ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 543 - 9/2/2010
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DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Curso parado no ar

Por Míriam Leitão em 23/6/2009

Reproduzido do jornal O Globo, 20/06/09

O que acabou foi a reserva de mercado. Não acabou a necessidade de qualificação, de aprendizado, de domínio da técnica, de acumulação do conhecimento para ser jornalista. A profissão não é trivial. O fim da obrigatoriedade do diploma deixou alguns colegas perplexos, confirmou a convicção de outros, mas ficou mal entendida a questão da formação do jornalista.

Eu amava o curso de História. Ele foi interrompido pela prisão. Quando pude voltar à universidade, já trabalhava em jornal há três anos. Fiz comunicação por obrigação, para ter o diploma, e detestei o curso. Aprendia jornalismo nas redações. Achava meus professores distantes da realidade e aquele ritmo da faculdade lento para a dinâmica nervosa da redação. Já Alvaro Gribel, que trabalha aqui na coluna, saiu do seu curso de comunicação com melhor impressão.

Esta semana, nas primeiras horas após a decisão do Supremo, recebi e-mails e telefonemas desconsolados. Uma antiga colega me pergunta o que deve escrever nos cadastros em que se questiona o nível educacional: "Superior inválido?" Jovens jornalistas acham que foram enganados, que poderiam ter feito outros cursos. Estudantes não sabem se continuam. Vestibulandos estão ainda mais confusos.

Calma gente. Nada mudou na verdade, apenas acabou a reserva de mercado que estabelecia barreiras inaceitáveis a pessoas com competência, conhecimento específico, especialização. As empresas insistiam, mas havia constrangimentos legais para ex-jogadores de futebol atuarem como comentaristas esportivos, ou médicos, advogados e economistas que ajudam no jornalismo de precisão.

Nas minhas décadas de redação conheci brilhantes jornalistas que fizeram e que não fizeram o curso; e incompetentes também dos dois grupos. É conhecido o caso de que os dois jornalistas do Watergate não tinham curso. Fora do jornalismo, também há casos eloquentes de pessoas que abandonaram os cursos que faziam e tiveram enorme sucesso: Bill Gates e Steve Jobs, por exemplo. Não se pode concluir daí que estudar é irrelevante porque o talento pessoal resolve tudo. Por isso, acho que essa divisão entre a torcida a favor do diploma e a torcida contra deixa algo parado no ar: como formar jornalistas?

Os ministros do STF expressaram uma visão desatualizada do jornalismo. Ele não é só literatura e arte. A definição romântica fazia mais sentido em outros tempos. Apesar de termos no nosso jargão a expressão "cozinha do jornal", o paralelo com a culinária é impreciso.

Não é também uma daquelas técnicas banais que se aprende num manual de sete lições. Existem vários jornalismos, é difícil definir como ele é exercido atualmente nas várias mídias, nas ferramentas mutantes, nas regras que permanecem, no toque pessoal e intransferível, na rapidez irrecorrível, na tradução do complexo, no talento indispensável.

O medo de que "qualquer um" possa ocupar os postos é mais corporativista do que real. Não se pode improvisar uma redação com a complexidade de um produto que, em jornal impresso, de manhã não tem nada, de noite tem que estar pronto; na televisão, exige que o repórter grave a reportagem enquanto apura, e que editores em ilhas sincronizem imagens e áudios numa corrida contra o relógio; no online, o produto é instantâneo.

A tecnologia criou novas possibilidades para os "não" jornalistas. O citizen journalism e o i report, em que pessoas registram e postam o que só eles viram, enriquecem o jornalismo. A mídia social só ameaça as tiranias — como se vê no Irã — porque testemunha o que os jornalistas não puderam ver.

Os cursos sempre foram imperfeitos e incompletos. Mesmo assim, os estudantes tem lá uma iniciação que será útil quando eles entrarem de fato no cotidiano de uma redação. Os jornais e emissoras de TV e rádio hoje montam verdadeiros cursos para os estagiários, mas partem de uma base que foi dada pela universidade.

O fim da obrigatoriedade do diploma abre o debate interessante sobre a melhor formação do jornalista. No jornalismo econômico, ele tem que entender economia mas não pode virar um protoeconomista, prisioneiro dos preciosismos e jargões que só fazem sentido para o gueto. Economistas, sociólogos, advogados, cientistas precisam capturar a forma de transmitir o conhecimento deles de forma clara. E agora mais do que nunca é necessário o profissional que fique nas fronteiras do conhecimento e editorias, que fale de economia sabendo das mudanças climáticas; de política, entendendo as restrições fiscais, de cultura vendo as nuances sociais.

Acabou a obrigatoriedade do diploma, não acabou a necessidade de formação do jornalista. Os cursos de graduação e pós-graduação continuam a existir nos Estados Unidos mesmo sem haver a obrigatoriedade. Alguns com prestígio mundial, como os da Columbia. Na Alemanha, as emissoras de televisão selecionam profissionais de varias áreas e os treinam em cursos internos.

O importante é que do jornalista será exigido tanto formação, quanto talento; tanto técnica, quanto inovação. Parte disso será obtido em cursos de formação, parte será nas redações. Quem entender que a hora é de estudar menos, ficará para trás.

Comentários (4)
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Arturo Fatturi , Tubarão-SC - Professor Universitário
Enviado em 26/6/2009 às 10:18:47
Sra. Míriam, dados seus argumentos contra a "desregulamentação" da profissão de jornalista, dada sua crença na "mão invisível" da regulação do mercado, a conclusão que se pode chegar é que a ingenuidade campeia em seu raciocínio. Seria pior pensar que a Sra.não é ingênua.... A história da sociedade através dos séculos - devem ter ficado algumas lembranças em sua mente histórica - mostra que patrôes nunca foram "concienciosos" e "éticos". É incrível ler argumentos como os seus, vindos de uma pessoa que lida com informação. A Sra. certamente iria às ruas no Irâ protestar contra a eleição baseada em "eu sou livre para me manifestar"? Pelo seu raciocínio, iria. A sanha das pessoas que odeiam jornalistas diplomados atinge as raias da loucura: passar por ingênua, oferecer argumetnos falaciosos, tratar "profissão" como "fabricação de bens". A Sra. e o Sr. Dimenstein já deveriam ter sido informados que papai noel" é uma figura popular da imaginação, que "saci-pererê" é lenda (ou mito), não existe "fogo-fátuo". Não se ofenda, dados seus argumentos aí acima, sou obrigado a lhe informar. A "mão invisível" de Adam Smith era uma metáfora, não empurra o patrão a fazer algo contra seus lucros. Desculpe lhe dar este choque de realidade.
Maurício . , Santos-SP - Industriário
Enviado em 26/6/2009 às 09:31:58
Cara ML.!.Não sou jornalista mas devido a polêmica intalada atualmente em torno da regulamentação já me sinto um de vcs. Sendo assim gostaria de um esclarecimento de vossa parte para que minha reportagem tenha fundamento:-no seu texto vc se refere ao interropmpimento do seu seu curso de História devido "a prisão".Vc foi presa?Em que circuinstânscias?Estava lutando por alguma causa ou praticando algum crime contra a sociedade?Outra observação importante que acho que deve ser comentado no seu texto é a respeito de sua referência ao Irã com sendo uma "tirania".Em que aspectos técnicos vc se fundamentou para criticar uma nação que nada tem a ver com o desenvolvimento da normatização da profissão jornalística num outra nação ocidental.Ou seja, vc misturou alhos com bugalhos.Mas isso não mespanta.Li sua reportagem por curiosidade-"o que terá a ML a nos falar de bom?"....como esperado nada.Citar o Irã num assunto destes é manter-se fiel ao PIG até mesmo na hora da cama....aquele momento íntimo onde vcs, funcionários do PIG devem até falar o "Oh yes" como bem mandava o Tio San.Lamentável ponto de vista.O PIG continua o mesmo.Com diploma ou sem diploma.E na próxima encarnação pense duas veses antes de frequentar mal uma escola doutrinaria.Afinal de contas, fora da escola se aprende um monte de bobagens.
Lúcia Nunes , Tubarão-SC - Jornalista Reg.Prof. MTb/RS 7142
Enviado em 25/6/2009 às 19:09:17
Não, minha cara colega jornalista Míriam Leitão. Os dois jornalistas de Watergate eram jornalistas do naipe de Alberto Dines. Ou seja, bagagem cultural de peso. Isto não quer dizer que os jornalistas de hoje necessariamente, ao se diplomarem terão a mesma bagagem daqueles... Hoje há de vários tipos. Nada de comparações com o Jornalismo dos EUA, já que eles não juram um Código de Ética como nós, mas empresas e jornalistas tem sempre em mente as cinco emendas da Constituição norte-americana. Se descumprem, perdem credibilidade, o que significa cair em desgraça. É mole? Outro aspecto: para competirem buscam, e rápido, formação em Comunicação (e, em seguida, Mestrado), logo após o "college". Se assim não for, com sorte, serão mantidos na seção "Carta do Leitor". Afinal alguém tem que fazer, não? Tem mais: os jornais montam equipes de estagiários? Taí a resposta porque a ANJ diz que admitir não jornalistas "é uma prática"; o mesmo se dá, nos "jornalões" (parafraseando o Dines). Ou seja, burlam a lei que, até 17 de junho era constitucional. Aliás, confirmada como tal pelo ministro do STF Marco Aurélio de Mello. Agora, deslumbrados(as) bem pagos(as) vem com tecnologias digitais, que, em aulas rápidas podem ser "dominadas" pelos anti-corporativistas" - diplomados arrependidos ou de outras áreas... Quanto aos estagiários, não desfaçam de seus cursos. Fazemos parte da história do País.
Hans Misfeldt , São Paulo-SP - Estudante de jornalismo
Enviado em 23/6/2009 às 21:55:45
Mirian, maravilhoso seu artigo. Concordo plenamente que aquele que pensar que, como o diploma não é obrigatório, já poderá sair por aí como jornalista se engana. É preciso técnica e conhecimento sim e na prática os grandes veículos vão continuar exigindo tanto profissionais formados quanto os especializados. Um forte abraço e com certeza continuarei na luta pelo meu diploma, mais valioso do que nunca.
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