ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 541 - 9/6/2009
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TV DE FIM DE SEMANA
Os "embrulhos"de sábado à tarde

Por Erick da Silva Cerqueira em 9/6/2009

"Final de jogo aqui em Montevidéu. Brasil 4, Uruguai 0." Assim se encerrava, de forma tradicional, a transmissão de Galvão Bueno para a Rede Globo de Televisão. Ai começou a minha angústia. Como viver à frente da TV aberta em um final de sábado à tarde?

Tive de pensar rápido. A qualquer momento começaria a novela das 6, algo tão abominável que o cantor Daniel é um dos atores principais. Não aguentaria assistir a essa mistura de Pantanal com O Rei do Gado. Comecei a me desesperar. Empunhei com toda gana e disposição o meu controle remoto, a maior invenção da humanidade, e comecei a mudar os canais.

Canal 9, Rede TV. Programa Escola de Profetas. Não tenho muito vocação...

Canal 7, Band. Raul Gil e seu show de calouros. Talvez quinze anos atrás, mas não hoje.

Canal 5, Record. O melhor do Brasil. Uma das piores coisas já apresentadas na TV aberta brasileira. Algo tão ruim que poderia ser considerado uma cópia muito piorada do Video game da Angélica (sic). Talvez o título do programa seja uma ironia.

Canal 4, SBT. Seriado enlatado. Pelo menos não era humorístico mexicano do Programa do Chaves.

"Público", como algo sem dono

Canal 2, TVE Bahia. De repente, o mundo da mediocridade da TV aberta deu lugar a um importante hiato. Um programa onde o antropólogo Roberto DaMatta discorre, livremente, quase sem cenários, sobre a formação cultural do povo brasileiro. Era simples, um pano de fundo que parecia um tapete com matizes africanas. Ele, do lado esquerdo do vídeo, e sua imagem sendo cortada de tempos em tempos por vídeos antigos e imagens mostrando manifestações típicas do nosso povo.

DaMatta discursou sobre alguns dos nossos problemas cotidianos, argumentando sobre a possibilidade de muitos deles serem frutos da nossa má formação cultural. Falou sobre a famosa frase que, segundo ele, representa bem o povo brasileiro, o famoso "você sabe com quem está falando?" A constituição da nossa personalidade foi explanada de forma brilhante e simples, como em seus livros. Falou do nosso erro ao tentar fazer da escola uma extensão da nossa casa, ao chamar a professora de "tia", deixando de lado o respeitoso tratamento, antes obrigatório, mas hoje, arcaico, "senhora". A falta de respeito com os outros. A falta de consciência do nosso povo ao entender "público" como sendo algo sem dono, e não como bem comum a todos, dentre outras coisas.

O que está acontecendo com o espectador?

Mas o que isso tem a ver com a mídia? Tudo.

As TVs abertas exploram a ignorância, a falta de cultura e o desprezo da maioria da população pelas artes, leituras e as ciências sociais de forma tão gritante que, quando deparei com um grande autor discursando sobre suas obras e estudos, fiquei maravilhado. Algo, na minha concepção, de extrema importância para o entendimento da nossa sociedade é renegado como sendo "somente um programa para os velhos", como cansei de ouvir. Por isso, no auge da minha velhice de três décadas de vida, agradeço a Deus por ainda conseguir enxergar esse contraste como um absurdo.

Façamos algumas perguntas a nós, e por nós mesmos: por que devemos nos contentar em ver a fictícia vida dos personagens das novelas, quando podemos aprender sobre a nossa realidade e buscar melhorar a nossa sociedade? Para que perder tempo com a vida alheia nos reality shows, nessa democratização nacional da fofoca, se podemos aprender mais sobre a nossa cultura? Como entender a audiência astronômica de programas que exploram as mazelas e desgraças do ser humano, com seus apresentadores demagogos e vendidos? E o pior, como entender os baixos pontos do Ibope alcançados pelos poucos programas de conteúdo útil e realmente interessante da nossa TV aberta?

Meu Deus, com que finalidade se assiste ao E24 da Band, onde acidentes e atendimentos a doentes terminais tornam-se espetáculos ante uma câmera nervosa, imagens difusas e gritos de dor?

O que está acontecendo com essa raça da humanidade denominada de espectador?

Talvez fosse necessário mais alguns programas com o nosso antropólogo Roberto DaMatta para responder essas perguntas. Mas acredito que ninguém irá perder um final de semana para pensar em coisas sérias e com o intuito de melhorar nossas vidas. Afinal, o Zorra Total vem aí e domingo tem Faustão, Silvio Santos, Gugu...

Comentários (8)
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Milena Dominicci , Belo Hte-MG - Psicóloga
Enviado em 9/7/2009 às 15:35:44
Meu caro, que felicidade ler textos assim. Muitas vezes, ao ligar a TV num sábado à tarde, procurando algo que pudesse me entreter (sem me "emburrecer"), me senti um E.T. Fiquei imaginando que todas as outras pessoas nesse país tinham coisas melhores a fazer, afinal, na TV só tinha porcaria. E pensei: será que eu não estou sendo muito chata? Será que não tô tentando dar uma de "cult"? Depois de muito racionar (zapeando os canais) concluí que não. Concluí que é a TV que é um lixo mesmo e se eu quisesse fazer algo de bom não seria ali sentada no sofá com o controle remoto na mão. Triste realidade, que eu dou Graças a Deus de ainda poder enxergar. Me sinto com 60 anos, embora a minha certidão de nascimento acusa quase 1/4 de século vivido. E pergunto-me o que terá acontecido com os valores morais? Uma sociedade que precisa de uma supernanny para ensinar os pais a serem pais com certeza precisa de ajuda. Mas felizmente ainda existe uma supernanny para ensinar a fazer isso, senão aí é que a coisa realmente estaria muito feia. E eu nem vou entrar em questões mais polêmicas como estilos musicais vigentes, política ou a decadência das relações humanas. A solução de tudo isso está exatamente onde tudo isso começou: no ser humano. Ou muda, ou irá falir de vez. Muito bom o seu texto, parabéns!
Paulo Cesar Lima Bastos , Cambará-PR - Advogado
Enviado em 14/6/2009 às 12:07:45
Como diria João Ubaldo Ribeiro: "Viva o povo brasileiro". Uma coisa é idiscutível: se há programas com baixo nível cultural em nossas TVs é porque há demanda. E se há demanda é porque o baixo nível é do telespectador. De povo colonizado e catequisado, como o brasileiro, forjado a ferro e fogo para obedecer e concordar, durante séculos, não se pode esperar conduta diversa. Que as novas gerações, se puderem, se livrem dos grilhões do catolicismo, de outras religiões comerciais, e dos demais manipuladores do pensamento coletivo e rompam com o sistema, quae sera tamen. Enquanto isso, "Viva o povo brasileiro". Fasutão, Liberato, Bial, Huck e esposa, Raul Gil, Hebe, etc. agradecem o milionário cachê. Enquanto isso, Riberto Da Matta falará, apenas, para a mata. E a mata somos nós poucos. Infelizmente!
Aramis Delfino , Porto Alegre-RS - Analista de crédito
Enviado em 14/6/2009 às 08:49:06
É triste mas é verdade. A programação da TV aberta é um lixo, com exceção da Cultura que, acredito eu, respeita o telespectador com programas de qualidade. Os realities show são o fundo do poço. Me admiro pessoas esclarecidas como o Luciano Huck, a Eliana fazerem aquelas porcarias de programa. É aí que vocês veem que cada "pessoa tem o seu preço". A qualidade de seus programas não importa uma vez que seus salários estão sendo muito bem pagos
dante caleffi , rio de janeiro-RJ - publicitário
Enviado em 13/6/2009 às 12:03:04
TV à cabo não é muito diferente da aberta, ainda por cima, é um esbulho.Que pregava como revolucionária, sem publicidades,podendo escolher programas e filmes, etc. Tornou-se um oligopólio. E as produções independentes?Foram boicotadas pelas "domésticas".Talvez a TV Brasil,que ainda engatinha,possa produzir o tão esperado salto qualitativo da" telinha". Roberto da Mata, um sub-Darcy Ribeiro de direita,nesse deserto , é uma cacimba.
Carlos André , Salvador-BA - Teólogo
Enviado em 12/6/2009 às 20:29:06
Antes de qualquer coisa, parabéns pelo seu comentário altamente apropriado! É simplesmente indigestiva a tv aberta no Brasil. Para mim, o povo, a despeito de sua parcela de culpa, é muito mais refém do que qualquer outra coisa, por falta de opção. A tv fechada ainda é cara, mas quando se tem acesso acaba-se esquecendo a tv aberta. Isso prova que basta oferecer algo melhor e o povo sabe valorizar. Abrs...
irene machado , porto alegre-RS - func. pública
Enviado em 12/6/2009 às 16:33:01
O conteúdo da televisão aberta brasileira durante toda a semana é sofrível mas aos finais de semana isso se agiganta. Tenho evitado de ligar a TV, no início parece impossível, é como uma crise de abstinência, com o decorrer do tempo a necessidade vai passando e cede lugar a uma maravilhosa sensação de vitória e independência. Aconselho a todos afinal nada é mais corajoso do que "pensar com a própria cabeça" e ser o protagonista da sua própria história.
Rodrigo Parente , Fortaleza-CE - Servidor Público
Enviado em 10/6/2009 às 13:19:02
Um grande problema para a ausência de programas educativos em TVs abertas é a falta de retorno financeiro de tais empreitadas. O grande público de TV aberta é aquele que teve uma educação deficiente e que, após uma desgastante dia de trabalho, só quer assistir a um pouco de televisão para relaxar, sem que tenha que empreender maior esforço para entender o que está passando. Assim, não há retorno (financeiramente falando) em apresentar entrevistas com sociólogos e antropólogos ou mesas redondas debatendo cultura e política. A limitação de opções de canais gera essa busca desenfreada pela atenção dessa grande massa que busca um momento de desconcentração. O refúgio para programas culturais acaba sendo as TVs por assinatura. A luta por uma Tv de qualidade tem que passar por uma árdua batalha pela educação.
Emanuelle  Lara , ----SP - jornalista
Enviado em 9/6/2009 às 12:52:41
Meu amigo, você ainda é um privilegiado. Há municípios nesse Brasil que só contam com um ou dois canais. Quem não tem condições de ter antena parabólica ou TV a cabo fica realmente restrito ao lixo, especialmente ao de fim de semana.
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