ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 541 - 2/2/2010
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SUSAN BOYLE & A FAMA
Não existe misericórdia

Por Emanuelle Najjar em 9/6/2009

A mídia cria, a mídia destrói. Isso parece familiar, não?

É um fato mais do que comprovado, mas ainda assim cada vez mais pessoas se dispõem a tudo e qualquer coisa para ter seus cinco minutos de fama.

Quando se fala em fama, o público geralmente pensa em status, popularidade, regalias e dinheiro. Porém, poucos se lembram do preço a pagar. E eis que surge o exemplo vindo de Susan Boyle.

Susan Boyle foi "a voz de anjo" revelada pelo programa Britain´s Got Talent e cuja performance encantou o mundo. Escocesa, 48 anos, completamente fora dos padrões de beleza vigentes, tornou-se a personalidade mais vista na internet. Tida como favorita para vencer o reality show, acabou em segundo lugar, frustrando todas as expectativas.

E a partir daí, começou toda a história. Ou a outra história.

Após a derrota no programa, Susan foi internada em uma clínica psiquiátrica devido ao stress. Toda a pressão a que foi submetida, a perseguição que passou a sofrer na mídia e a frustração com a perda do primeiro prêmio resultaram em esgotamento nervoso.

E a partir daí veio o que começaram a chamar de "a verdadeira história".

De "vitoriosa" a "coitadinha"

No Fantástico (07/6), uma reportagem contou que a cantora sofre de "uma espécie de atraso mental". As chamadas veiculadas durante os intervalos comerciais da semana vieram exatamente com essas palavras, sem explicar o que seria isso. Qual a impressão que essas palavras causaram nos telespectadores? A pior possível, até modificarem a chamada e explicarem o problema: Ao nascer, ela teria aspirado líquido amniótico e, com isso, teve uma parada respiratória. Como consequência, a falta de oxigênio teria afetado seu cérebro.

E a coisa não fica por aí: vejam só.

"O assunto continua sendo notícia nos dois lados do Atlântico. Alguns jornais denunciaram a edição do programa, que teria manipulado nas caras e bocas da platéia e dos jurados quando Susan se apresentou pela primeira vez. Segundo a denúncia, Susan já tinha cantado para os produtores e todos, inclusive os jurados, já sabiam que ela ia arrasar."

Falaram também que os produtores do programa estão sendo acusados de perder o interesse em Susan Boyle: a razão seria o fato de que ela tem um repertório minúsculo. Com isso, estaria explicado o motivo da repetição da música no dia da grande final. Acusações não faltam: especialistas afirmam que o programa é desnecessariamente cruel com os candidatos (o que de fato, é) e que os produtores já sabiam dos problemas de Susan mas não providenciaram acompanhamento psicológico.

E no meio de tantas acusações, a venda de tablóides. Esqueceram-se da própria cantora, fazendo a brusca inversão de papéis: de figura "vitoriosa" e "persistente" para coitadinha e vítima.

Os "cinco minutos de glória"

A mesma mídia que a construiu agora parece fazer questão de destruí-la. Parece ter prazer em fazer isso, em inverter a situação, em mostrar o seu poder como se dissesse: "Está vendo? Olha o que eu posso fazer? Você pode ser o próximo! Curve-se a nós!"

E o que fazemos? Aceitamos, quase sem contestação. Mas por qual motivo?

Medo?

Não. É que os mesmos que temem são aqueles que amam ver o circo pegar fogo. Aqueles que amam ver ascensão e queda, destroços e restos. Uma sociedade que se alimenta de escândalos e tem prazer em ver pessoas na arena, sendo jogadas aos leões.

Somos hipócritas. Manipulados e manipuladores. É isso o que somos. Sustentamos esse comportamento e também somos sustentados por ele. Não há mais pessoas: somente mercadorias em potencial. Seja quem for.

A fama tem seu preço. E um preço alto demais. Ainda assim, há aqueles que continuam na mesma corrida louca, fazendo de tudo para ter os "cinco minutos de glória", torcendo para que sejam piedosos quando chegar a sua vez.

E mal sabem que não há misericórdia.

Comentários (3)
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Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 11/6/2009 às 21:14:07
"Não existe misericórida". Claro que existe. Num mundo virtual, existe misericórdia virtual. O desterro virtual, o exílio virtual, a eutanásia do talento - o esquecimento, o olvido, a deleção. Isso sim, bem real.
Julio Prático Souza , São Paulo-SP - Analista de Sistemas
Enviado em 9/6/2009 às 18:38:47
Gostaria de questionar apenas uma coisa: Por que essa tal de Susan Boyle chegou até a mim? Quantas pessoas com igual talento não estão perdidas nos bares e noites de São Paulo e ninguém se interessa por elas? A coisa chega a ser sádica, por que o talento hoje em dia não desperta interesse em ninguém, mas quando esse talento vem enlatado pelo programa "Ídolos" inglês, aí vira assunto. Quem por acaso, seja letrado ou iletrado, altera sua rotina diária para prestar a atenção em um grande artista? Poucos. Será que a Badi Assad cantando no YouTube teria tantos milhões de hits (acessos) quanto a Susan? Não, é claro que não... Isso explica o porquê dos cinco minutos de glória:- a maioria fútil só que o fato curioso para alimentar sua fantasia, nada além disso. Acredito que o frenesi em torno dessa cantora nada mais é do que um JABAZÃO nos empurrado guela abaixo. O Marketing mundial lucrou, nós e Susan Boyle perdemos.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 9/6/2009 às 18:25:40
“Laranja madura em beira de estrada, ou tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”. Não era muito estranho que uma pessoa com a voz da candidata nunca houvesse sido descoberta? Tinha que haver algo mais além do seu diminuto repertório. A isto acabou vindo a público com o decorrer da visibilidade que a cantora procurou. Claro que a reação dos jurados patrões foi armada. Faz parte do show. Mas mesmo assim, para uma cantora ter sucesso e ter uma carreira, deve ser capaz conduzir sua própria vida. Não pode ser um macaco de realejo. Não é apenas uma questão de beleza física, existem muitos artistas que não possuem este atributo e vencem. O futuro dirá. Tomara que ela seja uma exceção.
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