ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 532 - 7/4/2009
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COBERTURA DO G-20
Faltou mostrar o papel real do FMI

Por Rolf Kuntz em 7/4/2009

Os chefes de governo do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento, decidiram triplicar o dinheiro disponível para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e encarregar a instituição, juntamente com o Conselho de Estabilidade Financeira, de acompanhar os mercados e fazer soar o alarme em caso de perigo.

Tudo isso apareceu nos jornais, na ampla cobertura da reunião de cúpula realizada em Londres, no dia 2 de abril. Faltou contar um pedaço importante da história: o papel do próprio FMI na montagem desse esquema.

Na cobertura, o Fundo aparece como objeto de uma decisão importante e como agente encarregado de cumprir três missões – conter o alastramento da crise, atenuar seus efeitos e participar da supervisão do mercado financeiro. Tudo isso é relevante, mas um dado político foi negligenciado. Não se mostrou a participação do diretor-gerente do FMI, o francês Dominique Strauss-Kahn, na costura do arranjo final.

Esse dado não é um simples detalhe divertido ou curioso. É uma informação relevante: os burocratas do FMI, comandados por Strauss-Kahn, vinham preparando a instituição para um novo e grande papel na economia globalizada. O esforço havia começado antes, na gestão do espanhol Rodrigo de Rato, e intensificou-se na administração, diplomaticamente mais hábil, de Strauss-Kahn.

Acompanhamento e alerta

Em outubro do ano passado, na assembléia anual, o Comitê Monetário e Financeiro, formado por 24 representantes dos 185 países membros, decidiu atribuir à instituição um papel central no monitoramento dos mercados. A decisão não seria tomada sem a concordância dos sócios mais poderosos, a começar pelos Estados Unidos, mas o projeto foi concebido, no essencial, pela própria burocracia do Fundo.

Também era evidente, nessa altura, a urgência de captação de mais dinheiro para o socorro aos sócios em dificuldades. A Islândia foi o primeiro caso importante, mas a fila cresceu e logo foi preciso socorrer – também isso era previsto – várias economias do Leste europeu.

Strauss-Kahn passou meses trabalhando pelo aumento do capital disponível e falou sobre o assunto, publicamente, em várias ocasiões. Quantas vezes terá conversado reservadamente com ministros e chefes de governo sobre o assunto?

Que ele se tenha mantido discreto, em Londres, é compreensível. O espetáculo havia sido programado para outros astros. Mas teria valido a pena dar um pouco mais de atenção a esse coadjuvante não tão secundário nessa história. Afinal, não houve de fato acordo sobre a fixação de regras internacionais para o mercado, porque o governo americano continuou resistindo. Sobrou, no plano internacional, a tarefa de acompanhamento e alerta. O trabalho sobrou para quem tem condições de realizá-lo, mas faltou acentuar esse ponto.

Real e yuan

Os jornais dedicaram bom espaço à conversa sobre a substituição do dólar como principal moeda de reserva. A discussão foi aberta há algumas semanas pelo governo chinês. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter-se entusiasmado pela idéia. Em Londres, ele propôs ao presidente da China, Hu Jintao, a adoção das moedas nacionais no comércio bilateral. O governante chinês não respondeu. Marcou a continuação da conversa para maio, durante a visita de Lula a Pequim.

O entusiasmo de Lula não foi bem explicado e não houve grande esforço de esclarecimento da questão. Só a Folha de S.Paulo tentou ir mais fundo, procurando especialistas em comércio exterior, mostrando o uso ainda limitado desse tipo de pagamento no comércio com a Argentina e reproduzindo as críticas de especialistas.

Além disso, a Folha e o Estado de S.Paulo reproduziram artigo de Paul Krugman sobre o motivo do governo chinês para propor uma nova moeda de reserva: 70% dos ativos internacionais do banco central da China (equivalentes a US$ 2 trilhões, no total) são denominados em dólar.

Neomédios e neopobres

Matérias para deprimir e para animar no Estado de S.Paulo e do Globo do primeiro domingo de abril, dia 5. "Crise devolve 563 mil às classes D e E", segundo o Estadão. "Nova classe média quer manter gastos", de acordo com o Globo.

A matéria sobre o empobrecimento é baseada em cálculos do pesquisador Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas. Em janeiro, segundo o estudo, a classe C, em expansão há alguns anos, encolheu nas seis maiores áreas metropolitanas do país. O agravamento do quadro, segundo o economista, parece haver-se estancado em fevereiro,

A matéria do Globo mostra a persistência dos hábitos de consumo na classe C depois do desembarque da crise no Brasil. Mas a matéria se baseia numa pesquisa realizada entre setembro e novembro, quando apenas começavam a ser percebidos, no Brasil, os impactos da recessão no mundo rico. A pesquisa recente de Marcelo Néri é citada apenas no último parágrafo da reportagem.

Comentários (3)
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Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 17/4/2009 às 10:40:25
FMI; Frustraram Minha Istória!. Lula dizendo que agora o FMI tem, sim, uma Função Muito Importante. Mas, frisou que, antes, o FMI era uma Fábrica de Miséria Internacional!. E o sub-herói da negociação da dívida externa brasileira -o herói foi o agora neocompanheiro Luiz Carlos Bresser Gonçalves Pereira- Paulo Nogueira Batista Júnior declara (vide Folha de S. Paulo de 09/04/2009, página B1) que foi ao tal encontro do G20 com uma camisa poída (sic). Acho que para se disfarçar de haitiano. Afinal, o tal sub-herói Paulo Nogueira Batista Júinior é "representante" do Haiti no FMI. Ele, possivelmente, quis dizer "puída". Puída: Professor Ultra-Intelequítual Doutor Acadêmico!. Ele -o tal sub-herói- é contra a turma da "bufunfa", mas, ensina os filhos (e netos e bisnetos e trinetos ...) do patriciato a ficar cada vez mais "bufunfeiros". Afinal, ele é "professor" (agora, li-cen-ci-a-do!) da FGV!. Professor de economia, hein!. E o G Vinte o que significa?. Significado: Grupo dos Vigaristas Internacionais e Nacionais Travestidos de Estadistas!. E para completar, o significado de Guido: Guido: Grupo Unido Industrializado e Desenvolvido do Ocidente!. Rarará!. Pô, aquelas tais "reservas internacionais" dos tais 200 bilhões de dólares não dão nem sequer para "liquidar" o passivo externo do Brasil!. Como então "investir" dólares no FMI?. Esse investimento no FMI só pode ser algo chiquérrimo!.
José Mariano , Florianópolis-SC - professor
Enviado em 8/4/2009 às 08:01:30
Alguns aspectos me preocupam. Primeiramente o FMI sempre teve uma política desastrosa com os países em desenvolvimento, obrigando-nos a pagar uma dívida externa várias vezes, com juros escorchantes. Sem falar numa política monetária que nos relegava a um papel completamente iníquo perante o mundo desenvolvido, desmantelando o muito pouco de nossa infra-estrutura e jogando milhões de pessoas na precarização do trabalho. Com relação à adoção da moeda nacional em relações comerciais internacionais, considero um tanto arriscada a posição do Brasil. Todos nós sabemos que cada moeda tem um valor internacional. O dólar ainda é representativo por ser a moeda do país mais forte economicamente, apesar da crise hipócrita hipotecária. No entanto, as compras e vendas internacionais em dólar favorecem a constituição de reservas pelo Banco Central, além de propiciar ganhos consideráveis aos exportadores, no caso de apreciação. O "real" e qualquer outra moeda não tem a representatividade de um dólar e de um euro. A conversão do faturamento externo, no caso da venda, de dólar para o real gera uma receita extra para o país. é preciso tomar cuidado com estas questões. É o outro lado da dolarização: nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Somos, ainda, um país de enormes desigualdades sociais e, portanto, menos pose, mais trabalho e mais seriedade na implantação de políticas monetárias.
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 7/4/2009 às 16:57:28
"Faltou mostrar o papel real do FMI": eu mostro entao, o papel do FMI foi: essa fabrica de favelas enquanto lidava com o mundo pobre, nao teve do nem piedade, por decadas exigiu mil e uma coisas que levaram diretamente aa ruina de diversos paises; nao teve sequer uma exigencia arruinante pra fazer na hora que os paises ricos entraram em crise. Esse foi o papel do FMI. E o BIRD eh igualzinho.
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