ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 538 - 9/2/2010
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OBSERVATÓRIOS DE MÍDIA
O crítico é o Grilo Falante da cidadania

Por Luiz Gonzaga Motta em 19/5/2009

Há poucos dias, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins, disse em palestra no Rio de Janeiro que a crítica da mídia se espalha na sociedade: é o Grilo Falante da mídia brasileira. Ele fazia referência a uma personagem dos desenhos de Walt Disney, que age como conselheiro crítico de outras personagens. O Grilo Falante desempenha o papel de consciência oculta. O nome provém do eufemismo Jiminy Cricket, derivado de Jesus Christ, em inglês.

A metáfora é sugestiva. Proponho que os observatórios de mídia adotem esta personagem como figura-símbolo. Ela se ajusta bem aos observatórios de imprensa. Os observatórios não pretendem ser anjos da guarda da sociedade. Mas desempenham um inevitável papel na proteção dos cidadãos diante dos abusos dos meios de comunicação. Especialmente a partir de agora, depois que caiu a Lei de Imprensa. O Grilo Falante é um bichinho simpático, grita sempre quando seu protegido está à beira de cair em armadilhas. É um observador precavido, atua para evitar o pior.

O jornalismo é um serviço público, mas em nossa sociedade se organizou como atividade exclusivamente comercial. Em sua lógica, obedece prioritariamente às demandas do mercado, não às da sociedade. Quem argumentar contra, basta recordar a feroz disputa atual por índices de audiência entre os telejornais.

Uma ponte entre obra e leitor

Há uma defasagem permanente entre o que o jornalismo reporta e o que a sociedade quer. Agenda pública e cobertura jornalística nem sempre coincidem. O jornalismo não responde necessariamente à pluralidade dos interesses e demandas sociais.

Daí, a necessidade da crítica. A crítica é uma prática ética, uma atividade hermenêutica que se contrapõe à primeira interpretação dos fatos, a interpretação jornalística. Revela os mal-entendidos, amplia a compreensão, mostra a distância entre textos e contextos.

A crítica parte de juízos prévios, implica sempre uma atitude valorativa. Não há exercício crítico sem valores e não há qualquer problema com isso. As pressuposições de um indivíduo ou grupo, muito mais que preconceitos, constituem a realidade histórica do ser, como nos recorda H. Gadamer. Pressupostos são, portanto, parte constituinte da crítica.

O crítico é o Grilo Falante, o mediador entre os objetos culturais (notícias, reportagens, telenovelas etc.) e o público. Liga a obra ao universo cotidiano do leitor, ouvinte ou telespectador. Projeta-se como uma ponte entre obra e leitor, abrindo-lhe portas a processos da produção jornalística ou midiática freqüentemente desconhecidos e longínquos.

Um olhar ético e universalizante

Qualquer crítico investe na parcialidade. Como afirmam muitos autores, estando próximo da paixão, o crítico fica mais perto da universalidade. A paixão instrui as perguntas que vamos formular aos objetos culturais.

A questão passa então a ser: quais valores justificam tais perguntas? A resposta não é fácil, e necessariamente remete à reflexão sobre o posicionamento histórico do crítico e do objeto cultural a ser criticado.

A partir deste raciocínio, proponho que o crítico adote valores universais, assuma a posição do outro, amplie seus horizontes para além dos pressupostos individuais. Onde encontrar valores universais? Respondo: em um universalismo ético e pluralista. Colocar-se em defesa da ética da responsabilidade social, contra as injustiças, no lugar do outro, a favor dos que não têm voz.

Concretamente, enquanto crítico da mídia, posicionar-se na defesa de um desenvolvimento social e dos direitos humanos. Não precisamos de muita sociologia. Basta rever documentos assinados pelos nossos chefes de Estado, como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, as Metas do Milênio, ou os indicadores do IDH. Eles materializam valores universais e pluralistas e podem ser consultados a qualquer momento. A partir deles, os observatórios podem desenvolver um olhar crítico ético e universalizante. Podem desempenhar com orgulho o papel de Grilo Falante junto à cidadania.

Comentários (6)
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henrique rodrigues , americana-SP - estudante
Enviado em 25/5/2009 às 13:31:38
Posso estar sendo impertinente, mas o pinóquio não é criação do italiano eugenio collodi? não é forçar a barra falar que o grilo falante é uma referência a jesus cristo.
Maitê Lamesa , Londrina-PR - estudante de direito
Enviado em 24/5/2009 às 20:25:59
Diante das obras históricas de proteção e garantia dos Direitos Humanos estão os grilos falantes em sua bela função crítica, a sempre conectá-las aos leitores, por vezes situados nas penumbras da democracia atual. O que nos falta é, sem dúvida, ter mais grilos falantes em nossa sociedade, a transmitirem a mais honesta compreensão dos fatos, muito mais do que meramente reproduzirem informações. Parabenizo-lhes por se refletirem, do espelho metalinguístico deste texto grilo falante, como verdadeiro Grilo Falante na realidade brasileira. Isto é essencial.
calypso escobar velloso , rio de janeiro-RJ - comentarista
Enviado em 20/5/2009 às 15:09:41
entendí que policiamento mudou de nome;qdo.criaça mamãe e papai eram meus grilos falantes,infelizmente erraram,pois só aprendí besteira,o que sai de mim são discussões de avaliação dos traumas do GOV.mal organizado,desorientado e infeccionado pela urina dos ratos...estou certa?e assim corre a humanidade nos trilhos enferrujados da estrada sem fim...a beleza se torna feiúra,como as arvores depenadas no inverno,atuamos na dôr,grata calypso escobar velloso
Ney José Pereira , São Paulo-SP - Contador
Enviado em 19/5/2009 às 16:49:25
A "Declaração Universal dos Direitos do Homem" agora é "Declaração Universal dos Direitos Humanos". O "do Homem" foi substituído pelo "Humanos". O tal ministro da Comunicação Social (Franklin Martins) bem que poderia fazer o papel do tal Grilo Falante neste governo!. Pois, até agora ele faz somente o papel do Grilo Calado. Ah, e este governo pode ou não pode ser criticado?. Pela Imprensa!.
Paulo  Machado , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 19/5/2009 às 16:18:30
Parabéns professor pelo texto e pela compreensão Paulo Machado Grilo Falante da Agência Brasil
Maiara Pessoa , Rio de Janeiro-RJ - func. pública
Enviado em 19/5/2009 às 14:22:42
Este é um bom conselho para os observadores de mídia. E muitos já estão nesse caminho, aqui no OI, Carta Maior e nos blogs do Nassif, Azenha e PHA. Valeu pelo texto!
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