiscriminada para os cursos superiores - não apenas os de Jornalismo - insinua possibilidades mil. As faculdades também vendem a imagem de que estão plenamente capacitadas para fornecer um curso de altíssimo nível. Os professores, por sua vez, assumem um ar de arautos incontestáveis do conhecimento, quando em verdade são apenas um dos instrumentos do saber. No decorrer do curso os professores começam a tirar o corpo fora, para que não reste nenhuma responsabilidade sobre eles, e se esmeram nos alertas: "olha, fulano, não é bem assim... a realidade é outra". Observe, porém, que muitas práticas empregadas em sala de aula advêm daquilo que se convencionou chamar de "padrão global": são laboratórios, métodos, conceitos e artifícios de plasticidade duvidosa e ética questionável, mas amparados pelo sucesso circunstancial dos produtos da Globo. Invariavelmente os alunos - aqueles que se direcionam para a televisão - não são treinados para ser um Heródoto Barbeiro ou um Paulo Markun (= jornalismo), mas sim um Willian Bonner (= teatro), coisa que infelizmente restou institucionalizada. Este "padrão" também é imputado ao rádio, ao jornal, às revistas...
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