ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 535 - 28/4/2009
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TV DIGITAL
Você que está aí em casa

Por Nelson Hoineff em 28/4/2009

O usuário brasileiro ainda não entendeu – porque não lhe deram a oportunidade para isso – que neste momento, no Brasil, a TV digital terrestre não se limita à questão das transmissões em HDTV ou à ocupação do espectro com multiprogramação (três ou quatro programações diferentes vindas pelo mesmo espaço físico). Para o consumidor final, isso não faz a menor diferença – e nem vai fazer por um bom tempo.

Há, porém, um aspecto de outro atributo da TV digital, a mobilidade, que a princípio estava negligenciado, mas que mostra agora que a questão é bem outra. Um sinal veemente disso pôde ser visto semana passada por meio de uma declaração do presidente da Abert, Daniel Pimentel Slaviero, que passou despercebida pela grande imprensa. Slaviero afirmou, em defesa do que dissera em Los Angeles o presidente da NAB, David Rehr, que as transmissões móveis são as mais evidentes fontes de novas receitas para as emissoras de televisão.

Essa é a única grande questão que se instala hoje no desenvolvimento das transmissões digitais terrestres no Brasil. O conteúdo para TV móvel não deve – e não pode – ser o mesmo para a TV fixa. Não se trata de mero exercício de retórica, mas da constatação de por onde está caminhando o modelo de negócios em televisão.

Hora do almoço

Até ontem, a televisão era fixa. Ficava presa a um canto da sala ou do quarto de dormir. Ainda hoje todos os narradores, especialmente os esportivos, referem-se aos telespectadores como "você que está aí em casa". Em dois anos, isso será tão politicamente incorreto quanto referir-se de forma debochada à etnia do participante de um show.

O rádio também já foi fixo. Hoje não é fácil encontrar alguém que ouça rádio em circunstâncias que não sejam móveis: no automóvel ou preso ao próprio braço, por exemplo. O telefone, este era fixo até ontem. Uma linha móvel, na década passada, custava dez mil dólares – e mesmo depois disso as ligações originárias de aparelhos celulares eram muito mais caras que as originárias de telefone fixo. Isso mudou. O resultado é que as redes fixas estão perigosamente ociosas e ninguém mais utiliza um telefone fixo se tiver um receptor móvel por perto.

Seu próximo celular (que cada brasileiro levará em média mais 8 meses para comprar) terá como item obrigatório a capacidade de receber sinais gratuitos de televisão móvel. Por enquanto há tão poucos aparelhos no mercado que os sinais são os mesmos que os entregues aos televisores fixos. Mas, quando, num piscar de olhos, o espectador brasileiro estiver assistindo televisão no ônibus ou durante o almoço, o seu horário nobre terá mudado.

A dona de casa que hoje vê televisão aberta pela manhã pode gostar muito de Ana Maria Braga, mas o problema está no fato de que os trabalhadores que estão no ônibus no mesmo horário preferem ver os gols da rodada, por exemplo. A TV tem três alternativas: derrubar quem está em casa, derrubar quem está no ônibus, ou entregar a cada um o que ele está querendo ver.

Até agora, o horário nobre é definido como o espaço de tempo compreendido entre o momento que o cidadão chega em casa e a hora em que ele vai dormir. Isso no Brasil acontece entre 19 e 23h. Por isso, 82% das receitas publicitária emanam daí.

Daqui a alguns meses não será assim. Os horários nobres serão também os do ônibus, o do almoço, o de qualquer momento em que o espectador tenha com sua TV uma relação mais individual, porque ela não estará pendurada em lugar algum; estará na palma da sua mão.

Artefato monolítico

As plataformas digitais podem não conseguir implantar cenários de multiprogramação – pelo menos entre os canais privados brasileiros – e o cenário do HDTV será pouco mais do que uma continuidade do que acontece. O povo já está se acostumando à idéia de que a televisão que lhe é oferecida por 7 mil reais lhe dá o grande atrativo de ver com mais nitidez as rugas do Faustão – e isso não lhe parece muito excitante.

Assistir televisão por aparelhos portáteis, no entanto – sejam receptores ou, caso mais provável, celulares com esse serviço –, vai estimular ao paroxismo a competitividade e obrigar as estratégias de programação que fujam do marasmo. Executivos de programação são hoje pagos para ver o que o outro está fazendo e fazer parecido. Isso é tudo o que existe de criação, no momento, na televisão brasileira. Não é um cenário estimulante para a inteligência e nem para a indústria.

A novidade é que o advento incontornável da TV móvel pode fazer com que posições de audiência sofram alterações dramáticas da noite para o dia. O novo espectador de televisão não é o "você que está aí em casa". É o individuo que está em qualquer parte e que não compartilha o que está vendo. É principalmente o jovem, que abandonou a televisão porque aquilo que está pendurado na parede lhe trata como débil mental.

A programação móvel vai buscar o espectador onde ele estiver. Pode continuar tratando-o como um idiota, mas se alguém quiser um conselho de graça, é bom que não o faça. A garotada caiu fora da TV porque sabe que não é oligofrênica. Seu próximo celular vai receber sinais de TV aberta. Os burocratas que estão procurando o que há de novo para copiar acreditam, por exemplo, que programação para teenagers é a que tenha surfistas ou gatinhas tatuadas. Desconhecem que antes de pensar no conteúdo que irá para a tela o que importa é descobrir a maneira de voltar a falar com uma galera que durante muito tempo a televisão emburreceu, entorpeceu, humilhou.

A TV está se tornando mais individual e isso não tem volta. Essa é a melhor chance que as TVs comerciais já tiveram para alterar os cenários vigentes há cinqüenta anos. É também a primeira chance que a televisão pública terá para mostrar que não está tomando dinheiro do povo para exibir baboseiras de última qualidade. A TV móvel é uma instância bastante adequada para se buscar um novo diálogo com um espectador que caiu fora da TV porque foi sistematicamente insultado por ela. Um jovem que aprendeu a lidar com a possibilidade de escolha e decidiu não ficar parado diante de um artefato monolítico pendurado em casa.

Comentários (11)
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Felipe Candido Guedes , Rio de Janeiro-RJ - Servidor Municipal
Enviado em 4/5/2009 às 19:17:19
Fala-se tanto na democratização da tv digital...mas eu vejo isso como uma atitude hipócrita e demagoga por parte do Ministério das Comunicações. Vamos falar da tv digital via satélite. No satélite mais comercial do país, conhecido como C2, e que estão os sinais da maioria das emissoras, grandes e pequenas, há sinais analógicos e digitais. Mas na sua maioria, a banda digital, está toda criptografada. Não existe também uma divulgação e incentivo por parte das autoridades em popularizar esses receptores que na sua maioria estão com os preços compatíveis com os receptores analógico. Nos fóruns pela internet, diz-se que quem manda é a toda poderosa Globo. Até nos satélites, ela manda e desmanda nas emissoras que devem ser abertas ou fechadas, principalmente nas canais de suas afiliadas, forçando uma estratégia de outras emissoras que acabam seguindo o que as grandes emissoras apontam. Aberto e via satélite só existe sinal da Globo analógico e neste satélite, então outras emissoras acabam não indo pra banda digital por ficar "distante" da Globo e do zapping, pois muda-se de sistema. Não vemos o Ministro das Comunicações, ex-repórter da Globo e seu serviçal, sequer tocar no assunto. Embaixo desse angú tem caroço...
Jonas Paulo  Negreiros , Jundiaí -SP - técnico em eletrônica
Enviado em 30/4/2009 às 06:49:11
Ser ou não ser. Programação especial para TV movel depende de regulamentação da multiprogramação, coisa que a "Gorda" já manifestou ser contrária.
Joanne Mota , Aracaju-SE - estudante de jornalismo
Enviado em 29/4/2009 às 22:02:17
Saudações professor!!! Ainda lembro de uma palestra que o Senhor ministrou aqui em Sergipe há dois anos... Naquele momento o Sr. abriu alas para esse pensamento hoje vejo que ele já se realiza... parabéns pela contribuição... E parafraseando-o, os meios de comunciação, que são objetos mutáveis, nunca devem sair de nossa pauta de estudo...
OTAVIO BARROS DA SILVA  barros , PALMAS-TO - jornalista
Enviado em 29/4/2009 às 18:16:39
Não dá ibope, mas vamos lá. Há anos tenho percorrido o interior deste imenso Brasil e um cenário me chamou a atenção: mudança social na população pobre, graças ao programa Bolsa Família. Outro detalhe que não dá ibope: milhares de pessoas ligadas na tevê pública (TV Brasil), enquanto nas cidades grandes os(as) retardados(as) mentais assistem às telenovela para aprendizagem teórico-prática sobre violência, drogas, corrupção, assassinatos, traição de casais, divórcio, etc.. Nota 10 para a TV Brasil, orgulho dos brasileiros. Na Europa, a tevê pública domina a audiência (BBC, inglesa; TV 5, francesa; DW, alemã; Rai, italiana; TVE, espanhola; etc.).
Braz Megale , Betim-MG - Funcionário Público
Enviado em 29/4/2009 às 16:59:12
Socorro!! Eu que pensei que a tv estava quase morrendo. A tecnologia móvel vai ressucitá-la?! Já não bastava o famigerado horário nobre de 19 as 23h, que durante tantos anos contribuiu para que as famílias se emudecessem diante da tv, sem trocar nenhuma outra experiência, ele agora vai se estender duratnte as 24 horas do dia, em qualquer lugar?! Outra coisa: Duvido que a nova geração citada neste artigo abandonou a TV (se é que abandonou) por que ela é insultante. Acho que eles nem sabem o que é isso...
Charles Feitosa de Souza , Formosa-GO - estudante de pedagogia
Enviado em 29/4/2009 às 16:55:33
O que cada brasileiro em sua sã consciência deve perguntar é,prá quê a tv digital? E em quê ela me sará útil?Uma vez que em matéria de programação televisiva,não temos muito o que escolher,então a interatividade que tanto estão propalando de nada vai servir,se não houver programações inteligentes. Podemos fazer uma análise quando no decorrer da semana,somos bombardeados com notícias de violência,essa sim,o carro-chefe de nossas tragédias de cada dia,e se estamos enjoados,de nada adiante o controle remoto,que aliás,foi uma sugestão de Jô Soares quando tempos atrás,ele fazia uma entrevista sobre o assunto no seu programesco global,então ele sugere que se o telespectador não está gostando da programação,ele mude de canal,aí a porca torce o rado,uma vez que na lei da probalidade,quem busca qualidade de informação,dança. Sabemos porém quem é que vai ganhar com toda essa tecnologia digital,os barões do capital é claro,ao telespectador,ressalto,aquele mais exigente,centrado numa informação de qualidade,numa programação inteligente e preocupada em fornecer a cidadania ao público,resta apenas esperar mais alguns anos-luzes para que isso venha a ser realidade um dia.
Tony  Queiroga , Rio de Janeiro-RJ - Professor universitário
Enviado em 29/4/2009 às 11:41:43
O texto de Hoineff sofre um pouco de supervalorização do papel e do apelo que a tecnologia tem sobre nós; imaginar que a audiência da televisão digital móvel vai se tornar algo significativo e, mais ainda, economicamente viável para a cadeia produtiva da tv, é algo ainda muito incerto. Programação exclusiva para diversos públicos com a "qualidade" da tv aberta, com o mesmo bolo publicitário a ser dividido (vejam como a rede ja abocanhou $ do marketing das empresas), me parece utopia no Brasil. Também não vejo a formação de grandes audiências de homens/mulheres absortos em suas telas de duas polegadas nos metrôs e ônibus... ainda mais em cidades sem "nenhuma" violência como Rio e São Paulo... Uma coisa é o que a tecnologia permite fazer, e ela hoje permite quase tudo.. outra bem diferente é o que nos estamos dispostos a assumir como nossos hábitos em uma era na qual o principal desafio para a mídia é conquistar uma parcela da nossa cada vez mais escassa atenção. A conferir...
Lenin Araujo , Guaraci-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 29/4/2009 às 07:51:15
É interessante fazer ilações a cerca da tv regional, a partir do instigante texto do senhor Nelson Hoineff.
CARLOS SANTOS , Rio de Janeiro-RJ - ARTISTA PLASTICO
Enviado em 29/4/2009 às 00:22:04
Espero que a grade da programação da tv móvel não venha a ser tão ridícula como atualmente o é a da fixa. Houve uma banalização da violência, besteirol e do nadaísmo. Será que programas curtos serão mais proveitosos e será que haverá boa vontade em produzí-los. A título de propiciar informação a cidadãos que não podem comprar jornais mais elaborados diariamente, houve uma enxurrada de jornalecos de R$0,50 aqui no Rio. Jornais esses que prestam um deserviço à comunicação.
Cláudia  Figueiredo , Juiz de Fora-MG - comunicadora e profa universitária
Enviado em 28/4/2009 às 13:22:09
Salve, salve Nelson Hoineff Bom ter notícias suas através de um texto tão bem escrito. A portabilidade e a mobilidade da TV Digital vão exigir muito mais dos grandes executivos do que até então se imaginava. E não só isso: o conteúdo também deve se alterar em função das novas tecnologias. O desafio está lançado e é urgente se preparar. Parabéns pelo texto, além de claro, levantou uma questão que ainda não tinha visto ser debatida. Um abraço, Cláudia Figueiredo Juiz de Fora (Panorama)
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 28/4/2009 às 12:45:18
A mobilidade do rádio não implioca em custos adicionais e, sem a imagem, fica mais fácil se dirigir aos ouvintes. A TV móvel, para obter algum sucesso, deverá prover uma grade enorme de programas curtos já que ninguém que está se movendo vai assistir a um programa de longa duração. Para mim, 30 minitos já seria longa duração. Vai ficar muito difícil para quem se desconectou da realidade prover e promover esse tipo de mudança.
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Nelson Hoineff

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