ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 539 - 9/2/2010
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PARAÍSO
Ficção ou mera coincidência?

Por Emanuelle Najjar em 26/5/2009

Apesar de ser um hábito popular, assistir a novelas ainda é algo muito condenado por certas camadas da sociedade, do tipo intelectuais, acadêmicos e filósofos de boteco. Os argumentos para tal rejeição são basicamente os mesmos.

As histórias são feitas para uma massa indefinida e de gosto duvidoso. Não são realistas, nem representam a cultura brasileira, ou fazem a população de idiota. Apesar de tanta torcida contra, algumas tramas ainda são capazes de despertar algum tipo de reflexão. Nem que seja apenas um pequeno lampejo de pensamento.

O exemplo mais próximo desse tipo de reflexão, atualmente, é a novela Paraíso, de Benedito Ruy Barbosa. Alguém já reparou na semelhança da população fictícia com os brasileiros que estão do outro lado da tela?

A população de Paraíso, cidade onde se passa a trama, é rural. Ignore isso. Pense nas características de uma típica cidade do interior, onde a questão política é mais forte e a educação tende a ser a mais básica: ensino fundamental, ou médio, no máximo.

Assistindo a alguns capítulos, as características ficam evidentes. Basta que os personagens estejam dentro de um bar, ou boteco. O principal da cidade, localizado na praça. O ponto de encontro dos habitantes que chegam e partem, freqüentado tanto por trabalhadores, quanto por políticos e formadores de opinião. É ali que acontecem as conversas e de onde partem as novidades. E a partir dessas cenas é que as semelhanças ficam evidentes.

O velho pão e circo

A tendência irremediável em colocar a culpa de tudo nos prefeitos e outros integrantes mais altos do governo é a principal delas. Insatisfação pela obra da ponte não concluída, por palavras mal interpretadas, ou favores negados. Tudo o que acontece é culpa dos governantes: simples assim.

Nas discussões filosóficas realizadas dentro de ambiente tão propício, há debates relevantes. Política, ética e novos tempos são os temas mais visados. Geralmente dois oponentes e uma platéia consumindo uma dose de branquinha ou de cerveja ouvindo a discussão. De um lado para o outro, convencidos e convictos até um argumento mudar suas idéias, em gestos monossilábicos de concordância até que haja um vencedor.

Debates onde a platéia mais parece um boneco João-Bobo. De um lado ou outro, simplesmente ouvindo e concordando, ficando ao lado de quem mais convier, sem grande interesse na compreensão do que esteja sendo discutido.

É simplesmente assim que age a população brasileira. Ouvindo, atribuindo obrigações e culpas, esquecendo suas próprias responsabilidades, enquanto se distrai com o entorpecimento: em vez da branquinha do bar, uma outra distração qualquer. Algum programa sobre celebridades, reality show, correntes de piadas por email ou afins.

Assim, afundamos no velho pão e circo, seja rural ou high-tech. Fantasia ou mundo real. Trama de um famoso autor de novelas, ou uma peça qualquer do mundo em que vivemos.

Qualquer semelhança com a realidade não será mera coincidência.

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